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	<title>Página 22 &#187; ciberativismo</title>
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		<title>Tabula rasa</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Apr 2011 19:32:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2011/04/Bassma_Portrait.jpg"><img class="alignleft size-medium wp-image-11964" title="Bassma_Portrait" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2011/04/Bassma_Portrait-263x198.jpg" alt="Bassma_Portrait" width="263" height="198" /></a>Uma folha em branco onde desenhar seu próprio destino político é o que querem as populações do Egito e da Tunísia, países em que a legitimidade das ruas falou mais alto e derrubou regimes autoritários.  Segundo Bassma Kodmani, diretora-executiva da Arab Reform Initiative – uma rede de institutos de pesquisa sediada na França que busca desenvolver um programa para a reforma democrática no mundo árabe –, na nova era que se abre a participação direta da população será crucial para a estabilidade.</p>
<p>Para chegar lá, Egito e Tunísia partem do zero e têm de aprender com a experiência de países que fizeram a transição democrática.  O Brasil é inspirador, diz Bassma, por ter conseguido romper com a cultura política elitista e eleger um líder próximo dos movimentos sociais.  Ela espera que o mundo árabe saiba também rejeitar os aspectos negativos da experiência latino-americana, como a manutenção do modelo neoliberal de desenvolvimento econômico.  Para Bassma, que nasceu na Síria, a mensagem que os movimentos no Oriente Médio enviam ao resto do mundo é a de que as pessoas comuns podem ter uma voz nos temas sociais e econômicos.</p>
<p><strong>Há diversas situações no Oriente Médio – é possível apontar um desejo único por trás dos protestos recentes em vários países?  É democracia que buscam ou simplesmente melhores condições materiais?  Ou essas duas andam juntas?</strong></p>
<p>A palavra-chave em todos os movimentos na região é “dignidade”.  É um conceito rico e complexo, porque engloba importantes demandas sociais e econômicas para que as pessoas vivam uma vida digna.  Sim, é preciso um mínimo de recursos para viver decentemente, mas há também uma forte dimensão relacionada com o desprezo em relação a todos os sistemas políticos na região, sistemas autoritários e extremamente corruptos, que usam os recursos naturais de forma predatória.  Para a população, esse comportamento representa um desprezo em relação ao povo, que se sentia humilhado ao se ver sem poder em face de tais práticas predatórias de governo.  Há uma terceira dimensão, particularmente no Egito, que é a posição do país no sistema internacional, a perda da influência que o Egito tradicionalmente teve e a falta de uma política externa independente nos últimos 30 a 40 anos.</p>
<p><strong>Mas as pessoas também querem democracia, participar de seu próprio destino político?</strong></p>
<p>Democracia é ainda um conceito abstrato para a maioria das pessoas na região, especialmente a maioria dos jovens, aqueles que nunca experimentaram a democracia como tal.  Então é preciso usar outras palavras, desempacotar o conceito de democracia para chegar perto do que as pessoas querem.  E aí você descobre que a parte mais atrativa da democracia é a participação e isso significa mais do que a separação dos diferentes ramos do poder, mais do que simplesmente partidos políticos que representam o povo. </p>
<p>Acho que vamos chegar perto de uma democracia aberta, que permite a participação nas esferas locais, municipais, talvez por meio da ativação de redes sociais – países como o Brasil têm familiaridade com esses padrões.  As pessoas têm condições de vida muito difíceis e estão ansiosas para ser ouvidas e incorporadas em algum processo pelo qual as autoridades atentem para as necessidades do povo.  Acho que participação é o conceito mais atrativo e poderoso nisso tudo, e certamente também haverá partidos políticos para carregar as demandas do povo, a agenda social, assim como novos sindicatos que representem as forças e as demandas sociais.</p>
<p><strong>A senhora acredita que há espaço no Oriente Médio para uma democracia em que as pessoas participem e se engajem em assuntos políticos? Na maioria dos países ocidentais o que se vê é que as pessoas parecem satisfeitas apenas em votar.</strong> </p>
