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	<title>Página 22 &#187; diversidade</title>
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		<title>Caldeirão da paz</title>
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		<pubDate>Tue, 09 Aug 2011 20:12:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Pesquisas nos Estados Unidos relacionam a queda nos índices de criminalidade à presença de grupos minoritários, como imigrantes e gays, e derrubam o senso comum e o preconceito

Você saberia dizer qual dessas gerações americanas viveu com as maiores taxas de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Pesquisas nos Estados Unidos relacionam a queda nos índices de criminalidade à presença de grupos minoritários, como imigrantes e gays, e derrubam o senso comum e o preconceito<br />
</em></p>
<p><img class="alignleft size-full wp-image-13407" title="estalo300" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2011/08/estalo300.jpg" alt="estalo300" width="300" height="140" />Você saberia dizer qual dessas gerações americanas viveu com as maiores taxas de criminalidade: a que passou pela Grande Depressão de 1929; a da época dos hippies dos anos 1960, que pregavam “paz e amor”; ou os que presenciaram a imigração meteórica de latino-americanos de baixa renda, na década de 1990? Segundo estudos publicados recentemente, o que parece óbvio pode nos enganar. Nos anos 60, os casos de violência explodiram, mas desde 1994 têm caído, registrando em 2010 as menores taxas já vistas, mesmo depois da crise econômica nos dois anos anteriores.</p>
<p>O motivo, segundo James Q. Wilson, cientista político e especialista em crimes urbanos, seria que a revolução cultural da década de 1960 motivou certa anomia e um clima de tensão como efeito colateral das manifestações e da desobediência civil. Já durante as crises, as pessoas tendem a levar mais a sério o autocontrole e as regras sociais. Atualmente, no entanto, o principal fator para as baixas taxas de violência estaria ligado à diversidade humana. Alguns estudos mostram que, quanto mais diversa uma cidade, mais pacífica ela tende a ser.</p>
<p>É o que revela o estudioso americano sobre cidades criativas <a href="http://www.theatlantic.com/national/archive/2011/07/why-crime-is-down-in-americas-cities/240781/" target="_blank">Richard Florida</a>. Ele notou que em cidades densamente povoadas, principalmente por grupos minoritários como imigrantes, negros e gays, a ocorrência de crimes caiu entre 1990 e 2008.</p>
<p>Assassinatos, estupros e roubos diminuíram em 5,5% entre 2009 e 2010 e as quedas foram mais expressivas em aglomerados urbanos, considerados “caldeirões de crimes”, como Nova York. Segundo Florida, essas análises mostram que a porcentagem de população hispânica é inversamente proporcional à violência. “Não só encontramos uma correlação negativa entre a presença de estrangeiros e crimes em geral (menos 3,6%), como entre vários tipos de ocorrências – de assassinatos a incêndios criminosos e roubos de carro”, diz.</p>
<p>Outro estudo, da Instituição Brookings, voltada para ciências sociais, economia e políticas urbanas nos EUA, reconhece que, na década de 1990, o crime era associado à presença de estrangeiros. Mas essa relação desapareceu em 2008 e os melhores resultados foram constatados onde a proporção de minorias, como latino-americanos, gays e não brancos em geral, aumentou, seja em comunidades ricas, seja nas pobres.</p>
<p>A conclusão de Florida é que fatores sociais e econômicos (espírito empreendedor, ou medo de se deportado, por exemplo) tornam os imigrantes &#8220;bons vizinhos&#8221; com capacidade de influenciar não só &#8220;seus próprios enclaves, como também as comunidades em seu entorno&#8221;. Trata-se de um efeito civilizatório oriundo das trocas culturais, oportunidade que se exacerba nas grandes cidades, povoadas pelas mais diferentes tribos.</p>
<p>Fabio Storino, secretário-executivo do Centro de Estudos em Sustentabilidade, da Fundação Getulio Vargas, e doutor em política de segurança pública, exemplifica: “O primeiro beijo gay num bairro tradicional pode gerar protestos da liga de senhoras católicas. O segundo, uma carta enfurecida sobre a degradação dos bons costumes ao jornal do bairro. Depois do milésimo, a sociedade acaba se acostumando. Se hoje parecemos mais tolerantes, é porque fomos maciçamente expostos às diferenças”, diz.</p>
<p>Considerando que o fenômeno verificado nos EUA não se refere apenas à redução dos crimes de ódio, motivados pela intolerância, tudo indica que a abertura à diversidade gera cidadãos mais satisfeitos com suas próprias vidas e acaba influenciando a relação com o meio e com as outras pessoas. “A maior felicidade e satisfação com a cidade aumenta a perspectiva dos jovens imigrantes – e mesmo a dos não migrantes –, o que leva a um ambiente menos propenso ao crime”, analisa Storino.</p>
<p>Esse argumento é corroborado pelo sociólogo Robert J. Sampson, da Universidade Harvard, que encontrou os mesmos resultados em um extenso estudo sobre a criminalidade em Chicago, entre 1995 e 2003, e as características demográficas de seus bairros. Sampson explica que os fluxos imigratórios ajudaram a revitalizar áreas urbanas antes decadentes em todo o país, mas sua principal hipótese é a de que a mistura cultural teria esvaziado antigos códigos associados ao comportamento violento, como “salvar a face” ou demandar respeito dentro da “cultura de rua”.</p>
<p>Talvez o exemplo americano possa servir de inspiração ao Brasil, país também diverso e fundado na imigração. Aprender como conviver com as diferenças, e até valorizá-las, é o primeiro passo na direção de uma cidade verdadeiramente civilizada e segura.</p>
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		<title>Iguais? Agora, um pouco mais</title>
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		<pubDate>Mon, 09 May 2011 17:39:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
				<category><![CDATA[Da redação]]></category>
		<category><![CDATA[Cezar Peluzo]]></category>
		<category><![CDATA[direitos humanos]]></category>
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		<category><![CDATA[união estável]]></category>
		<category><![CDATA[união homoafetiva]]></category>

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		<description><![CDATA[É verdade que a tradição, em muitos casos, faz as vezes do desejo de mudança e questões latentes acabam sendo postergadas pelo simples medo do novo – ou do nem tão novo assim. E para resolver a querela, a lei [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_12166" class="wp-caption alignleft" style="width: 360px"><a href="http://www.flickr.com/photos/untitlism/22800371/"><img class="size-full wp-image-12166  " title="stf uniao gay" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2011/05/stf-uniao-gay.jpg" alt="Foto de &quot;Untitled blue&quot; via Flickr" width="350" height="275" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Unidade na Diversidade&quot;. Foto de Untitled Blue via Flickr</p></div>
<p>É verdade que a tradição, em muitos casos, faz as vezes do desejo de mudança e questões latentes acabam sendo postergadas pelo simples medo do novo – ou do nem tão novo assim. E para resolver a querela, a lei acaba muitas vezes sendo a saída, menos traumática, mas nem tão ideal. A aprovação da união estável homossexual no Brasil, na última quinta-feira, não poderia ter demonstrado isso de forma mais clara.</p>
<p>Em <a href="http://pagina22.com.br/index.php/2009/07/iguais/" target="_blank">reportagem</a> da edição 32 de <em>Página22</em>, em julho de 2009, falamos sobre a falta de reconhecimento a direitos específicos da relação homoafetiva, sem qualquer cobertura diferenciada dentro da legislação brasileira. Legalmente, o casal homossexual que desejasse alguma forma de união devia recorrer a um contrato de sociedade comercial, incapaz de contemplar todos os direitos de um casal heterossexual.</p>
<p>Num país onde mais de 60 mil casais gays declararam que vivem juntos – segundo o último censo do IBGE –, a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) passa a reconhecer a união estável como família, assegurando a todos o direito a pensão, aposentadoria e herança, dependência nos planos de saúde e no Imposto de Renda, além de outras facilitações como a adoção de filhos e o direito de visita em hospital público.</p>
<p>Na terra da diversidade e da “cordialidade”, a decisão tardou a ocorrer. Já na época em que <em>Página</em><em>22</em> realizou a matéria acima, Holanda, França, Bélgica, Reino Unido, Canadá e até o vizinho Uruguai já contemplavam seus casais gays com direitos civis. A Argentina, que na época permitia a união apenas na capital e em certas províncias, deu um passo além e aprovou o casamento gay em julho do ano passado, tornando-se o primeiro país latino-americano a fazê-lo.</p>
<p>A questão do casamento civil não foi contemplada pela decisão do Supremo, mas ganha força a partir do reconhecimento da união homoafetiva. Na prática, a diferença é mais cultural, pois a maioria dos direitos foi coberta pela decisão. A unanimidade de votação entre os magistrados ajuda a catalisar também o movimento em favor da aprovação do <a href="http://pagina22.com.br/index.php/2011/03/criminalizacao-da-homofobia/" target="_blank">PLC 122</a>, projeto de lei que criminaliza a homofobia no País e que se encontra parado no Legislativo.</p>
<p>“A partir desta decisão importantíssima da Corte, o Poder Legislativo tem que se expor e regulamentar as situações em que a aplicação dessa determinação será justificada também do ponto de vista constitucional”, afirmou o presidente do STF, ministro Cezar Peluso.</p>
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		<title>Travessia</title>
		<link>http://pagina22.com.br/index.php/2009/12/travessia/</link>
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		<pubDate>Thu, 10 Dec 2009 18:27:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
				<category><![CDATA[37]]></category>
		<category><![CDATA[Revista]]></category>
		<category><![CDATA[diversidade]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[sustentabilidade]]></category>
		<category><![CDATA[transformação]]></category>

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		<description><![CDATA[Envolvimento e protagonismo do aluno, visão integradora e transdisciplinar, diversidade.  Para exercer seu papel transformador, a educação precisa alcançar essas novas fronteiras
Celebrado por atravessar sobre uma corda espaços vãos, como aquele que havia entre as torres gêmeas do World Trade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em><a href="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2009/12/12.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-5104" title="1" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2009/12/12-300x149.jpg" alt="1" width="300" height="149" /></a>Envolvimento e protagonismo do aluno, visão integradora e transdisciplinar, diversidade.  Para exercer seu papel transformador, a educação precisa alcançar essas novas fronteiras</em></p>
<p>Celebrado por atravessar sobre uma corda espaços vãos, como aquele que havia entre as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, o artista francês Philippe Petit veio ao Brasil não faz muito tempo.  Em viagem à Amazônia, parado sobre uma ponte, retratava na folha de um caderno as palafitas descobertas com as águas baixas do Rio Negro, quando um jornalista do Estadão perguntou: “Por que desenha, se é mais fácil tirar fotos?” Ele respondeu: “Porque, se eu tirar fotos, não vejo.  O trabalho com o desenho faz com que a paisagem se interiorize”.  O jornalista concluiu que era uma maneira de trazer o mundo exterior para o mundo interior.  [<a href="http://digital.estadao.com.br/download/pdf/2009/11/15/J8.pdf" target="_blank">Acesse a reportagem</a>]</p>
