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	<title>Página 22 &#187; tempo</title>
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	<description>Informações para o novo século</description>
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		<title>My name is Now</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Sep 2011 16:45:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Elza Soares compartilha com Página22 suas percepções sobre a vida e o envelhecer, seu humor e alguns de seus planos.
Ao se fazer uma pesquisa sobre Elza Soares no Google, o buscador sugere o nome da cantora associado às palavras “idade” [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Elza Soares compartilha com Página22 suas percepções sobre a vida e o envelhecer, seu humor e alguns de seus planos.</em></p>
<div id="attachment_14097" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-14097" title="elza_300" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2011/09/elza_300.jpg" alt="Elza Soares nasceu em 1937 em uma favela do Rio de Janeiro e foi casada com Garrincha. Tornou-se popular com suas interpretações para samba e aventurou-se pelo rock, bossa, música eletrônica e funk. Em 2000, foi eleita Cantora do Milênio pela BBC de Londres" width="300" height="388" /><p class="wp-caption-text">Elza Soares nasceu em 1937 em uma favela do Rio de Janeiro e foi casada com Garrincha. Tornou-se popular com suas interpretações para samba e aventurou-se pelo rock, bossa, música eletrônica e funk. Em 2000, foi eleita Cantora do Milênio pela BBC de Londres</p></div>
<p>Ao se fazer uma pesquisa sobre Elza Soares no Google, o buscador sugere o nome da cantora associado às palavras “idade” ou “namorado”.  O interesse das pessoas está mais associado à vida da artista que à sua obra.  Elza garante que é inveja.</p>
<p>E, assim como um gatilho, rápida e aparentemente incerta de consequências, vai respondendo às perguntas de entrevista, interlocutores, fãs e de quem mais se aproximar.  Da mesma forma, completa para a repórter de pouca intimidade com tecnologia que buscava “onde mora” o microfone do gravador digital: “Mora num país tropical, meu bem”.</p>
<p>Elza é naturalmente desbocada para a poesia, para a intuição e o prazer.  Aparenta mais jovialidade ao vivo e em cores e encara a personagem que for preciso para viver seu lema “<em>My Name Is Now</em>”, que ela adora repetir.  Nesta entrevista a <strong>Página22</strong>, concedida antes de um show em parceria com o grupo Farofa Carioca, no Inverno Cultural de São João del-Rei, Minas Gerais, a cantora compartilha suas percepções sobre a vida e o envelhecer, seu humor e alguns de seus planos.</p>
<p><strong>Tratamos do envelhecimento nesta edição da revista, pois, em sustentabilidade, falamos muito do novo, do jovem, e acabamos esquecendo que todos estamos envelhecendo e que o novo, no mais tardar, será velho.  Como você encara o envelhecer?  Você recentemente passou por uma cirurgia, ficou afastada do palco.  Quais suas reflexões sobre a idade e o tempo?</strong></p>
<p><strong> </strong>Eu não paro pra pensar nessa coisa.  Se eu parar para pensar, eu envelheço.  Se eu ficar parada no tempo pensando como será o amanhã, vou ficar muito ontem.  E do ontem não tenho saudade, tenho saudade do amanhã que não conheço.  Envelhecer está na cabeça de cada um, você pode ter idade e não envelhecer.  A gente sabe que o tempo passa.  Feliz daquele que viu o tempo passar, porque tem gente que não vê.  Quando você acompanha o tempo, você está aí, não quer saber se está passando.  Está vivendo.  Quando se tem uma espiritualidade, um espírito jovem, você é eterno jovem e sua matéria também vai permanecer jovem.</p>
<p>Uma coisa a ser desenvolvida no computador natural que nos foi dado – a cabeça – é usar a cabeça.  Eu gravo mais de 200 músicas na cabeça.  Assim, meu computador não envelhece.  Eu vejo envelhecimento na classe mais pobre, mais desprotegida, essa envelhece.  Nós, seres humanos, somos egoístas demais e veja o que falta pra essa gente: cultura, educação, saúde, falta tudo.  Então, veja de onde eu vim – dessa classe mais pobre – e o que eu busquei.  Eu quero o melhor pra mim, viver no bom, vou buscar, vou correr, vou trabalhar para conseguir um envelhecimento – se é que eu vou envelhecer – bem digno.  Veja bem: se é que eu vou envelhecer.</p>
<p><strong>Inovação é outra palavra de ordem da sustentabilidade.  O consultor Luís Eduardo de Carvalho cunhou o termo “<a href="http://pagina22.com.br/index.php/2011/09/o-futuro-no-preterito/" target="_blank">envelhação</a>”, ou seja, coisas que já se faziam há anos, mas que as pessoas dizem ser inovação.  Você deve perceber isso no seu trabalho, estou certa?</strong></p>
<p>Tudo.  Tudo que eu vejo hoje já vi antes.  Não tem novidade pra mim. A única novidade que tem é o computador, essa coisa que saiu aí.  Acho que isso já se usava, mas não era tão presente.  Tudo eu já vi. O Chacrinha tinha aquela frase: “Nada se cria, tudo se copia”.  O que estamos vendo hoje nossos avós e antepassados já viram.  A gente chegou e o mundo estava pronto, ninguém criou nada, o mar, a selva, tudo já estava aí, ninguém criou nada.</p>
<p><strong>Para continuar se inspirando e tendo esse vigor, já que não há nada de novo, o que te movimenta, te alimenta?</strong></p>
<p>Eu sempre digo: “My name is now”.  Eu sou o agora.  O passado já conheço tanto que eu quero ser o agora.  E esse agora vai ser passado.  Mas vai ter muita gente no “Now”.  Então eu sou o agora.  Vou cantar, com fé.  O corpo mais bonito, mais tratado, mais transado, mais respeitado.  É isso que eu quero, felicidade pra todo mundo, paz.  Seria tão melhor se, em vez de inventar tanto, querer tanto o novo, por que não querer um mundo de mais paz e prazer?  De mais liberdade?  Você vê ainda hoje tanta gente que tem preconceitos absurdos, contra gays, negros, ainda existem coisas que vêm de Cleópatra.  Olha isso aí, é velho pra cacete (<em>passa na rua um batuque de tambor</em>).  Isso é Folia de Reis, já faziam isso, e a vida continua, a história continua.</p>
<p><strong>Você está na estrada da música há tempos e se mantém contemporânea.  Alia-se a grupos como o Farofa Carioca, conquista os jovens, faz novas versões de canções consagradas, sem medo.  Você procura esse componente do novo/jovem intencionalmente ou é instintivo?  Uma vontade de se reinventar sempre?  Como se faz essa ponte entre experiência e o que virá?</strong></p>
<p>Você não pode ficar parada no tempo, senão não vê o que está dos seus lados, fica alienada.  É preciso ver todas as vertentes, senão você não sabe nada da vida.  Eu não penso, não planejo muito, sou uma abençoada, as coisas chegam.  Eu sempre tive um público muito variado, juventude, adolescente, crianças.  Eu boto uma criança no colo de 2, 3 meses, a criança fica me namorando.  Eu consigo hipnotizar uma criança pelo bem.  Isso me acontece muito.</p>
<p>Sou casada com um jovem.  Um homem mais velho talvez não fosse me aguentar.  Sou casada com um homem bem mais jovem que eu, mas talvez mais velho na cabeça, na forma de pensar.  Eu vejo que as pessoas que eu tenho ao meu lado são jovens – como o Murilo, meu assistente, que mora comigo e tem 28 anos.  Eu vejo a vida como busca.  Tem um mês que operei a cervical, estou no palco, mas estou planejando estudar música.  Vou fazer um curso, vou me formar música na universidade.  Eu sei cantar, mas eu quero me formar.</p>
<p>Também estou fazendo um trabalho com a Letícia Sabatella, duas mulheres, dose dupla, sobre música, conversas, papos interessantes de mulheres, coisas que podemos levar para outras pessoas.  Tem gente que não entende que é preciso falar, abrir a boca.  Tem gente que fala, mas não abre a boca.  A boca precisa ser aberta para que a gente entenda o que está falando.  A ideia é falar, mas também contestar um pouco pra poder explicar.  Só se explica quando se está contestando.  Vai ter música e um texto agradável, aberto, inteligente; vamos falar de sexo, amor, vida, dor, falar de tudo o que é importante, entendeu?  Sexo era uma coisa tão escondida até pouco tempo&#8230; Seu corpo precisa de arroz e feijão, de outras coisas, de caviar, de sexo.  Escargot, angu, feijão, farinha, amor.  A vida é isso, precisa disso tudo.  Já que precisa, por que não alimentá-la?</p>
<p><strong>Um espetáculo baseado na sua vida, <em>Se Acaso Você Chegasse</em> estreou em agosto na Bahia e o documentário <em>Elza</em>, sobre sua carreira, circulou pelos cinemas brasileiros fazendo bastante sucesso.  Duas perguntas: sua vida desperta tanta curiosidade por quê?  A outra: viver é interpretar muitos personagens?  (<em>quatro atrizes vivem Elza no teatro e suas muitas vidas: menina de favela, mãe e viúva precoce, cantora que cavou à unha seu espaço na MPB</em>)<br />
</strong><br />
Eu tenho tanta coisa boa pra dar, talvez assuste.  Com essa minha vitalidade, jovialidade que Deus me deu, eu assusto os velhos.  Querem roubar isso de mim, mas eu não posso dar, não me peçam.  Eu acredito em Deus, sem ele nada faço.  Sou espírita praticante.</p>
<p>Eu acho que somos muitos personagens.  Há uma curiosidade: meu Deus que mulher é essa?  Corpo perfeito, voz perfeita, faz a porra de uma operação e com um mês já está no palco?  O que é isso?  Isso é dádiva.  Cada um de nós vem de um conta-gotas.  Dependendo do frasco, sai mais forte, sai uma Elza.</p>
<p>Lógico que penso nos meus papéis ao longo da vida, não sou uma só.  Cada uma tem seu papel, sua responsabilidade.  Eu vejo que sou capaz de corresponder a tudo isso.  E digo uma coisa pras pessoas: não se sufoquem antes de o tempo chegar, mas se prepare que o tempo vai chegar.  Olha, eu sou contra bebida, contra o fumo, contra drogas.  Agora acabamos de perder Amy Winehouse e outras estão se acabando por aí.  Não digo que eu seja santa, você deve saber da existência de tudo, mas nada pode ser mais forte que você.  Como você vai ser tão fraco que o vício seja mais forte que você?  É impossível você não se amar.  Eu amo o presente que é a vida.</p>
<p><strong>Como é seu cotidiano?  Como você se cuida, qual sua diversão favorita, o que você gosta de fazer quando não está cantando?<br />
</strong><br />
Desculpa a expressão que vou dizer, mas eu me “emputeço”, me aborreço, brigo muito porque não sou nenhuma santinha, senão estaria num altar.  Sou pecadora, uma mulher normal, mas que sabe da responsabilidade de um corpo, que sabe o quanto é importante uma só vida que você tem.  Temos direito a uma vida.  Se não cuidar bem, ela vai embora.  Temos que pensar nisso.</p>
<p>Eu moro no Rio de Janeiro, em Copacabana, com meu marido.  Eu gosto de ouvir música, ouço música 24 horas, gosto de jazz, sou louca, fanática pelo Chet Baker, ouço muito Nina Simone, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e outras boas cantoras.  Eu ouço jazz a ponto de o Bruno (<em>marido</em>) dizer: “Agora chega, vamos ver um bom filme também!”</p>
<p>Gosto de caviar, amo.  Champanhe tomo muito pouco, mas gosto.  Um bom vinho, um bom champanhe qualquer um gosta, meu bem.</p>
<p><strong>Você se preserva um pouco da vida de celebridade, do universo da fama instantânea.  É verdade?</strong></p>
<p>Quando eu recebi o prêmio de Cantora do Milênio pela BBC de Londres – perdão gente, mas eu ganhei –, fiquei muito surpresa, porque não sou muito de televisão, de dar as caras e bocas, me preservo mais, gosto mais desse mundo que vivo.  Hoje eu conheço muito boteco, porque o Bruno ama boteco, que é coisa mais de mineiro.  Eu não gosto tanto, mas eu vou com ele.  Eu não gosto de cerveja, aquele barulhinho da garrafa abrindo, menina, me dá uma agonia, não gosto.  Agora, eu faria qualquer propaganda de cerveja se me chamassem.  Pagando bem, que mal tem?  Até provaria.  Seria aquela Devassa, a verdadeira Devassa.</p>
<p><strong>A discussão do erudito e o popular está muito presente na sua carreira.  Você canta samba, fala da sua origem popular e expõe isso sem pudor, ao mesmo tempo que faz uma improvisação sofisticada e mistura outros ritmos, fazendo novas versões com o seu timbre bem particular.<br />
</strong><br />
Se ficar parada num só lugar, você não cresce.  Você tem que ser ousada: pega o samba e mete um jazz, mistura rock, mistura funk e traz um pouco de saudosismo.  A música ficará tão enriquecida, com tudo o que já existia e outros elementos, que fica bom de se ouvir.</p>
<p>Quando viajo para o exterior, gosto de levar o samba, que é minha característica.  No princípio, as pessoas ficavam horrorizadas: “Olha como ela destrói o samba, o Chico (<em>Buarque</em>) vai lá, constrói, e a Elza destrói”.  Pois é minha vida.  O Chico constrói e eu destruo tudo o que ele faz.  Acho maravilhoso destruir (<em>risos</em>).  Desconstruir é uma coisa boa, desconstruir uma coisa do Chico, então, é preciso ter muita coragem, é preciso ter saco, sacão até no pé.</p>