<p>Acho que esse é o grande desafio.  Países que foram bem-sucedidos em derrubar regimes autoritários serão democráticos com certeza, não tenho grande preocupação em relação ao Egito ou à Tunísia.  Eles serão democráticos, o desafio é que tipo de democracia terão.  Se será apenas a separação dos poderes, a representação por meio de partidos políticos, participação em eleições, em que você vai para casa e confia que a liderança vai implementar o que prometeu.  Esse não é o padrão que permitiria enfrentar os grandes desafios, as crescentes dificuldades de natureza social e econômica. </p>
<p>A participação do povo é vital para assegurar a estabilidade social, e eu certamente gostaria de ver isso nesses países.  Algumas pessoas têm essa visão de que é preciso descentralizar e enfatizar a governança local, é preciso aprender com outros países os mecanismos que permitem essa democracia direta, aberta, participativa.</p>
<p><strong>A senhora disse que um dos países que inspiram o Oriente Médio é o Brasil.  De que forma o Brasil inspira? </strong></p>
<p>Há duas coisas no Brasil que parecem atrativas à primeira vista.  Uma delas é a forma com que as forças sociais se organizaram de maneira efetiva e desafiaram a cultura política elitista do país – eventualmente chegaram ao poder, com Lula, e isso vem continuando.  O que temos aí é um partido político forte, poderoso, que de fato representa as forças e as demandas sociais.  Isso é crucial para um país como o Egito.  A segunda fonte de inspiração é a forma como alguns dos candidatos nas eleições, me parece, foram capazes de mobilizar por meio de redes sociais importantes setores da sociedade de forma muito direta.  É um modelo promissor e pode ser usado tanto na esfera local como na nacional, dependendo dos temas em questão. </p>
<p>Agora, o que sabemos sobre o Brasil é definitivamente insuficiente, e nosso objetivo na Arab Reform Initiative é organizar essa troca com alguns países que têm experiências com a democracia.  Outro país que queremos explorar é a Índia, que conta com importantes movimentos de base que conseguem se expressar e participar.</p>
<p><strong>Algumas pessoas no Brasil parecem ter dúvidas sobre quão rica é nossa experiência, em parte porque o país ainda é dominado pela desigualdade, em termos econômicos, mas também em termos de participação política.</strong></p>
<p>O que queremos aprender a não fazer, a partir da experiência brasileira, é construir uma democracia política sem desafiar os modelos econômicos de desenvolvimento.  As disparidades sociais entre ricos e pobres na América Latina são uma fonte enorme de instabilidade.  Precisamos aprender com essas experiências e compreender que é preciso incorporar os temas sociais e econômicos no debate político e sentir-se confiantes o suficiente para, com um governo eleito legitimamente, levar seu caso às instituições financeiras internacionais, à Organização Mundial do Comércio, à União Europeia, ao Banco Mundial.  Dizer que nossos países não podem sustentar privatizações, certas regras para a legislação trabalhista, esses tipos de políticas que os países nunca contestaram, simplesmente implementaram as condições impostas pelas organizações internacionais porque nunca sentiram que tinham o direito de contestar. </p>
<p>Acho que agora há espaço para alguma forma de coalizão internacional dos países do Sul para dizer que não podem sustentar o modelo econômico neoliberal.  A nossa experiência acontece 20 anos depois da América Latina, agora há algum questionamento mesmo dentro dessas instituições internacionais sobre a validade desses modelos, e acho que é justamente a hora de começar a contestá-los.</p>
<p><strong>O que detonou os protestos no mundo árabe?</strong> <strong>São os jovens que se conectam com o restante do mundo e, vendo seus pais sem avançar depois de anos de trabalho, se revoltam?</strong> </p>