<p>O conhecimento e a sua transmissão, por meio do ensino convencional, normalmente se dão como na fotografia: o sujeito olha e estuda o objeto.  É como se estivesse fora da paisagem clicada.  Mas há novas propostas de educação em que o aluno, o observador, faz parte daquilo que observa.  A realidade passa a incluir o sujeito.  Isso muda radicalmente a perspectiva, e essa mudança é decisiva diante dos desafios do século XXI, quando a humanidade, vivendo a era dos limites, terá de aprender formas diferentes de organizar e gerir seus recursos físicos, humanos, naturais e econômicos.</p>
<p>A educação, como praticada hoje nas suas formas convencionais, não é suficiente para tratar da complexidade dos problemas, segundo estudiosos ouvidos nesta edição de Página22.</p>
<p>“São problemas que emergem e se exacerbam tanto dentro como fora do mundo acadêmico”, diz o professor de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais Carlos Antônio Leite Brandão, na obra Transdisciplinaridade e os Desafios Contemporâneos, da qual é um dos autores.  Tais como a transposição das águas de um rio ou sua utilização para satisfazer a crescente demanda de energia, a violência, a urbanização, a expansão das metrópoles, a codificação do genoma, a globalização cultural e econômica, a crise ambiental e a multiplicação e o confronto de informações, abordagem e tecnologias – exemplifica Brandão [<a href="http://www.unipazrj.org.br/ transdisciplinaridade.htm" target="_blank">Acesse a Carta da Transdisciplinaridade </a> e leia mais em <a href="http://www.cetrans.com.br" target="_blank">www.cetrans.com.br</a>, onde estão reunidos e traduzidos documentos oficiais relativos ao tema.  Entre eles, destaca-se material do matemático Ubiratan D’Ambrosio, primeiro estudioso do assunto no Brasil].</p>
<p>Questões que são sofisticadas demais para serem tratadas apenas sob uma visão linear.  Elas pedem também o envolvimento do sujeito – dele consigo mesmo (conhecendo a si próprio), dele com outro sujeito (as pessoas com quem se relaciona) e dele com o ambiente que o cerca.  Mais que isso, requer um protagonismo, na medida em que o aluno deixa de ser mero observador e torna-se capaz de interferir no processo, explica Maria de Mello, membro do Centro Internacional de Pesquisas e Estudos Transdisciplinares (Ciret, na sigla em francês) e do Centro de Educação Transdisciplinar (Cetrans).</p>
<p>Maria é também consultora e orientadora para a proposta transdisciplinar que permeia uma nova disciplina da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (Eaesp-FGV): a Formação Integrada para Sustentabilidade (FIS), que será oferecida em caráter opcional e ainda piloto a alunos do 5º ao 8º semestre da graduação (mais em reportagem à pág.  22).</p>
<p>Muito mais que pelo conteúdo, a inovação proposta por essa disciplina virá pelo método, sob uma visão integradora e transdisciplinar.  Um dos pilares das transdisciplinaridade é a compreensão de diferentes níveis de realidade, como o físico, o racional ou mental, o emocional, o intuitivo e até o espiritual (leia quadros abaixo e à pág.  21) [Um outro pilar é a complexidade, assunto abordado em <a href="http://pagina22.com.br/index.php/2009/03/comunidade-de-destino/" target="_blank">entrevista de Humberto Mariotti, diretor de pesquisa e publicações da São Paulo Business School</a>].  Os alunos da FIS, por exemplo, vão a campo – provavelmente na Amazônia – lidar com um desafio prático, que é o de implantar um empreendimento no meio da floresta, em conformidade com o desenvolvimento sustentável, que precisa ser viável economicamente ao mesmo tempo que leva em conta aspectos humanos, sociais, culturais e de conservação ambiental.</p>
<p>Imagine a construção de uma hidrelétrica e uma das primeiras providências a ser tomadas é a remoção da população que vive na área do futuro reservatório.  Pelo nível de realidade racional, escolhe-se outro local, constroem-se as casas e transferem-se as pessoas para lá.  Mas há outros níveis que precisam ser levados em consideração.  No nível emocional, aquelas pessoas têm vínculos afetivos entre si, dentro da teia social que lá desenvolveram.  Têm vínculos com o lugar onde vivem.  Têm história, hábitos, tradições, rituais.  Povos indígenas, por exemplo, possuem vínculos espirituais com a terra, com o rio, com a floresta – bagagem que não se transporta.  E não se pode assumir que um nível seja mais importante que outro e deva preponderar.  O desafio é encontrar o equilíbrio, assim como Philippe Petit sobre a corda.</p>
<p>Como diz Brandão, uma das razões para a transdisciplinaridade é o reconhecimento de que as universidades precisam interagir e se contaminar com o que está fora delas, para se atualizar e tratar de maneira mais apropriada seus próprios objetos – ainda mais depois que perderam a hegemonia na produção do conhecimento, desenvolvido em grande parte fora de seus muros, como no caso das artes e das tecnologias.</p>
<p><strong>A parte pelo todo</strong></p>
<p>Extrapolando-se a proposta de uma disciplina como a FIS para as questões de desenvolvimento no Brasil e no mundo, a pergunta é: como a educação pode contribuir para a tão desejada transformação da sociedade?  “Uma educação para a sustentabilidade é uma educação transformadora”, afirma Érica Gallucci Miranda de Toledo, pesquisadora do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Eaesp-FGV (GVces).</p>
<p>Mas, com métodos convencionais para novíssimas demandas, estruturas hierarquizadas e elitistas, e visões lineares e hiperespecializadas para situações que requerem uma compreensão sistêmica do todo, a educação não será capaz de transformar, e sim de perpetuar as mazelas – no caso do Brasil, especialmente caracterizadas por um sistema econômico ainda baseado na dilapidação do recursos naturais e na exclusão social.</p>
<p>Somente uma força mobilizadora será capaz de romper essa inércia.  Os alunos de hoje, do ensino infantil ao superior, representam as gerações que herdarão as benesses e as mazelas elevadas à quinta potência.  É de seu interesse, portanto, que se envolvam no processo de transformação e sejam os protagonistas.  A reportagem à página 30, por exemplo, descreve projetos educacionais inovadores que colocam as crianças como atores principais, para que possam desenvolver seu protagonismo.</p>
<p>Outra boa notícia é que as novas gerações têm se mostrado movidas a desafios, agindo por desejo próprio e sabendo ser críticas a regras indevidas impostas hierarquicamente.  Com alta capacidade de relacionar e acelerados pelos estímulos que chegam de todo lado pelos canais de comunicação e pelas ferramentas da tecnologia, esses jovens buscam o aprendizado mais pela prática do que pelos livros-texto.  (leia sobre a Geração Y à pág.  46)</p>
<p>Levar em conta esse comportamento, esse jeito de ser, tornase fundamental para um processo eficaz de educação.  Não é à toa que o projeto da FIS propõe aos alunos justamente um desafio prático, que pretende fazer com que se sintam parte da realidade a ser estudada e que compreendam a complexidade das forças em jogo naquela determinada situação.</p>
<p>Pedro Roberto Jacobi, professor titular da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental (Procam), da USP, percebe um esgotamento nas formas tradicionais de ensino.  Vê o desinteresse dos alunos pela leitura e a dificuldade de concentração em um determinado tema.  Sente na pele que é preciso uma renovação no método para estimular os alunos, acomodados com a facilidade mecânica do copy and paste.  “Não tem mais guru”, diz ele.  Muita coisa, de certa maneira, já está disponível a quem tenha acesso ao conhecimento.  “O que precisa agora é o conhecimento entrar nos corações e mentes dos alunos.” Tal qual a paisagem das palafitas interiorizada por meio do desenho.</p>
<p>Essa percepção de Jacobi em sala de aula é descrita, com outras palavras, por Brandão, da UFMG.  Ele cita o físico norte-americano Thomas Kuhn, para quem foram a aproximação e a reorganização do conhecimento, e não o acúmulo dele, que levaram ao desenvolvimento da ciência, da cultura e da sociedade.  Segundo Kuhn, essa aproximação e essa reorganização se devem menos às descobertas e invenções do que a um novo olhar depositado sobre as mesmas coisas e os mesmos conteúdos já existentes.  Para Brandão, esse olhar que atravessa os conhecimentos, impulsionado por algo que está além e aquém das disciplinas, é um sintoma de transdisciplinaridade.</p>
<p>Um olhar diferente que, pela inovação que apresenta e o desafio que provoca, teria potencial de envolver e estimular os alunos.</p>
<p><strong>Brick in the wall</strong></p>
<p>Para começar, esse olhar disciplinar, voltado para a compreensão dos diversos níveis de realidade, se faz necessário para romper os muros que costumam separar as escolas do seu entorno, especialmente as particulares.  “Será que as escolas estão em contato com a comunidade à sua volta?  Se houvesse mais porosidade, a educação para a sustentabilidade aconteceria naturalmente, pois esta é, sobretudo, transversal”, diz Reinaldo Bulgarelli, especialista em temas da diversidade e professor da Eaesp na área de responsabilidade social corporativa.  Ele compara muitas escolas particulares a shopping centers, que fazem o aluno esquecer o lado de fora e acabam por formar ambientes segregacionistas.</p>
<p>Ainda que políticas do governo busquem criar oportunidades de inclusão por meio do sistema de cotas e do Programa Universidade para Todos (ProUni), o ensino de qualidade no Brasil, como se sabe, é acessado principalmente pelas classes favorecidas, perpetuando a imobilidade social.</p>
<p>“Quem está discutindo sustentabilidade é uma elite, mas ser sustentável é ser inclusivo”, afirma.  A seu ver, o desrespeito à diversidade ainda é tão grande na sociedade brasileira que chega a ser sentido em turmas mais homogêneas.  Bulgarelli descreve as queixas das alunas em grupos de discussão dos quais participa.  “Até as brancas e ricas sofrem discriminação.  Elas dizem: ‘Eu estudo tanto quanto meu colega, mas no mercado de trabalho é ele que vai ser meu chefe.  Se é assim, prefiro não lutar por um cargo de chefia, vou tentar equilibrar o trabalho com a satisfação na vida pessoal’.” Por isso, segundo Bulgarelli, tem uma turma imensa de mulheres montando o próprio negócio ou optando por uma vida fora do País.</p>
<p>Já nas escolas públicas o problema é a porosidade à violência.  “Diria até que em alguns casos há conivência, pois não se interpõe um filtro, não se executa um projeto para trabalhar a questão”, diz.  E descreve situações que parecem banais, mas podem marcar profundamente as crianças e causar ressentimento ou revolta.  Em geral, os professores, que se colocam como detentores do conhecimento, são brancos, e os alunos, negros.  Nas creches, as crianças brancas costumam ser são penteadas pelas professoras brancas, que não têm o know-how de pentear o cabelo das crianças negras.  Estas acabam penteadas pela merendeira, pela copeira, que estão abaixo na hierarquia de poder nas escolas.  Assim, diz Bulgarelli, o momento de ser arrumado, de ser cuidado, do prazer desse contato físico e emocional, vem com uma carga de segregação.</p>
<p>Será um tipo sutil de violência, ainda que não intencional?  Que efeitos isso pode ter nos corações e mentes dessas crianças e como isso vai afetar a sua formação na escola e na sociedade?</p>
<p>“A ciência não deu conta do sofrimento do homem”, diz Maria de Mello, do Ciret.  O ensino, enquanto mero transmissor do conhecimento científico, não dará conta das demandas e das carências da humanidade.</p>
<p><strong>Da Vinci a Piaget</strong></p>
<p>“A atitude transdisciplinar não é nova.  Ela está, por exemplo, no Renascimento e no Romantismo, em Leonardo da Vinci ou Goethe”, diz Brandão, da UFMG.  Já o termo “transdisciplinaridade” é recente e surge com Jean Piaget em um seminário realizado em 1970, em Nice, na França.</p>
<p>Brandão explica que, enquanto para Jean Piaget o objeto da transdisciplinaridade está na interação entre as ciências disciplinares formais, para os autores Eric Jantsch e Boaventura de Sousa Santos, “o foco está mais na interação destas ciências com o humano e o social, e na abertura do conhecimento disciplinar para os não disciplinares, muitos do quais abrigados no campo da arte e da cultura – e que a Academia só consegue absorver parcialmente e com muito desconforto, em uma relação problemática”, diz.</p>
