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	<title>Página 22 &#187; Perth</title>
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	<description>Informações para o novo século</description>
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		<title>Do outro lado</title>
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		<pubDate>Fri, 11 Sep 2009 19:32:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Flavia Pardini</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;"><img class="size-medium wp-image-2029" title="flavia_dooutrolado" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2009/09/flavia_dooutrolado-272x198.jpg" alt="Privada dual flush" width="272" height="198" />Para quem acha que canguru é a coisa mais típica da Austrália, vale dar uma olhada no banheiro. Em oito de dez banheiros australianos – como o da casa em que moro (foto) em Western Australia – a privada tem dois botões: um para descargas leves, com 3 litros, e outro para serviços mais pesados, com 6 litros. Inventada em 1980 por um australiano, a <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Dual_flush_toilet">privada <em>dual flush</em></a> reduziu em quase 70% o uso de água na maioria das residências e hoje é obrigatória em qualquer nova construção. Dizem alguns que é um presente da Austrália para o mundo – é usada em mais de 30 países.</p>
<p>Não é de estranhar que com <a href="http://www.ga.gov.au/education/geoscience-basics/landforms/deserts.jsp">70% do território cobertos por desertos ou semi-desertos</a>, a Austrália seja celeiro de invenções para reduzir o uso de água. Seco por natureza, o continente sofre também <a href="http://www.climatechangeinaustralia.gov.au/pastchange.php">os efeitos das mudanças climáticas</a>, especialmente nas áreas mais importantes economicamente, a costa leste e o sudoeste. Nessas regiões, os índices de precipitação caíram nas últimas décadas, enquanto as temperaturas aumentaram.</p>
<p>Se o meio ambiente impõe limites a ponto de restringir a ocupação – quase 90% dos habitantes<a href="http://www.worldbook.com/wb/Media?id=mp000282"> vivem nas cidades próximas ao litoral</a> –, é também fonte de riqueza econômica. Agricultura e mineração respondem por quase 60% das exportações e fazem da economia australiana um estranho no ninho entre as nações industrializadas: assim como em muitos países em desenvolvimento, a ênfase é nas <em>commodities</em> em vez dos produtos manufaturados. O rico subsolo australiano garante que a quase totalidade da energia consumida venha do <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Coal_mining_in_Australia">carvão</a>, também um dos principais produtos de exportação.</p>
<p>Desde a eleição de Kevin Rudd como primeiro-ministro em 2007, o país deu uma guinada em favor de políticas ambientais ambiciosas, como o projeto em apreciação no Parlamento <a href="http://www.climatechange.gov.au/emissionstrading/timetable.html">para instituir um sistema de <em>cap-and-trade</em></a> para as emissões de carbono. Outra é a iniciativa para ajudar países da região, como a Indonésia, a <a href="http://www.climatechange.gov.au/international/publications/fs-ifci.html">preservar suas florestas</a>. Mas <a href="http://au.news.yahoo.com/thewest/a/-/mp/5832875/super-boom-forecast-as-gorgon-go-ahead-looms/">com o <em>boom</em> mineral apenas em estado dormente</a>, os australianos mantêm padrão de vida confortável e ainda há muita campanha país afora para convencer o cidadão comum de que <a href="http://www.news.com.au/adelaidenow/story/0,22606,25325285-5006301,00.html">as atividades humanas nada têm a ver com o aquecimento global</a>.</p>
<p>Por tudo isso, a Austrália é um caso interessante a se observar quanto aos dilemas que a humanidade enfrenta no século XXI e as soluções de que precisa. Que <em>mix</em> de tecnologias e fontes de energia vai substituir os combustíveis fósseis? Como as economias nacionais e a global se transformarão com as mudanças climáticas? Que esquemas serão usados para lidar com a escassez de recursos vitais como a água? Como transformar comportamentos? Como vão se reorganizar comunidades e localidades? Que papel podem desempenhar as tecnologias e as mídias digitais para enfrentar o enorme desafio social de redesenhar o modo em que vivemos?</p>