<p>Ele me compreende também, temos diálogo às vezes.  Eu o encontro muito na França.  Estou atravessando uma rua e encontro com ele.  “Oi Chico, por que não no Rio?” E ele diz: “É verdade, olha que surpresa!” Nós nos abraçamos e beijamos e nos despedimos.  A gente gravou aquele <em>Let’s Do It</em>, o Façamos, quando fui gravar o <em>Do Cóccix ao Pescoço</em> (<em>disco lançado em 2002</em>).  Mandei um recado pra ele: “Você tem uma música para mim?” Ele tinha feito <em>Dura na Queda</em> e mandou pra que eu gravasse.  Foi um presente.  O Caetano me deu <em>Dor de Cotovelo</em>, aquela música linda, sofrida, derramada.</p>
<p>Eu sou muito ciumenta, mas eu tenho ciúme careta, da sacanagem, não gosto de certas coisas.  Eu me preparei para uma vida mais calma, mais digna, mais bonita, pra eu saber degustar.  Cada momento eu degusto uma coisa boa, não misturo algumas coisas.  Nunca vi feijão misturado com champanhe, então&#8230; Feijoada é feijoada, champanhe é champanhe.  Não misture para que a cabeça não danifique.</p>
<p><strong>Para fugir das armadilhas da vida, o que vale?</strong></p>
<p>Em qualquer meio, em qualquer lugar, o que vale é a sabedoria.  Ontem eu viajei com uma mulher ao meu lado que dizia estar viajando há muito tempo e não sabia do festival de São João del-Rei.  Perguntei quanto tempo ela estava fora do Brasil.  Ela disse: “Vinte e seis dias”.  E eu: “Você viajou 26 dias e já não sabe o que acontece na sua terra?” Então, disse pra ela que eu morei na Itália, na França, em Nova  York e nunca me esqueci da minha terra, nunca esqueci que existia um carnaval no Rio de Janeiro.</p>
<p>Então ela me perguntou se eu ia dançar funk no festival.  Eu disse que eu até era popozuda, mas que não ia dançar funk.  E perguntei: “Você conhece a bandeira do Brasil, sabe as cores ?” Ela disse: “Sei, verde, amarelo, azul e branco”.  Eu disse: “Cuidado para você não colocar vermelho.  E mais: se você conhece a bandeira do Brasil, como não conhece a Elza Soares, essa cara preta cheia de passado?  Eu tô estranhando, como você não me conhece?  Até criança me conhece.  Eu sou uma senhora independente de Padre Miguel, salve a Mocidade.”</p>
<p><strong>Eu recolhi algumas definições a seu respeito.  Paulinho da Viola te compara a Billie Holiday e Dalva de Oliveira.  José Miguel Wisnik disse que você é uma roqueira do samba E o violonista João de Aquino disse que, se alguém quiser entendê-la, tem que entender o seu canto.  Você se define como?  E como define seu canto? </strong></p>
<p>Eu acho que meu canto é indefinível.  Quando eu tiver certeza dele, eu não posso cantar mais, deixa para os outros dizerem o que ele é.  Eu tive tudo para ser intitulada sambista, pra ter aquele rótulo, mas eu detesto rótulo.  Se quiser me rotular me dê uma propaganda com milhões.</p>
<p><strong>Você acompanha política cultural, pirataria, direitos autorais? </strong></p>
<p>São muitas páginas&#8230; Se eu for pegar todas as páginas, eu vou deixar de cantar, isso é muito perigoso.  Isso me cansa um pouco, eu sou música, prefiro viver do que sei.  Meu hobby é a cozinha, e quando estou apaixonada eu cozinho melhor, eu vou pra cozinha e faço uma comida boa, dou uma comida boa, nós temos bocas falantes e comíveis.</p>
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		<title>Birita Filosófica: O tempo</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Feb 2010 14:37:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Nesse vídeo pesquisadores do GVCes e convidados batem um papo sobre o tema que norteia a última edição de Página22: o tempo.
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Nesse vídeo pesquisadores do GVCes e convidados batem um papo sobre o tema que norteia a última edição de Página22: o tempo.</p>
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		<title>Bola pra frente</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Feb 2010 13:42:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A COP 15 terminou sem acordo vinculante e os lamentos ainda se fazem ecoar pelo mundo.  Mas, para o economista José Eli da Veiga, as negociações diplomáticas não são o único nem o principal vetor de impulso para a superação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/02/ze_eli.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-6095" title="ze_eli" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/02/ze_eli-196x198.jpg" alt="ze_eli" width="196" height="198" /></a>A COP 15 terminou sem acordo vinculante e os lamentos ainda se fazem ecoar pelo mundo.  Mas, para o economista José Eli da Veiga, as negociações diplomáticas não são o único nem o principal vetor de impulso para a superação das energias fósseis.  Segurança energética e novos negócios são dois fatores preponderantes para a próxima fase do capitalismo.  Mesmo que o primeiro seja limitado pela falta de alternativas tecnológicas, o segundo é impulsionado por ela.  E ainda corre por fora a possibilidade das barreiras tarifárias de justificativa climática.  Embora controversa, a proposta já conta com a aprovação da Organização Mundial do Comércio (OMC) e poderia vingar na ausência de um acerto internacional.</p>
<p>Professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e um dos principais especialistas brasileiros em ecodesenvolvimento, Veiga analisa ainda o posicionamento de EUA, China, Índia, Europa e Brasil na geopolítica do clima.  Para o autor de Mundo em Transe – do aquecimento global ao ecodesenvolvimento, o mais recente de 18 livros, o sistema de governança global dá sinais de estafa, mas poderia ser aprimorado se o G-20 assumisse a costura de um acordo antes das negociações na Convenção do Clima.</p>
<p>Nesta entrevista, Veiga reflete sobre o tempo de definição em cada um dos prazos estabelecidos pela perspectiva global da crise climática – 2020, 2050 e o fim do século.  Cada período guarda seus próprios desafios e, certamente, muitas surpresas.</p>
<p><strong>Qual é a influência do fracasso da Cúpula de Copenhague sobre a descarbonização da economia mundial?</strong><br />
Para os países que estão adiantados na corrida tecnológica pelas novas soluções altera muito pouco, porque eles se pautam meio que por ganhar tempo.  Então poderia ter sido melhor o resultado, no fundo.  Para os países que, ao contrário, tinham de ter entrado no jogo, isso é ruim, porque os deixa outra vez livres sem nenhum constrangimento de ordem internacional que os faça ir além daquilo que eles já estavam dispostos a fazer.  De qualquer forma, é um ano.  Em princípio, ainda tem aí essa possibilidade de que em dezembro se resolva o que não foi resolvido em Copenhague, então, um ano é pouco num processo como esse.</p>
<p><strong>Como são os sinais desses países que estão na liderança?  O desenvolvimento pleno de uma economia verde é algo previsto para as próximas décadas ou apenas para um futuro distante? </strong><br />
A dificuldade é que a gente pensa no longo prazo, por exemplo, em um século.  Afinal, o compromisso principal é não deixar que a temperatura aumente mais de 2 graus.  Não é 2020 ou 2050, é em relação ao que era no nível pré-industrial, é uma coisa secular.  Nesse prazo, uma coisa que a gente nem sabe direito se pode acontecer, mas que pode até ser cogitada, é a fusão nuclear, que resolveria tudo.  No prazo de um século, talvez pinte.  Normalmente, os cientistas que entendem do assunto falam que no meio do século a gente teria alguns resultados.  Depois, tem outras coisas, do tipo: imagine que a gente explorasse as energias solares não do jeito que está sendo feito, mas aproveitando todo o investimento tecnológico no espaço.  Hoje em dia, isso está muito avançado para alimentar os satélites, que acumularam energia solar suficiente para continuar funcionando.  Será que um dia nós vamos poder usar aqui uma energia captada lá?  Também é uma especulação de muito longo prazo.  Eu até diria que, como o prazo de esgotamento do triângulo fóssil – petróleo gás e carvão – varia entre 40 e 130 anos, então também nesse prazo alguma alternativa será criada.  Ninguém é capaz de dizer com certeza qual vai ser a solução.</p>
<p><strong>Mas esse caminho de redução de intensidade de carbono é irreversível, considerando a finitude dos recursos fósseis? </strong><br />
Aí é que está, porque, quando falamos em intensidade de carbono, a gente está fazendo uma comparação entre o quanto de emissões você tem por unidade de produção, medida pelo PIB.  Isso vem caindo muito no mundo inteiro.  Mesmo em países sujos como a China caiu muito e vai continuar caindo.  Até por isso quiseram que a meta deles fosse colocada nesses termos.  Isso é efeito de uma eficiência tecnológica maior, mas, paralelamente, você tem crescimento populacional e crescimento de padrões de vida.  Então, isso mais do que compensa a economia.  A intensidade pode estar caindo muito, mas o volume das emissões pode continuar aumentando, então não resolve o problema.  A queda da intensidade é positiva, mas ela sozinha não resolve.</p>
<p>Tem gente que tenta enfatizar muito a mudança de comportamento, que também influenciaria.  Hoje, a mudança desses comportamentos poderia permitir uma eficiência energética maior e até diminuir a necessidade de energia.  Só que, ao mesmo tempo, existem autores mostrando há algum tempo que, quando você obtém essa eficiência em alguma coisa, isso também é compensado por um rebound effect (efeito ricochete).  Se troco um carro que emitia pra burro por outro que quase não emite, isso me dá uma eficiência energética, eu gasto menos para encher o tanque e essa economia no fim do ano me leva às Maldivas para passar férias.  Ou seja, você pode ter uma economia por causa de maior eficiência energética, só que essa poupança vai se transformar em outro gasto que puxa a energia.  Os estudos até agora feitos mostram que isso é muito importante e que esse é um dos motivos que fazem com que a redução das emissões não se verifique na mesma proporção que a chamada intensidade diminui.</p>
<p><strong>A COP 15 levantou grande expectativa, causando até a impressão de que seria o principal momento para que o mundo decidisse seguir por um caminho ou por outro.  Existem outros processos tão importantes quanto as COPs?  Até que ponto a via diplomática é a principal? </strong><br />
Se eu olho para o processo de descarbonização, acho até que outros dois vetores que não são as negociações internacionais são mais importantes.  As grandes potências levam muito a sério seu problema de segurança energética.  As soluções que eles encontraram durante o século 20 não podem se manter durante muito tempo e por isso Barack Obama tem um plano bem diferente em relação àquilo que foi a opção anterior dos EUA.  O que eles fizeram?  “Bom, nós vamos precisar de muito mais energia do que a gente tem, vamos ficar meio dependentes do Oriente Médio, mas, tudo bem, na hora em que eles não se comportarem a gente faz uma guerra.” Essa fórmula já esgotou.  Agora eles estão com esse problemão do Iraque e do Afeganistão e não há muita possibilidade que eles inventem uma guerra no Irã.  Então, conseguir mais segurança energética e quebrar essa dependência em relação ao petróleo importado é um plano estratégico dos EUA.</p>
<p>Além disso, já que muito antes de acabarem o carvão e o petróleo a substituição por outras soluções em energias renováveis vai ocorrer, há grandes oportunidades de negócios.  E isso move muito mais a sociedade do que saber se vai ter acordo.</p>
<p>Esses dois vetores – segurança energética e novos negócios – contrabalançam a dificuldade que há no plano internacional.  Como as grandes potências são movidas mais por esses vetores, nas negociações internacionais elas tentam fazer um jogo que as favoreça nesses dois outros planos.  Mas acho que grande parte dos analistas concorda que essa fórmula de negociação em que você tem de ter unanimidade de 190 e tantos países sobre aquilo que vai ser proposto dificulta muito.</p>
<p>Diferentemente do que aconteceu com o ozônio, desde o início, as Nações Unidas colocaram a questão do aquecimento global no plano da Assembleia- Geral e não do Pnuma.  E isso foi aprofundado quando a convenção optou pela expressão ‘desenvolvimento sustentável’, que é uma coisa muito mais ampla e mais vaga do que a questão ambiental em si.  Se você não diz que é ambientalismo, mas desenvolvimento sustentável, você tem de entrar nessa discussão do direito dos povos ao desenvolvimento e complicou bastante.</p>
<p>Alguns analistas sérios acham que esse caminho não vai dar em nada, não é só em Copenhague.  Era natural que se tivesse criado uma grande expectativa em relação a Copenhague.  Na época da convenção, a opinião pública mundial e mesmo os governos não estavam assim tão convencidos.  E na época do Protocolo de Kyoto também não.  Já de 2007 pra cá é que a coisa começou a virar e aí então cresceu muito a atenção em relação a essa questão mundial, dos vários ângulos.  Como o Protocolo seria reformulado, ou coisa do gênero, em Copenhague, criouse toda a expectativa em torno disso.  O resultado pode indicar que a fórmula criada pela comunidade internacional é inviável.  Se for mesmo, essa convenção vai falir.  Se isso acontecer, esses analistas dizem que alguns países no futuro podem tomar atitudes unilaterais, por exemplo, com o uso da geoengenharia, que seria principalmente colocar partículas na estratosfera, de modo a aumentar a refletividade da Terra.  Se fizer isso, depois você vai ter de manter, não tem como voltar atrás.  E se tiver efeitos negativos?  É tanta incerteza&#8230;</p>