<p>A transdisciplinaridade surge como resposta ao avanço e ao aprofundamento do conhecimento nos vários nichos em que foi fragmentado, sobretudo a partir do século XVIII.  “A excessiva especialização do saber fez com que se perdesse o próprio objeto – caso da Medicina, em que os vários recortes do corpo fizeram perder de vista a noção do corpo como um organismo.  É por essa via que a Medicina Oriental encontrou seu lugar no Ocidente”, diz Brandão.</p>
<p>Fernando Bignardi, coordenador do Centro de Estudos do Envelhecimento, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostra como a transdisciplinaridade pode se aplicar à Medicina.  Ele explica que a principal causa de perdas funcionais na velhice, decorrentes das doenças crônicas, é o estilo de vida.  Este, por sua vez, resulta de fatores multidimensionais, como escolhas alimentares, hábitos de sono, ritmo de vida, crenças, postura e atividade física.  Por isso, em vez do que chama de modelo mecânico newtoniano (referente ao determinismo de Isaac Newton), Bignardi considera as múltiplas dimensões no ser humano: física, metabólica, vital, mental e supramental (fundamentada na mecânica quântica) – uma abordagem, segundo ele, com resultados muito satisfatórios nos pacientes.</p>
<p><strong>Inter, multi, transdisciplinar.  Qual a diferença?</strong></p>
<p>Para explicar a diferença entre as visões disciplinar, multidisciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar, o físico romeno Basarab Nicolescu, um dos principais estudiosos do tema, lança mão de um exemplo: a Igreja da Sagrada Família, construída por Antonio Gaudí em Barcelona.  Enquanto objeto de estudo disciplinar, esse templo remete à Arquitetura, uma disciplina que tem sua própria metodologia.  Mas ele também pode receber olhares cruzados partindo de diferentes disciplinas, como a História da Arte, a História das Religiões, a Física (sobre a resistência dos materiais), a Química, a Psicanálise (sobre a personalidade de Gaudí).  Essa já é uma visão multidisciplinar.</p>
<p>Outra possibilidade é transferir métodos de uma disciplina para outra, ou seja: com a finalidade de terminar o templo que Gaudí deixou inacabado, podemos nos servir de seus projetos e desenhos para nos inspirar, ou utilizar a eletrônica e a realidade virtual, e transferir o método da Informática para a Arquitetura.  Trata-se da visão interdisciplinar.</p>
<p>“Podemos, contudo, ter um olhar radicalmente diferente”, diz Nicolescu.  “Como posso eu mesmo, pessoa privada, visitar esse templo?  Em que esse objeto concerne a mim, à minha vida, à nossa vida de hoje, ao sentido deste mundo onde eu vivo?”, refere-se aqui Nicolescu à transdisciplinaridade, mencionando uma viagem de ida e volta entre o mundo interior e o objeto exterior.  “Talvez eu me diga, é isso o que Gaudí queria exprimir (ao construir a igreja): oferecer a nós sua própria representação do mistério da realidade, irredutível a qualquer discurso.”</p>
<p>Nicolescu chama essas visões de quatro flechas do arco do conhecimento, em que nenhuma substitui a outra.  “Não são olhares excludentes.  A transdisciplinaridade não veio tomar tomar o lugar ocupado pelo competente exercício da disciplinaridade, da multi e da inter.  Essas quatro flechas não apenas podem como devem continuar coexistindo”, diz Maria de Mello, do Ciret.</p>
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		<title>A Natureza em Construção</title>
		<link>http://pagina22.com.br/index.php/2007/12/a-natureza-em-construcao/</link>
		<comments>http://pagina22.com.br/index.php/2007/12/a-natureza-em-construcao/#comments</comments>
		<pubDate>Sat, 01 Dec 2007 19:36:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Regina Horta Duarte é uma das mais destacadas pesquisadoras de um novo ramo do conhecimento, a história ambiental. Professora da Universidade Federal de Minas Gerais, Regina defende uma abordagem politizada do tema, mas alerta sobre os riscos de distorção e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Regina Horta Duarte é uma das mais destacadas pesquisadoras de um novo ramo do conhecimento, a história ambiental. Professora da Universidade Federal de Minas Gerais, Regina defende uma abordagem politizada do tema, mas alerta sobre os riscos de distorção e autoritarismo decorrentes de uma historiografia militante. Segundo ela, os desafios impostos pelas questões socioambientais exigem a superação das visões tradicionais que imperam nos dois extremos do debate: o das biociências e o das ciências sociais. &#8220;A história tem boas novas&#8221;, diz a estudiosa. E parte dessas &#8220;novidades&#8221; se refere a uma dimensão ainda pouco compreendida da diversidade que nos envolve: aquela que tem sido historicamente criada pelos homens em suas inúmeras formas de interpretação da natureza e de relação com o meio ambiente.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Flavio Lobo<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">PÁGINA 22: Como a senhora enxerga o papel do pensamento religioso na história da relação homem-natureza?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">REGINA HORTA: A dimensão religiosa tem, sem dúvida, um papel importante nessa relação.  Enxergo duas vertentes, e, para mim, nenhuma delas se mostra satisfatória.  Há a idéia da Mãe Terra, de uma coisa meio mística, não necessariamente religiosa, algo do gênero ecomístico, do tipo “vou me misturar à natureza, vou sentir a água, o sol&#8230;” Não confio muito nessa visão, justamente porque a sociedade humana difere da natureza.  Temos o estatuto cultural, criamos representações sobre a natureza e por isso podemos pensar sobre ela.  Essa vertente mística pode ser prazerosa para as pessoas, mas ela não me seduz muito, inclusive por remeter à idéia de algo como, por exemplo, a “Gaia”, que está acima da história e da qual derivam verdades inquestionáveis.  Por outro lado, há outra perspectiva religiosa, que é a perspectiva de que Deus criou o mundo&#8230; Na Bíblia, tudo é criado para o homem, e esse antropocentrismo é perigoso.  Se a natureza é criada para nós, podemos dispor dela.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: E quanto a modelos diferentes de pensamento religioso, como os das culturas indígenas?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RH: Eles têm uma história.  Quando pensamos nos índios brasileiros, primeiro temos de pensar que há várias populações indígenas e que nem todas tiveram a mesma relação com a natureza.  Cada uma construiu a sua.  Ao longo do tempo, eles também mudaram muito.  Penso duas coisas.  Primeiro, que é importantíssimo que existam essas populações indígenas, com saberes e práticas diferentes.  Assim como há a necessidade da biodiversidade, a diversidade cultural é muito valiosa.  É essencial que existam outras formas de sociedade no Brasil, que essas populações sejam protegidas, que elas tenham direito à terra, que elas tenham possibilidade de manter seu modo de vida e sua cultura.  Mas, ao mesmo tempo, em torno desse tema, há uma espécie de suspensão da crítica, como se tudo o que viesse dos índios fosse necessariamente bom.  Vou dar um exemplo.  Estudei muito a caça aos pássaros entre o fim do século XIX e o começo do XX, que foi uma hecatombe promovida para atender a demanda por penas para confecção de roupas e enfeites.  E hoje tenho visto que uma das atividades dos índios em Minas Gerais tem sido o artesanato com pena.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: E essa prática é aceita por serem índios?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RH: Muitas vezes, acho que sim.  Tenho visto muito brinco de pena, colar de pena, minhas alunas todas enfeitadinhas com colares de pena.  Outro dia houve um festival aqui na faculdade, e tinha índios vendendo artesanato.  Aquele monte de brincos de pena, as coisas mais lindas, penas coloridas, penas pequenininhas.  Perguntei de onde vinham as penas, eles me disseram que eram de arara e admitiram que, na verdade, não poderiam fazer aquilo.  Perguntei se eles tinham matado muitas araras para fazer os brincos.  A resposta de um deles foi: “Mas lá tem muita arara”.  Ações desse tipo não são inócuas.  Na discussão que atualmente acontece no Brasil, uma vertente, composta, sobretudo, por antropólogos, defende que as populações tradicionais vivem em harmonia com a natureza, e que é desnecessário retirá-los dos lugares onde vivem.  Do outro lado, muitos biólogos afirmam que é preciso manter reservas sem a presença humana.  Acho que os dois grupos têm razão, e que nenhum deles tem toda a razão.  Para os biólogos, em geral, falta dar mais valor à diversidade cultural e aos direitos de certas populações.  Já os antropólogos deveriam perceber que, se a retirada forçada das comunidades dos lugares onde vivem pode ser algo autoritário, a própria idéia de população tradicional também pode.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: O que há de autoritário na defesa das populações tradicionais?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RH: Para começar há uma negação do tempo, da história.  A aplicação da idéia de preservação a pessoas é muito complicada porque veta ou dificulta a liberdade de transformação.  Também acho um equívoco imaginar que nessas sociedades não existem formas de autoritarismo, dominação, relações de poder.  Não são sociedades?  Então há, sim, transformação, conflitos, história, relações de poder&#8230; Portanto não dá para pensar que tudo o que eles façam será sempre, por princípio, compatível com a defesa do meio ambiente e com os melhores interesses da sociedade brasileira.  O guará, por exemplo, é um pássaro gravemente ameaçado de extinção e bastante visado por algumas populações indígenas.  Um amigo meu foi a uma reserva e descobriu que os índios dali estavam usando os guarás realmente para uma atividade muito insustentável: para a alimentação dos porcos.  A questão ambiental é complexa porque não tem um lado só.  Conciliar preservação ambiental e a defesa de culturas diferenciadas é um desafio que deve ser enfrentado.  E acho que requer a superação de discursos mistificadores e autoritários que existem nos dois extremos da discussão.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Quais as origens do que hoje se define como &#8220;história ambiental&#8221;?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RH: A natureza não é um tema novo na historiografia.  No Brasil, por exemplo, Sérgio Buarque de Holanda publicou Visões do Paraíso na década de 50 e, na minha opinião, é o melhor livro de história ambiental que já foi produzido por aqui.  Mesmo em Raízes do Brasil, também do Sérgio Buarque, e em alguns trechos da obra do Caio Prado Júnior e do Capistrano de Abreu, há ótimos exemplos de abordagem da relação do homem com</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">o meio ambiente.  Gilberto Freyre não é propriamente um historiador, mas Nordeste é um ensaio ambiental, digamos assim, sobre a região.  Ele mesmo diz: “Este aqui é um ensaio ecológico impressionista”.  Há uma transição historiográfica importante em relação ao tema nos escritos desses autores.  Atualmente, desde a vinda do Warren Dean (historiador americano falecido em 1994) para o Brasil, formou-se uma geração de pesquisadores nessa área.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: É possível identificar uma liderança mundial nessa área de estudo?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RH: É, sim.  A chamada “história ambiental” que se assume com esse nome surgiu nos Estados Unidos, nos anos 70.  A American Society for Environmental History (Sociedade Americana de História Ambiental) foi fundada em 1976, promove encontros anuais e é extremamente ativa.  A equivalente européia surge nos anos 80, no Reino Unido, que é a sede, e conta com a participação de vários outros países, como a Itália e a Espanha.  Já existe também uma sociedade latino-americana, a Sociedade Latino-Americana e Caribenha de História Ambiental (Solcha), de cujo conselho diretor eu participo.  Nosso próximo congresso bianual, cuja organização eu estou coordenando, será em aqui em Belo Horizonte, entre 28 e 30 de maio de 2008.  