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	<title>Página 22 &#187; eleições 2010</title>
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	<description>Informações para o novo século</description>
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		<title>Bate-papo virtual com a SOS Mata Atlântica</title>
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		<pubDate>Wed, 18 Aug 2010 16:47:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<category><![CDATA[plataforma ambiental]]></category>
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		<description><![CDATA[A comunidade virtual da SOS Mata Atlântica realiza, na próxima quinta-feira (19), das 11h às 12h, um bate-papo ao vivo sobre o lançamento da Plataforma Ambiental para o Brasil. Segundo a fundação, o documento reúne as principais questões ambientais que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://www.conexaososma.org.br"><img class="alignleft size-full wp-image-8854" title="proposta_4" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/08/proposta_4.jpg" alt="proposta_4" width="183" height="183" /></a>A comunidade virtual da SOS Mata Atlântica realiza, na próxima quinta-feira (19), das 11h às 12h, um bate-papo ao vivo sobre o lançamento da Plataforma Ambiental para o Brasil. Segundo a fundação, o documento reúne as principais questões ambientais que precisam com urgência ser solucionadas pelos próximos governantes.</p>
<p>A ONG acredita que a plataforma possa apoiar o cidadão, na definição de seu voto, ou  os próprios candidatos, na formulação de suas propostas de governo. Participarão do bate-papo Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da fundação, e Beloyanis Monteiro, coordenador de mobilização.</p>
<p>Para acessar o bate-papo, faça seu cadastro na comunidade <a href="http://www.conexaososma.org.br" target="_blank">Conexão Mata Atlântica</a> e confirme a participação no botão de RSVP, na página do evento. As perguntas para os entrevistados podem ser enviadas antecipadamente em texto ou vídeo por meio da <em>home</em> da comunidade.</p>
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		<title>Especial Eleições &#8211; Candidatos, finalmente</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Jul 2010 21:42:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<category><![CDATA[candidatos à Presidência]]></category>
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		<description><![CDATA[De que substância propriamente política são feitos os discursos de Dilma, Serra e Marina?
Dá para se ter ideia real do que estará em jogo nas eleições presidenciais, tomando-se por base os pronunciamentos dos três principais candidatos nas convenções partidárias que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>De que substância propriamente política são feitos os discursos de Dilma, Serra e Marina?</em></p>
<p><a href="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Eleicoes.jpg"><img class="alignleft size-large wp-image-8201" title="Eleicoes" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/07/Eleicoes-388x270.jpg" alt="Eleicoes" width="388" height="270" /></a>Dá para se ter ideia real do que estará em jogo nas eleições presidenciais, tomando-se por base os pronunciamentos dos três principais candidatos nas convenções partidárias que lhes homologaram os nomes?  Difícil dizer, além da óbvia constatação de que consolidaram os roteiros seguidos nos últimos meses.  Para mais do que isso, é preciso navegar nas falas e tentar descobrir patamares de discussão que a sociedade pode explorar e transformar em ativo político diferenciado no período eleitoral.</p>
<p>Seguindo a recomendação das pesquisas, a ênfase é generalizada em três pontos: educação, saúde e segurança.  Mas, para além das agendas específi cas, de que substância propriamente política são feitos os discursos de Dilma, Serra e Marina?  O que revelam sobre o núcleo duro do desejo de governar de cada um?  O que se pode esperar deles como lideranças para o pós-Lula?</p>
<p>Dilma é a que mais parece pouco à vontade no papel de candidata.  Não que não queira, longe disso!  Mas porque – e seu discurso é uma peça exemplar a esse respeito – não consegue disfarçar que foi pinçada por uma estratégia de outrem (Lula) para exercer um determinado papel.  Para o qual está sendo intensivamente treinada, pagando o preço de, por vezes, parecer bem canastrona.  Quer coisa mais falsa do que o &#8220;tour de estadista&#8221; que fez pela Europa?</p>
<p>Sua fala na convenção do PT afirma o tempo todo que a liderança não é ela, é Lula.  A &#8220;emoção&#8221; e a &#8220;alegria&#8221; que anunciou logo na primeira frase não batiam com o tom duro e formal.  Tudo o mais que se seguiu – e alguns dirão que isso acontece porque Dilma é desprovida de carisma – foi como uma cartilha de candidata elaborada por uma equipe meio burocrática que listou os elementos que não poderiam faltar ao discurso.  Ela foi apenas a porta-voz.  Havia ali pouco de uma possível nova liderança política, chamada Dilma Rousseff.  Para os que acham que o Brasil precisa de uma gerente, foi bom.  E mesmo assim preocupante, com a excessiva referência e reverência para com o chefe que está saindo.</p>
<p>Foi uma frustração para quem entende que o cargo de presidente da República exige muito mais do que isso, no plano dos avanços ou dos retrocessos políticos que uma pessoa neste posto pode desencadear.</p>
<p>E foi no mínimo estranho anunciar, assim sem mais nem menos, sem dizer de que cartola sairá este coelho, o objetivo fundamental de nos tornarmos o País de uma das maiores e mais vigorosas classes médias do mundo.  Como assim?  Do ponto de vista do consumo?  Será esse nosso futuro, todos ao shopping?</p>
<p>Serra seguiu praticamente o mesmo <em>checklist </em>temático de Dilma: saúde, educação, segurança, combate às drogas, oportunidades para todos, casa, saneamento, Estado planejador, inclusão digital, reforma tributária, reforma política e muita, mas muita obra de infraestrutura.  Quando se fala em meio ambiente e desenvolvimento sustentável, ambos têm realizações a mostrar, na área federal e no Estado de São Paulo.  Falam de economia de baixo carbono, mas fi ca clara a falta de intimidade com o lugar desses temas na agenda tradicional com a qual estão acostumados, como isso tudo se articula com o que chamam de crescimento.  Ao final, fica como um tópico do discurso, que não se conecta organicamente aos demais.  Como um enfeite ainda exótico numa árvore de Natal previsível.</p>
<p>Deve-se reconhecer que o discurso de Serra é menos &#8220;cartilhesco&#8221;, mais politizado no sentido de se ver no painel da consolidação da democracia no País.  Mas é o mais ressentido, joga farpas demais, deixa implícitas a todo momento as miudezas da permanente comparação entre tucanos e petistas, perde a chance de voar mais alto, de fazer uma crítica mais estrutural, de se comprometer com mudanças de fundo.  Contrapõe-se à mãe do PAC, lembrando que é o pai do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador).</p>
<p>Marina Silva, como boa parte da mídia já constatou, é a única com carisma, ousadia e um estilo que lhe permite sair fora do jargão ofi cial de presidenciável e tornar essa campanha algo mais emocionante.  À falta de dinheiro, parte para fazer, como diz, um palanque em cada coração.  Sem dúvida, propõe uma discussão nova e está cada vez mais à vontade no papel da novidade das eleições, muito diferente do que foi Heloísa Helena.</p>
<p>De certa forma, repete o rol de temas abordados pelos outros dois candidatos, mas o que a diferencia é que eles vêm em um registro e em um encaixe diferente, só compreensível dentro de um debate no qual a dimensão planetária do desenvolvimento, a capacidade decisória da sociedade civil, as instituições públicas, a justiça social, a política em si mesma e o poder sejam inseparáveis da agenda operacional.  Será que essa discussão vai acontecer?  O tempo é curto, mas, se rolar, o ano terá valido a pena.</p>
<p><em>*Jornalista, socióloga e consultora independente</em></p>
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		<title>A hora do Partido Verde</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Jun 2010 23:32:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<category><![CDATA[eleições 2010]]></category>
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		<description><![CDATA[Resvalado a sigla de aluguel em vários locais, terá cumprido um papel histórico se der força política a uma nova geração de ideias sobre poder e desenvolvimento
É interessante observar como o Partido Verde lida com a vida após a entrada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Resvalado a sigla de aluguel em vários locais, terá cumprido um papel histórico se der força política a uma nova geração de ideias sobre poder e desenvolvimento</em></p>
<p><a href="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/06/eleicoes.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-7720" title="eleicoes" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/06/eleicoes.jpg" alt="eleicoes" width="325" height="379" /></a>É interessante observar como o Partido Verde lida com a vida após a entrada de Marina Silva e de centenas de novos filiados num curto período de tempo. Há uma dupla tensão. De um lado, os que chegam com a palavra de ordem de mudança constatam que há uma resistência relevante a enfrentar. De outro, não está fácil para quem se acostumou ao &#8220;liberou geral&#8221; nos estados, nos últimos anos, em nome de metas na eleição de deputados federais e estaduais para obedecer à cláusula de barreira, que exigia percentual mínimo de 5% de votos em pelo menos um terço dos estados.  Foi derrubada pelo STF em 2006, mas o estrago ideológico no PV já estava feito.</p>
<p>O partido acabou transformando-se numa federação de Executivas Estaduais praticamente independentes, ameaçando sua identidade histórica e resvalando para sigla de aluguel em vários locais.  Essa história foi rompida pela entrada de Marina. Agora o que está no centro da vida partidária é um projeto nacional &#8211; e não um projeto qualquer, mas que se propõe a uma refundação programática, cuja razão de ser é a busca de poder político para propor à sociedade brasileira um modelo de desenvolvimento pós-carbono, com todas as suas consequências.</p>
<p>O que muitos se perguntam é, para além do carisma, da biografia e do discurso de Marina, o que há de consistente nisso tudo.  Desconfiam que é muita areia para o caminhãozinho do PV, com suas enormes diferenciações internas, sua fragilidade estrutural, seus egos tão grandes, os apegos aos pequenos poderes, e seu desafio de rapidamente resgatar o espaço ideológico perdido para o fisiologismo.</p>
<p>De pessoas que mergulharam radicalmente no partido, acompanhando Marina, colhi observações importantes para entender esse momento. As carências materiais são enormes, mas não são o maior problema do PV.  A existência de um projeto nacional supõe estratégia eleitoral com forte ênfase nas candidaturas majoritárias, o que esbarra não só em resistências estaduais que já tinham seus esquemas prontos com grupos políticos locais, mas também em fragilidades de potenciais candidaturas de ótima qualidade, porém, de pequena inserção social.  Quem já tem alguma densidade eleitoral prefere sair para deputado federal ou estadual, com mais chances de conseguir mandato e fazer o partido crescer.</p>
<p>Até que a situação está relativamente bem resolvida no Sul, no Sudeste e em parte do Nordeste, o que dá sustentação ao projeto nacional.  No Centro-Oeste, o principal entrave é a pouca capilaridade do partido.  Na Região Norte a situação é mais complexa, porque, segundo um de meus interlocutores, &#8220;lá, boa parte das lideranças não entendeu nada do que está acontecendo ou entendeu e está resistindo porque tem compromissos que batem de frente com o projeto nacional&#8221;.</p>
<p>Às portas da abertura oficial da campanha, esse quadro impõe a Marina e às lideranças nacionais do PV uma clara opção: colocar toda a energia no diálogo com a sociedade, de forma a dar musculatura e legitimidade a um projeto nacional; ou disputar dentro do partido, o que poderia ser muito desgastante, num momento em que qualquer desgaste adicional tem tudo para ser desastroso.</p>
<p>É importante para o PV acreditar na possibilidade de vitória de Marina, mesmo que remota, mas em qualquer circunstância é preciso que ela saia das eleições maior do que entrou.  Esse será o cacife para que o partido se volte depois para si mesmo, num novo patamar de crescimento, e se consolide para interferir no cenário nacional.  O que passa por revisão estatutária, a prometida refundação programática e o aumento e institucionalização da democracia interna.  Conforme ouvi, para quem aposta nesse cenário, o desafi o é não desistir no meio do caminho e chegar até lá, &#8220;porque é um osso duro de roer&#8221;.</p>
<p>Ao final do período eleitoral, enfim, o PV terá cumprido um papel histórico se, com todas as suas limitações, conseguir politizar a sustentabilidade, ou seja, dar força política a uma nova geração de idéias sobre poder e desenvolvimento.  Nada do que tem sido pregado nas últimas décadas sobre a necessidade da conservação ambiental como parte integrante do modelo de desenvolvimento &#8211; com todas as suas implicações sociais, econômicas, éticas e culturais &#8211; faz sentido ou tem viabilidade sem essa força política.</p>