<p><strong>O G-20 vai se consolidar como principal fórum das mudanças do clima?  Nesse sentido, se a política de governança global se mostra tão falha, não só na questão do clima, mas no combate à fome, na Rodada de Doha, e mais recentemente o Haiti, existe algum modelo que se anuncia como alternativa? </strong><br />
Eu não acho que essa hipótese existe.  Vai ser a ONU.  Quando você já entrou por um caminho como esse, não tem mais como mudar.  A questão é a seguinte: para você chegar a um bom acordo numa reunião desse tipo, ele tem de estar costurado antes.  O G-20 é uma instância que permitiria isso.  O G-20 foi criado mais voltado só para a questão financeira e funcionou, não é?  Quando as diferenças estavam na ponta da crise e ninguém conseguia enxergar direito o que estava acontecendo, o acerto entre Europa e EUA foi feito no G-20, com a presença da China.  Mas ele não assumiu a questão climática e o motivo ainda não está claro.  Do jeito que os países chegaram a Copenhague, tinha tudo para dar errado.  Qualquer reunião internacional que vá exigir consenso, o que na verdade é uma unanimidade, seja qual for o assunto, ou você preparou isso bem antes e no máximo você tem de fazer algumas concessões e correções, ou é melhor nem fazer a reunião.</p>
<p><strong>Se a negociação for entre países centrais, as necessidades das nações pobres não poderiam ser comprometidas? </strong><br />
Com certeza.  Mas no G-20, por exemplo, você não tem só os países centrais.  Estão muito bem representados os chamados emergentes.  Então, de fato, você ainda tem fora do G-20 uma série de países que podem ser vítimas do aquecimento global.  Mas eles não têm nada para oferecer, ninguém vai pedir pra eles reduzirem emissões.  Eles vão reivindicar mais grana para adaptação.  Isso não é difícil.  Muito mais difícil é convencer a China ou a Índia a cortar emissões.</p>
<p><strong>Pouco antes da COP15, a China se comprometeu a reduzir entre 40% e 45% a intensidade de carbono até 2020, o que na prática significa mais que duplicar as emissões.  Por outro lado, assinou um acordo de cooperação tecnocientífica com os EUA.  O interesse chinês em novas fontes de energia é maior do que levam a crer as metas anunciadas?</strong><br />
Aparentemente, em 2020, as novas fontes de energia ainda não serão competitivas.  Embora o custo da solar, eólica e geotérmica vá cair muito nesses anos.  Neste prazo, tenho a impressão de que vai ter um renascimento da energia nuclear e uma ascensão da CCS (captura e armazenamento de carbono, na sigla em inglês) principalmente voltada ao uso do carvão.  Como o carvão vai durar 130 anos e está espalhado, a China e a Índia não vão abrir mão de usá-lo.  A CCS custa muito caro e é uma tecnologia muito nova.  Então eles vão dizer o seguinte: “Tudo bem, vocês pagam, a gente faz”.  A discussão é mais essa, nesse prazo.  A mesma coisa em relação à tecnologia nuclear.</p>
<p>Os chineses, enquanto resistem em Copenhague, estão fazendo proezas tanto na eólica quanto na solar.  E lá é tudo em escala imensa.  No entanto, não dá para comparar o sistema tecnológico e científico da China com o da Alemanha, por exemplo.  Essa coisa de enterrar carbono é complicada porque em vários casos, tanto na Alemanha quanto na Inglaterra, as populações locais se revoltaram, mais do que contra a energia nuclear.  Mas esse tipo de coisa não vai ter na China.  Eles vão fazer e pronto.</p>
<p><strong>A meta de corte de emissões que tramita no Congresso americano é tímida se comparada à da Europa, por exemplo (cerca de 3% ante 20% até 2020).  Se aprovada, a nova lei teria que tipo de impacto sobre os EUA e o mundo? </strong><br />
A lei proposta é tão complexa que eu mesmo não consegui ler até o fim.  Acho que no início tinha 900 páginas, agora já está em 1.400. Não é só essa meta que está lá.  O importante é que os EUA façam uma inflexão.  Se eles fizeram uma inflexão – “nós não queremos mais continuar na trajetória em que tudo está baseado nas energias fósseis e vamos num sentido diverso e isso estará previsto por lei” –, isso para mim é muito mais importante do que saber a meta.  Infelizmente, a discussão ficou muito centrada num joguinho, uma espécie de competição de metas.  Uma coisa é falar que podemos chegar a quase 40% porque, se parar só o desmatamento, já resolveu.  Mas nos países em que a questão central é fazer a transição das energias fósseis e se ninguém enxerga qual é a tecnologia&#8230; Eu acho um pouco irresponsável a crítica à lei do Obama.  A minha impressão é que isso vai dar aos EUA uma força tão grande quanto a Europa adquiriu quando lançou aquela proposta de 20-20-20 (<em>20% de redução de emissões e 20% de incremento em eficiência energética até 2020</em>).  Pegando só pela questão da meta eles não teriam, porque é menos que a da Europa.  Mas acho que vão surgir muitas outras coisas.</p>
<p><strong>Qual o melhor modelo: o <em>cap-and-trade</em> americano ou as taxas sobre carbono da França?<br />
</strong>Há um vastíssimo debate sobre isso.  Tendo já um sistema de <em>cap-and-trade</em> europeu, a França determinou que os setores que já estão nesse modelo ficariam isentos da taxa e isso foi considerado inconstitucional no finzinho do ano.  Em todo caso, a maior parte dos economistas é mais simpática à taxa ou imposto, porque é uma coisa mais conhecida.  O <em>cap-and-trade</em> depende de muita engenharia institucional para funcionar.  Até agora a experiência exitosa foi no caso da chuva ácida, mas havia pouquíssimos emissores e a tecnologia era conhecida.  Então, era dar um prazo para que as empresas retardatárias adquirissem a tecnologia.  Não é caso para o aquecimento global.  Você não sabe qual é a tecnologia e não são poucos emissores.  Tanto é que o <em>cap-and-trade</em> que já está funcionando pega só uma parte da economia.  Não tem como funcionar para as residências ou o sistema de transporte como para a indústria pesada.  Tem uma terceira ideia que surgiu nos EUA, chamada <em>cap-and-dividend</em>.  Você taxa fortemente através de leilão de permissões e tudo o que for arrecadado é devolvido de forma igualitária.  Isso era uma proposta das ONGs e agora virou um projeto de lei razoável.  O grande problema desses países que querem ter um plano razoável é ver o que eles fazem com os setores da economia que não tomam parte do <em>cap-and-trade</em>.  E aí eu tenho a impressão de que a melhor solução é a francesa, que já tinha sido adotada nos países escandinavos, por exemplo, na Noruega.</p>
<p><strong>Na ausência de um acordo global diplomático, a crescente discussão acerca de taxas no comércio internacional sobre produtos de países que não comprovem esforços para reduzir as suas emissões pode ser o principal vetor de inovação?</strong><br />
Na realidade é a possibilidade de criar barreiras comerciais.  De um lado, a OMC e o Pnuma fizeram uma relatório em que eles mostram que a coisa já está mais ou menos acertada.  Se um país adota uma legislação em razão de um plano de contenção, ele pode ter o direito de dizer que mercadorias foram produzidas em condições de total liberdade de emissões terão uma taxa alta de importação.  Basta que o país prove que não está fazendo nada de discriminatório, que isso não é um pretexto.  É como se já existisse uma jurisprudência.  Mas o que pode complicar muito tudo é a tese que a China andou desenvolvendo e que a Índia aproveitaria.  Eles dizem o contrário: o pouco de redução que teve na Europa é porque eles na verdade transferiram a produção de um monte de coisas para a China e estão importando barato.  Se eles fizessem, as emissões teriam sido lá.  Então, eles fizeram os cálculos e chegaram à conclusão de que 70% das emissões chinesas poderiam ser atribuídas às exportações.  Eu confesso que não sei o que isso pode dar, em termos de conflito na OMC.</p>
<p><strong>Mas e se funcionasse?</strong><br />
Acontece que, se houver o acordo, todos esses países emergentes teriam algum tipo de compromisso.  Se a China melhorar um pouco a proposta que eles fizeram em relação à intensidade, se a Índia apresentar alguma coisa e isso aparecer no acordo do México, em 2011, ninguém vai poder inventar uma taxa para puni-los, porque eles estarão fazendo a parte que foi acordada na Convenção.  Acho que as retaliações comerciais surgem se não houver um acordo.</p>
<p><strong>A participação do presidente Lula nos últimos dias da COP 15 foi muito bem avaliada.  O Brasil tem condições de consolidar uma liderança no cenário da descarbonização?</strong><br />
Liderança seria uma palavra muito forte.  Mas o Brasil mostrou, nos meses anteriores a Copenhague, e em Copenhague, aquilo que todo mundo vinha dizendo que tinha de ter feito há mais tempo, porque o Brasil ficava se aninhando atrás do biombo da China.  Ele passou a ter uma atitude propositiva, ousada, avançada, chegou muito bem na COP.  E a atuação do Lula foi espetacular, eu acho.  Só que, infelizmente, totalmente apagada por uma atuação desastrosa da Dilma (Rousseff, ministra da Casa Civil), uma pessoa que não tem tradição nenhuma na área, sempre foi contra.  Só que inventaram que ela tinha de ir lá para não deixar que o espaço fosse ocupado pela Marina (Silva, senadora).  Mas, quando o Lula chegou, realmente, tanto a atitude na reunião que eles fizeram com o Obama quanto aquele discurso que ele fez de improviso foram muito bons.  Mas acho que o Brasil só tem um papel realmente de liderança das chamadas potências florestais.</p>
<p><strong>E quanto à transição para o que o senhor chamou de “a nova fase do capitalismo”?</strong><br />
Acho que ainda é um player de segunda ordem.  O jogo todo é entre EUA, Europa e Japão, de um lado, China e Índia do outro.  Mas é um problema muito mais sério para eles.  O Brasil pode dizer que vai derrubar em 40% a expectativa de crescimento das emissões porque nós vamos ter um plano para a Amazônia e para o Cerrado de reduzir o desmatamento.  Outra é dizer que precisa ter CCS para o carvão, uma tecnologia fundamentalmente britânica.  Mas é um problema que o Brasil vai enfrentar provavelmente lá por 2020.  Quando a gente zerar ou quase zerar o desmatamento, vamos ter um problema parecido com o deles.  Tudo bem que a nossa matriz energética é relativamente limpa agora, mas ela tende a sujar, está piorando e tende a piorar mais.</p>
<p><strong>A meta de redução de emissões assumida em lei pelo estado de São Paulo tem que influência sobre o restante do País?  É possível São Paulo ir para um lado e o Brasil para o outro?</strong><br />
O desafio da meta assumida por São Paulo é muito sério.  Nós não vimos ainda o inventário, mas a gente sabe mais ou menos porque tem o inventário nacional.  Aqui em São Paulo não é uma coisa tão simples como deter o desmatamento e cuidar da pecuária.  Aqui vai ser basicamente transporte e indústria.  Sobre influência, a gente já vê sinais disso no Rio e em Minas.  No Rio está na mesma linha de fazer inventário e algum tipo de proposta.  E no caso de Minas, não chegaram a ter uma lei como esta, mas fizeram um inventário e chegaram à conclusão de que o problema maior deles é com o carvão para siderúrgicas e fizeram uma lei específica, assim como a gente tem, em São Paulo, para cana.  Provavelmente vão acontecer coisas semelhantes nos próximos anos nos estados do Sul.  No resto do País, acho difícil que seja dada prioridade para esse assunto, até porque em grande parte do País a questão vai ser o desmatamento, o problema é mais agropecuário.</p>
<p><strong>Até que ponto o compromisso paulista é viável, considerando a franca oposição da Federação das Indústrias (Fiesp)?</strong><br />
Eu acho que a Fiesp se opõe provavelmente por representar os setores mais atrasados das empresas.  Tem um grupo de empresas muito grande em São Paulo, principalmente influenciada pelo Ethos, que tem uma visão completamente diferente.  Que, pelo contrário, pressionou nessa direção.  É o pessoal que já enxergou que, se nos países para os quais eles exportam, ou em princípio terão de estar presentes, essa questão está rolando, eles não podem estar atrasados em relação a isso.  Então a lei de São Paulo de certa forma contempla a exigência das empresas mais avançadas.  Como vai ser o jogo, que tipo de dificuldades o governo de São Paulo vai ter para pôr isso em prática, acho que nem eles sabem responder.  O que é importante que se diga é que a proposta não é do Serra.  Na verdade, dentro do governo Serra houve um conflito muito forte entre quem propôs, que foi a Secretaria de Meio Ambiente influenciada pelo Fórum de Mudança Climática, e a Secretaria de Energia.</p>