Temos 110 brasileiros que vão apresentar trabalhos, uns 30 americanos, vários mexicanos, colombianos, panamenhos, chilenos, costa-riquenhos&#8230; O que me agrada particularmente na Solcha é que há uma forte perspectiva política na história que é produzida.  A questão da justiça social, das relações de poder e exploração, temas muito presentes na historiografi a latino-americana, também estão presentes na história ambiental.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Nesses eventos o debate se restringe aos historiadores da natureza?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RH: Não, haverá gente de diversas áreas.  Além dos que trabalham mesmo com história ambiental, haverá outros que buscam interfaces, gente das bio e geociências, por exemplo.  É muito fácil achar interfaces com história ambiental.  A história ambiental é institucionalizada, sim.  Nos últimos congressos da Anpuh (Associação Nacional de Professores Universitários de História), sempre há um grupo de trabalho sobre história da natureza.  Mas trata-se de algo inicial.  A metodologia é ainda muito imprecisa, eu acho.  Nos encontros, percebem-se tipos muito diversos de perspectivas históricas.  Existem algumas pessoas com visões mais deterministas, mais ligadas às áreas da geografi a, ou da geologia, e existem perspectivas mais sociais e políticas.  É bem variado, a metodologia ainda não está bem defi nida e generalizada.  E a qualidade dos trabalhos apresentados ao debate é também bastante desigual.  Mas há muita coisa interessante.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Essa multidisciplinaridade é intrínseca à história ambiental ou só um sintoma da sua juventude como área do conhecimento?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RH: É um desafi o que precisa mesmo ser enfrentado pelos pesquisadores.  Não dá para fazer história ambiental de qualidade sem um esforço de compreensão das ciências relacionadas ao tema.  Isso difi culta o caminho do pesquisador, mas traz a possibilidade do diálogo e de alargamento das perspectivas, porque termina por abalar o antropocentrismo dos historiadores, defrontados com o fato de que nem tudo depende do homem, e, do outro lado, abala o cientifi cismo que impera nas ciências naturais.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Em relação à própria historiografia, especializações como a da história ambiental trazem que tipo de vantagem e de risco?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RH: Depende do jeito que se faz.  Há uma quantidade de conhecimento enorme, do qual nenhuma pessoa dá conta sozinha.  Cada vez mais a produção de conhecimento é coletiva, porque as pessoas não dão conta de acompanhar nem sequer a própria área do saber a que se dedicam.  Creio ser necessária uma refl exão metodológica sobre questões básicas: sobre o que é a verdade, o que é o tempo, como é que o conhecimento histórico se forma e caminha, qual é o papel da história.  Para que a história serve?  Uma pergunta básica, que parece banal, mas é muito importante.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: E para que serve a história?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RH: Creio que, inclusive, para nos dar boas novas &#8211; é o que falo para meus alunos.  Podemos pensar, principalmente morando num lugar como o Brasil, que muitas vezes a história nos puxa para baixo: que o Brasil sempre foi corrupto, desorganizado, fadado ao fracasso, uma sociedade que não consegue guiar-se por um verdadeiro debate público.  A história pode servir apenas para confi rmar isso, nos passar um atestado de incompetência, e de que nos aguarda um futuro quase inexorável de manutenção desse estado de coisas: de incapacidade de criar uma república verdadeira, efetiva, com cidadania, participação popular e justiça social.  Mas a história também pode mostrar que, a cada momento da história, o futuro é algo a ser construído.  Certamente há fatores de condições históricas.  O homem não é absolutamente livre para criar o seu futuro.  Mas existem possibilidades históricas diversas no nosso presente e, assim como no passado o futuro era indeterminado, nosso futuro será decidido, em grande parte, pelo que fi zermos e escolhermos, pela maneira como atuarmos.  Se pensada como a identifi cação de estruturas determinantes às quais não se pode escapar, a história, a meu ver, não vale a pena.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Mas as visões da história apenas como acúmulo de fatos ou como explicitação de determinações inescapáveis ainda são as mais comuns, não?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RH: Provavelmente.  Mas é preciso abordá-la de outra forma.  Porque ou ela serve à vida ou ela não serve para nada.  Servir à vida seria servir à esperança de transformação, ao demonstrar a possibilidade humana de criar sociedades absolutamente diversas.  Houve uma época em que eu gostava muito de história antiga, e cheguei a estudá-la por alguns anos.  Alguns autores, dos quais eu gostava especialmente, diziam que era impossível entender os valores de um ateniense do século V a.C. ou de alguém que vivia na República Romana, a partir dos nossos valores burgueses.  A história nos dá a possibilidade de encontrar outros homens, inúmeras possibilidades sociais, evidências de que as coisas podem mudar — e que de fato mudam profundamente.  É uma boa notícia, não é?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Mas não haveria um risco oposto ao da &#8220;história morta&#8221;, que projeta o passado sobre o futuro?  Ao servir à vida, portanto ao presente, ela não pode se transformar em militância e adaptar o passado aos objetivos presentes?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RH: Há uma expressão de um filósofo de quem eu gosto muito, o Cornelius Castoriadis, que diz: “O que me interessa na história são os outros possíveis do homem”.  O importante é esse encontro com o outro, com os outros possíveis do homem.  Quero a história pelo que tem de transformador, pelo que ela me conta que possa transformar minha vida.  Mas ao mesmo tempo não tenho o direito de projetar todos os meus desejos, os meus anseios, sobre esse passado, porque senão perco o mais importante, que são esses “outros homens”.  Por exemplo, um pensador marxista pensa toda a história pela luta de classes.  Ele estaria aplicando a categoria atual a toda a história da humanidade, quando na verdade é justamente o contrário o que se quer: a capacidade de perceber a alteridade, para que se possa relativizar as visões e certezas atuais, algo que pode, inclusive, nos tornar mais aptos a transformar a realidade.  Assumir que a história é interessada não implica torná-la militante no sentido de ser interpretada para servir a uma causa política específica.  A militância tende a comprovar apenas o que já se sabe, a respaldar e justificar idéias e ações preconcebidas.  A atitude que defendo é quase</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">o contrário disso.  Quero a história como possibilidade de renovar o meu mundo, a minha vida, e a sociedade em que vivo, mas justamente porque eu relativizo tudo isso que sou e penso, e descubro permanentemente que as identidades, pensamentos e projetos a que estamos acostumados não são os únicos possíveis.  Mesmo que continue defendendo certos ideais ou certas práticas, dou a eles um estatuto histórico, relativo, questionável.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Trata-se de alargar o debate e aprofundar o questionamento?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RH: E de retirar da cena um plano metafísico, onde haveria algo fora do campo do questionamento.  Tudo está sob questionamento.  Você pode defender seus ideais, é claro, mas sem se esquecer de que são históricos.  Não é uma história militante nem que se pretende imparcial, mas que se assume como responsável.  Mesmo não sendo imparcial, tenho de mostrar que aquilo que defendo e a minha perspectiva também estão inseridos na história.  Temos de assumir que construímos a história dentro da história.  Não há lugar fora da história para falar dela.  A parcialidade tem de ser explicitada.  Porque a militância é cega, não é?  Tende a esquecer que a verdade é construída historicamente.  Pode servir a objetivos legítimos, mas pode — e precisa — ser questionada.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: No âmbito da história ambiental há quem critique, por exemplo, uma atitude militante por parte de pesquisadores que vêem em figuras como a de José Bonifácio precursores do ambientalismo contemporâneo, não é?  Como a senhora se posiciona em relação a essas questões?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RH: Considero isso um anacronismo muito grande projetar o ambientalismo moderno sobre o reformismo ilustrado do séculos XVIII e XIX representado pelo José Bonifácio.  Mas há duas perspectivas em relação a essa questão.  A primeira é a importância de percebermos que dentro da nossa história houve outras tradições além das dominantes.  Isso é muito importante.  Creio que os autores que trabalham com essa perspectiva estão querendo quebrar com a idéia de que a sociedade brasileira só gerou práticas destrutivas.  Acho importante recuperar personagens, práticas e pensamentos que fogem dessa generalização.  Agora, o esforço de construir uma continuidade entre o passado e o presente é perigoso.  Se construirmos a continuidade, acabamos por dar ao discurso ecológico um estatuto de verdade que se sobrepõe aos contextos históricos.  O discurso ecológico não é necessariamente bom, positivo.  Ele também pode ser fascista, sobretudo quando recorre a uma busca da origem.  Quando a história é abordada com rigor e cuidado, essa busca de origem é sempre complicada.  Na lógica da busca de origem, vou procurar ver o José Bonifácio pelo que imagino que deva ser o militante ambiental, e vou minimizar as enormes diferenças entre José Bonifácio e, por exemplo, o Fabio Feldman.  O José Bonifácio é muito diferente de um ambientalista moderno.  Para compreendê-lo é preciso estudar o reformismo ilustrado, o contexto de expansão dos grandes impérios europeus por todos os continentes&#8230;</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">P22: Como era a preocupação ambiental de gente como o José Bonifácio?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RH: Há estudos que mostram, por exemplo, como naquela época, no século XVIII, eles tiveram percepções muito interessantes.  Como havia muitas ilhas que tinham ocupação colonial, e houve uma destruição muito rápida da vegetação nesses lugares, eles perceberam muito claramente quais as conseqüências dessa destruição, e podiam projetar isso para extensões maiores.  Acho importante que nossa sociedade saiba, até para superar a idéia de que necessariamente vamos destruir tudo à nossa volta.  Houve outras possibilidades na história, e há outras agora.  Uma pergunta fundamental a ser feita é: “Por que o José Bonifácio perdeu?” E também: “Por que correntes de pensamento mais previdentes e responsáveis em relação ao meio ambiente têm sido pouco infl uentes?” Isso me interessa muito.  Se houve alguns momentos da nossa história em que pessoas muito importantes, em postos de destaque, produziram um discurso a favor de poupar a natureza e da busca de formas sustentáveis de obter lucro, por que isso não vingou?  O José Bonifácio tem textos, por exemplo, defendendo que fossem coibidas algumas práticas de caça às baleias.  Ele percebeu os danos causados pela caça nos períodos de acasalamento.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">P22: Há outros exemplos de defensores de uma relação menos predatória com a natureza na nossa história?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RH: Sem dúvida.  Tenho estudado muito os anos 30, em que vários cientistas do Museu Nacional demonstravam uma impressionante preocupação com essa questão.  Entre eles, Roquette-Pinto, Melo Leitão, e Alberto Sampaio.  