<p><strong>Pergunta:<br />
</strong>Não é estranha uma dissidência feita em nome de valores, que já se atira no colo de uma coligação que tem sob seu guarda-chuva profundas contradições com esses valores?  É o caso do neófito Partido Livre, a primeira costela do PV brasileiro, que até seria muito interessante se nascesse realmente livre. Mas veio ao mundo se colocando açodadamente como força auxiliar da candidatura de Dilma Rousseff.</p>
<p>Pode até não ser, mas parece mais um investimento na possibilidade futura de estar dentro da partilha do governo, caso essa candidata seja a vencedora.</p>
<p><em>* Jornalista, socióloga e consultora independente</em></p>
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		<title>Análise &#8211; É Marina ou statu quo</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Jun 2010 23:25:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
				<category><![CDATA[42]]></category>
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		<category><![CDATA[eleições 2010]]></category>
		<category><![CDATA[José Eli da Veiga]]></category>
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		<category><![CDATA[Partido Verde]]></category>

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		<description><![CDATA[Será no altar dedicado ao PIB que os dois pré-candidatos mais cotados sacrificarão quaisquer cuidados com a proteção da natureza
A candidatura Marina será uma ferramenta à disposição dos eleitores que desejarem estimular avanços incomparavelmente mais sérios e consequentes do que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Será no altar dedicado ao PIB que os dois pré-candidatos mais cotados sacrificarão quaisquer cuidados com a proteção da natureza</em></p>
<p><a href="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Analise.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-7717" title="Analise" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/06/Analise-300x154.jpg" alt="Analise" width="300" height="154" /></a>A candidatura Marina será uma ferramenta à disposição dos eleitores que desejarem estimular avanços incomparavelmente mais sérios e consequentes do que poderiam ser alcançáveis com outros postulantes.  E isso independe do infeliz cacoete &#8220;mas ela não tem chance&#8221;.  Mesmo que porventura não vença, quanto mais votos atrair maior será a influência de suas posições sobre as opções do próximo governo, seja lá quem chegar à Presidência.</p>
<p>A única vantagem de eleição em dois turnos é justamente esta: poder apoiar no primeiro quem aponta o caminho mais promissor.  Só no segundo é que muita gente se verá forçada a usar seu voto para evitar o que considera pior.</p>
<p>Claro, esse não é um argumento que possa sensibilizar aquela imensa parte do eleitorado que se define em conformidade com motivações bem diferentes.  Aquela parte que mal assistirá aos espetáculos que lhe serão oferecidos pelo duopólio do horário eleitoral de televisão.  E que menos ainda se empenhará em entender o que poderia haver de tão especial nos propósitos daquela falante moreninha de voz aguda.  Mesmo que muitos venham a guardar seu nome, talvez nem fiquem sabendo que exerceu dois mandatos no Senado e foi ministra do governo Lula.</p>
<p>Todavia, também há eleitores que farão de tudo para basear sua escolha em serena avaliação do que poderá ser melhor para o futuro da sociedade brasileira.  Mesmo que em minoria nas urnas, certamente serão eles os que depois mais contribuirão para o bom funcionamento cotidiano das instituições democráticas.  Por isso, o maior prejuízo para a sociedade ocorrerá se o debate público entre os candidatos impedir que essa faixa do eleitorado perceba a real diferença que existe entre a candidatura de Marina e as demais.</p>
<p>Os pré-candidatos que despontam como favoritos nas pesquisas falarão de sustentabilidade, mas seus currículos de gestores governamentais atestam que nem sequer assimilaram o beabá ambiental.  Sempre optaram pela turbinagem do PIB como objetivo supremo de suas ações, pois têm a convicção de que o desenvolvimento é diretamente proporcional a essa obsoleta maneira de medir o crescimento da economia.  O que necessariamente os obriga a encarar a natureza como eterno obstáculo, ou restrição, jamais como base, ou fundamento, de soluções.</p>
<p>A trajetória política de Marina levou-a a uma posição diametralmente oposta.  De um lado, por ter muito cedo percebido que o desenvolvimento depende é da eficiente utilização pela sociedade dos frutos de seu desempenho econômico, algo que é precariamente avaliado pelo PIB.  De outro, por também ter entendido que tanto o crescimento econômico quanto o desenvolvimento humano terão pernas curtíssimas se comprometerem a resiliência dos ecossistemas.  Seja pela falta geral de conservação, seja, como em alguns casos, de preservação.  Foi essa ampla consciência que fez da responsabilidade socioambiental seu guia supremo de ação.</p>
<p>Ao contrário, será no altar dedicado ao PIB que os dois pré-candidatos mais cotados sacrificarão quaisquer cuidados com a proteção da natureza.  Ambos idolatram acima de tudo a aceleração do crescimento, porque são prisioneiros do mesmíssimo DNA ideológico social-democrata, por mais que na atual conjuntura brasileira discordem aqui e ali sobre quais seriam seus melhores métodos, ou suas melhores práticas.</p>
<p>Ainda mais decisivo: continua a ser o ideário social-democrata o que melhor atende aos três principais grupos sociais favoráveis à manutenção do statu quo: dos empresários que bancam campanhas eleitorais para obter muito mais do que o legitimado por suas contribuições para o bom desempenho da economia nacional; dos sindicalistas facilmente cooptáveis por dependência de transferências públicas; e dos próprios políticos, que jamais seriam eleitos sem festivais de benesses federais.</p>
<p>Como essas bases sociais continuam mais poderosas do que os simpatizantes das inúmeras associações voltadas para a sustentabilidade, só pode ser pequena a probabilidade de que saia derrotada em outubro de 2010 a irresponsabilidade socioambiental comum aos atuais favoritos.  Daí a importância de que no primeiro turno vote mesmo em Marina quem concorda com sua corrente por democracia e sustentabilidade, sejam quais forem suas sensibilidades sobre os candidatos do statu quo.</p>
<p>Se, ao contrário, adeptos da responsabilidade socioambiental forem ofuscados por antipatias que antecipem o segundo turno, sairá reforçada a truculência que obrigou Marina a deixar o governo Lula, e que acaba de ter emblemática confirmação no caso de Belo Monte.  O próximo governo estará inteiramente à vontade para &#8211; por exemplo &#8211; conduzir da mesma maneira o licenciamento e leilão das 33 outras usinas já planejadas.</p>
<p>Enfim, nas eleições de 3 de outubro é Marina ou <em>statu quo</em>.</p>
<p>*<em> Professor titular da FEA e orientador do Programa de Pós-Graduação do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP.  w</em><a href="http://www.zeeli.pro.br"><em>ww.zeeli.pro.br</em></a></p>
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		<title>Devagar e sempre</title>
		<link>http://pagina22.com.br/index.php/2010/04/devagar-e-sempre-2/</link>
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		<pubDate>Sun, 11 Apr 2010 19:52:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
				<category><![CDATA[40]]></category>
		<category><![CDATA[democracia]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2010]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Luiz Abrucio]]></category>
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		<category><![CDATA[política]]></category>
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		<description><![CDATA[Após 70 anos de hegemonia política de um único partido, os eleitores do México já pediam mais promessas que realizações. Essa história, contada pelo cientista político Fernando Luiz Abrucio, demonstra que a política não pode viver só de continuidade, mas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/04/entrevista.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-6848" title="entrevista" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/04/entrevista-300x170.jpg" alt="entrevista" width="300" height="170" /></a>Após 70 anos de hegemonia política de um único partido, os eleitores do México já pediam mais promessas que realizações. Essa história, contada pelo cientista político Fernando Luiz Abrucio, demonstra que a política não pode viver só de continuidade, mas também de novas ideias e propostas. No entanto, a democracia não é para os impacientes. As boas inovações, diz ele, são aquelas que se submetem reiteradamente à negociação e ao debate.</p>
<p>É por isso que Abrucio, também professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas (Eaesp-FGV), prefere os incrementos pontuais às grandes reformas, que ele chama de &#8220;momentos mágicos&#8221;, mais afeitos aos regimes autoritários que aos democráticos. Se a disputa eleitoral à Presidência tornou-se plebiscitária, ou mais do mesmo, para o professor isso é sinal de amadurecimento democrático do País.  Antes de ser monótona, a escolha do eleitor seria a busca do equilíbrio entre inovação e consolidação do que dá certo.</p>
<p>Não faltaram, nesta entrevista, críticas ao jeito &#8220;futebolístico&#8221; de fazer política que situa os dois principais partidos do período eleitoral numa polarização inexorável.  E também à elite social brasileira, que deveria &#8220;reclamar menos e participar mais&#8221;.  Para quem procura uma gota de fé no oceano de decepção democrática, Abrucio é endereço certo.</p>
<p><strong>Já houve teorias políticas que questionavam na prática a soberania popular, indicando que em todas as sociedades há sempre uma minoria detentora do poder em detrimento da maioria que dele é privada.  A democracia substancial, o governo do povo para o povo, é uma utopia?</strong><br />
Embora exista a teoria das elites, embora se acredite que na democracia é importante ter boas elites, os primeiros elitistas não eram democráticos.  O primeiro elitista democrático foi o (<em>Max</em>) Weber.  Foi o primeiro a dizer que a democracia é inexorável, indispensável no mundo moderno.  Eu diria que a ideia do governo do povo para o povo e pelo povo é uma ideia reguladora, para usar um termo clássico do (<em>Emmanuel</em>) Kant.  De fato, os governantes são eleitos pelo povo organizado politicamente e há processos de checks and balance e de accountability que levam os governantes a responder ao povo.  E o povo tem chance de participar da política para além da eleição.  No caso brasileiro, conselhos de políticas públicas, o Ministério Público&#8230; Há vários instrumentos nas democracias pelo mundo que levam à participação além da democracia eleitoral, porque senão nós estaríamos condenados à praga dita pelo (<em>Jean-Jaques</em>) Rousseau.  Ele odiava os ingleses, e dizia que o povo inglês era o mais soberano no dia da eleição, e deixava de sê-lo no dia seguinte.</p>
<p><strong>Isso se aplica ao Brasil?</strong><br />
Esta é uma crítica à democracia de maneira geral.  Mas o Brasil, como outras democracias, não é apenas uma democracia eleitoral.  Nós tivemos recentemente um referendo em relação ao controle de armas e leis vindas de iniciativa popular, com o projeto &#8220;Ficha Limpa&#8221;.  É claro que, para que esses instrumentos funcionem, a democracia eleitoral tem de ser de boa qualidade.<br />
<strong><br />
Não haveria então uma desproporcionalidade entre o poder da classe política e o do eleitor?</strong><br />
Aí tem a ver com características do sistema político dos diversos países, que podem dificultar a convivência entre a democracia representativa e a semidireta.  No que se refere à distância da classe política em relação à sociedade, há características do sistema político-administrativo brasileiro que de fato dificultam accountability e a participação do cidadão.  Acho que é essa a discussão.  Não que no Brasil não haja democracia, ou que no Brasil não haja uma soberania popular.  O que se pode dizer é que é possível e necessário aperfeiçoar constantemente os mecanismos democráticos.</p>
<p><strong>A democracia econômica seria uma desses elementos?  De que serve a democracia política sem o equilíbrio nas condições de acesso da população a tudo o que a sociedade produz?</strong><br />
Isso remete ao Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia, que definiu a liberdade como a liberdade de escolha.  Para isso é fundamental ter democracias, modos e modelos democráticos, mas também que haja condições sociais que favoreçam as escolhas dos indivíduos. No caso da sociedade brasileira, é preciso democratizar mais a informação.  É preciso aumentar a escolaridade média.  Quanto mais essas condições estiverem presentes, melhor a qualidade da democracia.<br />
<strong><br />
Fala-se em eleições presidenciais plebiscitárias, este ano.  Ao mesmo tempo, alguns analistas apontam que nem isso se tem, já que haveria mais semelhanças que diferenças entre as duas grandes forças políticas brasileiras.  A escolha do eleitor caiu em monotonia, uma não escolha?</strong><br />