<p> Não estou certa de que foi a mesma coisa no Egito e na Tunísia.  Eu estava mais inclinada a achar que aconteceria no Egito primeiro&#8230; aconteceu quase ao mesmo tempo.  No Egito havia indicações de uma mobilização social e política e o ímpeto na sociedade vinha crescendo há cinco ou seis anos.  A curto prazo, o que detonou os protestos provavelmente foi o fato de que o regime abriu algum espaço para a sociedade civil e grupos políticos se organizarem, mas de forma limitada, e para a mídia se expressar livremente.  E, em novembro, de repente, o regime decidiu que a situação demandava total controle devido às eleições parlamentares, que seriam uma preparação para que a sucessão do presidente [Hosni Mubarak] por seu filho ocorresse de forma ordenada.  Então as eleições foram menos livres e justas do que quaisquer outras que ocorreram em anos anteriores.  Houve uma abertura e, de repente, eles fecharam o sistema, pensando que poderiam abrir e fechar como quisessem, que estavam com o controle da situação. </p>
<p>Para a população, as eleições sinalizaram que não havia esperança de que a reforma viesse por meio de um processo gradual de abertura a partir do topo.  Na Tunísia foi muito menos previsível, porque por muito tempo o regime manteve uma vigilância da população muito mais forte do que no Egito.  Em segundo lugar, não havia forças políticas organizadas.  Não há muitas forças políticas organizadas no Egito, mas há ainda menos na Tunísia, apenas uma elite de ex-comunistas, socialistas e liberais com uma forte polarização entre os laicos e aqueles que promovem um modelo islâmico de sociedade. </p>
<p>Penso que os fatores que levaram aos protestos foram o nível de corrupção no sistema político e o fato de que o regime se enfraquecia, porque dependia inteiramente de forças de segurança para manter o controle, não lidava com temas políticos por vias políticas.  A situação era a mesma no Egito, mas na Tunísia o presidente era muito mais fraco, sua família estava ocupada em ganhar dinheiro e organizar seus negócios privados, e se tornou completamente insensível ao que vinha da população.  A economia funcionava, havia crescimento, mas isso não beneficiava a população.  O estopim veio de uma das regiões mais pobres do país, por parte do camelô que incendiou o próprio corpo.</p>
<p><strong>O que há de diferente do passado?  A situação se perpetuou por anos, mas de repente as pessoas reagiram.  Quão importantes são as mídias sociais para detonar esse movimento?  Elas apenas conectam, ou de repente as pessoas têm a sensação de que não estão mais sozinhas?</strong></p>
<p>Definitivamente isso teve um papel importante.  Os sistemas autoritários tendem a dividir o espaço público e prevenir a comunicação horizontal e as conexões entre as pessoas.  Na Tunísia não havia imprensa livre, não havia meio de conectar as pessoas.  No Egito havia alguma liberdade de imprensa e as pessoas estavam tornando públicas suas preocupações e frustrações.  A imprensa estava expondo o comportamento do governo, mostrando a corrupção, o tratamento de prisioneiros e das pessoas nas delegacias de polícia, todo o aparato repressivo do sistema político.  Tudo isso apareceu por meio da mídia tradicional e das mídias sociais no Egito, e exclusivamente por meio da internet e das mídias sociais na Tunísia. </p>
<p>Porque não há forças políticas organizadas, definitivamente as mídias sociais foram um substituto para organizar as pessoas fora de um ambiente institucional.</p>
<p><strong>A senhora também apontou que as informações vazadas pelo Wikileaks no ano passado tiveram impacto.  Por quê?</strong></p>
<p>Sim, acredito que tiveram impacto muito importante, simplesmente porque era a imagem de fora projetada de volta para as pessoas.  Foi a visão de como seus próprios líderes eram vistos por quem estava fora e acho que isso teve um efeito devastador.  Diplomatas estrangeiros dizendo ‘essas são máfias, são grupos políticos predatórios que estão no governo e que estão simplesmente exaurindo os recursos do país’&#8230; formou-se uma imagem de líderes políticos completamente desacreditados.</p>
<p><strong>Parece que a comunidade internacional tem um importante papel, embora as pessoas nesses países rejeitem interferência ou modelos externos.</strong></p>
<p>Acho que a sensibilidade quanto a modelos ocidentais não existe no momento.  Há muita sensibilidade em relação à interferência estrangeira em assuntos domésticos, isso é verdade e sempre será.  As pessoas observam com muito cuidado para ver se os EUA ou a Europa tentam fazer contato com algum grupo em particular para promover suas próprias agendas. </p>