<p>Tem um técnico envolvido nisso que sempre me procurou, porque ele queria saber se alguém alertava a imprensa.  Pelo que eu pude entender, teve uma reunião conduzida pelo (vice-governador, Alberto) Goldman em que eles decidiram tirar a meta.  Aí a estratégica foi o PV, na Assembleia, fazer uma emenda e, quando foi aprovado, passou o pacote.  Mas não teve oposição dos tucanos.  Então não é para dizer que os louros não são do governo Serra, mas a história não é tão simples quanto a imprensa passou.  Aparentemente, além dessa iniciativa, parece que a participação do Serra em Copenhague foi muito razoável.  A questão é se ele vai ouvir algumas pessoas que o assessoram, como o (presidente do Câmara Técnica de Desenvolvimento Sustentável da Prefeitura do Rio de Janeiro, Sergio) Besserman e o Roberto Smeraldi (diretor da ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira).</p>
<p><strong>Esta edição gira em torno de uma reflexão sobre o tempo.  Na sua visão, o que significa o tempo para a sustentabilidade?  A busca da sustentabilidade é uma luta contra o tempo, considerando a urgência de problemas ambientais?  Ou o tempo da sustentabilidade é o da oportunidade, a brecha que se abre para rever e aprimorar modelos de desenvolvimento?</strong><br />
A própria definição de sustentabilidade ambiental embute uma questão central de tempo.  Eu só posso entender o que significa isso se imediatamente raciocinar que nós temos algum tipo de compromisso ético com as próximas gerações.  Isso é muito repetido, mas acho que as pessoas não param para pensar suficientemente nisso.  O que é que nos faria ter preocupação com as futuras gerações?  Por que é que nós deixaríamos de ser imediatistas e pensar que o ideal seria que não tivesse mais pobreza agora?  E o que nos faria não pensar só assim, porque as coisas estão ligadas?  Alguns dos desastres que a gente está vendo foram por incúria de coisas que não foram feitas anteriormente quando não se pensou no futuro.  Por exemplo, São Luiz do Paraitinga estaria lá inteirinha se não tivessem feito tanta besteira.  Sustentabilidade ambiental não tem como definir se você não envolver essa coisa intergeracional que bate num problema fundamentalmente ético.  Mas nas opções que você colocou, acho que são os dois, tanto uma coisa quanto outra.</p>
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		<title>Ser de fronteira</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Feb 2010 13:24:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Refém do próprio triunfo evolutivo, acelerado pela tecnociência, o homem corre o risco de perder suas características mais caras. Mas ainda pode cultivar domínios que resguardem sua essência e existência na viagem pelo tempo
Houve um tempo em que ele próprio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><a href="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/02/fronteira_3.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-6101" title="fronteira_3" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/02/fronteira_3-300x180.jpg" alt="fronteira_3" width="300" height="180" /></a>Refém do próprio triunfo evolutivo, acelerado pela tecnociência, o homem corre o risco de perder suas características mais caras. Mas ainda pode cultivar domínios que resguardem sua essência e existência na viagem pelo tempo</em></p>
<p>Houve um tempo em que ele próprio era a lesma singrando o azul da parede do quarto de dormir.  O espaço era a casa de minha bisavó, em Goiás, e o sono vinha me fechar os olhos que seguiam aqueles rastros prateados, até que lentamente virassem rios de histórias deslizando no altiplano.  A infância cintilante, as horas dilatadas, todo o tempo do mundo.  Realidade e sonho misturados no quintal onde a gente prospectava pedras preciosas – e parava tudo para admirar a folia de cores que desfilavam nas taturanas.</p>
<p>O velho casarão ruiu, o quintal infinito virou um imóvel delimitado por ruas e seus automóveis, e não se tem notícia de pedra preciosa.  Só permanece, mesmo, o tempo, aquele que é do mundo.</p>
<p>O físico e cosmólogo Stephen Hawking remete a Santo Agostinho para dizer que, se o mundo tem um início, este é o início do tempo.  “Universo e tempo vieram ao ser simultaneamente”, recita o astrofísico Amâncio Friaça, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG), da USP.  “O tempo é a condição mais fundamental do mundo físico”, afirma ele.  “Na busca contínua dos princípios, chega-se a um nível em que a massa desaparece, que o espaço desaparece.  Mas o tempo, não.”</p>
<p>Do ponto de vista filosófico, “o tempo faz parte do ‘ser’ do homem, é a espinha dorsal da sua própria existência”, explica Oswaldo Giacoia Junior, professor de Filosofia da Unicamp e um estudioso de Martin Heidegger*.</p>
<blockquote><p>*Filósofo alemão, autor de <em>Ser e Tempo</em>, é considerado um dos maiores pensadores do sécuo XX. Segundo ele, o &#8220;ser&#8221; é a essência, o elemento constitutivo de um &#8220;ente&#8221;. O ente, por sua vez, são as entidades existentes, os objetos os sujeitos (tudo que é é um ente). O homem é o único ente que coloca para si as questões do ser e do tempo</p></blockquote>
<p>Não por acaso, a reflexão sobre o tempo nos pega de jeito, pois traz uma ressonância profunda com essência e existência.  Impossível falar de sustentabilidade sem mergulhar nessa reflexão.  Ela conduz ao questionamento de como nos relacionamos com o mundo, com todos os entes da natureza, com as pessoas mais próximas e também com nossa própria vida.  Não necessariamente nessa ordem, mas ao mesmo tempo.</p>
<p>O fato de sermos essencialmente seres temporais (ou seja, temos a determinação final de ser finitos) causa em nós o que Heidegger chama de angústia.  A angústia de ser para a morte.  A própria Filosofia originou-se na Grécia ao refletir sobre a mortalidade do homem.</p>
<p>A angústia com a passagem do tempo e a corrida contra ele que a atual civilização ocidental tem travado até as últimas consequências (como as descritas nas reportagens <a href="http://pagina22.com.br/index.php/2010/02/corrida-para-onde/">Corrida para Onde?</a> e <a href="http://pagina22.com.br/index.php/2010/02/nem-tudo-nas-maos/">Nem tudo nas mãos</a>) constituem, portanto, uma crise existencial, conclui Giacoia.</p>
<p>O entretenimento e toda sua indústria, exemplifica o professor, são tentativas escapistas de nos “narcotizar” diante dessa angústia, em vez de lidarmos com ela.  “O hedonismo que marca a nossa sociedade é a modalidade contemporânea da alienação”, completa.  “Em geral, somos pessoas que não suportam o fracasso, o sofrimento e a finitude.  Somos imaturos, afetivamente inseguros, incapazes de viver sem alguma adição (no sentido de vício).” Até os amigos, diga-se, viraram uma “categoria” que adicionamos em nossas redes sociais virtuais.</p>
<p><strong>O templo de Amaterasu</strong><br />
Na ilha de Isé ergue-se há cerca de 2 mil anos o mais velho templo do Japão, em reverência a Amaterasu, Deusa do Sol no panteão xintoísta.  Não que seja uma construção antiga.</p>
<p>É que a cada 20 anos – o período de uma geração – é demolido e reconstruído.  Uma forma singela de lembrar o homem da sua finitude, da sua participação efêmera em uma história maior e absolutamente longeva.  E de que nada é permanente, a não ser, claro, o tempo, em seu curso irreversível.</p>
<p>As pessoas das aldeias participam da reconstrução, cortam as árvores para obter a madeira, carregam as pedras, transportam todo o material pelos rios e assim se tornam sujeito desse processo natural e contraditório de morte e renascimento.</p>
<p>Contradição, pois, assim como o tempo tem uma face desorganizadora, sob o ponto de vista da Física e da lei da entropia, tem outra organizadora, que apura e sofistica a vida na Terra por meio da evolução das espécies.  Quanto mais complexa a vida, mais entropia ela envolve.</p>
<p>A lei da entropia, ou segunda lei da termodinâmica, trouxe, segundo Friaça, do IAG, enormes ganhos conceituais para a Física, ao mudar a noção de tempo.  Levantou igualmente reflexões fundamentais para a Economia e a sustentabilidade.  Demonstra que, em sistemas isolados, nem toda a energia pode ser transformada em trabalho: há perda de uma parte para o ambiente.  Ou seja, a água da chaleira esquenta, mas aquece também a cozinha.  O calor que se dissipa jamais retorna à forma original.  Ainda que se mantenha a mesma quantidade de energia no sistema, a sua qualidade muda.</p>
<p>Na Física elaborada por Isaac Newton no século XVII, o tempo era reversível: nas fórmulas newtonianas, a trajetória das partículas podia ser seguida perfeitamente de trás para a frente.  “Se trocássemos t por -t, daria no mesmo.  Assim, passado e futuro seriam indistinguíveis”, explica Friaça.  “Já a entropia aumenta com o tempo.  O futuro distingue-se do passado pelo maior valor da entropia.” Por isso, sua lei é também conhecida como flecha do tempo.</p>
<p>A noção da perda irreversível baseou o pensamento do economista ecológico Nicholas Georgescu-Roegen, que apontou um problema de metabolismo da sociedade: quanto maior a escala econômica, ou seja, o tamanho de sua população e seu nível de afluência, maior é a entropia.</p>
<p>Estaria a nossa escala econômica acelerando o futuro?</p>
<p>“Essa discussão teve importância para mostrar que a Economia não está isolada do ambiente e assim desmitificar o moto-perpétuo”, diz Andrei Cechin, mestre em Ciência Ambiental pelo Procam-USP e um estudioso do pensamento de Georgescu.  A entropia desfaz a ideia de que tudo se recria, de que tudo se recicla.  Perdas irreparáveis acontecem pelo caminho.</p>
<p>Ao defender a redução da escala econômica a fim de prolongar a estada do homem na Terra, o economista romeno propõe também uma reflexão ética e temporal: temos a opção de consumir muito agora e deixar as gerações futuras em falta, ou poupar neste momento para que elas possam usufruir depois.  “Para Georgescu, nós já fizemos nossa escolha”, diz Cechin, e ela não pende para o futuro.</p>
<p><strong>Tecnodependência</strong><br />
Uma escolha da nossa sociedade, sem dúvida, foi a de mergulhar na tecnociência*. Apostam-se fichas e fichas na tecnologia salvadora da humanidade ante os perigos globais e já não existe nenhum âmbito que não seja tecnologicamente mediado, extrapolando a ideia renascentista de que o homem e sua técnica podem e devem dominar e controlar a natureza.</p>
<blockquote><p>*Por se apoiarem mutuamente, e terem seus processos de desenvolvimento dependentes um do outro, a ciência e a tecnologia, embora distintas, podem ser vistas como uma unidade, na forma de tecnociência.</p></blockquote>
<p>O próprio tempo se transformou em um objeto, algo externalizado, que assumiu formas mercadológicas.  Pode ser comprado e vendido, é divisível, mensurável, planejá-vel (aprenda a gerir seu tempo).  Ganhou expressão financeira (tempo é dinheiro).  “E perdeu a dimensão ontológica, ou seja, pensada a partir do ser”, diz Giacoia.</p>
<p>Gaston Pineau, diretor do departamento de Ciências da Educação e da Formação da UFR Arts et Sciences Humaines, da França, escreve em Temporalidades na Formação (Triom, 2004): “Quando o relógio evolui para o relógio de bolso e o cronômetro, passa a ser a primeira máquina-ferramenta, o primeiro sistema artificial capaz de produzir alguma coisa em série: o tempo”.</p>
<p>O perigo da técnica, diz o filósofo e professor da PUC-SP e da Unicamp, Zeljko Loparic*, é transformar o próprio homem em um produto tecnológico, de fabricação industrial em um mundo artificializado.  Isso porque ela consiste em procedimentos de intervenção sobre a natureza, sobre o clima, sobre o processo de nascimento, sobre o código genético, a clonagem.  É capaz de modificar seres humanos física e psiquicamente.</p>
<blockquote><p>*Organizador do livro A Escola de Kyoto e o Perigo da Técnica &#8211; DWW Editorial, 2009. A Escola de Kyoto, nascida no início do século XX, foi o berço do pensamento filosófico no Japão contemporâneo.</p></blockquote>
<p>Com isso, Loparic afirma que o homem corre o risco de perder as suas características únicas: a liberdade, a consciência de si, a dignidade, a solidão.  “Winnicott (Donald Woods, pediatra e psicanalista inglês nascido no fim do século XIX) dizia que o homem é um ser inerentemente solitário.  Temos um núcleo sagrado que não pode ser conhecido, nem tocado.  E nem deve.”</p>
<p>Corre o risco de perder também a criatividade.  Quando inventa um sistema do qual não pode mais viver sem, a tecnociência, deixa de controlar sua criação, torna-se seu refém.  “Hoje, toda a sociedade que não se atualiza na tecnociência não sobrevive.  Ou seja, ela passa a dominar o homem, em vez de o homem dominá-la”, complementa Giacoia.</p>
<p>Mas ainda há como o ser humano se preservar cultivando o que Loparic chama de “domínios”.  Pausa: um instante antes que ele pronunciasse, na entrevista, a palavra “infância” como um desses domínios, as imagens da lesma, o rastro cintilante e as brincadeiras no quintal haviam me saltado da memória.  Então compreendi perfeitamente quando explicou que a criança não “objetifica” o tempo, não faz dele um objeto.  Ela brinca, simplesmente.  Inventa o mundo, livremente.  Não devemos abandonar essas qualidades só porque nos tornamos adultos responsáveis.</p>