Acho que é difícil falar em não escolha, porque o Brasil teve durante longos anos um regime autoritário.  O nosso avanço é muito grande.  Muitas vezes, no Brasil, as pessoas se esquecem do que foi feito nos últimos 20 anos.  Haver certa quantidade de ideias semelhantes não é ruim para a democracia.  Se a democracia fosse o terreno do tudo ou nada, as chances de quebras democráticas seriam muito altas, como, aliás, aconteceu muitas vezes em países da América Latina.  Se você tem uma situação de tudo ou nada, o perdedor tem pouquíssimo compromisso com a democracia.  E o vencedor, se perceber reações do perdedor, dará um golpe.  Isso ainda acontece em grande parte do mundo.  Talvez na maior parte dos países haja um pequeno grau de continuidade na agenda pública e isso se reflete na verdade em autoritarismo, não em democracia.<br />
<strong><br />
Seria então um sinal de maturidade democrática?</strong><br />
Sim.  A candidata Marina Silva concorda com boa parte das coisas que PT e PSDB fizeram, embora não seja uma candidata do arco plebiscitário.  E duvido que ela consiga criar uma proposta muito diferente.  Nós viemos de uma longa jornada de amadurecimento democrático, e esse amadurecimento significa ter agendas públicas para além dos partidos em ocasião.  Há diferenças de biografia entre os candidatos, no modo de fazer política e até no terreno das ideias.  De fato, comparando (<em>o governador de São Paulo, José</em>) Serra e Dilma (<em>Rousseff, ministra da Casa Civil</em>), não há grande diferença como alguns esperariam, mas há alguma.<br />
<strong><br />
E o que pode ser alternativo?  O que significa ser progressista hoje no Brasil?</strong><br />
Quem quiser ser progressista precisará também de continuidade com as políticas existentes, não vai poder inventar a roda.  Novamente citando a Marina, a política macroeconômica dela mudaria muito?  Acho que não.  Ela mudaria as políticas de transferência de renda?  Acho que não.  O que ela pode mudar são outras questões, o modo de relacionamento com o Congresso, a política ambiental.  A eleição também é escolher aquele que terá melhor capacidade de continuar o que está dando certo.</p>
<p>Mas claro que é bom ter alternativas.  Quando o PRI (Partido Revolucionário Institucional) dominou por mais de 70 anos a política do México, num desses comícios ao final do regime tinha uma faixa de eleitores dizendo o seguinte: &#8220;Chega de realizações.  Queremos promessas&#8221;.  Isso é importante do ponto de vista democrático.  Claro que as pessoas não querem apenas continuidade.  Querem ideias novas, problemas e questões novas.</p>
<p>No programa feito no congresso do PT, há uma ênfase muito grande em educação, ciência e tecnologia que não há no governo Lula.  Desde que Marina se apresentou como candidata, tanto o governador Serra quanto a ministra Dilma se tornaram mais ambientalistas, digamos assim.  Nesta eleição vai haver mais continuidade do que mudança, mas algum espaço de mudança há.  O voto do eleitor é uma combinação entre essas duas coisas. A questão educacional, a urbana e a ambiental são temas que devem ter um espaço maior do que tiveram em outras eleições.</p>
<p><strong>As regras do jogo democrático compõem um campo fértilou refratário para essas novas ideias e temas, que possam se transformar de promessas em realizações?</strong><br />
É como se diz em administração pública: nem toda inovação é boa.  Na Venezuela, as inovações são enormes com o presidente Hugo Chávez.  Mas eu acredito que a maioria delas não é de boa qualidade.  Acho que a inovação pode se tornar positiva, quanto mais debate público houver.</p>
<p>No caso brasileiro, melhor seria se as campanhas fossem mais longas.  O Brasil optou, na década de 90, por uma redução do período efetivamente eleitoral.  Isso é um equívoco.  Para o eleitor, quanto maior o tempo de debate, melhor.  Aí é possível criar inovações boas, não questões apenas inovadoras e mal formuladas.  Outra coisa é a existência de prévias nos partidos, ao estilo das primárias americanas.  Acho que o Brasil ganharia muito se houvesse primárias, que fossem pelo menos um ano antes das eleições.</p>
<p><strong>Mas, além das eleições, é comum associar-se a postergação de reformas ao fato de que os responsáveis por realizá-las não estão interessados em mudar o <em>status quo</em>.  O exemplo mais recorrente seria a reforma política.  É possível romper essa lógica?</strong></p>
<p>Tem havido reformas políticas no Brasil desde 1988.  A ideia na imprensa é que a reforma vai ser um momento mágico, a entrada da Alice nos País das Maravilhas.  Nas democracias, esses momentos mágicos são raros.  Em regimes autoritários e revolucionários eles aparecem constantemente.  De tempos em tempos um ditador de ocasião fala: &#8220;Vamos matar 30 mil pessoas&#8221;.  Isso é uma reforma completa.  Acho que na democracia as reformas são sempre incrementais, o que não é ruim.  Pode ser que você aprenda mais com esse processo.  A reeleição teve um impacto gigantesco no Brasil.  Tem reformas vinculadas ao horário e ao uso de tempo de TV, reformas vinculadas à questão da fidelidade partidária.  A pergunta é se mais reformas são necessárias.  Para alguns cientistas políticos, sim, para outros, não&#8230;</p>
<p><strong>E para o senhor?</strong></p>
<p>Acho que algumas coisas poderiam ser melhoradas.  Mas a melhor forma de fazer isso é pressionando topicamente, em lugar de pensar numa grande reforma, quase uma revolução política.  Por exemplo, a discussão sobre a redução dos cargos em comissão é muito mais importante para a forma como funciona a política brasileira do que o sistema eleitoral.  Acho que tem havido uma perspectiva muito maximalista das reformas que não só as inviabiliza, como talvez seja indesejável.  Quando se muda muita coisa ao mesmo tempo, a capacidade da sociedade de controlar esse processo é menor.</p>
<p>Democracias são assim mesmo. Veja agora o caso do presidente (<em>dos EUA</em>) Barack Obama.  A aprovação da reforma da saúde foi uma coisa muito custosa para ele. Quem opta por democracia deve supor que nela o jogo da negociação e da barganha não só seja legítimo, como constante. É claro que é possível ainda melhorar o controle sobre o Congresso para pressioná-lo mais.  Um dos mecanismos é que as pessoas participem dos partidos. O problema é que elas não participam.</p>
<p><strong>E por que isso acontece?</strong><br />
Tem a ver com um momento em que o Brasil realizou a sua redemocratização, consolidou-se, e cada qual foi buscar sua vida privada.  Ou foi procurar atuar no interesse público em outras esferas, fazer uma revista, trabalhar numa ONG.  É legítimo isso. Mas me parece que está faltando gente da elite social brasileira &#8211; elite no sentido clássico da palavra, os melhores &#8211; que participe dos partidos políticos.</p>
<p><strong>Mas os partidos também não são modelos a se questionar?</strong><br />
Melhor com eles do que sem eles.  Os nacional-socialistas diziam, na Alemanha, que os partidos eram modelos fracassados.  A experiência foi bastante desastrosa.  No caso brasileiro, os partidos têm um monte de defeitos, mas a melhor maneira de mudar é dentro deles.  Há um problema grande no País que é a renovação da classe política, mas não nesse sentido vulgar que corre na mídia.  Houve uma classe política que realizou o processo de redemocratização do Brasil, que foi muito bem-sucedido.  Em comparação aos demais países do BRIC, o Brasil tem um grau de democracia milhões de vezes melhor.</p>
<p>Isso tem a ver com essa geração, da qual participaram Fernando Henrique e Lula.  Só que essa geração está encerrando a sua jornada.  Uns morreram, outros saíram da política, outros daqui a pouco estão se aposentando&#8230;</p>
<p><strong>Outros parecem que não vão se aposentar nunca&#8230;</strong><br />
Mas daqui a pouco vão cair.  O que me preocupa não é o (<em>senador José</em>) Sarney ser o presidente do Senado aos 80 anos, mas os que não aparecem como alternativa de renovação dentro dos partidos.  Acho que há um problema de renovação que tem a ver com características do tempo político, mas também com uma situação em que a elite social brasileira adora criticar a política, mas não botar a mão na massa.  Se o Renan (<em>Calheiros, senador</em>) está lá é também porque outros membros da sociedade brasileira não quiseram estar lá.  Para que haja uma renovação da classe política, a sociedade tem de participar um pouco mais e reclamar um pouco menos.</p>
<p><strong>Qual é a influência da cultura nisso? O senhor concorda que a cultura política no Brasil é pautada por decepção e descrédito por parte do cidadão com relação aos representantes?</strong></p>
<p>Sim, acho que há decepção, desinteresse, não só no Brasil como em outros países.  Ao ler os grandes jornais, parece que há um sentimento <em>blasé</em> da classe média brasileira, misturado a um moralismo udenista que, convenhamos, não faz muito bem à democracia.</p>
<p>Fernando Henrique e Lula deram a cara pra bater.  Pode-se discordar de um e de outro, mas eles não ficaram apenas escrevendo artigo em jornal, reclamando que todo mundo é igual, que o Sarney está no poder há 50 anos.  Acho que uma parte da elite social brasileira podia fazer o papel que foi feito por esses construtores da democracia: Fernando Henrique, Lula, Ulysses Guimarães, Montoro, Brizola&#8230; Eles tiveram um papel maior do que a sociedade admite.  Só que uma parte da tarefa deles se esgotou.  São necessárias novas ideias, porque novas tarefas aparecem na sociedade.</p>
<p><strong>Mas a que o senhor atribui o afastamento da sociedade em relação à política?  E, já que é preciso maior envolvimento, como se realiza isso?</strong></p>
<p>Acho que há uma desarticulação social que tem a ver com uma sensação de que a política é suja.  Mas, como diria o velho Mário Covas, política é colocar o pé no barro.  Tem que sair da Daslu e colocar o pé no barro.  Sair da GV e colocar o pé no barro.  Porque senão vira conversa fiada.  Como fazer com que eles participem?  Eu acho que é mais difícil a resposta em relação a essa pergunta.  Se nós soubéssemos exatamente o que mobiliza as pessoas a agir, o mundo seria melhor, mas a gente não sabe.  O que eu sei é que quem se mobiliza coletivamente faz história.</p>
<p>Os meios de comunicação de massa têm um papel importante de tratar da política não só como uma coisa suja, mas também como uma coisa nobre.  Acho que as universidades deveriam deixar de ser meramente técnicas e se tornar parte da construção da cidadania.  A mudança social no País é muito grande nos últimos 20 anos.  Se não se entender isso, sempre se vai gritar que os políticos são ladrões, que os eleitores querem apenas políticos ladrões.</p>
<p>É interessante que a redução da desigualdade aumentou o distanciamento entre as elites sociais e os mais pobres, do ponto de vista dos valores.  Veja essa discussão sobre as cotas.  É uma discussão muito preconceituosa em boa parte da classe média para cima.  Cotas para negros não vão resolver o problema da escravidão, mas que há uma desigualdade étnica no acesso aos bens públicos, isso há.  Cada vez mais gente da elite social brasileira gostaria de viver num país que não tivesse o Brasil.  Como dom Pedro II, que era uma grande estadista no Império, uma pessoa esclarecida, mas que passava o verão em Petrópolis, porque o Rio de Janeiro era fétido.  Às vezes me parece que a elite brasileira tem a postura dom Pedro II.</p>
<p><strong>Tem a ver com um sentimento de ineficácia?  Afinal, qual o grau de influência do cidadão comum mobilizado, que não é jornalista, nem ongueiro, nem lobista, sobre as decisões públicas?</strong><br />
Eu acho que, para o cidadão-padrão, que é mais pobre e menos escolarizado, isso se dá pela via local mais fortemente, com seu deputado, Com o prefeito.  O movimento de saúde na Zona Leste de São Paulo sempre foi muito eficiente e não são apenas médicos que lá estão.  A própria questão ambiental tem populações que se organizaram e conseguiram resultados importantes no País.  Todo o movimento ligado ao Chico Mendes no Acre não era da elite brasileira.  Não necessariamente os mais bem informados são os mais bem organizados.</p>
<p><strong>A ascensão do terceiro setor tem relação com o esvaziamento da esfera política como a única via para transformações?</strong><br />
A ascensão do terceiro setor é positiva, porque abre mais espaços públicos de discussão.  Pode ser que parcela da população que poderia estar no espaço político-representativo tenha optado pelas ONGs e se afastado.  Isso pode ser um processo histórico, uma questão de tempo mesmo.  Por exemplo, o (<em>ambientalista João Paulo</em>) Capobianco tem uma história muito importante no terceiro setor, participou do governo e vaiconcorrer agora a um cargo público.  Talvez essa migração entre as áreas da política, da sociedade civil, das universidades e do mercado comece a crescer nos próximos anos.  Isso seria um fato alvissareiro no Brasil.</p>
<p><strong>Não são apenas as OSCIPS formalmente concebidas, não é?  Há muitos outros modelos de organização.</strong> Claro.  Eu estou falando de espaços de atuação, um espaço público ampliado.  Que, repito, é muito bom em si.  Mas, se ficar só nisso, é insuficiente.  É preciso que haja uma migração dessas pessoas do espaço público ampliado para o sistema político-representativo de algum modo.</p>
<p><strong>Então a política é a seara definitiva</strong>?<br />
É a que vai tomar definições centrais.  Embora o sistema político-representativo, sozinho, não seja a governabilidade de uma sociedade, que envolve comunidade, terceiro setor, mercado.  Não ter nenhuma participação e intersecção entre essas áreas a meu ver é um erro.</p>