<p>Mas, quanto ao Ocidente oferecer modelos de organização política, não há sensibilidade quanto a isso, o que há é uma certa avidez em obter inspiração de tais modelos, de adotar as coisas boas e não as más, mas com certeza em aprender com esses modelos.  Porque há países no Sul que também desenvolveram sistemas democráticos, há um sentimento de proximidade e semelhança com esses países.</p>
<p><strong>O momento é uma oportunidade para forjar um modelo único de organização política e reforma econômica, algo que seja verdadeiramente do Oriente Médio?</strong></p>
<p>Sim, mas eu diria que isso não é dito consciente ou explicitamente no momento.  Você só sabe que desenvolveu seu próprio modelo quando desenvolveu seu próprio modelo.  E é difícil fazê-lo.  As pessoas agora estão se esforçando para lidar com os desafios mais imediatos – como recomeçar um processo político do começo. </p>
<p>Quando o Exército intervém, o que se está dizendo é que há uma falência do sistema político, basicamente se está fazendo uma <em>tabula rasa</em>, que é o que as pessoas queriam, o que essa revolução estava pedindo.  Mas <em>tabula rasa</em> é também uma grande fonte de ansiedade – como você reinicia o sistema, qual é o primeiro ato legítimo, e quem são as primeiras pessoas legítimas que podem desenvolver um processo legítimo? </p>
<p>Não há nesse momento o pensamento consciente de que vão desenvolver seu próprio sistema, o que acho que estão tentando fazer é aprender com o que puderem.  Eles têm suas próprias ideias, sua própria cultura, suas experiências pessoais como indivíduos, mas a carga é tão pesada que acho que estão tentando se beneficiar ao máximo de trocas com outros países, ao mesmo tempo que se mantêm atentos às demandas vindas da sociedade. </p>
<p>O fato de que as ruas na Tunísia ou no Egito estão impondo mudanças no topo indica que no momento não há estrutura política ou partidos legítimos e, portanto, as ruas continuam sendo a maior fonte de legitimidade.  Se isso vai se transformar em uma democracia aberta, participativa, é o que vamos ver durante o próximo ano.</p>
<p><strong>No Egito, em particular, o Exército teve um papel essencial para mudar o estado de coisas.  O que devemos esperar do Exército daqui para a frente?  É provável que os militares aceitem reformas democráticas?</strong> A intenção é possivelmente democrática no sentido de que o Exército não busca controlar o poder diretamente e preferiria devolvê-lo aos civis.  Os militares sentem que não têm experiência e que seu envolvimento em assuntos políticos criaria tensões dentro de suas próprias fileiras.  Por uma série de razões, o Exército gosta de ver civis no controle de assuntos civis e políticos. </p>
<p>Agora, há duas ressalvas muito importantes.  Uma é que o Exército vai tentar preservar seus interesses econômicos no sistema, pois tem suas próprias empresas, indústrias e corporações.  Outra é sua enorme presença dentro do aparato político – os governadores de todas as regiões do Egito são ex-militares, a maioria dos chefes de gabinete e ministros também.  Houve uma profunda militarização do Estado, apesar do governo civil, o que significa obviamente que os militares controlavam boa parte do sistema.  Como vimos, no momento em que a liderança política falhou em manter o país estável, eles agiram imediatamente e foram capazes de controlar a situação.  Resta saber se o Exército vai abrir mão de seus privilégios econômicos e da militarização das instituições estatais, e como vão negociar isso. </p>
<p>Outro aspecto que limita a democratização das forças militares é que sua própria cultura é de disciplina, de eficiência, e não de discussão e de debate aberto, participação, compromisso.  Não é isso que eles sabem.  Quando há demonstração ou greve porque as pessoas estão infelizes, eles consideram isso o caos, uma instabilidade que deve ser controlada.  Não concebem que isso é parte natural da vida política e que as pessoas terão representantes legítimos, e que isso precisa ser organizado.</p>
<p><strong>É possível imaginar uma democracia no mundo árabe sem religião?  É interessante ver a posição do Irã – as autoridades apoiam os protestos em outros países e, ao mesmo tempo, reprimem a oposição em seu próprio país.  Iranianos expatriados parecem desencantados e dizem que as revoluções seguirão o rumo do Irã, que embarcou em uma teocracia.  Qual a sua opinião?</strong></p>