Eles tinham uma percepção muito clara da destruição da natureza, da necessidade da transformação de práticas destrutivas, e tiveram um destaque muito grande, uma aproximação com o governo Vargas muito importante.  No entanto, o esforço deles fracassou, eles perderam.  Com o desenvolvimentismo, eles perderam.  Eles publicaram muitos trabalhos, empreenderam uma série de movimentos, aproximaram-se do governo e pressionaram pela adoção de políticas públicas.  Na verdade, algumas eles conseguiram implementar, como o Código de Caça e Pesca, de 1934, e a criação de parques nacionais, formalizada pelo Vargas em 1937, por exemplo.  Mas as vitórias foram relativamente poucas e pequenas e tanto o pensamento quanto a luta daqueles pesquisadores foram praticamente esquecidos.  Acho importante tentar entender por que isso aconteceu.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: É possível esboçar uma resposta para isso?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RH: Creio que, no caso dos cientistas do Museu Nacional, parte da explicação tem a ver com o autoritarismo com que eles conduziram as propostas.  Eles se colocaram como grandes guias de uma, digamos, educação ambiental.  Provavelmente, uma mudança real da relação da sociedade com a natureza teria de incorporar movimentos e clamores sociais mais amplos.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: É justo a sociedade brasileira enxergar-se como especialmente destruidora da natureza, tendo em vista que, apesar de tudo, temos a maior floresta do mundo?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RH: Há um livro do Warren Dean, A Ferro e Fogo, que faz muito sucesso.  Ele diz algo do tipo: “Olhe como os brasileiros são culpados, como são incompetentes, como destruíram a Mata Atlântica”.  E, ao fi m do livro, ele fala da Amazônia: “Vejam bem o perigo, hoje em dia, de a Amazônia ser destruída”.  Como se ele estivesse nos dando um atestado de incompetência.  “Vocês destruíram a Mata Atlântica, e agora resta a Amazônia, que corre grande perigo diante dessa elite tão corrupta.” Mas a Europa destruiu tudo, eles não têm nada.  Se passearmos pela França só veremos área agrícola, tudo agricultado, na Espanha idem e por aí vai.  Mas creio que a auto-imagem da sociedade brasileira é de destruidora, mais que a dos europeus e americanos, por exemplo.  Que a nossa elite é especialmente imediatista, egoísta e destruidora, não há como negar.</div>
<div>Regina Horta Duarte é uma das mais destacadas pesquisadoras de um novo ramo do conhecimento, a história ambiental. Professora da Universidade Federal de Minas Gerais, Regina defende uma abordagem politizada do tema, mas alerta sobre os riscos de distorção e autoritarismo decorrentes de uma historiografia militante. Segundo ela, os desafios impostos pelas questões socioambientais exigem a superação das visões tradicionais que imperam nos dois extremos do debate: o das biociências e o das ciências sociais. &#8220;A história tem boas novas&#8221;, diz a estudiosa. E parte dessas &#8220;novidades&#8221; se refere a uma dimensão ainda pouco compreendida da diversidade que nos envolve: aquela que tem sido historicamente criada pelos homens em suas inúmeras formas de interpretação da natureza e de relação com o meio ambiente.</div>
<div>Por Flavio Lobo<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div>PÁGINA 22: Como a senhora enxerga o papel do pensamento religioso na história da relação homem-natureza?</div>
<div>REGINA HORTA: A dimensão religiosa tem, sem dúvida, um papel importante nessa relação.  Enxergo duas vertentes, e, para mim, nenhuma delas se mostra satisfatória.  Há a idéia da Mãe Terra, de uma coisa meio mística, não necessariamente religiosa, algo do gênero ecomístico, do tipo “vou me misturar à natureza, vou sentir a água, o sol&#8230;” Não confio muito nessa visão, justamente porque a sociedade humana difere da natureza.  Temos o estatuto cultural, criamos representações sobre a natureza e por isso podemos pensar sobre ela.  Essa vertente mística pode ser prazerosa para as pessoas, mas ela não me seduz muito, inclusive por remeter à idéia de algo como, por exemplo, a “Gaia”, que está acima da história e da qual derivam verdades inquestionáveis.  Por outro lado, há outra perspectiva religiosa, que é a perspectiva de que Deus criou o mundo&#8230; Na Bíblia, tudo é criado para o homem, e esse antropocentrismo é perigoso.  Se a natureza é criada para nós, podemos dispor dela.</div>
<div>22: E quanto a modelos diferentes de pensamento religioso, como os das culturas indígenas?</div>
<div>RH: Eles têm uma história.  Quando pensamos nos índios brasileiros, primeiro temos de pensar que há várias populações indígenas e que nem todas tiveram a mesma relação com a natureza.  Cada uma construiu a sua.  Ao longo do tempo, eles também mudaram muito.  Penso duas coisas.  Primeiro, que é importantíssimo que existam essas populações indígenas, com saberes e práticas diferentes.  Assim como há a necessidade da biodiversidade, a diversidade cultural é muito valiosa.  É essencial que existam outras formas de sociedade no Brasil, que essas populações sejam protegidas, que elas tenham direito à terra, que elas tenham possibilidade de manter seu modo de vida e sua cultura.  Mas, ao mesmo tempo, em torno desse tema, há uma espécie de suspensão da crítica, como se tudo o que viesse dos índios fosse necessariamente bom.  Vou dar um exemplo.  Estudei muito a caça aos pássaros entre o fim do século XIX e o começo do XX, que foi uma hecatombe promovida para atender a demanda por penas para confecção de roupas e enfeites.  E hoje tenho visto que uma das atividades dos índios em Minas Gerais tem sido o artesanato com pena.</div>
<div>22: E essa prática é aceita por serem índios?</div>
<div>RH: Muitas vezes, acho que sim.  Tenho visto muito brinco de pena, colar de pena, minhas alunas todas enfeitadinhas com colares de pena.  Outro dia houve um festival aqui na faculdade, e tinha índios vendendo artesanato.  Aquele monte de brincos de pena, as coisas mais lindas, penas coloridas, penas pequenininhas.  Perguntei de onde vinham as penas, eles me disseram que eram de arara e admitiram que, na verdade, não poderiam fazer aquilo.  Perguntei se eles tinham matado muitas araras para fazer os brincos.  A resposta de um deles foi: “Mas lá tem muita arara”.  Ações desse tipo não são inócuas.  Na discussão que atualmente acontece no Brasil, uma vertente, composta, sobretudo, por antropólogos, defende que as populações tradicionais vivem em harmonia com a natureza, e que é desnecessário retirá-los dos lugares onde vivem.  Do outro lado, muitos biólogos afirmam que é preciso manter reservas sem a presença humana.  Acho que os dois grupos têm razão, e que nenhum deles tem toda a razão.  Para os biólogos, em geral, falta dar mais valor à diversidade cultural e aos direitos de certas populações.  Já os antropólogos deveriam perceber que, se a retirada forçada das comunidades dos lugares onde vivem pode ser algo autoritário, a própria idéia de população tradicional também pode.</div>
<div>22: O que há de autoritário na defesa das populações tradicionais?</div>
<div>RH: Para começar há uma negação do tempo, da história.  A aplicação da idéia de preservação a pessoas é muito complicada porque veta ou dificulta a liberdade de transformação.  Também acho um equívoco imaginar que nessas sociedades não existem formas de autoritarismo, dominação, relações de poder.  Não são sociedades?  Então há, sim, transformação, conflitos, história, relações de poder&#8230; Portanto não dá para pensar que tudo o que eles façam será sempre, por princípio, compatível com a defesa do meio ambiente e com os melhores interesses da sociedade brasileira.  O guará, por exemplo, é um pássaro gravemente ameaçado de extinção e bastante visado por algumas populações indígenas.  Um amigo meu foi a uma reserva e descobriu que os índios dali estavam usando os guarás realmente para uma atividade muito insustentável: para a alimentação dos porcos.  A questão ambiental é complexa porque não tem um lado só.  Conciliar preservação ambiental e a defesa de culturas diferenciadas é um desafio que deve ser enfrentado.  E acho que requer a superação de discursos mistificadores e autoritários que existem nos dois extremos da discussão.</div>
<div>22: Quais as origens do que hoje se define como &#8220;história ambiental&#8221;?</div>
<div>RH: A natureza não é um tema novo na historiografia.  No Brasil, por exemplo, Sérgio Buarque de Holanda publicou Visões do Paraíso na década de 50 e, na minha opinião, é o melhor livro de história ambiental que já foi produzido por aqui.  Mesmo em Raízes do Brasil, também do Sérgio Buarque, e em alguns trechos da obra do Caio Prado Júnior e do Capistrano de Abreu, há ótimos exemplos de abordagem da relação do homem com</div>
<div>o meio ambiente.  Gilberto Freyre não é propriamente um historiador, mas Nordeste é um ensaio ambiental, digamos assim, sobre a região.  Ele mesmo diz: “Este aqui é um ensaio ecológico impressionista”.  Há uma transição historiográfica importante em relação ao tema nos escritos desses autores.  Atualmente, desde a vinda do Warren Dean (historiador americano falecido em 1994) para o Brasil, formou-se uma geração de pesquisadores nessa área.</div>
<div>22: É possível identificar uma liderança mundial nessa área de estudo?</div>
<div>RH: É, sim.  A chamada “história ambiental” que se assume com esse nome surgiu nos Estados Unidos, nos anos 70.  A American Society for Environmental History (Sociedade Americana de História Ambiental) foi fundada em 1976, promove encontros anuais e é extremamente ativa.  A equivalente européia surge nos anos 80, no Reino Unido, que é a sede, e conta com a participação de vários outros países, como a Itália e a Espanha.  Já existe também uma sociedade latino-americana, a Sociedade Latino-Americana e Caribenha de História Ambiental (Solcha), de cujo conselho diretor eu participo.  Nosso próximo congresso bianual, cuja organização eu estou coordenando, será em aqui em Belo Horizonte, entre 28 e 30 de maio de 2008.  Temos 110 brasileiros que vão apresentar trabalhos, uns 30 americanos, vários mexicanos, colombianos, panamenhos, chilenos, costa-riquenhos&#8230; O que me agrada particularmente na Solcha é que há uma forte perspectiva política na história que é produzida.  A questão da justiça social, das relações de poder e exploração, temas muito presentes na historiografi a latino-americana, também estão presentes na história ambiental.</div>
<div>22: Nesses eventos o debate se restringe aos historiadores da natureza?</div>
<div>RH: Não, haverá gente de diversas áreas.  Além dos que trabalham mesmo com história ambiental, haverá outros que buscam interfaces, gente das bio e geociências, por exemplo.  É muito fácil achar interfaces com história ambiental.  A história ambiental é institucionalizada, sim.  Nos últimos congressos da Anpuh (Associação Nacional de Professores Universitários de História), sempre há um grupo de trabalho sobre história da natureza.  Mas trata-se de algo inicial.  A metodologia é ainda muito imprecisa, eu acho.  Nos encontros, percebem-se tipos muito diversos de perspectivas históricas.  Existem algumas pessoas com visões mais deterministas, mais ligadas às áreas da geografi a, ou da geologia, e existem perspectivas mais sociais e políticas.  É bem variado, a metodologia ainda não está bem defi nida e generalizada.  E a qualidade dos trabalhos apresentados ao debate é também bastante desigual.  Mas há muita coisa interessante.</div>
<div>22: Essa multidisciplinaridade é intrínseca à história ambiental ou só um sintoma da sua juventude como área do conhecimento?</div>
<div>RH: É um desafi o que precisa mesmo ser enfrentado pelos pesquisadores.  Não dá para fazer história ambiental de qualidade sem um esforço de compreensão das ciências relacionadas ao tema.  Isso difi culta o caminho do pesquisador, mas traz a possibilidade do diálogo e de alargamento das perspectivas, porque termina por abalar o antropocentrismo dos historiadores, defrontados com o fato de que nem tudo depende do homem, e, do outro lado, abala o cientifi cismo que impera nas ciências naturais.</div>