<p><strong>Mas a intersecção vem acontecendo, não?</strong><br />
É, mas ainda muito lentamente no Brasil.  A pergunta básica da CPI das ONGs era a seguinte: devem existir ONGs no Brasil para participar de algum ponto da política pública?  Essa é uma pergunta esdrúxula.  Nenhum país democrático no mundo faria essa pergunta.  Seria o mesmo que dizer que é possível resolver os problemas da política sem os políticos.  Há um debate muito radicalizado em relação a alguns pontos que tem a ver com a sua pergunta original sobre um clima plebiscitário no Brasil.  Se o outro lado está dizendo A, eu devo dizer B. Acho isso muito pobre intelectualmente.<br />
<strong><br />
Isso não é intrínseco ao processo político, à disputa pelo poder?</strong><br />
Em algum ponto sim, mas a Alemanha recentemente estava sendo governada pelos dois partidos mais importantes do país, o de situação e o de oposição.  Quando houve o 11 de Setembro, os republicanos e os democratas votaram juntos no Congresso americano.  Então, existe o embate inteligente e o embate burro.  A oposição passou um bom tempo dizendo que o Bolsa Família era mero assistencialismo.  Passados oito anos, eles descobriram que não era.  Do mesmo modo, o PT dizia que o Plano Real era uma ficção.  Acho que muitas vezes no Brasil tem-se perdido a inteligência, de ver as diferenças finas que há entre os grupos políticos, não essas completamente grosseiras que viram um modelo futebolístico da política: se eu torço para o Corinthians, obviamente o resto é inimigo do Corinthians.<br />
<strong><br />
Já houve algum período de debate político qualificado?</strong><br />
Eu diria que o debate na Constituinte foi mais inteligente.  Acho que não tinha tanto essa ânsia pela dicotomia que anima a opinião pública hoje.  Os blogs de política hoje são um horror.  Tem alguns bons, mas na maioria é uma briga de foice, como matar o seu adversário, quando a democracia não é a lógica &#8216;amigo-inimigo&#8217; do Carl Schmitt, que é antidemocrático por natureza, um dos inspiradores do nazismo.  Na época do mensalão petista teve um senador que disse que era preciso &#8220;acabar com aquela raça&#8221;, para que ela ficasse 30 anos fora da política.  Isso é Carl Schmitt.  Na verdade, seria preciso fazer uma crítica e colocar em questão, inclusive por meio do voto, se era preciso acabar com aquela situação.  &#8216;Acabar com aquela raça&#8217; não é uma boa forma de fazer política.<br />
<strong><br />
Nas eleições municipais de 2008, os vencedores em primeiro turno de 20 das 26 capitais foram os que tiveram mais tempo de exposição na televisão.  Até que ponto o conteúdo programático das candidaturas é relevante para o eleitor, em comparação com o <em>marketing</em> e a construção da imagem do candidato com outros recursos?</strong><br />
O tempo de televisão é importante, mas não é decisivo necessariamente. Nas eleições municipais o que decidiu foi a situação socioeconômica do País. É muito difícil ganhar a eleição com um tempo de TV muito pequeno, mas, na eleição de 1989, os candidatos que tinham mais tempo de TV eram Ulysses Guimarães e Aureliano Chaves.  Ficaram lá nos últimos lugares. Vários estudos mostram que, na eleição de 2006, para o eleitor-padrão, o rádio teve mais influência do que outros meios de comunicação.  Não é à toa que o presidente Lula adora o seu programa de rádio.</p>
<p>Sobre o conteúdo programático, não há como haver uma democracia de massa, numa sociedade tão grande e complexa, sem comunicação de massa.  A pergunta na verdade é como fazer uma comunicação de massa que seja a mais democrática possível.  Eu acho que a pluralidade em meios de comunicação já ajuda a fazer isso. As mídias alternativas, em particular a internet, já estão abalando um pouco as estruturas do jogo tradicional.  Se você olhar as eleições quantitativamente, em quantas o<em> marketing</em> político foi prioritário, sempre será em minoria.</p>
<p><strong>Como se calcula isso?</strong><br />
É só perguntar ao eleitor quais foram os fatores que levaram ao voto.  Você vê que existe uma congruência muito grande entre esses fatores e a situação real dos eleitores.  Nas democracias modernas, o indicador que a gente usa mais é o de bem-estar social.  Se esse indicador estiver muito alto, por que dizer que foi o <em>marketing</em> político que elegeu?  Acho muito difícil um marqueteiro decidir a eleição num lugar que haja um índice de bem-estar social muito ruim.  Mário Covas dizia que comunicação é essencial, mas, se não tiver o que comunicar, não adianta nada.  O (<em>ex-prefeito de São Paulo Celso</em>) Pitta foi eleito porque o governo Maluf era muito bem avaliado, não só pelo Fura-fila.  Alguém também poderia dizer que a Dilma é relativamente desconhecida e é favorita para a eleição presidencial.  Mas é porque o governo e o presidente Lula são bem avaliados.  O <em>marketing</em> não vai inventar a Dilma do nada.  O aerotrem do Levy Fidelix é uma ideia de <em>marketing</em> imbatível, porque resolveria n problemas numa tacada só.  Mas os eleitores não são tão bobos assim.<br />
<strong><br />
E o fator internet terá alguma relevância inédita nas eleições deste ano?</strong><br />
Acho que vai crescer, mas ainda é pequena, porque você tem um número grande de pessoas que não tem acesso prioritário à internet.  Tem crescido muito em <em>lan houses</em>, nas escolas públicas, mas ainda não é o meio mais importante de formação e informação na cabeça das pessoas.  A tendência é que a internet cresça nesse processo.  Mas não sei se o grau de informação política disponível na internet é tão diferente em relação aos jornais.  O espaço de publicação autônoma na internet é muito grande, mas o que se publica de informação igual, de repetição&#8230; Acho que nós temos ainda muito a aprender, no mundo todo, sobre o uso da internet para a informação coletiva.</p>
<p><strong>A internet poderia ser mais bem aproveitada na democracia?  Que tal um espaço de deliberação para que a cidadania influa nas decisões públicas para além do voto sazonal e de eventuais plebiscitos?</strong><br />
Imagine que você tivesse que acordar todos os dias e fazer uma votação ligando o seu computador no café da manhã.  Você teria que votar se um dinheiro vai para uma estrada no Acre ou no Maranhão.  Depois, se o Brasil deve comprar caças franceses, suecos ou americanos.  O nível de decisão é muito diferente.  Acho que a internet pode ser um espaço para algum tipo de decisão.  Mas algumas decisões não poderão ser feitas pelo eleitor simplesmente no seu café da manhã.</p>
<p>Outra coisa que me assusta é a possibilidade de tomar decisões sem discutir.  O termo deliberação em ciência política significa não só votar, mas votar com algum grau de discussão.  Há espaço para o edemocracy, mas tem que ir com muito cuidado.  Afinal, para construir a democracia, o mundo demorou séculos.  Acho que a melhor forma de pensar a política e as políticas públicas é de forma incremental, aprendendo aos poucos.</p>
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		<title>Eleições &#8211; O ensaio geral</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Mar 2010 11:50:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
				<category><![CDATA[39]]></category>
		<category><![CDATA[eleições 2010]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>

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Outro dia, um amigo que mora num bairro da periferia de São Paulo me disse que está [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em> <a href="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/03/eleicoes.jpg"><img class="alignleft size-large wp-image-6477" title="eleicoes" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/03/eleicoes-222x270.jpg" alt="eleicoes" width="222" height="270" /></a>A cultura política que se nutre da tradição das campanhas ultrapersonalizadas e da supremacia do marketing será tensionada por novos temas e protagonistas</em></p>
<p>Outro dia, um amigo que mora num bairro da periferia de São Paulo me disse que está ouvindo por lá muitas conversas que estimulam, no boca a boca, o voto nulo de alto a baixo: presidente da República, senadores, deputados federais e estaduais, governadores.  É cedo para dizer se isso vai crescer ou restringir-se à ira de um grupo inexpressivo, mas indica o desânimo generalizado em relação à política e a percepção alastrada de que ela é, principalmente, um canal para a corrupção e para o desvirtuamento do interesse público.</p>
<p>O calendário eleitoral* de 2010 segue o seu ritual, impávido.  De 10 a 30 de junho devem ser realizadas as convenções partidárias para escolha de candidatos e decisões sobre coligações.  Até 5 de julho, as candidaturas devem ser registradas.  A partir de 6 de julho, será permitida a propaganda eleitoral.  Em 17 de agosto começa a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, indo até 30 de setembro.  Finalmente, no dia 3 de outubro acontecerá o primeiro turno das eleições.  E, no dia 31 de outubro, o segundo turno, onde couber.</p>
<blockquote><p>*Com este artigo, PÁGINA22 inaugura uma seção especial mensal destinada a acompanhar e a provocar discussões sobre sustentabilidade na política brasileira e no processo eleitoral deste ano</p></blockquote>
<p>Na prática, a campanha presidencial está na rua desde o ano passado, puxada pelo presidente da República, empenhado em colocar sua candidata num intensivão, contando com o privilégio nada desprezível de poder utilizar (e criar) oportunidades ofi ciais e recursos públicos para circular pelo País.  E pelo exterior, como mostrou a desastrada tentativa de alçar a ministra da Casa Civil à liderança da política ambiental brasileira em Copenhague.  Deu errado, porque ela não decorou bem o papel, apesar do exército de assessores.  E, ao tentar alijar agressivamente o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, do contato com a mídia, acabou se expondo demais e denunciando sua falta de intimidade com o assunto.</p>
<p>Foi uma trapalhada, mas quem se importa?  Há, certamente, a convicção de que isso não pesa na eleição interna.  De fato, parcela ínfi ma da população sabe o que se passou em Copenhague ou detém muitas outras informações importantes para decidir seu voto.  Além disso, nossa democracia formal, consolidada em instituições e ritos, não bate com a cultura política, avessa a regras universais e à ingerência do interesse público em estratégias de poder.</p>
<p>De qualquer forma, 2010 será um ano de embate.  Essa cultura política, que se nutre da tradição das campanhas ultrapersonalizadas e da supremacia do marketing sobre o debate de propostas e ideias, será tensionada pela entrada de novos temas e novos protagonistas.  O episódio de Copenhague aqui lembrado é sintoma dessa tensão, na medida em que revela o reconhecimento de que será preciso enfrentar questões que fogem ao ramerrão superfi cial de sempre.</p>
<p>Do ponto de vista político, o cenário será o pior possível, se vingar a tese da &#8220;eleição plebiscitária&#8221;, o que signifi ca um tira-teima francamente maniqueísta entre os governos Lula e Fernando Henrique, que interessa mais à visão patrimonialista da política do que à sociedade.  Em lugar de projetar o País para um debate sobre o futuro, que vai além desses dois grupos políticos, quer-se concentrar a energia da eleição no tal do plebiscito, que, se valesse para alguma coisa, deveria ser para evidenciar os inúmeros erros que ambos cometeram.  A começar pela incapacidade de empreender mudanças estruturais no modelo de governabilidade e na prática político-partidária.</p>
<p>No cenário deste momento, Marina Silva e Ciro Gomes, este último, em termos, atrapalham o arrastão plebiscitário.  Que, aliás, padece de um problema conceitual.  Não dá para falar em plebiscito entre PT e PSDB, em sim ou não, quando a grande força política do País continua sendo o PMDB, que é sim e não.</p>
<p><strong>Internet e televisão<br />
</strong>E a internet, cumprirá o seu destino de embaralhar as cartas, turbinando os debates reais e mobilizando militâncias?  O seu papel na eleição de Barack Obama difi cilmente se repetirá por aqui, mas, mesmo que o efeito não seja o mesmo, pode vir a ser um diferencial, especialmente para quem não dispõe de recursos e tempo de TV fartos.</p>
<p>A TV continuará sendo a grande caixa de ressonância.  O desafio de uma candidata como Marina Silva será transformar o seu minuto em ouro, ou seja, terá de acertar o alvo diariamente para provocar a discussão de seus temas e propostas na seara dos gigantes com os quais disputa.</p>
<p>Serão quase 132 milhões de votantes em outubro. O que decidirão? Estamos apenas no ensaio geral, os blocos ainda não estão explicitamente na rua.  PÁGINA22 acompanhará bem de perto este ano tão instigante, procurando identifi car as inovações, as polêmicas, os compromissos, as alianças e forças capazes de fazer com que tenhamos algo sustentável a comemorar a partir de outubro, qualquer que seja o candidato vencedor.</p>
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		<title>Sérgio Abranches fala sobre Marina Silva</title>
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		<pubDate>Sun, 13 Sep 2009 22:43:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Sergio Abranches analisa as vantagens e desvantagens da eventual candidatura de Marina Silva à presidência, durante o evento &#8220;O Brasil na transição de baixo carbono&#8221;, na Faculdade de Economia da USP.