<p>O islamismo terá forte presença na vida pública porque essa é a cultura do povo, no Egito mais do que na Tunísia.  É muito difícil dizer às pessoas que o secularismo é o que deve prevalecer na esfera pública.  Não se pode separar o privado, as crenças das pessoas, do dia a dia e práticas das pessoas.  A religião vai estar presente.  Agora, como vai ser representada e por quem, é uma grande área para discussão. </p>
<p>Duvido muito que o Irã será um modelo a ser replicado no mundo árabe.  Há muita consciência do risco de ver a democracia confiscada por qualquer grupo, se não serão os militares, também não serão os islâmicos.  As pessoas querem liberdades e querem ver grupos políticos que tenham respostas concretas para problemas concretos. </p>
<p>Os grupos islâmicos tiveram uma situação privilegiada sob o regime autoritário porque foram capazes de expressar-se por meio de redes religiosas e mesquitas.  Não eram responsabilizados por nada porque não tinham responsabilidades, estavam em uma posição confortável de criticar o governo pela corrupção, o comportamento anti-islâmico, mas não tinham responsabilidades.  No momento em que forem responsabilizados pelo que falam, em que publicarem uma agenda política e disserem que querem implementá-la, eles terão duas dificuldades.  Uma, estarão divididos, já estão divididos.  Já sabemos que no Egito haverá mais do que um partido político, pelo menos dois, e há um terceiro emergindo.  E a segunda dificuldade é que eles terão de responder a problemas concretos, mas eles discordam e não estão prontos para enfrentar esses assuntos de maneira coerente.  Estão entrando em um espaço em que haverá competição – e eles nunca tiveram competição antes –, competição entre eles mesmos e com partidos de esquerda, liberais, e outras forças.</p>
<p><strong>O que esperar em termos de mudanças para as mulheres?  Falamos em dignidade, participação, mas há um contingente de mulheres longe disso tudo.</strong></p>
<p>Há dois desafios para as mulheres, um de natureza social, outro de natureza política.  O que vimos é que a mobilização das mulheres como cidadãs ativas durante a revolução teve um papel muito mais efetivo na emancipação das mulheres do que todos os programas destinados a elas durante o regime autoritário.  O governo encorajava assuntos femininos e a melhoria do status das mulheres porque isso não representava um risco para o sistema político.  Quanto mais autoritário o regime, mais as forças políticas conservadoras exercem influência. </p>
<p> Em um sistema aberto e competitivo, o conservadorismo é desafiado e há uma chance de que, em temas sociais, as forças políticas apresentem suas agendas e façam as mulheres participarem.  O desafio social é proteger as mulheres da violência, assegurar direitos mínimos em casos de divórcio, guarda de crianças, herança etc. Há grandes batalhas a serem travadas nessas searas, um longo caminho à frente.  Há também a representação política e a questão de quem vai carregar esses temas nas instituições políticas. </p>
<p>A verdade é que as mulheres terão que lutar por seu lugar, porque ninguém vai fazer isso por elas.  As pessoas tendem a pensar ‘agora construímos uma democracia e depois a aprofundamos ao envolver as mulheres’, mas não é assim.  Obviamente, vai requerer muito aprendizado e conscientização por parte dos homens, não tanto entre as mulheres.</p>
<p><strong>Há um movimento forte de mulheres na região para abraçar a causa?</strong></p>
<p>Sim, é muito articulado e tem uma visão muito boa de aonde quer chegar.  O problema é que ainda permanece elitista, embora tenha se expandido de maneiras importantes.  A Tunísia é mais ativa na proteção das mulheres do que qualquer outro país árabe, é o mais avançado nessa área.  Não é esse o caso no Egito. </p>
<p>A verdade é que agora há mulheres fortes, muito ativas, em todo o espectro político, incluindo os partidos islâmicos.  Essas mulheres usam véu, dizem que querem ver os valores islâmicos na sociedade, mas ao mesmo tempo elas querem seu lugar no sistema político, garantem que o islamismo não é contrário à participação das mulheres – o que pode ser verdade, dependendo de que aspectos religiosos você usa –, dizem que você pode ser uma boa mulher islâmica e cidadã ativa ao mesmo tempo. </p>