<div>22: Em relação à própria historiografia, especializações como a da história ambiental trazem que tipo de vantagem e de risco?</div>
<div>RH: Depende do jeito que se faz.  Há uma quantidade de conhecimento enorme, do qual nenhuma pessoa dá conta sozinha.  Cada vez mais a produção de conhecimento é coletiva, porque as pessoas não dão conta de acompanhar nem sequer a própria área do saber a que se dedicam.  Creio ser necessária uma refl exão metodológica sobre questões básicas: sobre o que é a verdade, o que é o tempo, como é que o conhecimento histórico se forma e caminha, qual é o papel da história.  Para que a história serve?  Uma pergunta básica, que parece banal, mas é muito importante.</div>
<div>22: E para que serve a história?</div>
<div>RH: Creio que, inclusive, para nos dar boas novas &#8211; é o que falo para meus alunos.  Podemos pensar, principalmente morando num lugar como o Brasil, que muitas vezes a história nos puxa para baixo: que o Brasil sempre foi corrupto, desorganizado, fadado ao fracasso, uma sociedade que não consegue guiar-se por um verdadeiro debate público.  A história pode servir apenas para confi rmar isso, nos passar um atestado de incompetência, e de que nos aguarda um futuro quase inexorável de manutenção desse estado de coisas: de incapacidade de criar uma república verdadeira, efetiva, com cidadania, participação popular e justiça social.  Mas a história também pode mostrar que, a cada momento da história, o futuro é algo a ser construído.  Certamente há fatores de condições históricas.  O homem não é absolutamente livre para criar o seu futuro.  Mas existem possibilidades históricas diversas no nosso presente e, assim como no passado o futuro era indeterminado, nosso futuro será decidido, em grande parte, pelo que fi zermos e escolhermos, pela maneira como atuarmos.  Se pensada como a identifi cação de estruturas determinantes às quais não se pode escapar, a história, a meu ver, não vale a pena.</div>
<div>22: Mas as visões da história apenas como acúmulo de fatos ou como explicitação de determinações inescapáveis ainda são as mais comuns, não?</div>
<div>RH: Provavelmente.  Mas é preciso abordá-la de outra forma.  Porque ou ela serve à vida ou ela não serve para nada.  Servir à vida seria servir à esperança de transformação, ao demonstrar a possibilidade humana de criar sociedades absolutamente diversas.  Houve uma época em que eu gostava muito de história antiga, e cheguei a estudá-la por alguns anos.  Alguns autores, dos quais eu gostava especialmente, diziam que era impossível entender os valores de um ateniense do século V a.C. ou de alguém que vivia na República Romana, a partir dos nossos valores burgueses.  A história nos dá a possibilidade de encontrar outros homens, inúmeras possibilidades sociais, evidências de que as coisas podem mudar — e que de fato mudam profundamente.  É uma boa notícia, não é?</div>
<div>22: Mas não haveria um risco oposto ao da &#8220;história morta&#8221;, que projeta o passado sobre o futuro?  Ao servir à vida, portanto ao presente, ela não pode se transformar em militância e adaptar o passado aos objetivos presentes?</div>
<div>RH: Há uma expressão de um filósofo de quem eu gosto muito, o Cornelius Castoriadis, que diz: “O que me interessa na história são os outros possíveis do homem”.  O importante é esse encontro com o outro, com os outros possíveis do homem.  Quero a história pelo que tem de transformador, pelo que ela me conta que possa transformar minha vida.  Mas ao mesmo tempo não tenho o direito de projetar todos os meus desejos, os meus anseios, sobre esse passado, porque senão perco o mais importante, que são esses “outros homens”.  Por exemplo, um pensador marxista pensa toda a história pela luta de classes.  Ele estaria aplicando a categoria atual a toda a história da humanidade, quando na verdade é justamente o contrário o que se quer: a capacidade de perceber a alteridade, para que se possa relativizar as visões e certezas atuais, algo que pode, inclusive, nos tornar mais aptos a transformar a realidade.  Assumir que a história é interessada não implica torná-la militante no sentido de ser interpretada para servir a uma causa política específica.  A militância tende a comprovar apenas o que já se sabe, a respaldar e justificar idéias e ações preconcebidas.  A atitude que defendo é quase</div>
<div>o contrário disso.  Quero a história como possibilidade de renovar o meu mundo, a minha vida, e a sociedade em que vivo, mas justamente porque eu relativizo tudo isso que sou e penso, e descubro permanentemente que as identidades, pensamentos e projetos a que estamos acostumados não são os únicos possíveis.  Mesmo que continue defendendo certos ideais ou certas práticas, dou a eles um estatuto histórico, relativo, questionável.</div>
<div>22: Trata-se de alargar o debate e aprofundar o questionamento?</div>
<div>RH: E de retirar da cena um plano metafísico, onde haveria algo fora do campo do questionamento.  Tudo está sob questionamento.  Você pode defender seus ideais, é claro, mas sem se esquecer de que são históricos.  Não é uma história militante nem que se pretende imparcial, mas que se assume como responsável.  Mesmo não sendo imparcial, tenho de mostrar que aquilo que defendo e a minha perspectiva também estão inseridos na história.  Temos de assumir que construímos a história dentro da história.  Não há lugar fora da história para falar dela.  A parcialidade tem de ser explicitada.  Porque a militância é cega, não é?  Tende a esquecer que a verdade é construída historicamente.  Pode servir a objetivos legítimos, mas pode — e precisa — ser questionada.</div>
<div>22: No âmbito da história ambiental há quem critique, por exemplo, uma atitude militante por parte de pesquisadores que vêem em figuras como a de José Bonifácio precursores do ambientalismo contemporâneo, não é?  Como a senhora se posiciona em relação a essas questões?</div>
<div>RH: Considero isso um anacronismo muito grande projetar o ambientalismo moderno sobre o reformismo ilustrado do séculos XVIII e XIX representado pelo José Bonifácio.  Mas há duas perspectivas em relação a essa questão.  A primeira é a importância de percebermos que dentro da nossa história houve outras tradições além das dominantes.  Isso é muito importante.  Creio que os autores que trabalham com essa perspectiva estão querendo quebrar com a idéia de que a sociedade brasileira só gerou práticas destrutivas.  Acho importante recuperar personagens, práticas e pensamentos que fogem dessa generalização.  Agora, o esforço de construir uma continuidade entre o passado e o presente é perigoso.  Se construirmos a continuidade, acabamos por dar ao discurso ecológico um estatuto de verdade que se sobrepõe aos contextos históricos.  O discurso ecológico não é necessariamente bom, positivo.  Ele também pode ser fascista, sobretudo quando recorre a uma busca da origem.  Quando a história é abordada com rigor e cuidado, essa busca de origem é sempre complicada.  Na lógica da busca de origem, vou procurar ver o José Bonifácio pelo que imagino que deva ser o militante ambiental, e vou minimizar as enormes diferenças entre José Bonifácio e, por exemplo, o Fabio Feldman.  O José Bonifácio é muito diferente de um ambientalista moderno.  Para compreendê-lo é preciso estudar o reformismo ilustrado, o contexto de expansão dos grandes impérios europeus por todos os continentes&#8230;</div>
<div>P22: Como era a preocupação ambiental de gente como o José Bonifácio?</div>
<div>RH: Há estudos que mostram, por exemplo, como naquela época, no século XVIII, eles tiveram percepções muito interessantes.  Como havia muitas ilhas que tinham ocupação colonial, e houve uma destruição muito rápida da vegetação nesses lugares, eles perceberam muito claramente quais as conseqüências dessa destruição, e podiam projetar isso para extensões maiores.  Acho importante que nossa sociedade saiba, até para superar a idéia de que necessariamente vamos destruir tudo à nossa volta.  Houve outras possibilidades na história, e há outras agora.  Uma pergunta fundamental a ser feita é: “Por que o José Bonifácio perdeu?” E também: “Por que correntes de pensamento mais previdentes e responsáveis em relação ao meio ambiente têm sido pouco infl uentes?” Isso me interessa muito.  Se houve alguns momentos da nossa história em que pessoas muito importantes, em postos de destaque, produziram um discurso a favor de poupar a natureza e da busca de formas sustentáveis de obter lucro, por que isso não vingou?  O José Bonifácio tem textos, por exemplo, defendendo que fossem coibidas algumas práticas de caça às baleias.  Ele percebeu os danos causados pela caça nos períodos de acasalamento.</div>
<div>P22: Há outros exemplos de defensores de uma relação menos predatória com a natureza na nossa história?</div>
<div>RH: Sem dúvida.  Tenho estudado muito os anos 30, em que vários cientistas do Museu Nacional demonstravam uma impressionante preocupação com essa questão.  Entre eles, Roquette-Pinto, Melo Leitão, e Alberto Sampaio.  Eles tinham uma percepção muito clara da destruição da natureza, da necessidade da transformação de práticas destrutivas, e tiveram um destaque muito grande, uma aproximação com o governo Vargas muito importante.  No entanto, o esforço deles fracassou, eles perderam.  Com o desenvolvimentismo, eles perderam.  Eles publicaram muitos trabalhos, empreenderam uma série de movimentos, aproximaram-se do governo e pressionaram pela adoção de políticas públicas.  Na verdade, algumas eles conseguiram implementar, como o Código de Caça e Pesca, de 1934, e a criação de parques nacionais, formalizada pelo Vargas em 1937, por exemplo.  Mas as vitórias foram relativamente poucas e pequenas e tanto o pensamento quanto a luta daqueles pesquisadores foram praticamente esquecidos.  Acho importante tentar entender por que isso aconteceu.</div>
<div>22: É possível esboçar uma resposta para isso?</div>
<div>RH: Creio que, no caso dos cientistas do Museu Nacional, parte da explicação tem a ver com o autoritarismo com que eles conduziram as propostas.  Eles se colocaram como grandes guias de uma, digamos, educação ambiental.  Provavelmente, uma mudança real da relação da sociedade com a natureza teria de incorporar movimentos e clamores sociais mais amplos.</div>
<div>22: É justo a sociedade brasileira enxergar-se como especialmente destruidora da natureza, tendo em vista que, apesar de tudo, temos a maior floresta do mundo?</div>
<div>RH: Há um livro do Warren Dean, A Ferro e Fogo, que faz muito sucesso.  Ele diz algo do tipo: “Olhe como os brasileiros são culpados, como são incompetentes, como destruíram a Mata Atlântica”.  E, ao fi m do livro, ele fala da Amazônia: “Vejam bem o perigo, hoje em dia, de a Amazônia ser destruída”.  Como se ele estivesse nos dando um atestado de incompetência.  “Vocês destruíram a Mata Atlântica, e agora resta a Amazônia, que corre grande perigo diante dessa elite tão corrupta.” Mas a Europa destruiu tudo, eles não têm nada.  Se passearmos pela França só veremos área agrícola, tudo agricultado, na Espanha idem e por aí vai.  Mas creio que a auto-imagem da sociedade brasileira é de destruidora, mais que a dos europeus e americanos, por exemplo.  Que a nossa elite é especialmente imediatista, egoísta e destruidora, não há como negar.</div>
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		<title>Cachorro louco, não</title>
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		<pubDate>Sat, 01 Dec 2007 19:21:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Amália Safatle 