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Sergio Abranches analisa as vantagens e desvantagens da eventual candidatura de Marina Silva à presidência, durante o evento &#8220;O Brasil na transição de baixo carbono&#8221;, na Faculdade de Economia da USP.</p>
<a href="http://pagina22.com.br/index.php/2009/09/sergio-abranches-fala-sobre-marina-silva/"><p><em>Click here to view the embedded video.</em></p></a>
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		<title>A última fronteira</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Aug 2009 20:08:20 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O repertório da sustentabilidade ganha empresas e a sociedade civil, mas a política, instância decisiva, segue a reboque. A um ano da eleição presidencial, analistas discutem como emplacar um novo projeto de País
Quando redigiu o prefácio de um dos primeiros [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>O repertório da sustentabilidade ganha empresas e a sociedade civil, mas a política, instância decisiva, segue a reboque. A um ano da eleição presidencial, analistas discutem como emplacar um novo projeto de País</em></p>
<p>Quando redigiu o prefácio de um dos primeiros documentos a esquadrinhar o conceito de sustentabilidade &#8211; o relatório Nosso Futuro Comum, de 1987 -, a então primeira-ministra da Noruega, Gro Harlem Brundtland, dirigiu-se a todos: indivíduos, governos, empresas, organizações da sociedade civil, a comunidade científica.  Com o marco conceitual, nascia também a consciência de que uma revisão tão profunda do desenvolvimento não poderia prescindir de ninguém.</p>
<p>Mais de 20 anos depois, às vésperas da Convenção do Clima, na qualos governantes ocupam o assento de motorista do mundo, é no mínimo preocupante constatar que, de todas as instâncias envolvidas nesse processo, é a política que está ficando para trás.</p>
<p>Uma pesquisa realizada pelas consultorias internacionais Globalscan e SustainAbility, com 1.600 dos chamados &#8220;mais influentes formadores de opinião em sustentabilidade&#8221; em 90 países, revela o hiato entre a sociedade e seus representantes.</p>
<p>Mais de 50% dos entrevistados consideram o desempenho de líderes de ONGs e empreendedores sociais excelente. Quando se trata de qualificar líderes eleitos, a proporção se inverte: 56% consideram o desempenho pobre.</p>
<p>Ligeiramente superior é a avaliação de líderes corporativos.  As piores notas foram atribuídas por 47% dos entrevistados. Mas a pesquisa, realizada anualmente, também revela que o ranking das empresas consideradas expoentes em sustentabilidade se renova, fruto de uma dinâmica constante de competição pela inovação no mundo corporativo.</p>
<p>No Brasil, a um ano das próximas eleições presidenciais, é tempo de percorrer a distância entre a retórica e a prática. Mas apenas converter bancos, empresas e consumidores não basta. &#8220;O único jeito de emplacar um projeto de desenvolvimento sustentável para o Brasil é pela via política, por mais que a gente tenha nojo dela&#8221;, diz José Eli da Veiga, professor titular do Departamento de Economia da USP e autor de vários livros sobre o tema.</p>
<p>Assim é, se lhe parece</p>
<p>O balanço da atual administração, se prevalecem os avanços ou os retrocessos, é uma discussão interminável.  É possível dizer, como faz Mario Mantovani, diretor da SOS Mata Atlântica, que a única diferença entre o governo atual e aqueles dos militares é o regime democrático. De resto, o apetite pelo crescimento desprovido de cuidados ambientais seria fundamentalmente o mesmo.</p>
<p>O olhar do militante é diferente do olhar do historiador. José Augusto Pádua, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e especializado na história da política ambiental brasileira, há uma transição em curso.  &#8220;A gente pode examinar este assunto sob duas perspectivas.  Uma é o ideal, e outra, a realidade da política brasileira, com base no passado.  Estamos muito longe do ideal, mas a política ambiental avançou nas últimas décadas, tanto no governo de FHC quanto no de Lula.&#8221;</p>
<p>A prova, segundo Pádua, é que hoje há uma espécie de limite invisível para a ousadia das políticas públicas, especialmente na Amazônia.  O veto do presidente Lula aos dois artigos mais polêmicos da MP 458, conhecida como MP da grilagem, seria um exemplo.  &#8220;A sensibilidade ambiental do Lula é mínima, mas ele não consegue ultrapassar algumas barreiras. Ele sabe que a reação, inclusive internacional, é grande.&#8221;</p>
<p>O grosso das críticas ao Executivo, em matéria ambiental, dizem respeito à incoerência das políticas setoriais, evidenciadas pelos constantes batebocas entre ministros. Mas o Legislativo nacional não fica atrás. Para citar só os episódios mais recentes, a aprovação da MP 458 e a tentativa de burlar o licenciamento ambiental para o asfaltamento de estradas através da MP 422 revelariam um Congresso retrógrado, insensível ao componente socioambiental do desenvolvimento.</p>
<p>Ao mesmo tempo, a Frente Parlamentar Ambientalista (FPA), fundada há pouco mais dois anos por Sarney Filho (PV-MA), hoje conta com um elenco de 283 deputados. É o maior agrupamento de parlamentares da Câmara, com 55% da totalidade dos representantes. O inchaço pode ser explicado, em parte, pelo estilo de lobby das ONGs ambientalistas em Brasília, como a SOS Mata Atlântica, que integra a coordenadoria de Empresas e Responsabilidade Ambiental da FPA. A ordem é não discriminar ninguém.</p>
<p>&#8220;A gente passou catorze anos tentando aprovar a Lei da Mata Atlântica, aprendemos algumas lições&#8221;, diz Mantovani. &#8220;Hoje a gente pega o cara de tecnologia, o cara de esportes, o cara de saúde, e diz: &#8216;Olha, meio ambiente tem a ver com todos vocês&#8217;.  Em vez de brigar, a gente tenta fazer a cabeça dos deputados.&#8221;</p>
<p>Se o gigantismo da FPA cria um ambiente de diálogo promissor, o mesmo não se pode dizer sobre coesão e força política.  Basta notar a composição da Comissão de Meio Ambiente da Câmara. Das 36 cadeiras disponíveis, 16 foram ocupadas por representantes da bancada ruralista, num equilíbrio de forças um pouco mais fiel à realidade da casa.</p>
<p>Para João Paulo Capobianco, ex secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, a FPA não passa de um agrupamento de simpatizantes.  &#8220;O tema interessa realmente.  Mas são raros os parlamentares que têm a questão ambiental como tema permanente.  Nessa área, a atual representação é a pior dos últimos anos.&#8221;</p>
<p>A hostilidade franca às questões ambientais beira o suicídio político, diz Capobianco. Sinal dos tempos.  É provável que os mesmos episódios que introduziram a sustentabilidade no repertório de boa parte da sociedade, da imprensa e do mundo corporativo tenham tido também alguma influência sobre a classe política.</p>
<p>É o que demonstra o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), membro da FPA, para quem o quarto relatório do IPCC, em 2007, fez com que a agenda ambiental ganhasse atenção.  &#8220;Essas coisas de machadinha, serra elétrica, pegam mal&#8221;, diz o deputado, numa referência aos &#8220;títulos&#8221; e &#8220;prêmios&#8221; concedidos pelo Greenpeace a determinados políticos.</p>
<p>Momentum</p>
<p>O contexto das eleições de 2010 é peculiar, já que o volume de debates sobre sustentabilidade e meio ambiente é muito superior àquele que precedeu o último pleito, em 2006.</p>
<p>Duas observações são unânimes entre os analistas ouvidos por Página22. A primeira é de que a questão ambiental deve figurar no debate pré-eleitoral com destaque inédito, embora ainda não se saiba se por maturidade ou oportunismo.  A segunda é de que os principais nomes apontados para a Presidência da República, o governador de São Paulo, José Serra, e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, representam, respectivamente, seis e meia dúzia.</p>
<p>&#8220;Eles já não apresentam posições avançadas em sustentabilidade nos cargos que ocupam hoje.  Não há por que imaginar que mudariam depois&#8221;, diz Adriana Ramos, secretária-executiva do Instituto Socioambiental (ISA), em Brasília.  Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, José Eli da Veiga diz que a disputa em 2010 se dará entre &#8220;a peste e o cólera&#8221;, ou seja, entre dois projetos igualmente conservadores.</p>
<p>O motivo seria a concepção do governo de que o simples aumento do PIB, capitaneado pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), traria retorno imediato na forma de desenvolvimento.  Além disso, não se consideram as implicações energéticas no planejamento da infraestrutura.  &#8220;Por outro lado, quase todas as críticas ao PAC são centradas na lentidão, ineficiência ou incompetência de sua execução.  Jamais se ouviu de algum expoente oposicionista qualquer reparo à sua própria concepção&#8221;, escreveu o professor.</p>
<p>Pádua alerta que a dificuldade de alguma inovação na agenda programática dos candidatos não diz respeito apenas à vontade política, mas também à comunicação política. Grandes obras e indicadores como o PIB são elementos historicamente associados ao progresso, portanto mais concretos para o eleitor. &#8220;Há uma dificuldade muito grande em fazer a comunicação política de um movimento que não apenas está em construção, como é historicamente muito recente.&#8221;</p>
<p>Enquanto isso, os desafios de longo prazo para o Brasil tornam-se continuamente mais complexos. Ou seja, não se limitam ao desmatamento, tido como unico telhado de vidro do País.  Se considerarmos, como faz Veiga, que as questões mais proeminentes no cenário internacional serão a concorrência com a China e o aquecimento global, a resposta inevitável para ambas é um salto de qualidade em ciência, tecnologia e inovação. &#8220;Mas o máximo que a gente consegue fazer por aqui é ficar discutindo onde pode ou não pode colocar boi.&#8221;</p>
<p>Mão na massa</p>
<p>Resta tocar um tango argentino, como sugeriria Manuel Bandeira, o poeta moribundo?  Do alto de sua trajetória calcada no movimento socioambiental, Capobianco cobra mais mobilização.  Ele remete a outro momento parecido com o que se vivencia hoje: as eleições de 1989 e o clima de preparação que se instaurava para a Rio-92.</p>
<p>&#8220;Houve um movimento grande, de várias organizações, na elaboração de uma plataforma ambiental mínima nas eleições.  Arrisco dizer que fomos mais eficientes no passado.&#8221;  Pelo menos dois pontos reivindicados à época, a criação da Terra Indígena Raposa-Serra do Sol e o fim dos testes nucleares na Serra do Cachimbo, foram levados a cabo por Fernando Collor.</p>
<p>Para Capobianco, as ONGs de hoje estão tomadas pelo mal que ele chama de &#8220;projetismo&#8221;.  &#8220;São organizações de projetos, que buscam apoio para desenvolver e implementar.  As questões amplas de políticas públicas, de articulação social, são, em muitos casos, deixadas de lado. O caso das eleições agora é típico.  Não existe até o momento nenhum movimento forte a fim de interferir nessas eleições.&#8221;</p>
<p>Ainda é possível esperar por uma grata surpresa.  Segundo Página22 apurou, um grupo de ambientalistas, economistas, cientistas políticos, entre outros profissionais, vem se reunindo para debater alternativas para um movimento político da sustentabilidade, com vistas não apenas a 2010.  O grupo só falará sobre estratégias depois de lançado o movimento, previsto para os próximos meses.</p>
<p>Mesmo assim, não há por que imaginar que o desânimo patente da população brasileira com a política não possa se abater também sobre as ONGs.  Adriana Ramos dá a impressão de já ter jogado a toalha.  &#8220;Nosso sistema não permite que pessoas se elejam sem se atrelar a algum poder econômico que as banque. O ambientalismo não elege ninguém.  E, ainda que conseguíssemos um presidente comprometido com essa agenda, com que forças ele teria de se aliar em nome da tal governabilidade?&#8221;</p>
<p>Apesar disso, Adriana enxerga uma boa possibilidade de avanço se, pelo menos, a agenda ambiental tivesse outros instrumentos para se relacionar com os demais setores de governo que não se restringissem ao famoso &#8220;comando-e-controle&#8221; e ao licenciamento.  Se existissem, por exemplo, mais instrumentos tributários, os órgãos ambientais poderiam incentivar e não somente limitar as atividades econômicas.  &#8220;Mas só vai mudar o perfil de atuação se preocupações ambientais começarem a surgir nas outras áreas&#8221;, diz.</p>