<div id="attachment_2031" class="wp-caption alignleft" style="width: 142px"><img class="size-medium wp-image-2031" title="Canguru_flavia" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2009/09/Canguru_flavia-132x198.jpg" alt="Canguru australiano" width="132" height="198" /><p class="wp-caption-text">Canguru australiano</p></div>
<p>Esse último ponto é um dos que mais me aguçam a curiosidade nos últimos tempos – trata-se de um novo ambiente, esse digital, em que soluções jamais imaginadas podem florescer? – e tenho a impressão de que vai aparecer com freqüência aqui na minha metade do *<strong>D</strong><strong>e-lá-prá-cá*</strong>. A outra é capitaneada pela Regina Scharf, escrevendo de Santa Fé, Novo México, às terças-feiras. De modo geral, a intenção é manter olhos e ouvidos abertos para casos, fatos e idéias, como a <em>dual flush</em>, que possam despertar o interesse ou engatilhar novas invenções do outro lado do mundo, no Brasil.</p>
<p>Como nem só de <em>dual flush</em> vive a Austrália, aí vai (foto do canguru) mais um produto típico dessa terra que <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Gondwana">já esteve bem mais perto de nós</a>.</p>
<div id="attachment_2032" class="wp-caption alignleft" style="width: 156px"><img class="size-medium wp-image-2032" title="flavia_pessoal" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2009/09/flavia_pessoal-146x198.jpg" alt="Flavia Pardini" width="146" height="198" /><p class="wp-caption-text">Flavia Pardini</p></div>
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		<title>Um plano austral</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Apr 2009 18:15:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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Um dos lugares afetados mais cedo pela mudança climática no mundo, o estado de Western Australia lança mão de dessalinização, reciclagem e redução no consumo para se adaptar à menor disponibilidade de água
Por Flavia Pardini
No começo, não havia nada: pessoas, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-medium wp-image-2675" title="estreladomar" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2009/04/estreladomar-150x198.jpg" alt="estreladomar" width="150" height="198" /></p>
<p><em>Um dos lugares afetados mais cedo pela mudança climática no mundo, o estado de Western Australia lança mão de dessalinização, reciclagem e redução no consumo para se adaptar à menor disponibilidade de água</em></p>
<p>Por Flavia Pardini</p>
<p>No começo, não havia nada: pessoas, árvores ou pássaros. O espírito ancestral que vivia no céu veio à terra e criou lugares sagrados, mas ainda assim não havia nada, pois não havia água.  A serpente da água estava presa em uma montanha e, por mais que o espírito chamasse, ela não podia ouvir.  Ele então soltou um trovão que rachou a montanha e liberou a magnífica serpente. Por onde andou, deixou rios, piscinas intermitentes, e permitiu que a vida florescesse.  De volta às profundezas da terra, ela ainda hoje se revela, na forma de um arco-íris que se move na água e durante as chuvas, moldando paisagens, às vezes engolindo e afogando pessoas, outras dando força aos que têm poderes de fazer chover. Controla o bem mais precioso para a vida &#8211; a água.</p>
<p>Contos como o da serpente arco-íris fazem parte do Sonho, histórias sobre a criação usadas nas culturas aborígines para transmitir conhecimento, valores culturais e crenças que garantiram a sobrevivência de diversos povos por mais de 40 mil anos no seco continente australiano.  Duzentos e vinte e um anos depois que os europeus se instalaram na Austrália, as mudanças climáticas, e principalmente seus impactos na disponibilidade de água, reforçam a necessidade de se adaptar.</p>