<p>Mesmo mulheres nas esferas mais baixas da sociedade sabem que querem proteção e seus direitos econômicos mínimos.  A esfera pública agora precisa promover tais valores por meio dos meios de comunicação de massa, TV etc. Uma fonte de atraso para as mulheres foi que as instituições religiosas eram muito dominantes, com mensagens conservadoras, e o sistema autoritário estava confortável com isso.  Agora, com o espaço político aberto, as instituições religiosas vão perder parte de sua influência e as pessoas estarão mais ocupadas com problemas concretos.  É disso que trata a política, acho que haverá uma secularização do espaço público na prática e isso vai beneficiar as mulheres.</p>
<p><strong>Falamos até agora do Egito e da Tunísia, mas e a Líbia, onde as coisas estão tomando o caminho oposto [<em>a entrevista foi realizada antes que a comunidade internacional optasse por intervir no conflito na Líbia</em>]?  O que deve acontecer lá?</strong></p>
<p>A situação na Líbia parece muito alarmante e negativa, não tenho muita esperança sobre o que pode acontecer nas próximas semanas e meses.  Espero que tenhamos uma boa surpresa e a mudança de curso por parte do regime, mas não há indicação disso.  A verdade é que o Egito e a Tunísia são países que têm coesão social, no sentido de que a identidade nacional é claramente definida e consentida, há um consenso sobre ela.  Em muitos outros países não há consenso e coesão na esfera nacional, portanto o que acontece na Líbia pode de fato ser um dos cenários a ser repetidos em outros países da região.  Isso é uma fonte de preocupação por causa da composição fragmentada étnica, cultural e religiosa de muitas sociedades.</p>
<p><strong>A senhora acredita que os protestos e as reformas no Oriente Médio e Norte da África ajudam a inspirar pessoas em outras partes do mundo a agir por mudanças?  Recentemente houve protestos na Inglaterra, nos EUA, em Portugal.  É o início do levante da multitude?</strong></p>
<p>As revoluções no mundo árabe têm suas razões específicas, mas têm também algumas dimensões comuns com vários países, dimensões de natureza global, principalmente o questionamento do modelo de desenvolvimento econômico. </p>
<p>Especialmente em razão da crise que os países ocidentais vem sofrendo nos últimos dois a três anos, tem havido um sério questionamento da validade desse modelo.  Quando países árabes dizem ‘queremos ter uma voz na definição das políticas sociais e econômicas’, isso pode muito bem inspirar outras regiões do mundo.  Acho que os protestos e movimentos no mundo árabe são inspiradores, porque vêm da região mais autoritária do mundo, o último bastião do autoritarismo.  E também porque temos tido – e isso deve soar familiar aos brasileiros – o movimento antiglobalização, ou por uma globalização alternativa, os fóruns sociais e protestos por meio desses fóruns. </p>
<p>Acho que isso está ganhando impulso, porque os movimentos sociais nas esferas nacionais estão mostrando que podem de fato mudar o sistema político, mesmo aqueles autoritários e poderosos.  Esta é a mensagem que vem do Oriente Médio, um misto de movimento na esfera global e da habilidade de organização na esfera nacional para mudar os sistemas políticos.</p>
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		<title>Por um pouco de luz</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Apr 2011 19:29:09 +0000</pubDate>
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Quando a primeira lei de acesso a informações públicas foi promulgada na Suécia em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Em matéria de acesso à informação pública, o Brasil está na lanterna até mesmo na América Latina.  Enquanto isso, pipocam na web iniciativas em prol da transparência</em></p>
<div id="attachment_11992" class="wp-caption alignleft" style="width: 365px"><a href="http://www.flickr.com/photos/sookie/115683402/"><img class="size-large wp-image-11992" title="por um pouco de luz" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2011/04/por-um-pouco-de-luz-355x270.jpg" alt="Foto de 416style via Flickr" width="355" height="270" /></a><p class="wp-caption-text">Foto de 416style via Flickr</p></div>
<p>Quando a primeira lei de acesso a informações públicas foi promulgada na Suécia em 1766, o Brasil era um vice-reinado de Portugal, com 1,5 milhão de habitantes, governado por Vasco de Mascarenhas, o Conde de Óbidos.  Passados 245 anos, o Brasil democrático da presidente Dilma Rousseff vive a era da revolução digital de Wikileaks, Facebook e Twitter ainda sem uma lei que garanta aos 200 milhões de brasileiros esse direito fundamental.</p>