<p>Esse seria um diferencial dos anos 2000, segundo Capobianco.  A possibilidade de reunir não apenas os ambientalistas, mas também segmentos mais progressistas do empresariado nacional. O deputado Antonio Carlos de Mendes Thame (PSDB-SP) também acredita na sensibilização pela via econômica.  Sua aposta é uma só: empregos verdes.</p>
<p>&#8220;O desemprego é um problema que apavora qualquer governante.  O setor automotivo teve demissão em massa, recebeu ajuda e não criou empregos. O governo ficará com o termômetro laboral, e aí é que pode surgir o apoio a alternativas limpas de energia.&#8221;  A lógica do deputado é a mesma que impera atualmente nos EUA.  Um setor que demanda tanta pesquisa e desenvolvimento para novas tecnologias, além da viabilização em escala das opções já existentes, é também um dos que mais têm potencial para criar postos de trabalho.</p>
<p>Peças no tabuleiro</p>
<p>Se as principais correntes políticas brasileiras estão longe de ter a sustentabilidade como questão programática, despontam na mesa as opções de novas tecnologias da comunicação, exatamente pela possibilidade de mobilizar pessoas de fora das estruturas partidárias.</p>
<p>Por exemplo: é seguro dizer que dez entre dez ambientalistas consideram Marina Silva a única liderança com projeção e capacidade suficientes para congregar as diferentes forças para um programa de desenvolvimento sustentável.  Mas não há qualquer indício de que a senadora ou seu partido venham a encampar a proposta, neste ou em futuros pleitos. (Atualização: até o fechamento desta edição, Marina Silva ainda não havia se pronunciado sobre o convite do PV. Hoje, há indícios que ela deve aceitar ser candidata. A senador promete uma resposta oficial para os próximos dias)</p>
<p>Alheio a isso, o site <a href="www.marinasilvapresidente.ning.com">www.marinasilvapresidente.ning.com</a> reuniu, em dois meses, 2.500 apoiadores.  No formato de plataforma social, o site oferece ferramentas para a mobilização, como a criação de grupos estaduais, distribuição de material de campanha, compartilhamento de notícias e sugestões de eventos, entre outros.</p>
<p>&#8220;Tem um discurso para nascer de que a sustentabilidade é uma evolução histórica da esquerda.  Assim que os partidos acordarem para isso, vão se voltar para as lideranças (em meio ambiente e sustentabilidade) que eles já têm&#8221;, acredita o criador do site, Eduardo Rombauer, que também é consultor em processos participativos.</p>
<p>A não intermediação e a alta conectividade, que subvertem o poder de mando pelo poder da influência, são características do padrão de rede, dentro e fora da internet, diz Rombauer.  &#8220;Ainda não há uma rede em prol da Marina Silva.  Existe apenas um germe, pessoas se conectando&#8221;, adverte.  Ainda assim, iniciativas como esta têm pelo menos o mérito de provocar a exclusividade dos partidos como únicas instâncias de representatividade política.</p>
<p>Em tese, as possibilidades da internet para a democracia são ilimitadas.  Vão desde o já tradicional ciberativismo, passam pela democracia deliberativa- em que os cidadãos influenciariam diretamente as decisões sobre os negócios públicos &#8211; e chegam até mesmo à democracia direta.  Mas apenas a tecnologia não resolve o problema da crise de participação política.</p>
<p>É o que explica Wilson Gomes, professor da Universidade Federal da Bahia e doutor em Teoria da Comunicação, em dois artigos sobre o tema.  A desinformação da sociedade, o descrédito da classe política, a profissionalização dos formadores de opinião (lobistas, consultores, jornalistas, ONGs etc.), entre outros fatores, &#8220;geraram a sensação de ineficácia da ação política do cidadão comum&#8221;, escreve Gomes.  É algo que atinge a causa da sustentabilidade ou qualquer outra que se pretenda um movimento.</p>
<p>Há outro mecanismo emergente que pode auxiliar no avanço de uma agenda de desenvolvimento sustentável.  Nesse caso, não ao tempo da mobilização, mas na hora de sentar à mesa e decidir como fazer.  Trata-se dos organismos multistakeholders. Roberto Waack, presidente do conselho internacional do Forest Stewardship Council (FSC), conta que a organização tem um papel importante na formulação de leis sobre importação de produtos florestais na Europa e na discussão do Congresso americano sobre mudanças climáticas.</p>
<p>A vantagem desse modelo é a qualificação do lobby.  Em lugar de cada parte reivindicar seus interesses no Congresso ou nos ministérios unilateralmente, elas negociam entre si até que se alcance o consenso.  &#8220;No Brasil, um exemplo recente foi como a moratória da soja avançou perante o governo brasileiro. O Greenpeace e a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) passaram a ir juntos ao Congresso como porta-vozes do grupo, com um poder de pressão muito maior&#8221;, relata Waack.</p>
<p>O segredo para que o modelo funcione, segundo ele, é a proximidade de cada porta-voz com seus representados. &#8220;Quando o dirigente sindical senta com o dirigente da ONG, eles têm um compromisso com o resultado, porque são cobrados pelos seus constituintes.  Se não fizerem direito, eles podem ser destituídos.  Isso faz toda a diferença.&#8221;</p>
<p>Autoavaliação</p>
<p>Se este governo não tem um projeto de desenvolvimento sustentável para o Brasil, e o próximo, provavelmente, não terá, é o caso de perguntar: alguém tem? Há em alguma parte propostas suficientemente maduras para serem transformadas em programas de governo?</p>
<p>João Paulo Capobianco demonstra muita fé na intelectualidade brasileira.&#8221;Nós temos excelentes exemplos de gestão empresarial, uma sociedade civil analítica, com técnicos que publicam regularmente na Science, um arsenal de acadêmicos extremamente habilitados&#8230;o que falta é levar isso para a realidade.&#8221;</p>
<p>José Eli da Veiga, entretanto, é mais cauteloso.  &#8220;Não acho que temos essa maturidade ainda.  É por isso que, para mim, 2010 já dançou.  Temos que pensar em 2014.&#8221;  A Amazônia seria tema central em qualquer esboço programático. O desafio não envolve apenas manter a floresta em pé, mas, ao mesmo tempo, desenvolver a região. Nada menos do que uma experiência inédita na história da humanidade.</p>
<p>Duas tentativas recentes ilustram bem o pensamento de Veiga.  Em 2007, após um ano de esforço coletivo, nove ONGs ambientalistas apresentaram o Pacto pela Valorização da Floresta e pelo Fim do Desmatamento na Amazônia. As ONGs propunham zerar o desmatamento até 2015, com a adoção de metas anuais progressivas e incentivos econômicos para remunerar proprietários rurais, comunidades tradicionais e indígenas pelo desmatamento evitado e por serviços ambientais.</p>
<p>Pouco tempo depois, um grupo de cientistas divulgou uma carta de repúdio ao pacto, principalmente pela ausência do componente de ciência, tecnologia e inovação. A geógrafa e historiadora Bertha Becker, que subscreveu a carta, disse que era mais uma tentativa de &#8220;imobilizar a Amazônia&#8221;, em lugar de se investir em exploração sustentável dos recursos naturais.</p>
<p>No ano seguinte, foi a vez dos acadêmicos de lançar uma proposta.  O documento Amazônia: desafio brasileiro do século XXI, da Academia Brasileira de Ciência e da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência, defendia a necessidade de uma revolução tecnológica e científica na Amazônia.  Entretanto, com pouco mais de 20 páginas, e propondo basicamente a criação de novas universidades, institutos de pesquisa e programas de pós-graduação, a iniciativa também não representou mais do que um esboço.</p>
<p>&#8220;E qual é a proposta dessa turma para o pré-sal?&#8221;, provoca Veiga.  &#8220;Uma discussão interessante é que o Brasil não deveria se tornar um país exportador de petróleo, mas, ao contrário, usar esse petróleo para o desenvolvimento daqui e as rendas disso para a transição energética. Se é só para dizer essas três frases, eu já estou dizendo há um ano. Não chega a ser convincente.&#8221;</p>
<p>Se há um novo movimento político por nascer, a competência de seus atores será posta à prova, em um esforço que transcende a própria militância.  E se José Eli da Veiga estiver certo, a estratégia deve ir além de contemporizar com as correntes dominantes.  &#8220;Eu já sei qual é a cabeça do Serra e da Dilma, por que eu vou perder tempo fazendo plataforma para eles?  Nós é que temos de ser a alternativa para o Brasil&#8221;, diz o professor, em referência ao conjunto de pessoas e instituições dispostas a apoiar uma candidatura que representasse um novo projeto de País.</p>
<p>Os verdes na hora da verdade</p>
<p>Quixote da causa ambiental, que nos 1980 &#8220;pregava para o deserto&#8221;, o Partido Verde brasileiro está diante da sua &#8220;hora da verdade&#8221;.  São as impressões de Alfredo Sirkis, presidente do diretório estadual do Rio de Janeiro e um dos fundadores do partido.</p>
<p>Em 2006, o PV teve de se abrir para a fisiologia por força da cláusula de barreira, segundo a qual os partidos que não alcançassem 5% dos votos para deputado federal não teriam direito a líderes de bancada, entre outras penalizações.  &#8220;Por um lado, o PV tem hoje uma parte das principais lideranças ecologistas do Brasil.  Por outro, uma bancada de deputados na qual metade nada tem a ver com esse ideário&#8221;, reconhece Sirkis.</p>
<p>Depois de derrubada a cláusula de barreira pelo Supremo Tribunal Federal, Sirkis acredita que essas eleições possam trazer um salto de qualidade, e não apenas quantitativo, para o partido.  O PV já decidiu que lançará candidatura própria à Presidência e nome prioritário é Marina Silva, do PT.  &#8220;Não subestimo as dificuldades, mas penso que isso pode, eventualmente, se viabilizar e será um fato de repercussão gigantesca, não só nacional como planetária. Hoje Marina é um símbolo verde internacional&#8221;</p>
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		<title>Mobilização já</title>
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		<pubDate>Fri, 28 Aug 2009 20:51:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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Sem pressão popular, nada feito. A esfera política, assim como se deu no mundo corporativo, só deve evoluir na direção da sustentabilidade se provocada pela opinião pública e suas cobranças. Assim, a poucos meses da 15ª Conferência das Partes (COP), [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong><img class="alignleft size-medium wp-image-2564" title="entrevista" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2009/08/entrevista-140x198.jpg" alt="entrevista" width="140" height="198" /></strong></p>
<p>Sem pressão popular, nada feito. A esfera política, assim como se deu no mundo corporativo, só deve evoluir na direção da sustentabilidade se provocada pela opinião pública e suas cobranças. Assim, a poucos meses da 15ª Conferência das Partes (COP), na qual se depositam votos de transformações vitais na agenda climática global, e às vésperas de ano eleitoral no Brasil, o deputado federal Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) conclama a população a se mobilizar por uma causa que tem na agenda uma tarefa premente: aprovar o projeto de lei que institui a Política Nacional de Mudança Climática.</p>
<p>Três projetos tramitam na Câmara, um deles de sua autoria, construído com base em consulta pública realizada pelo Observatório do Clima, que aglutina representantes da sociedade civil. Aprová-lo antes da COP sinalizaria ao mundo que a sociedade brasileira se posiciona de forma diferente da do governo.</p>
<p>A transparência e a articulação propiciadas pelas novas tecnologias são razões para Loures vislumbrar mudanças no fazer política, em que pese o descrédito popular em suas instituições. Administrador de empresas formado pela FGV, Loures aproximou-se da temática ambiental em 1989 quando procurado por Mary Alegretti, que, anos antes, com Chico Mendes, buscava agregar valor à castanha-do-pará e viabilizar as reservas extrativistas na Amazônia.</p>
<p>O projeto resultou na barra de cereais Nutry, da empresa de sua família, a Nutrimental.  Hoje, o deputado vê como maior desafio aproximar os representantes políticos de seus representados.</p>