<p>Esses impactos são especialmente visíveis no estado de Western Australia (WA), que ocupa o terço ocidental do continente australiano, onde a redução da precipitação e o aumento das temperaturas nas últimas décadas anunciam um futuro desafiador.  Ainda mais diante do crescimento da população &#8211; 2,9% em 12 meses até setembro de 2008 -, graças ao boom econômico alimentado pelo setor mineral e suas exportações para a Ásia.</p>
<p>&#8220;O sudoeste de WA foi um dos lugares afetados mais cedo pela mudança climática no mundo&#8221;, diz Don McFarlane, coordenador do programa Água para um País Saudável, da CSIRO, agência científica nacional da Austrália.  Em queda desde os anos 70, a precipitação na região de Perth, capital do estado, diminuiu 12% nos últimos sete anos em comparação à média de 1980 a 1990 e tirou do radar a principal fonte de água da cidade, as represas alimentadas por rios e pela chuva.  Além de mais seco, o estado ficou mais quente &#8211; as temperaturas médias subiram 0,8 grau desde 1910.</p>
<p>Sem mitos nem histórias para moldar o comportamento de uma população crescente, as autoridades optaram por investir na diversidade.  A ideia, segundo um plano estratégico para os próximos 50 anos da Water Corporation, empresa que serve a capital, é agir para garantir novas fontes, a reciclagem de água e a redução do consumo de forma a não depender de apenas uma das opções e, assim, reduzir a vulnerabilidade da região.</p>
<p>Perth tem alguma folga para se adaptar, graças ao fato de que repousa sobre grandes reservatórios subterrâneos. Para evitar a superexploração desses aquíferos, a cidade optou pela dessalinização &#8211; não sem antes embarcar em polêmicas públicas sobre projetos para trazer água da região de Kimberley, a cerca de 2 mil quilômetros ao norte, e do aquífero Yarragadee, ao sul da capital.  Ambos acabaram engavetados.  E, em novembro de 2006, foi inaugurada em Kwinana, distrito industrial da capital, a maior planta de dessalinização do Hemisfério Sul, que produz pelo método de osmose revertida 17% da água potável consumida em Perth.  Outros 20% virão de uma segunda usina, com início de operação previsto para 2011.</p>
<p>O apelo do processo de tornar a água do mar potável é o fato de que ele independe do clima: chova ou faça sol é sempre possível &#8220;produzir&#8221; água. As fontes de superfície e subterrâneas, ao contrário, dependem da chuva para manter seus níveis. De outro lado, o consumo de energia pela dessalinização é alto e os rejeitos são despejados de volta no oceano, com efeitos sobre a vida marinha.  A planta de Kwinana, dizem as autoridades, usa energia eólica e possui avançado sistema de efluentes.  Os ambientalistas contestam os argumentos, mas as previsões de que o início das operações causaria um desastre marinho não se concretizaram.</p>
<p>&#8220;Chegamos ao limite com a água subterrânea, por isso fomos para a dessalinização&#8221;, diz Jim Gill, que foicEO da Water Corporation por 12 anos até se aposentar, em 2008.  &#8220;Não há limite com a dessalinização, apenas que a água vaicustar mais.&#8221;  Segundo ele, a empresa hoje retira 165 gigalitros de água do subsolo, quando a extração sustentável seria de 120 a 135 gigalitros.  O custo da água produzida em Kwinana é de 1,17 dólar australiano (cerca de R$ 1,86) por quilolitro &#8211; ou mil litros -, cerca de um terço a mais do que o da água de represas e do subsolo.</p>
<p>Steven McKiernan, representante para assuntos hídricos da ONG ambiental Conservation Council, compara as usinas de dessalinização a peças de lego, que podem ser colocadas aqui ou acolá, conforme a necessidade.  &#8220;O limite é a consciência de que não se vive dentro dos limites do meio ambiente&#8221;, diz.</p>
<p>Apesar do milagre de acomodar população e economia crescentes em um ambiente cada vez mais árido, a dessalinização não dá conta do recado sozinha, admite a Water Corporation.  Sem outras medidas, seriam necessárias pelo menos dez outras plantas até 2060, com aumento de seis vezes no consumo de energia.  Os investimentos para operar tal parque fariam a conta de água dos habitantes de Perth dobrar em termos reais.</p>