<p>Outros “domínios”, enumera ele, são o da arte (ela passa ao largo da objetivação, da finalidade; a arte apenas é), o da amizade, o da presença gratuita, o da capacidade de devoção, o cuidado consigo.</p>
<p>“Na infância, nas relações amorosas, na loucura, na arte, na aventura, nós podemos existir à toa.  Isso que nos diferencia das máquinas.  Uma máquina não opera à toa, um avião não voa à toa”, diz Loparic.</p>
<p><strong>O fogo e a roda</strong><br />
Não que se deva rechaçar a tecnociência.  A tecnologia e a ciência, diz o filósofo, são fenômenos dos tempos modernos, constituem os novos capítulos da nossa história no planeta Terra.  “Para (o físico Werner) Heisenberg* o desenvolvimento da tecnociência diz respeito à evolução da espécie humana.  Nesse sentido, veio para ficar, assim como não podemos mais abrir mão do fogo, da roda, dos meios de comunicação.”</p>
<blockquote><p>*Formulador, em 1927, do Pincípio da Incerteza, que afirma a incapacidade de se descrever os movimentos do elétron. Foi um dos fundadores da Mecânica Quântica, que estuda sistemas físicos próximos ou abaixo da escala atômica, de moléculas a partículas subatômicas</p></blockquote>
<p>Nesse tempo da incerteza quântica, a certeza é de que não há controle.  No mundo de partículas aceleradas pela alta conectividade, as ideias sólidas e o pensamento linear derreteram.  Sem a linearidade previsível de causa e efeito, fica impossível gerenciar os riscos.</p>
<p>“(O sociólogo polonês Zygmunt) Bauman fala que nos tornamos uma sociedade líquida, mas acho que já passamos para o estado gasoso”, afirma Ricardo Guimarães, sócio da Thymus, empresa de branding.  “Não por acaso se fala em volatilidade do mercado financeiro”, comenta.  A quebra da Bolsa de um pequeno país afeta os mercados globais.  Um machucado no dedo mindinho do pé compromete o bem-estar do organismo inteiro.  Imaginem as incertezas expressas nos modelos climáticos.</p>
<p>Essa mudança de “estado”, diz Guimarães, exige do ser humano uma capacidade crescente de edição e dicernimento, para se localizar, posicionar e fazer escolhas.</p>
<p>Diante de todo o frenesi da sociedade acelerada, do excesso de estímulos e das toneladas de informações nos abarrotando por todos os lados, surgiu de uma roda de colegas, conversando sobre o tempo, a indagação: “O que eu quero conservar disso tudo?&#8221;</p>
<p>A abertura para se perguntar isso e se permitir as escolhas essenciais seria um indicador da evolução humana, sob o ponto de vista de Amartya Sen – que entende o desenvolvimento como expansão das liberdades.</p>
<p>Mas a instabilidade desses tempos voláteis que se avizinham não é prerrogativa da sociedade contemporânea – pelo menos não na escala geológica.  Apenas 7% do tempo de vida do homem repousa no berço calmo do Holoceno*, de estabilidade climática, estações definidas, temperaturas confortáveis, conforme explica Amâncio Friaça, do IAG.</p>
<blockquote><p>*Período que vem de 11.500 anos atrás e se estende até o presente.</p></blockquote>
<p>Uma regularidade que tornou possívelodesenvolvimento da agricultura e o florescimento da atual civilização, até que explodisse demograficamente, aumentasse de forma exponencial sua pegada e se tornasse um vetor de profundo desequilíbrio ambiental.  “O triunfo do homem foi proporcionado pela estabilidade, e esse sucesso vai acabar com ela”.  Nada que não se tenha enfrentado anteriormente, em priscas eras.</p>
<p>Antes do Holoceno, nossa espécie viveu e sobreviveu sob enormes variações climáticas.  E, na visão de Friaça, o ser humano carrega essa lembrança geológica em sua memória.  “Nossa escala de tempo é muito mais próxima da idade do Universo (13,5 bilhões de anos), em termos de grandeza numérica, do que da escala atômica*, o que nos sincroniza mais com o sistema universal”, filosofa o professor.</p>
<blockquote><p>*A vida de um ser humano é 300 milhões de blihões de vezes mais longa do que a de um átomo excitado de hidrogênio.</p></blockquote>
<p>Segundo ele, o próximo estágio da evolução humana será lidar com a imprevisibilidade climática, em um ambiente quente e instável.  Na competição entre as espécies, naturalmente ganham as que conseguem se desenvolver extraindo o mínimo possível do ambiente.  Não é o caso humano: fizemos justamente o contrário.  Pela péssima relação que temos com o meio, a tendência seria desaparecermos rapidamente.  Mas, para Friaça, o homem resiste pela inteligência, pela noção do tempo, pela capacidade de imaginar o futuro e de ser autocrítico.  Uma pintura otimista?</p>
<p>Único ente entre todos que se coloca a questão do ser e do tempo, fato é que somos diferentes no mundo.  “Um ser de fronteira, portanto sempre estrangeiro”, diz Loparic.</p>
<p>Estrangeiro na Terra, mas não no Universo?  Como ser de fronteira, temos mais perguntas que respostas.  Nunca soube onde os rastros cintilantes iam parar</p>
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<p><strong>Kronos, Kayros, Aeon</strong>: <strong>percepções comp lementares do tempo</strong><br />
As percepções sobre o tempo são múltiplas e somente na língua grega compreendem-se três, distintas entre si.  Kronos é a palavra que remete ao tempo devorador.  Determinado, mensurável, sequencial, não reversível, exigente.  Relaciona-se ao que é externo a nós.  Leva ao impasse, à obstinação, à morte.</p>
<p>Mas existe também o tempo da oportunidade, do espaço inesperado, do equilíbrio, da conexão conosco, da integração física, afetiva e moral – este é chamado de Kayros, o tempo favorável.</p>
<p>Já Aeon é a plenitude, a eternidade.  O tempo suspendido, indeterminado.  Não tem antes nem depois.  Sem fronteiras, indivisível.</p>
<p>Não são dimensões excludentes, nem uma se sobrepõe à outra, mas simultâneas e complementares.</p>
<p>Na sustentabilidade, por exemplo, a urgência ambiental e a força mobilizadora para agir diante dela remetem a Kronos.  Nossa sociedade funciona e produz bens e serviços graças a esse pulsar cronológico.  Mas é preciso também dar espaço para Kayros, aquele que abre brechas para a oportunidade.  E a busca da essência se dá no plano de Aeon.</p>
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<p>Confira <a href="http://pagina22.com.br/index.php/2010/02/birita-filosofica-o-tempo/" target="_blank">aqui</a> o encontro no qual pesquisadores do GVCes e outros convidados discutem sobre o tema do tempo.</p>
<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</p>
<p>Leia <a href="http://pagina22.com.br/index.php/2010/02/mensagem-numa-garrafa-pet/" target="_blank">aqui</a> o artigo do astrofísico Amâncio Friaça sobre escalas do tempo, intitulado &#8220;Mensagem numa Garrafa Pet&#8221;.</p>
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		<title>Corrida para onde?</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Feb 2010 12:19:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<category><![CDATA[modelo colaborativo]]></category>
		<category><![CDATA[qualidade de vida]]></category>
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		<description><![CDATA[Quando virou referência central para o indivíduo, o trabalho deixou de libertar para tornar-se um peso.  Rever seu sentido é também repensar a organização da sociedade, de um modelo competitivo para o colaborativo
Segunda-feira, às 9 da manhã, no escritório. Você [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><a href="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/02/mat_eduardo.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-6068" title="mat_eduardo" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/02/mat_eduardo-208x198.jpg" alt="mat_eduardo" width="208" height="198" /></a>Quando virou referência central para o indivíduo, o trabalho deixou de libertar para tornar-se um peso.  Rever seu sentido é também repensar a organização da sociedade, de um modelo competitivo para o colaborativo</em></p>
<p>Segunda-feira, às 9 da manhã, no escritório. Você torce para os cinco dias seguintes passarem voando, até que possa respirar sábado e domingo.  Olha o calendário.  Às vezes, olhar o calendário é calcular.  Durante o ano, são 52 semanas, menos as quatro de férias.  O resultado final é um indivíduo 48 semanas apressado.  Cada tarefa riscada na agenda significa o surgimento súbito e inexplicável de outras duas, três, quatro.  O monitor do computador está lotado de post-its amarelos.  A sua testa franzida estaria livre para colar mais um, não fosse ali já anunciado pelas rugas: ocupado.  Quem dá conta?</p>
<p>As crianças cresceram logo, parece que os Beatles lançaram o primeiro álbum há 15 dias e você se lembra do impeachment do ex-presidente Fernando Collor como se fosse ontem.  Além disso, chega dezembro e comenta com o pessoal: “Nossa, mas o ano passou tão rápido”.  Também, pudera.  São 240 dias querendo que a vida corra*, contra 96, a todo custo, tentando pisar no freio; aproveitar, enfim, a tranquilidade.</p>
<blockquote><p>*Há também o caso dos autônomos, que apostam uma corrida contra o relógio, a fim de conseguirem entregar o produto ou o serviço a tempo. O trabalho engole sábados, domingos, feriados. Férias? Que férias?</p></blockquote>
<p>Nas pouco mais de duas centenas de dias chamados úteis, em boa parte das horas, a última coisa que você fez foi algo que, de fato, desejaria fazer.  Não ofereceu a atenção que os amigos e a família mereciam.  No mais, realizou tarefas um tanto estressantes que nem sempre contribuíram para a qualidade de vida ou o bem-estar.</p>
<p>Terça-feira, às oito e meia, em vez de bater bola na praia, bateu ponto mais cedo no escritório.  Trocou o mergulho na piscina do clube pelo mergulho no software de gestão que a companhia acabara de instalar.  O bate-papo no café da manhã, ao lado da família, deu vez à lista de argumentos com objetivo de sua equipe realizar melhores vendas.  A viagem ao interior para visitar os avós no feriado foi adiada, pois era preciso dar prioridade à visita ao cliente.  Você concluiu e anotou no bloco de rascunhos que trabalhar é necessário e saudável, contanto que os pesos do trabalho e do lazer estejam equilibrados.</p>
<p>Com razão.  Dizer que alguém trabalhou 12 ou 14 horas em um dia é quase retroceder ao começo da Revolução Industrial, no século XIX.  É grave se imaginarmos um estudante que passe quatro horas na faculdade, oito no escritório e outras quatro em trânsito.  O que lhe sobra para o resto?  “O trabalho tornou-se referência central na vida do indivíduo e da sociedade.  Tudo se converte em tarefa.  O filme que seria assistido para enriquecimento pessoal ou pura admiração da arte é deixado de lado.  Acaba substituído, muitas vezes, por uma obra que melhore o rendimento no emprego e tenha aplicação no trabalho”, explica Scarlett Marton, professora titular de Filosofia Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP).</p>
<p>Na Grécia Antiga, o ócio era mais valorizado do que as atividades manuais.  Trabalhar era tarefa, principalmente, destinada aos escravos.  O trabalho apenas começou a ganhar algum lugar de expressão na vida social a partir do século XVII, com a expansão marítima e os grandes descobrimentos.  Posteriormente, foi valorizado também na época da ascensão da burguesia, no contexto da Revolução Francesa.</p>
<p>Daí em diante, ele passou a ser avaliado como fator de progresso.  O ser humano se viu como dominador da natureza.  E o esforço foi uma das formas de ampliar suas conquistas.  Hoje, existe a figura do workaholic, o indivíduo viciado em trabalho, que pensa em suas tarefas, na carreira, na performance e na eficiência o tempo todo.</p>
<p>Homens e mulheres poderiam ter feito outra opção.  No lugar da sociedade do consumo, a sociedade da abundância, na qual se preserva e economiza mais do que se destrói e gasta.  Mas isso não ocorreu.  Trabalhamos cada vez mais, porque é fundamental ter cada vez mais.  Por comprarmos itens além do necessário, precisamos aumentar a produção sempre.</p>
<p>Quando as pessoas entram na lógica do consumo, elas perdem a figura do “ser humano integral”, aquele que decide o que quer sem se atrelar ao último modelo de carro, à grife mais famosa, aos apelos do marketing e da propaganda.  “Corremos o risco de perder o cidadão com interesses diversificados.  O que tem desejo por conhecer a si mesmo, o mundo.  O que tem vontade de estabelecer relações com os outros pelo simples desejo de se relacionar ou fazer amizades”, afirma Scarlett.</p>
<p>Segundo a professora, outra consequência do posicionamento hegemônico que o trabalho assumiu na vida das pessoas se traduz por determinadas estratégias de networking*.  Dessa forma, tendo que escolher número reduzido de convidados, ao promover uma festa em casa, os anfitriões passam a excluir amigos ou conhecidos da lista, privilegiando pessoas ligadas a seu meio que podem lhes oferecer melhores oportunidades de emprego no futuro.</p>
<blockquote><p>*A manutenção de contatos que podem, em algum momento da vida, facilitar uma melhor colocação do profissional no mercado de trabalho.</p></blockquote>
<p><strong>Trabalhar menos é out</strong><br />