A campanha junto ao Canal Motoboy não esclarece apenas sobre o problema do óleo despejado no ambiente.  Aborda a questão do descarte do pneus e da bateria e busca ampliar a consciência do motoqueiro sobre os problemas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Amália Safatle<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A campanha junto ao Canal Motoboy não esclarece apenas sobre o problema do óleo despejado no ambiente.  Aborda a questão do descarte do pneus e da bateria e busca ampliar a consciência do motoqueiro sobre os problemas ambientais que ele enxerga de cima de sua moto, nas constantes viagens pelos vários cantos da cidade.  Lixo jogado, poluição do ar, tudo passa freneticamente pelas retinas &#8211; e já pode ficar registrado em arquivos fotográficos.  Agora, com celulares que tiram fotos, divulgadas imediatamente na internet, é mais fácil captar a realidade socioambiental em que vivem, entendê-la e tentar mudá-la.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Antoni Abad é um artista plástico catalão que recentemente prescrutou o dia-a-dia dos motoqueiros paulistanos e envolveu-os nesse projeto fotográfico de características sociais, ambientais e culturais.  Com apoio da Telefonica e dos centros culturais de São Paulo e da Espanha, os celulares são distribuídos aos motoboys &#8211; alvos de preconceito e vítimas da violência no trânsito &#8211; e o resultado é mostrado em exposições culturais.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Abad, que mantém o site www.zexe.net, trabalha com os motoqueiros de São Paulo, e outras classes discriminadas, como axistas no México, prostitutas em Madri, usuários de cadeira de rodas em Barcelona, imigrantes nicaraguenses na Costa Rica e ciganos na Espanha.</div>
<div>Por Amália Safatle<span style="white-space: pre;"> </span></div>
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<div>A campanha junto ao Canal Motoboy não esclarece apenas sobre o problema do óleo despejado no ambiente.  Aborda a questão do descarte do pneus e da bateria e busca ampliar a consciência do motoqueiro sobre os problemas ambientais que ele enxerga de cima de sua moto, nas constantes viagens pelos vários cantos da cidade.  Lixo jogado, poluição do ar, tudo passa freneticamente pelas retinas &#8211; e já pode ficar registrado em arquivos fotográficos.  Agora, com celulares que tiram fotos, divulgadas imediatamente na internet, é mais fácil captar a realidade socioambiental em que vivem, entendê-la e tentar mudá-la.</div>
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<div>Antoni Abad é um artista plástico catalão que recentemente prescrutou o dia-a-dia dos motoqueiros paulistanos e envolveu-os nesse projeto fotográfico de características sociais, ambientais e culturais.  Com apoio da Telefonica e dos centros culturais de São Paulo e da Espanha, os celulares são distribuídos aos motoboys &#8211; alvos de preconceito e vítimas da violência no trânsito &#8211; e o resultado é mostrado em exposições culturais.</div>
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<div>Abad, que mantém o site www.zexe.net, trabalha com os motoqueiros de São Paulo, e outras classes discriminadas, como axistas no México, prostitutas em Madri, usuários de cadeira de rodas em Barcelona, imigrantes nicaraguenses na Costa Rica e ciganos na Espanha.</div>
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		<title>Um Brasil que se faz na raça</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Nov 2006 17:37:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Psicóloga social de formação, Edna Maria Santos Roland já dedicou décadas de sua vida à causa das chamadas minorias, seja atuando na sociedade civil, seja em instâncias multilaterais e, mais recentemente, no poder público &#8211; na Coordenadoria da Mulher e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Psicóloga social de formação, Edna Maria Santos Roland já dedicou décadas de sua vida à causa das chamadas minorias, seja atuando na sociedade civil, seja em instâncias multilaterais e, mais recentemente, no poder público &#8211; na Coordenadoria da Mulher e da Igualdade Racial de Guarulhos. Em um país onde se resiste a admitir a existência de preconceito contra raça e gênero, Edna não desanima. Ela vai comemorar, em 20 de novembro, dia da morte de Zumbi dos Palmares, o fortalecimento do Movimento Negro.</p>
<p>Edna avalia que a discussão sobre a criação das cotas em universidade é benéfica a começar do fato de ter criado polêmica, acredita na possibilidade de mudanças nas relações interétnicas dentro e fora das escolas e aponta as mazelas resultantes do modelo patriarcal da sociedade.</p>
<p><strong>Página 22: </strong>Em 20 de novembro comemora-se o Dia Nacional da Consciência Negra.  Datas como essa, além do Dia Internacional da Mulher e do Dia do Índio, trazem benefício prático ou só reforçam a condição de minoria, enquanto no resto do ano vive-se em um sistema dominado pelo homem branco?</p>
<p><strong>Edna Roland: </strong>A existência de uma data não é suficiente, mas é importante.  Vinte de novembro é o dia da morte de Zumbi, um dos dois heróis nacionais &#8211; apenas Tiradentes e Zumbi dos Palmares têm seus nomes inscritos no panteão dos heróis nacionais -, e o último, o líder de um quilombo capaz de se sustentar e de persistir durante quase um século, o XVII.  Foi a experiência de uma república, chamada por alguns historiadores de República dos Palmares, em que negros, indígenas e brancos pobres puderam conviver em uma situação dentro do Brasil Colônia e criar uma outra possibilidade, um outro modelo de desenvolvimento econômico e social.  Essa é uma data que foi criada por nós, pelo povo negro.  O significado de Zumbi cresce a cada ano, de forma que ele não é mais só um herói brasileiro, é reconhecido internacionalmente como, se não a maior, mas uma das grandes figuras das Américas pela liberdade.  A data começou a ser comemorada há 25 anos, e há um projeto de lei tramitando para que se torne um feriado nacional.  Um grupo do Movimento Negro do Rio Grande do Sul, que se chamava Palmares, começou a cada novembro a fazer debates, seminários, comemorando a data.  E ela foi aos poucos crescendo pelo Brasil.  O que era apenas um dia, em vários lugares passou a ser a Semana da Consciência Negra, ou mesmo o Mês da Consciência Negra.</p>
<p>É o caso de um herói do povo e nós aguardamos o momento em que a nação brasileira, por meio de seus poderes constituídos, poderá prosseguir nesse processo de reconhecimento e institucionalização dessa experiência histórica.  É claro que ela não pode ser apenas uma data em que se fazem eventos, em que se comemora.  Em 1995, quando se completaram 300 anos da morte de Zumbi, o Movimento Negro brasileiro fez uma caminhada histórica, a Marcha Zumbi dos Palmares contra o Racismo e pela Vida, quando conseguimos levar cerca de 30 mil pessoas para Brasília nas condições mais difíceis, dadas as circunstâncias econômicas e políticas desse segmento da população.  E foi a data em que, pela primeira vez, o movimento negro tinha um programa nacional de superação do racismo, entregue ao presidente Fernando Henrique Cardoso.  Isso simbolizou o momento em que o movimento deixa de apenas denunciar o racismo e passa a ter uma estratégia de superação.</p>
<p>A cada ano, o 20 de Novembro é um momento de avaliação, de revisão das propostas políticas.  Em 2001, tivemos a Terceira Conferência Mundial contra o Racismo, na África do Sul, da qual eu tive a honra de ser a relatora-geral.  Nós conseguimos incluir na declaração, firmada por cerca de 170 países, algumas idéias fundamentais para combater o racismo e promover a igualdade social.  Havia resistência por parte dos EUA e da União Européia, mas o Brasil foi um protagonista capaz de fazer com que esses conceitos estivessem presentes nesses documentos.  É por isso que hoje no País temos programas como o de cotas para negros nas universidades em diversos Estados.  Nada se faz em um dia.</p>
<p><strong>Página 22: </strong>Estamos falando em minorias, mas, na verdade, se somados mulheres e negros, temos 70% da População Economicamente Ativa brasileira.  Se eles se mobilizassem, seria possível fazer uma revolução no País?</p>
<p><strong>ER: </strong>São minorias políticas e minorias econômicas.  O peso numérico pode representar peso político e social, mas não é uma tradução imediata.  Nenhum poder se sustenta por si mesmo.  Um setor que domina o poder do Estado tem o poder porque também é capaz de convencer o restante, os que não têm poder, de que eles não têm poder, de que não são capazes, de que não estão habilitados.  Isso é fundamental: não há possibilidade de sustentação de nenhum poder se aquela outra parcela, a que está fora, de alguma forma também não acreditar na legitimidade dos que estão em cima, e na sua ausência de possibilidade, de capacidade de execução.  Por isso o caso do presidente Lula talvez seja tão emblemático.  O carisma do presidente decorre do fato de que ele vem desse setor que está definido como &#8220;sem-poder&#8221;, &#8220;sem-capacidade&#8221; &#8211; ele é nordestino, não tem curso superior, não teve uma série de acessos que representam os signos, os emblemas de quem está habilitado ao poder.  Isso é um fato inesperado.  Para que ele chegaasse à Presidência, foi preciso que uma massa considerável de pessoas rompesse com a idéia de que uma pessoa com o seu perfil pudesse chegar lá.</p>
<p><strong>Página 22: </strong>O fato de ele ter sido eleito e reeleito, isso se traduz em um avanço na questão das minorias políticas?</p>
<p><strong>ER: </strong>Com certeza.  Não é que se tenha conseguido nesse primeiro mandato realizar tudo o que se esperava, mas nós temos hoje programas com um impacto significativo na área da igualdade racial.  E também de transferência de renda, que não estão definidos como programas destinados à população negra, mas, como são destinados à população pobre e há quase uma superposição entre esses dois segmentos, acabam beneficiando em grande parte os negros, que são cerca de 48% da população brasileira, mas também 60% dos pobres e 70% dos indigentes.  Então, qualquer programa de renda que tenha como foco as camadas mais pobres do Brasil vai necessariamente acabar beneficiando os negros.</p>
<p><strong>Página 22: </strong>As mulheres continuam sofrendo condições desvantajosas em termos de oportunidade de emprego, de promoção e de renda, ao mesmo tempo que ampliam sua participação na PEA.  Por quê?  É o reflexo da busca de uma mão-de-obra mais barata, uma vez que as mulheres se sujeitam a salários menores?</p>
<p><strong>ER: </strong>Não somente.  É um conjunto de fatores.  Primeiro é inegável o avanço que as mulheres fizeram ao longo do século XX.  A mudança do papel da mulher foi uma das grandes revoluções do século XX.  Tanto do ponto de vista de elevação de escolaridade, de inserção no mercado de trabalho, quanto de penetração em alguns espaços de poder &#8211; aí as mulheres ainda comparecem de forma bastante desigual.  Mas as mulheres vêm fazendo essa revolução, às vezes mais silenciosa, às vezes mais trepidante.  Se a gente pensar como foi a vida das nossas mães e das nossas avôs, é curto o espaço de tempo para uma transformação tão profunda em duas ou três gerações.  Elevação de escolaridade, inserção no mercado de trabalho, mudança de comportamento sexual, queda muito intensa da fecundidade das mulheres &#8211; esse é um fator fundamental para que ela pudesse se dedicar, exercer outros papéis, ter um maior espaço de liberdade, estar em outros lugares que não apenas no papel de reprodutora, de mãe, de dona de casa.</p>
<p><strong>Página 22: </strong> Ela começa a ter um espaço mais significativo na sociedade, até em posições de decisão, de como a sociedade vai se comportar.  Uma sociedade que fosse dominada por mulheres em vez de homens teria condição de ser mais sustentável do ponto de vista do cuidado com a natureza, em função do próprio instinto maternal de cuidar do lugar, das gerações futuras?</p>
<p><strong> ER: </strong>Eu não falaria de instinto maternal.  Essa divisão dos papéis sociais, que é histórica, fez com que a mulher permanecesse muito mais vinculada a questões fundamentais do ponto de vista da vida, da sustentabilidade da vida.  Existe uma parte do papel da mulher que está diretamente vinculada à sua função reprodutiva.  Mas, em cima dessa base biológica, você tem uma cultura que se estabelece.  Padrões que vão sendo definidos, o que é feminino e o que é masculino, o que se considera adequado para uma mulher ou não.  Tem um espaço muito grande que é da cultura, por isso evito falar em instinto maternal.</p>