<p>Além da dessalinização e da água subterrânea, a Water Corporation considera a reciclagem como uma nova fonte.  Mas para isso precisa ajudar a população a superar o fator &#8220;yuk&#8221; &#8211; a rejeição a consumir água que, sabe-se, já foi esgoto.  Segundo a empresa, só um lugar no mundo retorna a água de esgoto tratada diretamente às torneiras para ser bebida: Windhoek, capital da Namíbia.</p>
<p>Para dar um empurrãozinho, a Water Corporation planeja tratar o esgoto e reinjetar a água no subsolo, beneficiando-se da percepção do cidadão comum de que, assim, o líquido passa por um processo &#8220;natural&#8221; de filtragem.  Estudo feito pela CSIRO em 2005 mostrou que tal noção torna a comunidade mais receptiva: apenas 13% de 400 pessoas entrevistadas disseram que beberiam, sem restrições, a água reciclada e bombeada diretamente para suas torneiras, mas 31% afirmaram que topariam consumir se a água passar pela reinjeção no aquífero [2].  Um teste do projeto de reinjeção está previsto para este ano.</p>
<p>Dos 280 gigalitros de água potável fornecidos pela Water Corporation atualmente em Perth, apenas 1% é ingerido, diz Don McFarlane.  &#8220;O resto usamos para dar descarga&#8221;, afirma. A empresa recupera mais de 100 gigalitros, trata e despeja no oceano.  Se o teste de reinjeção der certo, a Water Corporation acredita que a reciclagem pode representar mais de 20% da demanda em sua rede até 2060.</p>
<p>Oásis acarpetado</p>
<p>Enquanto a reciclagem não vem, continuam os esforços para consumir menos água.  Graças a restrições impostas ao uso da água em áreas externas, o consumo per capita em Perth caiu 20% desde 2001.  Ainda assim, dos 650 gigalitros captados de diversas fontes em 2008, 57% foram retirados de reservatórios subterrâneos por particulares e pelo departamento estadual de águas por meio de poços artesianos.  Por não ser tratada, é usada para irrigar parques, áreas públicas e jardins, e permite que Perth &#8211; ao contrário de outras cidades australianas &#8211; pareça um oásis acarpetado.  Para a Water Corporation, o uso de poços particulares é interessante, pois evita que água tratada acabe nos gramados e calçadas.</p>
<p>Mas os poços não são fiscalizados e para perfurar basta pagar uma taxa simbólica &#8211; a água é de graça, inclusive nas áreas agrícolas, onde é empregada na irrigação.  Mesmo na cidade, o custo é mantido baixo para garantir acesso universal,</p>
<p>o que acaba desencorajando a eficiência e a redução no consumo.  Para Jörg Imberger, diretor do Centre for Water Research da Universidade de Western Australia, é preciso cobrar de forma a estabelecer uma relação do consumidor com a água.  &#8220;Faria sentido fixar o preço de acordo com o que custa para fornecer água e estabelecer um esquema social para subsidiar as pessoas mais pobres&#8221;, diz.</p>
<p>&#8220;Construímos um estilo de vida sobre o fato de que a água é barata&#8221;, admite Jim Gill.  O resultado é que cada habitante de Perth usa, em média, 147 mil litros de água em um ano &#8211; a maior taxa entre as cidades australianas.  Para Gill, é possível ter uma vida boa com menos água.  &#8220;Mas teríamos que redesenhar a maneira como vivemos&#8221;, adverte.  Sem tamanha ambição, o plano da Water Corporation prevê mudanças na precificação e incentivos para quem usa menos como forma de atingir as metas de reduzir o consumo total de água em 15% até 2030, em relação aos níveis de 2008, e em 30% até 2060.</p>
<p>Redesenhar estilos de vida é um desafio e tanto em qualquer parte, mas especialmente em WA, onde o aumento da população nos últimos anos veio acompanhado de mais afluência.  &#8220;Mais gente tem TV de plasma, computador, carro e, em cima de casa, uma enorme caixa de ar condicionado&#8221;, afirma Steven McKiernan.  A afluência e a persistência do que ele chama de &#8220;mentalidade de pedreira&#8221;, voltada para a exploração crescente de minerais para exportação, acabam prejudicando as chances de uma verdadeira transformação &#8211; e não apenas de medidas incrementais &#8211; na gestão dos recursos hídricos, diz McKiernan.</p>
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