Quarta-feira, às 11 da noite, portaria do prédio do seu escritório.  Na roda de conversa entre amigos que se encontraram por ali, é vergonha dizer que trabalhou menos.  Ganha conceito alto no grupo aquele que não teve tempo para almoçar.  Admite-se, no máximo, um sanduíche.  Mesmo assim, lá pelas 4 da tarde.  Nada de sair do escritório às 6, depois de 8 horas de jornada.  Amigo digno de respeito saiu às 9, 10 da noite.  E haja cafezinho.</p>
<p>A tecnologia agilizou processos na indústria, permitiu avanços na medicina, facilitou a comunicação das pessoas, entre diversos benefícios.  No entanto, a expectativa de que o tempo economizado na realização das tarefas se refletisse em menos trabalho não surtiu efeito.  Essas horas foram preenchidas com mais trabalho, exigindo maior esforço do ser humano.</p>
<p>Além disso, o desenvolvimento trouxe laptops, telefones celulares, internet sem fio.  Recursos que permitem ao trabalhador estar conectado a seus afazeres 24 horas.  Assim, ele passou a ter ainda menos tempo “livre”.</p>
<p>Na França, houve gente se matando de tanto trabalhar.  Entre fevereiro de 2008 e outubro de 2009, a France Telecom anunciou suicídio de 25 empregados.  Os sindicatos do país culparam as condições de trabalho oferecidas e a reestruturação da companhia, que levou à saída de 22 mil funcionários entre 2006 e 2008.  Diante do quadro, o governo de Nicolas Sarkozy obrigou empresas com mais de mil empregados a ter planos de combate ao estresse.</p>
<p><strong>A tampa do vaso sanitário </strong><br />
Como destaca o professor Ladislau Dowbor, da Pós-Graduação em Economia e Administração da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), participamos de uma “corrida global de ratos”.  A mentalidade competitiva faz um correr na frente do outro, sem se importar com quem ficou para trás.  “A necessidade de produzir e consumir mais leva ao endeusamento da competição e ao individualismo.  Todavia, nos EUA, existem pesquisas indicando que, depois de o valor do PIB alcançar certo nível, a percepção de satisfação com a vida permanece inalterada, ou declina”, diz.</p>
<p>Um dos antídotos, segundo ele, é a evolução para uma sociedade colaborativa, em que o conhecimento vale mais que os bens materiais.  Exemplo: “Se eu tiro um bem material de alguém, ele fica sem.  Se eu tiro conhecimento, essa pessoa continua com ele e nós dois juntos geramos mais conhecimento ainda”.  É uma relação de colaboração, que a sociedade moderna, apegada ao modelo mental competitivo, ainda precisa desenvolver.</p>
<p>Dowbor conta que há algum tempo foi comprar uma tampa de vaso sanitário e se deparou com 586 modelos diferentes, na loja.  E acrescenta o exemplo de incontáveis modelos de carro, como poderia usar o de roupas, calçados ou geladeiras.  “Você não tem mais consumo pela utilidade, mas pela construção de outros tipos de valores.  Eu não preciso escolher entre 586 modelos de tampa de privada”, avalia.</p>
<p>O excesso de consumo e produção vem levando não apenas ao desgaste do ser humano, com seu tempo perdido em tantas escolhas inúteis, mas ao esgotamento dos recursos do mundo.  Aumento nos casos de doenças do coração, problemas gástricos e depressão.  Desequilíbrio climático, poluição generalizada, ex-tinção acelerada de espécies.  Um cenário que nos leva a pensar em alternativas que permitam continuar viáveis a vida e o bemestar da humanidade.</p>
<p>No livro The Overworked American: the unexpected decline of leisure (na tradução, algo como “O Americano Sobrecarregado: o inesperado declínio do lazer), de 1992, a professora do departamento de Sociologia da Boston College Juliet Schor observa que, entre 1948 e os primeiros anos da década de 1990, o nível de produtividade do trabalhador americano mais do que dobrou.  Em suas palavras, “poderíamos agora alcançar nosso padrão de vida de 1948 (medido em bens e serviços comercializados) em menos da metade do tempo usado naquele ano.  Poderíamos ter escolhido a jornada de quatro horas.  Ou um ano de trabalho que durasse seis meses”.</p>
<p><strong>A jornada ideal</strong><br />
Quinta-feira, meio-dia e quarenta, você encontra espaço na agenda para almoçar.  Procura, na empresa, um colega para dividir a mesa.  José Carlos, do Financeiro, está no telefone.  Renata, da Controladoria, em reunião.  Fátima, da área de Recursos Humanos, entrevistando um candidato a estagiário.  Todos ocupados.  Resta-lhe ir sozinho ao restaurante.  Na TV do estabelecimento, uma reportagem sobre redução de jornada de trabalho.</p>
<p>Não sem polêmicas entre patrões e empregados, os franceses puseram em prática uma lei que estabeleceu jornada de 35 horas semanais, em 1998, no governo socialista do então primeiroministro Lionel Jospin.  Dez anos depois, Nicolas Sarkozy considerou a lei como “catástrofe generalizada para a economia francesa”.  E a França aprovou uma novidade.  A legislação atual mantém as 35 horas, mas permite a cada organização incrementar o tempo de trabalho, desde que isso seja feito mediante acordo dos empresários com os sindicatos.</p>
<p>Na sociedade brasileira, enquanto uma parte da população não encontra tempo para realizar algo além de trabalho, outros milhões de pessoas estão desempregadas.  Em vez de privilégio, o ócio vira preocupação.  “Há um desequilíbrio na repartição do tempo de serviço.  Enquanto 45% dos trabalhadores têm jornadas superiores a 44 horas semanais, que crescem com horas extras, outra parte fica parada”, aponta Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).</p>
<p>Hoje, discute-se no Brasil a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, com aumento do custo da hora extra, de 50% para 75%, e sem diminuição dos salários.  Uma das apostas dos trabalhadores é que, em vez de pagar hora extra, as companhias abririam novas vagas.</p>
<p>Segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), dessa maneira um milhão de postos de trabalho poderiam surgir, dentro do total de 2,5 milhões de oportunidades que a redução da jornada criaria.  Ainda de acordo com o Dieese, com a aprovação da lei trabalhista, o custo total da produção industrial aumentaria apenas 1,99%.  No debate, há empresários que não preveem aumento do número de empregos nem aumento baixo de custos.</p>
<p>Independente dos argumentos contra ou a favor de soluções criadas para reduzir os índices de desemprego, o sociólogo Rafael Osório, pesquisador do Ipea, lembra que a definição das 8 horas de trabalho, 8 horas de descanso e 8 horas de lazer vem de uma época em que a própria inserção das mulheres no mercado de trabalho era diferente.  “Quando mais mulheres entram no mercado, a oferta de tempo que a classe de trabalhadores tem a oferecer à empresa aumenta, mas o tempo disponível para o cuidado com o lar diminui”, ressalta.</p>
<p>Assim, há uma tendência de aumentar a participação masculina na realização de tarefas caseiras, embora ainda ocorra aí um desequilíbrio.</p>
<p>Rafael é um dos autores de um estudo sobre o tempo dedicado por homens e mulheres ao trabalho doméstico, não remunerado; e ao trabalho fora de casa, que garante o salário do empregado.  A análise considerou o caso da Bolívia, onde, com base nos números da pesquisa, as mulheres tendem a ter uma jornada, no lar e no local de trabalho somadas, mais de três vezes maior do que a dos homens.  A questão existe em outros países, em menor ou maior grau, sendo influenciada, fortemente, pela cultura de cada um.</p>
<p>Em nações do Norte da Europa, o Estado provê serviços eficientes, como creches, que facilitam a vida dos pais.  No Brasil, os casais de classe média e alta “compram o tempo” dos empregados domésticos, na maioria mulheres, para o cuidado com a prole.  “Há empregados domésticos que também têm filhos pequenos, mas, sem orçamento, precisam se virar para deixá-los com alguém e ir para o trabalho.  Eles não têm nem tempo de buscar o filho na escola, na hora do almoço.  Por isso, a escola de tempo integral é importante”, analisa o sociólogo.</p>
<p>As tarefas divididas pelos donos da casa e os empregados domésticos são mais importantes do que podem parecer.  Por exemplo, a cultura da valorização do estudo e do trabalho, para o alcance do crescimento pessoal e profissional, é disseminada na escola; porém, principalmente, no lar.</p>
<p>A formação do futuro trabalhador, o sustento da mão de obra que chega diariamente às estações de trabalho e o bem-estar do ser humano são providos, em grande parte, pelo esforço realizado em casa.  Atividades como ajudar na lição que os filhos trazem do colégio, preparar o jantar, passar roupa, limpar o quarto.  Atualmente, essas tarefas não são somadas ao PIB.  “Há correntes que buscam quantificar essas ações.  Verificar quanto custaria lavar roupa durante quatro horas, na semana.  Por que a gente não inclui no cálculo a produtividade doméstica, se ela também gera valor?”, questiona Rafael.</p>
<p><strong>O valor do seu tempo</strong><br />
Sexta-feira, seis e meia da tarde, hora de deixar o escritório.  De acordo com uma pesquisa realizada entre agosto e setembro de 2009, pelo Movimento Nossa São Paulo, em parceria com o Ibope, o paulistano gasta 2 horas e 43 minutos no trânsito, todo dia.  Isso inclui a ida ao trabalho e a volta, bem como o que se despende no trajeto para compras ou diversão.  É parte do que o professor Ladislau Dowbor, da PUC-SP, considera como tempo social, dedicado às tarefas necessárias para cuidarmos da vida dentro e fora do trabalho.</p>
<p>No livro Democracia Econômica, Dowbor calcula o valor desse tempo.  Tirando o tempo de uso individual, como sono e convívio familiar em casa, suponha que o tempo social seja de 12 horas diárias.  São 60 horas por semana.  Em 52 semanas (daí subtraem-se quatro, de férias), o resultado é de 2.880 horas “comerciais” no ano.  Ao se considerar um PIB de US$ 700 bilhões, para uma população de 180 milhões, tem-se PIB per capita de US$ 3.900.</p>
<p>O PIB per capita dividido pelas 2.880 horas dá US$ 1,35/ hora, o valor de sua hora “ativa”.  “Digamos que uma rede ampla de metrô economizasse meia hora do tempo médio de deslocamento do paulistano economicamente ativo, cerca de 5 milhões de pessoas.  Seriam 2,5 milhões de horas economizadas por dia, o que multiplicado por US$ 1,35 significaria uma economia diária da ordem de US$ 3,4 milhões.  Isto por sua vez implica que cada 30 dias pagariam a ampliação de um quilômetro deste meio de transporte”, escreve o professor.</p>
<p>Dowbor cita também estatísticas de que cada 10 minutos a mais gastos no tempo diário de transporte individual para o trabalho reduzem o envolvimento comunitário em 10% – “menos participação em reuniões públicas”, por exemplo.</p>
<p>No sábado e no domingo, se o leitor tiver tempo, pode conferir no site de Página22 as dicas de José Eduardo Balian, professor do curso de Gestão e Administração do Tempo, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).  Ele fala sobre como organizar melhor a sua agenda.  Além disso, há a história de profissionais que se dividem entre um cotidiano acelerado no trabalho e a vida particular.</p>
<p>Aproveite.  Pois segunda-feira, às 9 da manhã, volta ao escritório.  Você torce para os cinco dias seguintes passarem voando, até que possa respirar sábado e domingo de novo.  Olha o calendário.  Às vezes, olhar o calendário é calcular.  Durante o ano, são 52 semanas, menos as quatro de férias.  O resultado final é um indivíduo 48 semanas apressado.  Cada tarefa riscada na agenda significa o surgimento súbito e inexplicável de outras duas, três, quatro.  O monitor do computador está lotado de post-its amarelos.  A sua testa franzida estaria livre para colar mais um, não fosse ali já anunciado pelas rugas: ocupado.  Quem dá conta?</p>
<p><a href="http://pagina22.com.br/index.php/2010/02/tempo-mais-rapido-ou-mais-devagar/" target="_blank"><strong>Acesse aqui as dicas de gestão de tempo de José Eduardo Balian (ESPM-SP) e outros relatos de profissionais</strong></a></p>
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		<title>Dar-se um tempo</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Feb 2010 16:55:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Relatos de quando a retirada é a melhor forma de se fazer presente
&#8220;Se você quer um peixe pequeno, pode pescar em água rasa. Mas, para algo maior, terá de ir buscar em águas profundas&#8221;
(David Lynch, cineasta americano, praticante da meditação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><a href="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/02/sabatico.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-6057" title="sabatico" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/02/sabatico-146x198.jpg" alt="sabatico" width="146" height="198" /></a>Relatos de quando a retirada é a melhor forma de se fazer presente</em></p>
<blockquote><p>&#8220;Se você quer um peixe pequeno, pode pescar em água rasa. Mas, para algo maior, terá de ir buscar em águas profundas&#8221;<br />
(David Lynch, cineasta americano, praticante da meditação há 35 anos, duas vezes por dia)</p></blockquote>