<p>Suas propostas e sua atuação política alinham-se ao tema do desenvolvimento sustentável. Sustentabilidade dá voto? Ou seja, é uma ideia que se sustenta politicamente?</p>
<p>Acho que não, porque a sociedade brasileira não faz a pressão que deveria fazer sobre seus representantes políticos.  A sociedade não compreendeu ainda que já foi capturada pela questão ambiental. Infelizmente, só diante de uma tragédia, de um evento extremo, é que existe algum tipo de mobilização. Há um oportunismo muito grande na utilização do tema como bandeira política e a sociedade brasileira não exerce seu papel de protagonista nesse tema. As boas experiências nacionais ficam diminuídas, eclipsadas, obscurecidas por movimentações que acontecem em outros países, como se tudo isso fosse um espetáculo, mas não é.  Por isso, quando converso com o agricultor, quando falo com o motorista de táxi, busco a tradução dessa linguagem para o cotidiano deles. Essa tradução é fundamental para resultar em voto, em voto consciente a favor de uma comunidade sustentável, de uma empresa sustentável.</p>
<p>Então, trata-se mais de uma questão de comunicação, de decodificar sustentabilidade em fatos do dia a dia das pessoas, como a enchente&#8230;</p>
<p>&#8230;o preço da comida por conta da modificação do regime de chuvas, a saúde pública por problemas respiratórios, alérgicos, por contaminação, e que, num prazo maior, pode levar a efeito cancerígeno.  Nos EUA, por exemplo, as leis que vinham sendo desenvolvidas em consequência de votações apoiadas por assembleias estaduais &#8211; por proposição de governadores, como na Califórnia e outros estados &#8211; passaram a ser uma questão de segurança nacional, porque o surgeon general, essa figura de médico que existe lá, recomenda ao governo reduzir as emissões de poluentes. O que é um ponto positivo na sociedade que tem a maior frota de veículos do planeta e o maior número de carros por família.</p>
<p>Isso significa que lá houve uma associação correta entre saúde pública e sustentabilidade.  Mas não há, no Brasil, esse nível de percepção, o que deveria ser o foco dos vereadores, dos prefeitos, dos deputados estaduais, federais. Todos os políticos deveriam, ao longo de suas campanhas, posicionar-se sobre o que pretendem fazer diante desse tema. Normalmente, o discurso fica no plano raso e a comunicação é de baixa qualidade.</p>
<p>Certamente é um problema de comunicação. Então nós, aos trancos e barrancos, vamos ao longo de cada desastre ambiental tomar contato, ainda que episódico, com as enchentes no Nordeste, com os desabamentos em Santa Catarina, com os deslizamentos em Minas Gerais, com as frustrações de safra no Paraná ou mesmo com a dengue no Rio de Janeiro, cujo fenômeno também é influenciado por alterações no regime de chuvas.</p>
<p>Nas próximas eleições, o tema da sustentabilidade, ainda que mal comunicado, será muito mais conhecido da população do que nas eleições passadas. O senhor acredita que haverá mudança no discurso político de forma a incorporá-lo?</p>
<p>Se não houver pressão inteligente &#8211; porque política se faz por pressão sobre os políticos- , não haverá esse debate de maneira qualificada no ano que vem. Nem pelos governadores, nem pelos candidatos à Presidência.  A partir de hoje, todos deveríamos procurar questioná-los antecipadamente.</p>
<p>Pelo mesmo princípio da precaução que temos quanto à mudança climática, devemos ter o princípio da precaução política com relação aos futuros prováveis candidatos e partidos políticos. Há 27 partidos políticos legalmente cadastrados no Brasil com certidão eleitoral para poder apresentar candidatos. Então, imediatamente, nós deveríamos obter uma posição desses 27 partidos referente a qual projeto defendem em relação à sustentabilidade.</p>
<p>Não existem 27 projetos diferentes, portanto é evidente que cada partido não tem grande divergência em relação ao outro. Podem divergir quanto a como chegar lá, mas essa também é uma oportunidade de mostrar como as estruturas partidárias devem se aproximar desse tema, é uma razão para convergir na direção desse debate.  A sustentabilidade é uma grande oportunidade de convergência. Isso tem de ser feito no plano partidário e, depois, buscando um compromisso com cada candidato.  Deve ser objeto da pressão popular, à medida que a internet avança, que as redes sociais se ampliam, e o volume e a qualidade dos debatedores aumentam.</p>
<p>Vivemos hoje um ponto de mutação, estamos em um momento de grande transformação econômica, social e política, e as redes que vão se desenvolver são uma ferramenta excepcional de pressão. Pressão que já existe no Congresso: nós já recebemos muitos emails diretamente, mas muito pouco sobre a questão da sustentabilidade. Talvez as pessoas não estejam realmente mobilizadas, até porque não sabem exatamente que aspecto, que tema, projeto ou ideia deveriam apoiar e fazer prevalecer ao longo do tempo. Porque são vários os temas: a educação ambiental, as energias renováveis, as novas formas de manejo agrícola.</p>
<p>Em vez de conteúdo, falando agora sobre a forma como a política se organiza e é exercida, no Brasil: a gente observa um jogo de forças que induz à corrupção, à barganha, ao favorecimento.  Não é incompatível falar dessas matérias dentro de um sistema que por si só não é sustentável?</p>
<p>A transição se dá pelo voto.  Ela é acelerada ou postergada pelo voto.  A modelagem política atual está sofrendo profunda transformação.  Isso está claro nos escândalos do Senado e da Câmara.  Por incrível que possa parecer ao leitor &#8211; eu falo como quem observa de dentro, faço parte da Casa &#8211; está havendo uma tentativa muito grande de reaproximação do Congresso com a sociedade.</p>
<p>Se você observar uma pesquisa que foi feita pela revista Época poucas semanas atrás, chamada o &#8220;Congresso no Espelho&#8221;, 247 parlamentares já admitem que a mudança nos procedimentos é necessária.  Estamos em mudança acelerada. Quem acha que as coisas ficarão como eram está atrelado a um mundo que não existe mais. O mundo muda com a velocidade da internet. O político está on-line. Nós incorporamos o processo da rede no debate político, o que vai acelerar essa troca entre o representante e o representado.</p>
<p>A corrupção também será exposta. O século XXI é o século da transparência e ela vai prevalecer para os que acreditam e para os que não acreditam nela. Menos em virtude do processo de evolução humana e mais do processo de evolução tecnológica, o fato é que tudo facilita a transparência, inclusive porque há a câmera digital, o microgravador, o grampo telefônico, a possibilidade de transmitir qualquer decisão imediatamente para qualquer ponto do planeta. Portanto, não há onde se apegar no sentido de imaginar uma estrutura política que não seja transparente, e que essa distância entre as instituições e a sociedade permaneça. Assim como será mais acelerada a substituição daqueles representantes que estejam se afastando das razões que os fizeram ser escolhidos.</p>
<p>Aposto muito mais na sociedade civil que no modelo arcaico de se fazer política. Até porque o mundo mudou e essa questão da sustentabilidade só carece de um desafio de comunicação, de mobilização, de incorporação dos efeitos positivos da política. Todos nós temos preocupações básicas com as questões pessoais: pagar as contas, cuidar da família, educar os filhos, essas são as questões centrais. Depois, as outras passam a ser a satisfação no trabalho, o progresso, as questões envolvendo a comunidade.  E a questão política fica muito distante. As pessoas em geral percebem a política como uma dimensão na qual não estão inseridas, o que também é um equívoco.</p>
<p>O que os demais colegas na Câmara pensam sobre sustentabilidade?</p>
<p>Existe um grupo pequeno que milita.</p>
<p>Milita mais por conveniência, em busca de dividendos políticos, ou por convicção?</p>
<p>Existe um grupo muito capaz, de deputados especializados no tema, líderes em seus respectivos partidos, que fazem parte da Frente Parlamentar Ambientalista, que é a maior das frentes parlamentares- somos hoje cerca de 300 deputados federais de todos os estados e partidos com representantes na Câmara, em 11 grupos temáticos.  Sou o coordenador do GT do Clima e fizemos um grande trabalho no Itamaraty e na Casa Civil, além de no Ministério do Meio Ambiente.  Mas o Ministério da Ciência e Tecnologia, do meu ponto de vista, é a grande base de apoio desse conjunto de políticas hoje no País.</p>
<p>Conversamos muito com a Thelma Krug (do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), com o ministro (Luiz Alberto) Figueiredo, no Itamaraty, com o embaixador (Sérgio) Serra e com muitas das representações empresariais: CNI, Fiesp.  Eu diria que as principais empresas brasileiras estão mais adiantadas que o próprio governo, no que diz respeito à adaptação a esse novo fenômeno. Portanto, existe, sim, um grupo de parlamentares diligentes, disciplinados, capacitados, mas a questão da sustentabilidade não adquiriu na Câmara a condição de tema prioritário.</p>
<p>Esse é um desafio que todos aqueles que percebem a gravidade do momento têm: levar para o plenário aquelas temáticas que possam ser convertidas em políticas públicas.  Porque aí sim, pela via política, você obriga o governo brasileiro a se posicionar em temas nos quais vacila, como a não adoção de metas voluntárias (para redução de emissão de gases de efeito estufa). Com isso, o Brasil perde a oportunidade de se colocar como única potência ambiental legítima, com condições de exercer essa liderança.  Eu mesmo já propus isso ao presidente Lula e ao ministro (Celso) Amorim, quando estivemos almoçando com o secretário-geral (das Nações Unidas) Ban Ki-Moon, no ano passado, na ocasião em que visitou o Brasil.</p>
<p>Naquele momento, debatia-se muito o fato de o Brasil ter ou não assento no Conselho de Segurança da ONU.  E o maior argumento que recomenda a presença do Brasil é menos geopolítico e mais ligado à postura, à atitude de quem tem a maior reserva de florestas, de água doce, a maior área agricultável do planeta sob a sua guarda.  Ou seja, a postura da política brasileira e as experiências já desenvolvidas a que me referi no início da entrevista são valorosas para o mundo inteiro, inclusive para dar esse equilíbrio. O Brasil não deve entrar no Conselho por ser uma potência industrial ou comercial ou por qualquer outro mérito que não o ambiental.  Para isso, o Brasil precisa dizer: &#8220;Sim, nós vamos liderar esse esforço da sustentabilidade&#8221;.</p>
<p>E por que isso não acontece?</p>
<p>Porque a agenda ambiental foi sequestrada por interesses associados à política comercial.  Ficou associada a outras agendas de interesse nacional que colocaram numa vala comum um tema que se sobrepõe a todos os outros. E a agenda climática precisa ser destacada da agenda de interesses de outra ordem.  Isso precisa acontecer antes da COP 15.</p>
<p>O Brasil, ao lado da Rússia, da China e da Índia, precisa se posicionar em Copenhague a favor de um mergulho sem volta na sustentabilidade.</p>
<p>Mas, enquanto a classe política brasileira em peso não estiver convencida da importância dessas questões, o quanto é possível haver mudanças de fato?  Pois somente os movimentos sociais e a pressão popular não bastam, certo?</p>
<p>Sem dúvida. A política exercida na sua plenitude é a mais nobre das atividades. E o inverso é verdadeiro.  A sensibilização dos principais atores do País, a começar do presidente da República, existe.  Porém, é preciso estimular essa convicção nas principais lideranças políticas de que esse é um bom caminho, para que ele passe para o campo das prioridades nacionais.  Ele só passará do estágio de atenção e alerta para o estágio da prioridade se houver pressão popular, inteligente, setorial.</p>
<p>Mas essa não é uma postura passiva por parte dos políticos?  No meio empresarial, é comum ouvir: &#8220;Enquanto o consumidor não pedir, a gente não entrega&#8221;.  Com isso, não deixa de haver uma proatividade por parte dos políticos?</p>