<p>Mas você está correta no que diz, eu estou de acordo.  Semana passada estive muito rapidamente no Quênia e, tanto nas leituras que fiz quanto em conversas com algumas pessoas, pude perceber a profundidade e a gravidade do dano que é causado naquela região por parte dos homens envolvidos na guerra.  Há interesses profundos em relação aos recursos naturais, riquíssimos, imensos, do continente africano.  Há interesses de vendas de armas, por isso lá a guerra é continuamente fomentada.  Interessa à indústria bélica fomentar a guerra na África.  Há uma prática constante não somente relativa à ocupação do território e à destruição das casas e dos bens naturais, mas também à ocupação dos corpos das mulheres.  O estupro é usado como arma de guerra.</p>
<p>São fenômenos em que você percebe toda a agudeza do que significa a cultura do patriarcado, esse modo perverso de ver o mundo, esse mundo masculino que destrói pessoas, destrói a natureza, desgasta o tecido social.  Isso é profundamente masculino no pior sentido desse ser.  Não atribuo ao masculino apenas o sentido negativo e apenas as desgraças.  Mas as piores desgraças do mundo têm origem nessa ideologia patriarcal, que é negativa para homens e para mulheres.  Meninos, que são convocados para fazer parte dos exércitos, dos bandos de guerra, se eles se recusam a aderir às tropas, são mutilados.  Mulheres e homens idosos são sodomizados nos processos de ocupação.</p>
<p>São coisas terríveis e que têm origem no patriarcado.  Tendo a crer que em um mundo onde as mulheres forem mais protagonistas, ou até mesmo um poder dominante &#8211; na verdade, a gente não quer dominar nada, a gente quer compartilhar -, esse tipo de coisa tenderia a não existir.  Não quero dizer que as mulheres sejam santas, mas acho que esse lugar de subalternas, de oprimidas e de exploradas por tanto tempo nos permitiu ver o mundo de outra forma.  A possibilidade de pensar outras formas de viver e conviver.</p>
<p><strong>Página 22: </strong>Agora o mundo enfrenta uma crise social e ambiental que exige uma nova forma de lidar com as coisas, mais cooperativa.</p>
<p><strong>ER:</strong> Com certeza.</p>
<p><strong>Página 22: </strong>Antes de assumir a Coordenadoria da Mulher e da Igualdade Racial na prefeitura de Guarulhos, a senhora estava na Unesco e, antes disso, em uma ONG, a Fala Preta!  O que muda em termos de alcançar os objetivos em uma entidade da sociedade civil, em um organismo multilateral, em um cargo executivo no poder público?  Onde é possível obter mais resultados?</p>
<p><strong> ER: </strong>São papéis diferentes e igualmente importantes.  Muitos anos de experiência em ONGs me permitiram, primeiro, ter a liberdade de pensar.</p>
<p>Em uma organização não governamental você tem a liberdade de conceber o mundo de outra forma.  As ONGs são estruturas pouco hierarquizadas, flexíveis.  No caso da organização com que mantenho relações, é uma organização pequena, em que as pessoas têm relações face a face, em que o trabalho e o afeto são coisas que caminham juntas.  Isso favorece muitas coisas, a possibilidade de modificar, de mudar de direção, de contestar padrões estabelecidos.  Enfim, buscar caminhos novos.  Acho que é muito interessante, tanto que mantenho minha participação.  Uma ONG representa sempre o espaço de um olhar crítico sobre o mundo, a possibilidade de manter, acima de tudo, seu compromisso com a causa e um ideal.  E é a partir desse lugar que você pode exercer a crítica.</p>
<p>Já um organismo internacional permite a inserção em um espaço mais amplo do ponto de vista até territorial.  Na Unesco, fui coordenadora de combate ao racismo e discriminação para a América Latina.  Estava baseada no Brasil, mas o espaço com o qual tinha de me preocupar era a América Latina e o Caribe.  É como se você estivesse olhando o mundo por uma lente que você abre e vê um espaço ampliado.  Você se distancia, vê o conjunto, mas aí justamente não vê a guerra, as mortes no trânsito, a desgraça nossa de cada dia.  É uma outra perspectiva &#8211; a tendência é ver os problemas de forma mais global.</p>
<p>E, quando você vai para uma posição de governo, também é diferente se está em um órgão de governo federal, ou local, como estou agora.  Em um órgão de governo local, tenho de pensar os problemas aqui dessa cidade do ponto de vista de execução do trabalho.  Não posso de forma alguma perder a perspectiva dos tratados e convenções internacionais, das declarações, mas tenho que pensar nos jovens negros de Guarulhos.  Tenho que pensar em propostas para esses meninos, tenho que pensar nas mulheres desta cidade, como vou articular os serviços daqui para tentar reduzir a violência contra a mulher, como vou fortalecer as mulheres desta cidade.</p>
<p><strong>Página 22: </strong>E, ao pensar o local com a perspectiva global, é possível replicar esse modelo em outros lugares…</p>
<p><strong>ER: </strong>Essa minha experiência de governo local ainda é pequena, curta, ainda não vivi o suficiente para poder ver como é que posso generalizar as questões.  Ao mesmo tempo, talvez seja mais fácil pensar o global, o nacional, do que executar no local.  Diferentemente do que a gente supõe, talvez o nível local represente um desafio muito maior, porque significa justamente dar respostas o mais concretas possível.</p>
<p><strong>Página 22: </strong> A educação é um passo anterior a esse trabalho contra a discriminação, pois poderia formar a cabeça do brasileiro, desde criança, para não discriminar, para valorizar a cultura e a história indígena e negra, a ter heróis que não sejam a princesa loirinha.  Há uma lei que inclui a disciplina &#8220;História e Cultura Afro-Brasileira&#8221; no currículo das escolas.  Essa lei é um avanço ou uma coisa para inglês ver?</p>
<p><strong>ER: </strong>É uma lei muito importante.  Tem a lei e tem o parecer do Conselho Federal de Educação que regulamentou a lei.  O parecer, que define as diretrizes de aplicação da lei, é mais importante no conteúdo do que a lei, porque ampliou o escopo.  A lei fala do ensino da história e da cultura afro-brasileira, mas, na hora da regulamentação, fez parte da comissão de pareceristas alguns militantes históricos, como a professora Petronilha (Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, da Universidade Federal de São Carlos).  Ela lançou mão de toda a experiência, todo o conhecimento enquanto educadora na elaboração desse parecer.  O parecer não fala só do ensino da história e da cultura, fala também das relações interétnicas na escola.  Então não se trata só do conteúdo que deve ser ensinado, mas de transformar as relações entre as pessoas, os estudantes, crianças, jovens, professores e alunos.</p>
<p>O potencial de transformação da lei é imenso, pois, da mesma forma como o 20 de Novembro é uma data que foi o povo que disse &#8220;esse aqui é nosso herói, essa data é a nossa data&#8221;, essa lei também é uma lei que o povo negro está segurando nas mãos e dizendo: &#8220;Essa é nossa lei&#8221;.  E está obrigando as Secretarias de Educação, o Ministério da Educação, a cumprir a lei.  Então não é uma lei que vai ficar no papel. Iniciativas importantíssimas estão acontecendo.  Uma delas é uma parceria do MEC com a UnB para um curso à distância acerca do conteúdo dessa lei, uma proposta superousada, que está envolvendo 25 mil professores do Brasil.  É complexo do ponto de vista operacional, da tecnologia da informação, mas se está fazendo um grande esforço de capacitação dos professores do ensino fundamental.  Vai requerer muitos anos para que a gente possa considerar que os professores estão capacitados e ensinando adequadamente as crianças e os jovens deste País, mas a gente está na direção certa.</p>
<p><strong>22: </strong>Em relação às cotas para negros nas universidades: qual a sua avaliação desse programa?  Há quem defenda que as cotas sejam distribuídas de acordo com o perfil social, e não racial.</p>
<p><strong>ER: </strong>No Brasil há essa resistência a reconhecer tanto a existência do racismo quanto a que a aparência e a origem racial de uma pessoa influencia, e até mesmo determina, o seu lugar social e o seu destino social.  Há essa resistência ao reconhecimento da raça como uma variável que tem profundas implicações na vida das pessoas no Brasil.  Então faço parte de um grupo de pessoas que defende a justeza ética, política e moral da existência de cotas para negros nas universidades brasileiras.  Há debates sobre se essa é a forma mais correta de promover a igualdade, há críticos que acham que isso provoca resistências e talvez essas resistências não compensem os benefícios, mas tendo a achar que as vantagens são maiores que possíveis desvantagens.  Só a polêmica estabelecida já é importante.  Ainda que não se tivessem benefícios reais &#8211; milhares de jovens que estão entrando nas universidades no Brasil como estão a partir dos programas de ação afirmativa.</p>
<p><strong>Página 22: </strong>O que são programas de ação afirmativa?</p>
<p><strong>ER: </strong>As cotas são um tipo específico de um programa de ação afirmativa.  As ações afirmativas, conforme definição da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, são medidas ou programas especiais que os países devem promover para favorecer os indivíduos e grupos que sofrem discriminação racial.  Essa convenção diz explicitamente que esses programas devem existir somente durante o tempo necessário para reduzir a desigualdade, e aproximar a situação dos grupos discriminados à situação dos grupos dominantes da sociedade.  Se o programa fosse perene, esses grupos estariam sendo favorecidos.  Então não se trata de um privilégio.</p>
<p>Mas, como há muita resistência no Brasil ao reconhecimento da existência do racismo e da discriminação, as pessoas admitem mais facilmente um programa com base em critérios sociais, como se a questão racial não fosse uma questão social.  Porque quando a gente fala de raça e de desigualdade racial, estamos falando de hierarquias sociais, que são construídas e que definem privilégios e prejuízos.  Com base na sua aparência, eu coloco você em um determinado lugar social, isso lhe dá vantagens ou desvantagens.  É inegável que, se você fizer um programa com base em critérios sociais, provavelmente vai beneficiar negros, como foi o caso do Bolsa-Família.  Mas, do ponto de vista da compreensão real dessa sociedade, é muito importante que a sociedade brasileira reconheça a existência do racismo, da discriminação.  Não basta falar de pobreza no Brasil.  A questão é: por que os negros são pobres?  É inerente à natureza do negro ser pobre?  Não.  A pobreza é produzida, é um resultado.  Ninguém nasce pobre, as pessoas são expropriadas de acesso a bens e recursos, seja de recursos naturais, seja de capital, educação, saúde.</p>
<p><strong>22: </strong>O Estado de S. Paulo publicou uma reportagem mostrando que a raça negra tem determinados problemas de saúde diferentes da branca, e que essa diferença não é considerada na rede de saúde.</p>
<p><strong>ER: </strong>Há uma doença genética que é a anemia falciforme, originária de uma determinada região da África.  No Brasil, dada a miscigenação, é possível encontrar pessoas de aparência branca que têm o gene da anemia falciforme, mas a incidência é muito mais alta na população negra no Brasil.  E, até recentemente, o sistema público de saúde e mesmo os médicos particulares praticamente desconheciam a doença.  Mas, dada a incidência, é uma doença muito mais importante do que a Síndrome de Down, por exemplo.  A gente ainda luta para que os exames de detecção de anemia falciforme sejam feitos em todos os recém-nascidos.  É a mais antiga doença genética identificada e até hoje não se tem a cura, e certamente não deve ser por causa da complexidade da doença, mas por falta de investimento, de interesse.  O racismo e a discriminação ainda existem, são profundos e são cruéis no Brasil.  Talvez sejam até mais cruéis do que em outros países, justamente porque são meio camuflados.  Mas temos a possibilidade de ousar outras formas de convivência.  Eu acredito nessa possibilidade, mesmo porque tenho dedicado algumas décadas da minha vida para essa causa.</p>
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