<p>O não sincronismo entre os ritmos do capitalismo e o da manutenção e regeneração da vida na Terra ecoa, primeiro, dentro de cada um.  Num disparate entre os ritmos internos e externos, podemos pensar que acumulamos diferenças diariamente (como a que existe entre o prazo que me pressiona a escrever esta matéria versus meu desejo/necessidade de convivência maior com as fontes ouvidas, num outro lugar e com mais tempo).  Para transpor as experiências colhidas, pratiquei meia hora de uma técnica de meditação.  Que tempo é esse que me permiti?  Sair minimamente das demandas e condicionamentos que me deixavam ansiosa, o prazo, o barulho da rua (fechei as janelas), o correio eletrônico, e me conectar comigo.</p>
<p>Tempos maiores ou menores nosso corpo pede, há chamados ao longo da vida, resta saber se vamos atendê-los – ou se podemos atendê-los.  Essas suspensões ou mergulhos para uma volta mais equilibrada, numa outra direção, ou para um simples bem-estar podem ocorrer de várias formas.</p>
<p>A pressa está aí, os estímulos múltiplos e simultâneos da informação, da tecnologia e do consumo parecem que nos vão paralisar ou então nos deixar bem loucos.  Página22 foi atrás de histórias de quem submergiu em outros tempos, maiores ou menores, em buscas pessoais e profissionais.  Anos sabáticos*, retiros espirituais ou a inserção da meditação no meio de um dia.  As empresas e instituições também têm aderido a essas práticas.  Para questões cada vez mais complexas, as soluções pedem mergulhos na intuição, momentos de silêncio e, então, a criação, como veremos a seguir.</p>
<blockquote><p>*O termo é derivado de &#8220;sabá&#8221;, o qual vem do hebraico <em>shabbath</em>, que no Gênesis refere-se ao descanso do sétimo dia, após os seis dias de trabalho na criação do mundo. A palavra assemelha-se ao verbo <em>shavat</em>, que significa &#8220;cessar&#8221;.</p></blockquote>
<p>Tem gente que o sabático mudou até o nome.  Fábio acrescentou o “Novo” – permanentemente – ao seu nome depois de três anos em plena ação para mudanças de vida.  Ele se deu dois anos sabáticos.  “Foram situações em que estava fora de sintonia comigo e pude me realinhar com esses tempos e espaços e definir o que fazer a partir daí.”</p>
<p>O ano sabático, grosso modo, seria um período em que a pessoa não trabalha, viaja e pensa na vida.  (Mesmo depois de “meditada”, foram várias interrupções, a faxineira, o telefone, presente, passado, futuro, como é difícil concentrar-se aqui).  Desprogramar, descondicionar, deixar de vez velhos preconceitos, hábitos, crenças é o caminho normalmente perseguido pelos sabatizados.</p>
<p>Na primeira vez, Fábio tinha um cargo importante numa empresa de celulose, com grandes responsabilidades, quatro anos sem férias.  Em um determinado momento, percebeu que as pessoas em volta falavam coisas que não lhe interessavam.  O que estou fazendo aqui?  Qualosentido disso tudo?  Então seguiu o chamado e passou um ano em Nova York, tinha claro que queria estudar novas mídias, aprofundar-se naquele momento de boom da internet, 1997. Não trabalhou, mas estudou e foi atrás da intuição daquela hora.  “Já que a ideia é ter abertura, muitas vezes a pessoa não faz um roteiro e acaba se perdendo. É bom ter a abertura, mas planejar um pouco, não soltar totalmente e se planejar financeiramente”, aconselha.</p>
<p>Em práticas como a <a href="www.reospartners.com" target="_blank">Teoria U</a>*, aplicadas na busca de soluções em empresas, projetos, grupos, o mergulho interno é fundamental, em que são usadas técnicas de meditação, relaxamento, mas o externo e prático têm importância equivalente.  “É preciso conhecer a realidade, há um momento de imersão e silêncio para uma volta criativa, ativa, colaborativa”, explica a representante do programa Reos no Brasil, Mille Bojer.  O Reos se inspira na <a href="www.ottoscharmer. com" target="_blank">Teoria U</a> em suas práticas.</p>
<blockquote><p>*O professor do Massachusetts Institute of Technology Otto Scharmer entrevistou dezenas de líderes das mais diversas áreas para entender melhor as inovações do século XXI, a tomada de decisões e as soluções para problemas complexos. O resultado é a criação da Teoria U, que tem sido adotada por empreendedores e organizações.</p></blockquote>
<p>Na volta a São Paulo, Fábio tinha algumas clarezas: trabalhar com comunicação, público jovem, ambiente mais leve, juntar música, cultura e, de preferência, perto de casa.  Cheio de gás e determinação, foi bater na MTV com um projeto sobre redes sociais, fruto da experiência acumulada no sabático.  Passou três felizes anos na diretoria de marketing e internet da rede de televisão, “um período realizador, divertido, bacana”.</p>
<p>Até que bateu a insatisfação.  Tirou férias e foi para Caraíva, na Bahia, mas não queria voltar.  “As férias são como minissabáticos, por isso o mal-estar generalizado da volta.  Você experimenta uma conexão maior consigo por um pequeno período e, de volta pra casa, os desajustes parecem saltar na sua frente.”</p>
<p>Chamada para o segundo sabático.  O primeiro teria sido uma aproximação muito boa com o que ele desejava, mas o modelo de vida permanecia mais ou menos o mesmo e a intuição pedia mais.  “O segundo foi abandonar radicalmente tudo e me jogar numa viagem que eu não fazia ideia do que seria, tanto geográfica como internamente.”</p>
<p>E o medo?  “Na hora não tive, foi uma coisa incontrolável, fiquei com uma mochila e fui.  Tive medo no meio, estava na Ásia, e me perguntei o que estava fazendo.  Tive receio de perder o fio da meada.  Às vezes, por causa do medo, a gente dá um upgrade no software, mas não troca o sistema operacional, sabe?  Nesses processos, é tudo ou nada.”</p>
<p>Dos 37 aos 40 anos, Fábio foi atrás de um sentido.  “Tive muita ajuda, fiz diversos retiros de meditação, yoga, taoismo, estudei budismo, pratiquei budismo, fiz trabalhos psicoterapêuticos, de respiração, massagens, trabalho corporal, vários tipos de trabalho energético, viagem astral, fui estudando e escrevendo.  Tinha livros e cadernos, basicamente.  Aluguei o loft onde morava para uma escola de yoga, tive o insight que ia demorar, que eu precisaria de um tempo e não aguentaria trabalhar.  Vivi nesse período muito modestamente.”</p>
<p>Sem olhar o extrato bancário e disposta a extrair o maior prazer possível da existência foi como a consultora de comunicação Maria Eugênia Stievano passou o ano de 2007.  Antecederam o sabático pressões de toda ordem: saiu do emprego fixo e diário, separou-se do marido, morreu o melhor amigo e, em seguida, uma hérnia cervical a obrigou a ficar quatro meses de cama.  “Não podia me mexer, não conseguia ler nem andar, só olhava para o teto.” Aí começava seu ano sabático.  Tirando a dor, o repouso forçado mudou a relação de Maria com o tempo e deu o click da urgência de mudança.  “Tinha que mudar minha forma de vida e decidi escrever um livro sobre loucura, prazer e liberdade como valores, não como comportamento.  Para isso, eu precisava sentir prazer, ter tempo e não podia trabalhar.  Para não acabar com minhas economias, decidi fazer viagens curtas e absorver o máximo de prazer de cada uma: comida, cultura, amigos.” Como uma Elizabeth Gilbert* “brazuca”, Maria Eugênia passou a degustar a vida nos mínimos momentos.  Os amigos riam, não entendiam muito bem aquele modelo de sabático.</p>
<blockquote><p>*Autora norte-americana de <em>Comer, Rezar, Amar</em>, em que narra suas viagens pelo mundo em busca de autoconhecimento e felicidade</p></blockquote>
<p>Ela voltou a trabalhar aos poucos, negou empregos, explicava que a vida tinha mudado.  As decisões passavam por trabalhar por conta própria, com gente que quer trabalhar, entusiasmada.  E, se sua experiência com o senhor Tempo tinha sido tão transformadora, por que não ajudar as pessoas a lidar com isso também?  Hoje ela gosta de dizer que é uma consultora do tempo.  Tempo de falar, de recuar, de medir, de pausar, de comunicar – não é isso que faz um consultor de comunicação?  (Angústia, sinto que o tempo das páginas será pequeno.)</p>
<p><strong>Hora de emergir</strong><br />
Fábio voltou do sabático fazendo trabalhos voluntários, aos poucos, integrando todas as informações e reflexões colhidas, conectou-se ao Terceiro Setor e definiu-se terapeuta.  “Pessoal, estou voltando ao planeta Terra”, anunciou.  A casa antes alugada para uma escola de yoga – o que lhe garantiu custear os anos sabáticos – foi retomada em compartilhamento e se transformou num espaço que oferece múltiplas técnicas de meditação, yoga, autoconhecimento, direcionamento pessoal e profissional.  Um espelho da jornada do agora Fábio Novo.</p>
<p>Foi ele quem introduziu a meditação na vida de Rodrigo Bandeira de Luna.  Por meio de cores e imagens, ele induz o pensamento em três momentos durante o dia e garante que, quando “volta”, está mais em paz e consegue agir mais conscientemente.  “A meditação elimina o desperdício de energia e de informação.  Ela me mostra qual é a minha, o meu papel consciente.  O que é realmente importante aparece depois da meditação.  Se estou em paz, transmito para o ambiente onde estou”, explica Rodrigo.</p>
<p>Há preconceito em relação a ouvir a intuição ou assumir práticas espiritualizadas, concorda Mille Bojer.  “Mas o importante é que existe o lado prático disso tudo.  As soluções antigas não funcionam mais, quem se envolve nesses projetos e práticas tem a sensação de que é preciso algo novo.  Essas pessoas partem de um desconforto com o status quo.  Muitos são céticos, mas, se você oferece o es paço de mudança, elas percebem que podem chegar aonde desejam”, afirma.</p>
<p>Mas espaço e tempo é só para quem pode?  Quer dizer, só classes sociais abastadas se dão esse direito?  Fábio acredita que não.  “É humano, cósmico e universaloquestionamento.  Todos nós em algum momento da vida, pelo menos uma vez, teremos essa abertura, esse chamamento, isso transcende o nível intelectual e social.”</p>
<p>Lembrando aqui, nos “finalmentes”, que Fábio, Maria Eugênia, Mille e Rodrigo usam e abusam da tecnologia.  “Você pode estar com a vida aparentemente igual, com carro, casa, iPhone e todo o aparato tecnológico: o que muda é o nível de consciência, estou conectado com tudo, mas, primeiro, comigo.”</p>
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		<title>A estação da política</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Feb 2010 15:57:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Sem sinais de arrefecer, o patrimonialismo dita a lógica e o tempo da tomada de decisões na esfera pública
Uma tradição persiste no Brasil e renasce de sua hibernação cíclica neste ano.  É o que se chama popularmente de &#8220;tempo da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><a href="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/02/analise.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-6044" title="analise" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/02/analise-206x198.jpg" alt="analise" width="206" height="198" /></a>Sem sinais de arrefecer, o patrimonialismo dita a lógica e o tempo da tomada de decisões na esfera pública</em></p>
<p>Uma tradição persiste no Brasil e renasce de sua hibernação cíclica neste ano.  É o que se chama popularmente de &#8220;tempo da política&#8221;, como se fosse uma estação da natureza.  Como o tempo do pequi, da jabuticaba, da manga, é certo que virá.  Significa que é chegado o período eleitoral, a chance para conseguir algo em troca do voto.  É a hora de barganhar com os candidatos vantagens que vão desde promessa de emprego a pequenos presentes ou mesmo dinheiro vivo.  É a política vista apenas como porta de acesso a benesses, o que ajuda a explicar por que, passada a eleição, a fiscalização direta dos eleitores sobre os eleitos seja insignificante.</p>
<p>Explica também por que políticos de ficha sujíssima se reelegem com frequência e facilidade e continuam a fazer da atividade política o seu negócio particular.  O &#8220;tempo da política&#8221; na sua forma mais crua e simplória – os famosos óculos, dentaduras, botinas, cestas básicas – é visível a olho nu nas regiões que a arrogância centralista do Sul-Sudeste gosta de chamar de grotões, mas viceja também em grotões mais elegantes e complexos, mas não menos grotescos, onde vez ou outra é pilhado e descrito em inquéritos da Polícia Federal, em investigações do Ministério Público ou em CPIs.  Sem resultados entusiasmantes, aliás.</p>
<p>O cerne dessa cultura é o patrimonialismo, que não dá sinais de arrefecer no País – a não ser em nichos ainda sem força para se capilarizar – e é decisivo na formação da lógica e do tempo do processo de tomada de decisões na esfera pública, no qual interfere de maneira agressiva e com alta capacidade de erosão de políticas públicas, tanto na sua elaboração quanto na implementação.</p>