<p>Existem muitos gestores e políticos que já estão atuando e militando independentemente dos resultados. No meu caso, essa militância se dá há 20 anos.  A classe política precisa ser estimulada a cumprir com seu dever nessa questão. Mas, quando se faz pressão, é preciso fazê-la de forma dirigida e inteligente, e não de forma emocional.  A pressão inteligente é fazer votar no Congresso Nacionalos projetos -e eu já identifiquei pelo menos três importantes- , todos eles propondo a criação da Política Nacional de Mudança Climática.</p>
<p>O fato de haver três projetos somente na área climática não dispersa as forças?</p>
<p>Não, porque são projetos complementares. Temos um projeto de lei original do (deputado Antonio Carlos de) Mendes Thame (PSDB-SP), que abre a discussão e introduz o tema (PL 261/2007); temos a versão do governo, que de certa maneira revela os limites que o próprio governo percebe hoje para avançar; e temos o que eu propus (PL 5415/2009), que é fruto do que a sociedade pede. Todas as ONGs, vários cientistas e professores, militantes, inclusive membros do governo, do MMA, do MCT &#8211; gente de todas as origens e posições que contribuiu para fazer o que eu entendo que seja o mais atualizado e moderno conjunto de normas com vistas ao que o Brasil deveria fazer já, em função das mudanças climáticas.</p>
<p>Os três projetos serão consolidados, até porque o processo legislativo levará a que esses itens todos sejam debatidos e transformados em uma única política. O que não podemos é deixar que essa discussão se prolongue para 2010, que, por ser ano eleitoral, tende a capturar as energias do Congresso por conta das agendas das eleições de dois terços do Senado, todos os deputados federais, todos os governadores e o presidente da República. Então, a hora da movimentação é agora. Se não avançarmos neste semestre de 2009 &#8211; e este é um desafio que faço para todos aqueles que se interessam pelo assunto -, vamos perder a oportunidade de Copenhague e vamos perder fundamentalmente todo o debate político do ano que vem, pois não teremos tido o tempo para produzir essa mobilização social junto aos deputados.</p>
<p>O que o cidadão, mesmo em casa, pode fazer?</p>
<p>Pode escrever para a Câmara e o Senado, onde tem como identificar todos os emails de todos os senadores e de todos os deputados.  Pode escrever para o email do presidente da República, do ministro do Meio Ambiente, do ministro da Ciência e Tecnologia, do ministro do Itamaraty, o Celso Amorim.  Ele pode, ainda que de maneira eletrônica, e, portanto, sem gerar emissões de gases &#8211; a maneira mais correta, inclusive, é essa -, pedir a eles, semanalmente se for o caso, que adotem uma postura de liderança na mudança climática, que apoiem a aprovação dos três projetos de lei que tramitam na Câmara e amplie a vigilância sobre seus representantes, e especialmente aqueles que tiverem alguma relação com alguma autoridade em qualquer área, e perguntem qual a posição sobre a sustentabilidade.</p>
<p>É importante que esse conceito seja entendido em uma linguagem simples por todos. Isso é mais fácil para quem está fora do Brasil. Os asiáticos e os europeus, por exemplo, entendem o que é a ausência de uma floresta, porque já não a têm mais. Entendem a dificuldade com a poluição, porque vivem em cidades na grande maioria poluídas, especialmente na China.  Compreendem muito o que é o verde e a exuberância da biodiversidade, justamente pela escassez dela.</p>
<p>Nós temos esse desafio adicional, porque as pessoas imaginam que uma árvore a mais, uma árvore a menos não faz diferença, e faz.  Então, temos de apresentar com muita eficácia os impactos de tudo o que está acontecendo para as pessoas na frente de suas casas, seja do ponto do vista do que se passa com o lixo, com o saneamento, com o consumo de energia, com o excesso de agrotóxicos na comida. Já as crianças estão muito mais atentas a isso do que nós estávamos ao nosso tempo.</p>
<p>Serão eleitores muito mais mobilizados?</p>
<p>Com certeza.</p>
<p>Qual a sua estimativa em relação à aprovação do projeto de lei de sua autoria ainda este ano?</p>
<p>Tenho muita confiança de que, na Câmara, seja aprovado este ano.  Advogo uma mobilização popular, peço por ela, preciso da ajuda de todos os que se dispuserem a pressionar o Parlamento.  Essa é uma das poucas decisões que o Brasil, ao tomar, toma a favor do planeta. Já informei ao presidente (da Câmara) Michel Temer que apresentei o projeto, já pedi a ele que dê prioridade de tramitação a esse projeto, somos do mesmo partido, o PMDB é o maior partido do Brasil.  Não podemos evitar a tramitação em comissões porque, pela regra constitucional, ele não pode ir diretamente a plenário sem que o mérito tenha sido avaliado antes, então há de ser avaliado pela Comissão de Meio Ambiente.  Após esse procedimento, aí sim nós podemos acelerar o processo de votação.</p>
<p>Estou focado nisso, é a única coisa que pretendo fazer neste semestre. Se os deputados brasileiros arquivarem ou derrubarem o projeto, ou o transformarem em uma proposta sem significado, isso deve ser objeto de preocupação do País, ao passo que, se for aprovado, será um sinal de maturidade e de compromisso da Câmara com a questão ambiental.</p>
<p>E por que tem de ser neste semestre?  Porque vai mostrar na COP 15 que a posição do povo brasileiro não é necessariamente igual à do governo brasileiro.  E, portanto, o País deseja, através de seus representantes, que o governo seja mais ousado.</p>
<p>Essa percepção da escassez de recursos naturais, pelo estrangeiro, que o senhor comentou, é a razão pela qual os movimentos e os partidos verdes em outros países têm mais relevância que no Brasil?</p>
<p>Países com economias mais industrialmente desenvolvidas já perceberam os efeitos daquela que é a principal falha de mercado do modelo atual: que gera riqueza, emprego e renda, por um lado, e poluição, destruição e baixa qualidade ambiental, por outro. Alguns desses países têm maior facilidade em perceber a consequência de não tomar decisões imediatas. Por exemplo, os ingleses, que moram numa ilha e percebem claramente o que pode acontecer se houver a elevação do nível do mar, colocando em ameaça a própria integridade de seu espaço físico. Ou países como a Holanda. Mais claramente na costa da Índia, ou Bangladesh, ou Mianmar, ou países insulares como a Indonésia, que percebem que não há estratégia antecipada possível a eventos extremos, nem tecnologia, nem dinheiro para fazer frente a isso.</p>
<p>Então, os partidos verdes têm uma mesma tese, mas impactos diferentes nos países em que estão inseridos.  E se fragilizaram pela dificuldade em transformar seu discurso em realidade.  Muitos que admiravam os verdes &#8211; na Itália, por exemplo &#8211; ao longo dos anos perceberam que aquela mudança não era imediata. E como não estamos falando em um evento de curto prazo, e sim em um processo de transformação e ampliação de consciência, também não podemos, seja em que partido for, tentar sinalizar para as pessoas que a solução está ao alcance da mão, chegando em questão de dias ou semanas. Porque esse é um processo quase que geracional.</p>
<p>É provável que a próxima geração estará capacitada e já na gestão plena de um outro modelo de organização social que terá essa responsabilidade, que será incorporada por todos os partidos políticos do mundo. Talvez a diferença entre eles seja a questão do ritmo, se mais ou menos acelerado, se a um custo maior ou menor, mas a agenda introduzida pelos partidos verdes será incorporada por todos os outros partidos, como de certo modo já foi. Talvez essa seja uma das razões pelas quais os partidos verdes tenham avançado menos do que se imaginava.</p>
<p>Esse é um fenômeno que revela maturidade do processo político.  Seria assustador se apenas os partidos verdes estivessem defendendo a sustentabilidade.  Nos EUA, tanto os democratas como os republicanos têm líderes importantes nessa área.  E nos partidos Trabalhista e Conservador britânicos, a mesma coisa.</p>
<p>A militância verde é transversal aos partidos brasileiros também?</p>
<p>Sim, todos eles têm hoje pelo menos um representante, não em nível de programa, mas de militância.  Agora, até por uma questão constitucional, eu defendo o Parlamento global.  O que é isso? São líderes e políticos escolhidos por seus cidadãos que participam de uma estrutura não física, sem sede, sem remuneração, que debatem pela internet os avanços nas suas legislações locais ou numa legislação global e se apoiam mutuamente, fazendo pressão em seus governos.</p>
<p>Na ONU, são tomadas decisões que representam o interesse de cada nação. Não representam necessariamente o interesse da população de cada nação e, sim, o dos governos eleitos naquele período histórico.  Então nós, os parlamentares &#8211; esse movimento já está acontecendo, principalmente entre parlamentares suecos, britânicos, americanos, japoneses, italianos, franceses, alguns poucos chilenos -, já temos um grupo que está trabalhando em um anel de pressão política global.  Os avanços ou os retrocessos que acontecem em cada um dos países são compartilhados, e essa rede pode se encontrar a qualquer momento e vai se encontrar em Copenhague.</p>
<p>Que tipo de poder esse Parlamento é capaz de ter?</p>
<p>Não é um poder deliberativo, porque a governança global não existe institucionalmente. Mas os parlamentares trabalham juntos, trocam informações, facilitam processos políticos e observam a realidade uns dos outros. É muito mais poderosa a visão que o outro tem de nós do que a nossa visão sobre nós mesmos.  Então, nós sabemos a importância que o Brasil tem nesse momento &#8211; eu falo com parlamentares de outros países e percebo a angústia que eles relatam porque aguardam fundamentalmente uma posição brasileira, que é chave. E o governo sabe disso.</p>
<p>Justamente porque sabe, o governo trava, segura?</p>
<p>Segura.  Porque traz para a mesa de negociação outros temas associados ao interesse nacional, mas não necessariamente à sustentabilidade. Só que esta agenda é a central do planeta, é a principal decisão política que todos terão de tomar nos próximos 30 anos, para que possa haver os próximos 300 anos.</p>
<p>Caso contrário, vai-se colocar em xeque a capacidade de governança, de equilíbrio &#8211; não ambiental, mas político do planeta.  Se não formos capazes de equacionar os conflitos que virão, teremos de lidar com as consequências da falta de acordo. No estágio mais agudo, a guerra.  A questão da água, da comida, da saúde pública, essas disfunções todas levarão a um processo de desgovernança.</p>
<p>O quanto os últimos escândalos no Senado o desanimam a seguir com a carreira pública?</p>
<p>Desanimariam se não significassem a transformação da instituição. A existência dos escândalos revela a mutação pela qual está passando o Senado e a Câmara, aproximando o representado de seu representante.  O que desanima é a generalização desse fenômeno, é o eleitor achar que todos são iguais. Como Nelson Rodrigues ensinava, toda unanimidade é burra. Não se pode dizer que todos os jornalistas são incompetentes, que todos os médicos são inábeis, que todos os policiais são bandidos, nem que todos os professores são incapazes. Toda generalização nasce sem legitimidade. Tenho certeza de que vamos ter instituições muito mais representativas após esses escândalos. Seria muito pior se não estivessem acontecendo e a prática fosse mantida. Eu prevejo dias melhores para todas as instituições.</p>
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		<title>Em foco</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Jun 2009 19:52:11 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Deu no blog da jornalista Lucia Hippolito: Aécio Neves (PSDB ) assumiu postura clara de candidato à Presidência da República.  Mas, se isso já era esperado, Aécio surpreendeu ao elevar a questão ambiental ao topo de suas prioridades, um discurso até então inédito entre os presidenciáveis.</p>
<p>Homenageado na Associação Comercial do Rio de Janeiro, o governador de Minas Gerais apresentou sua proposta de governo em cinco grandes linhas.  A primeira delas: &#8220;Propostas arrojadas para o meio ambiente, com adoção de energias alternativas, trato da água e um esforço pelo desenvolvimento sustentado&#8221;.</p>
<p>Trata-se de um primeiro sinal de que a discussão da sustentabilidade tem chances de ser alçada aos grandes temas da sucessão presidencial. A íntegra do relato de Lucia Hippolito pode ser lida em <a href="www.blogdalucia.com.br">www.blogdalucia.com.br</a></p>
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