<p>Inúmeros fatores fazem parte do mesmo pacote.  O uso indevido da estrutura e do orçamento públicos, nas três instâncias (municipal, estadual, federal), é um deles.  Nos Estados Unidos, os cargos em comissão na esfera federal não passam de 9 mil; no Brasil, são mais de 20 mil.  São aqueles cargos de livre indicação dos ocupantes de postos de poder, ou seja, onde se acomodam, ao lado de pessoas efetivamente competentes, a multidão de apadrinhados de políticos e partidos que, em última instância, servem aos projetos de poder de seus contratantes.  Faltam profissionalismo, visibilidade e accountability* às estruturas públicas.  O enorme fosso entre o que é dito e o que efetivamente aparece materializado em políticas contínuas e coerentes não gera responsabilizações e punições, nem mesmo a decantada punição das urnas.</p>
<blockquote><p>*Prestação de contas ao público e adoção de práticas de transparência, com o intuito de combater o mau uso do poder</p></blockquote>
<p>Outro fator é a descontinuidade de programas e projetos que a cada nova eleição passam pelo crivo não de sua pertinência do ponto de vista do bem comum, mas da necessidade do novo ocupante do posto, de depreciar politicamente o antecessor e, portanto, sua obra.  Muitas vezes, iniciativas construídas junto com a sociedade, que conseguiram superar inúmeras dificuldades logísticas, técnicas, metodológicas e estão prontas para se transformar em padrões de eficiência em termos de política pública, caem no vazio, são desidratadas e encostadas como entulho do governo anterior.</p>
<p>O que faz com que o tempo da elaboração e implementação de políticas seja, em geral, algo gelatinoso e imponderável, cheio de idas e vindas, incapaz de consolidar mudanças de longo prazo, na briga interminável contra o tempo manipulador da política partidário-eleitoral.</p>
<p>Há ainda as características da decisão legislativa.  Quando não é inacreditavelmente veloz, e polêmica, chega ao tempo surreal de décadas para analisar e votar um projeto de lei.  Para ficar num exemplo, o projeto de acesso à biodiversidade brasileira e repartição dos benefícios dela decorrentes espera desde 1995 por uma decisão do Congresso e do Executivo, o qual, em inúmeras ocasiões, usou sua força para impedir que a tramitação fosse adiante.</p>
<p>Se levarmos em conta que o Brasil procura ostentar diante do mundo uma liderança ambiental para os novos tempos de aquecimento global, não ter uma política para seu principal trunfo é mais do que incongruência.  É demonstração de que o tempo da construção de políticas públicas não é definido pela sociedade e suas necessidades.  Ele é função de relações que têm vida própria, descolam-se dos instrumentos democráticos de legitimação e controle e se bastam em suas razões próprias e nem sempre claras.</p>
<p>Afirmar que isso não se dá só no Brasil não resolve muito.  A diferença é que está ao nosso alcance interferir apenas no que acontece aqui e muitos brasileiros, individualmente ou de forma organizada, têm tentado enterrar a maldição do patrimonialismo.  Será que um novo tempo vai chegar?  Pode ser, mas não será por sorte nem acaso.  Temos de lutar contra a lógica que contamina até nosso dia a dia, de maneira imperceptível.  Mas é preciso admitir que é muito cansativa essa batalha e, às vezes, parece tarefa impossível.</p>
<p>*Jornalista e socióloga</p>
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		<title>O tempo amazônico esgotou-se?</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Feb 2010 15:38:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Novas ondas temporais invadem espaços imprevisíveis. O sertão era o limite entre a casa e o mato, entre o mito e o conhecido.  Hoje é definido pelo alcance do celular
O Homem é esse macaco indeciso, que pula da árvore “pretéritomais- [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Novas ondas temporais invadem espaços imprevisíveis. O sertão era o limite entre a casa e o mato, entre o mito e o conhecido.  Hoje é definido pelo alcance do celular</em></p>
<p>O Homem é esse macaco indeciso, que pula da árvore “pretéritomais- que-imperfeito” para a árvore “futuro-mais-que-perfeito”, sem ter certeza do que quer.</p>
<p>Desperdiçamos as oportunidades de dar a volta por cima e aprender com a Amazônia, sua gente e natureza.  Se é inalcançável retornar ao tempo histórico, em que a natureza nos impunha respeito, quando se mediam viagens em marés, e anos em cheia e seca, é possível aprender suas lições.</p>
<p>A cada shopping center em Belém, distanciamo-nos do tempo amazônico.  Porque neste templo do tempo tudo é controlável e previsível – o frescor, a luz, não há brechas para surpresas.  O Homem acredita-se protegido ao controlar o “tempo” com o controle remoto do ar-condicionado.  Lá fora, “no tempo”, no espaço expandido e indomável, as marés seguem sua vigília, as temperaturas banho-mariam em seu calor, e as chuvas galgam as valas abertas pelo homem e os bois-dos-homens.</p>
<p>Somos capazes de esquecer hábitos milenares, como a sesta, quando o corpo se entrega à natureza e há imediata recompensa.  No “tempo presente-infinito”, trocamos a exigência do corpo por mil afazeres que nos impomos na vida moderna.</p>
<p>Há menos de meio século, a Amazônia se denominava “O Vale”, “O Vale Amazônico”.  Amazônia é invenção recente, de quem não tem tempo para pronunciar frases que enunciam circunstâncias.  Perdemos ao trocar os nomes das gentes, das coisas e dos tempos em tupi e em diversas línguas de povos originais por marcas internacionais rastreáveis e registráveis (e descartáveis).  Não ser encontrável é parte da essência da natureza.  Pior, hoje nos contentamos com apelidos, siglas e abreviações, cada vez mais breves.</p>
<p>Ao lado das majestades-cidades, monstroscidades, flutuam aqueles à baila do tempo, que não alcançam acertar os ponteiros para seguir os códigos da sobrevivência na labutacidade.  Em Belém, são os ribeirinhos das outras margens, invisíveis, deserdados, sem permissão.  O que para alguns são pitorescas paisagens verdes constitui-se no viver de milhares de pessoas.  E porque tudo o que produzem vem do “tempo”, da “rua”, nada tem valor – o peixe, o camarão, a farinha, o cesto, a fruta.  Mesmo o açaí, recém-descoberto, não lhes cobre a conta.</p>
<p>E as ondas do “tempo” invadem os espaços mais imprevisíveis.  A noção de sertão é ditada pela capacidade de alcance do telefone celular e do mapa do Google.  Se na deserta praia é possível falar ao celular, o encanto oferecido pela imensidão, a maré de mais de 5 metros e a explosão de luz parecem desaparecer, uma vez que o “tempo” se oferece para o controle.</p>
<p>Antes, o sertão era o limite entre a luz e a sombra, entre a casa e o mato, entre o mito e o conhecido.  O mito, a tradição oral, delimitava, de maneira graciosa (e apavorante).  À medida que as ondas dos televisores e celulares iluminam as casas, os mitos se acanham.  Se antes menino não ia pra beira do lago pra cobra-d’água não o engolir, agora nada parece amedrontá-lo.  O tempo da Mãe-d’água, do Mapinguari, do Boto extravia-se para os mais recônditos lugares.</p>
<p>Se Belém agendava seus encontros no tempo “do antes da chuva” e “do depois da chuva”, hoje o “tempo” se rege para antes ou depois do trânsito pesado de veículos.  Ao fechar o vidro e acionar o ar-condicionado não dispomos de tempo para a maré, o vento, o sol, a passagem das garças e urubus.  Difícil é reconhecer limites, ou melhor, difícil é encontrar a convivência entre homem e natureza, entre casa e rua.</p>
<p>O Brasil tropical (quatro quintos do País estão nos trópicos) não foi feito para servir, deliberadamente, ao tempo.  São Paulo, por exemplo, é indecisa, entre os dois lados da linha de Capricórnio.  De um lado, a cobra-grande nos exige um pouco mais de imaginação, menos ganância e mais tempo, para não dizer limites: que ali não se deve chegar, que a partir desse ponto se corre perigo.  De outro, estamos mais que cientes que o tempo torna a vida insossa, monótona, previsível; é como saber o cardápio de segunda-feira do mês que vem do intolerável restaurante industrial.</p>
<p>Aos viajantes que visitaram a Amazônia, o que mais impressionou foi o descompromisso com o “tempo”, o desinteresse em se prevenir diante do amanhã.  Quando arguido como faria amanhã se não houvesse peixe, o caboclo retrucava: se não conseguisse o alimento, certamente seria porque estava “panema”.  Pleno de significados é este termo “panema”.  Resumidamente, pode-se entender como “sem sorte”.  Confiante, o caboclo seguiria adiante, até se ver livre da panema.  Seguiria alguns rituais, jejuns, rezas, ditados, banhos de cheiro, até que recobrasse a sua “sorte”, o seu “tempo”.  Destarte, bem ou mal, o caboclo aprendeu a viver a “casa” e a “rua”, o “tempo” e a “natureza”.</p>
<p>Antes de pular para o próximo galho da evolução, o homem deveria maquinar se não haveria um “presente-mais-que-presente”, carente de compreensão, tal qual a natureza humana, binômica, homem-natureza, sem aspas&#8230;</p>
<p>*Dirige o Instituto Peabiru, em Belém, e é autor de Grandes Expedições à Amazônia Brasileira (Metalivros) e O Livro de Ouro da Amazônia (Ediouro)</p>
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		<title>Tempo + tempo = clima</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Jan 2010 09:32:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Flavia Pardini</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Austrália]]></category>
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		<category><![CDATA[mudanças climáticas]]></category>
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		<description><![CDATA[Todo mundo sabe que não se deve usar um evento isolado, como uma mera onda de calor, para argumentar que a mudança climática é real e bate à nossa porta. Mas desde que cheguei de volta à Austrália, há 10 [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.visibleearth.nasa.gov/view_rec.php?id=590"><img class="alignleft size-medium wp-image-5892" title="http://www.visibleearth.nasa.gov/view_rec.php?id=590" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/01/PIA00729_md-204x198.jpg" alt="http://www.visibleearth.nasa.gov/view_rec.php?id=590" width="204" height="198" /></a>Todo mundo sabe que não se deve usar um evento isolado, como uma mera onda de calor, para argumentar que a mudança climática é real e bate à nossa porta. Mas desde que cheguei de volta à Austrália, há 10 dias, tem sido difícil manter isso em mente. A previsão do tempo para ontem era de sol e calor. Para hoje, sol e muito calor. Ontem foram 35 graus, hoje, 38. Dias atrás, lavei uma batelada de roupa e estendi no varal. Em menos de uma hora, estavam todas secas. Trata-se da estação seca por aqui –  há mais ou menos 60 dias não cai uma gota de água do céu – e minha horta não viveu para contar a história. Dentro de casa, sem isolamento térmico ou ar-condicionado, o efeito estufa rola solto – no meu delírio calorífico, apenas um aperitivo para o que trarão as mudanças do clima.</p>
<p>Há uma grande diferença entre tempo – cuja previsão corremos, ou pelo menos eu corro, para checar todos os dias no jornal ou na web – e clima. <a href="http://www.nasa.gov/mission_pages/noaa-n/climate/climate_weather.html" target="_blank">Segundo a Nasa</a>, a diferença é uma medida de tempo. A meteorologia trabalha com mudanças de curto prazo – de minutos a meses – na atmosfera, por exemplo aquelas que fazem a roupa do varal secar, ou não, em minutos. Já os climatologistas estudam os padrões médios do tempo em uma determinada região durante um longo período, em geral mais de 30 anos.</p>
<p>Pois bem, aqui na Austrália, tempo e clima parecem estar em sincronia. O ano de 2009 foi o segundo mais quente desde 1910, <a href="http://www.bom.gov.au/announcements/media_releases/climate/change/20100105.shtml">anunciou o Bureau de Meteorologia</a> no início de janeiro. Desde os anos 40 do século passado, cada década tem sido mais quente do que a anterior e a de 2000 a 2009 bateu todos os recordes. Na análise das temperaturas diárias desde 1960, o Bureau detectou tendência crescente no número de eventos “quentes” e decrescente no de eventos “frios”, o que é “consistente com o cenário de mudanças climáticas”.</p>
<p>Apesar dessa sincronia, ainda tem muito australiano que desconfia dos climatologistas. Em uma conferência no ano passado, uma representante do Bureau de Meteorologia contou que, no contato com as comunidades rurais em Western Australia para informá-las sobre as mudanças climáticas, é primeiro preciso responder a um sem-fim de perguntas sobre como vai ser o tempo no dia seguinte ou daqui a uma semana. E um pesquisador da Curtin University apresentou dados que mostram que a maioria dos agricultores do estado não acredita que as mudanças climáticas sejam decorrentes das atividades humanas.</p>
<p>Confesso que minhas boas ações ambientais durante o resto do ano se esvaem no verão: tudo o que quero é um ar-condicionado. Mesmo sabendo que provavelmente o conjunto de todos os ares-condicionados funcionando em pleno vapor no verão australiano só contribui – embora esteja longe de ser o fator mais importante – para que os verões fiquem cada vez mais quentes. E assim vamos vivendo hoje o tempo que será o clima de amanhã – aqui e alhures. Da minha estufa particular, acompanho de longe o drama semelhante que se desenrola em São Paulo com tanta chuva em 2009 e nesse primeiro mês de 2010.</p>
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