<p>Trata-se de direito previsto pelo Artigo 19 da Declaração Universal de Direitos Humanos e também pelo Artigo 5º da Constituição Brasileira, mas não regulamentado.  Mas, enquanto a Lei de Acesso à Informação [Projeto de Lei Complementar 41/2010] tramita pela Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática do Senado, sem qualquer previsão de votação, setores mais plugados da sociedade criam alternativas que, aos poucos, abrem caminhos para que mais brasileiros compreendam o que está acontecendo nas variadas esferas de governo.</p>
<p>Embalados pela revolução digital, a mesma que está contribuindo para a mobilização pela democracia no Oriente Médio e Norte da África, movimentos como Cidade Democrática, Vote na Web, Urbanias, Rede Nossa São Paulo, entre outros, entram em cena criando mecanismos que permitem traduzir e acompanhar os atos do poder público.  Multidisciplinares e, em geral, pilotados por jovens cheios de energia e disposição, articulam-se na velocidade da internet sem esperar a tramitação de uma lei que segue em ritmo analógico.</p>
<p>O <a href="http://www.votenaweb.com.br" target="_blank">votenaweb.com.br</a>, por exemplo, traduz para uma linguagem de fácil compreensão e coloca em votação virtual os projetos de lei mais importantes em pauta no Congresso Nacional.  De seus mais de 15 mil usuários cadastrados, 55% têm entre 16 e 30 anos.  Para Fernando Barreto, da WebCitizen, empresa criadora do site, mais importante do que a aprovação da Lei de Acesso à Informação é a mobilização das pessoas.  “Nosso desafio é fazer com que o cidadão se interesse também por questões menos midiáticas, mas importantes para o País.”</p>
<p><strong>Sensação de fazer parte </strong></p>
<p>Rodrigo Bandeira, fundador do <a href="http://www.cidadedemocratica.org.br" target="_blank">cidadedemocratica.org.br</a>, segue na mesma linha de pensamento.  O fundamental, segundo diz, é mostrar aos jovens como se articular e usar a inteligência coletiva para construir uma sociedade de colaboração.  Em Jundiaí, por exemplo, o grupo descobriu um obscuro instrumento de participação popular na Câmara Municipal – a Comissão de Participação Legislativa –, e conseguiu da prefeitura a aprovação de um plano cicloviário desenvolvido por ciclistas.  “Isso gera um sentimento de ser dono da cidade”, resume Henrique Parra Parra Filho, um dos coordenadores locais.</p>
<p>O <a href="http://www.urbanias.com.br" target="_blank">urbanias.com.br</a> escolheu outro caminho e se propõe a trazer para os cidadãos as informações que ele não consegue diretamente do poder público.  Funciona como um Serviço de Atendimento ao Consumidor, em que o morador da cidade de São Paulo entra com seu pedido ou reclamação e pode acompanhar todo o processo até a resolução, coisa impossível de ser feita por meio do site da prefeitura.  São mais de 1.000 usuários cadastrados e 900 demandas, 60% delas resolvidas, segundo Rafael Balago, jornalista moderador do site.  “Serviços via internet como o Urbanias e o SacSP estão fazendo com que o poder público se mexa.  Algumas subprefeituras têm até conta no Twitter e interagem diretamente com as pessoas.  Isso é positivo”, acredita.</p>
<p>Um dos exemplos mais bem-sucedidos de iniciativas pela transparência da administração pública, a Rede Nossa São Paulo mobiliza 640 entidades em torno de ideias e ações para a capital paulista.  O coordenador do Grupo de Trabalho de Orçamento da Rede, economista e ex-vereador Odilon Guedes, afirma que a aprovação da lei de acesso à informação pública é fundamental para que os brasileiros compreendam o que está acontecendo com o dinheiro pago em  impostos.  Criador da Lei da Transparência, que exige a prestação de contas por parte dos ocupantes de cargos públicos da cidade de São Paulo, Odilon considera a questão explosiva.  “Hoje, 34% do PIB referem-se a impostos.  E as pessoas não sabem como esse dinheiro vem sendo gasto.”</p>
<p><strong>Jornalismo investigativo</strong></p>
<p>O presidente da Associação Brasileira de Jornalistas Investigativos (Abraji), Fernando Rodrigues, lamenta que a lei de acesso a informações esteja há quase dez anos tramitando no Congresso, enquanto empresas que querem se instalar no Brasil precisam contratar serviços de <em>lobby</em> em Brasília para obter informações às quais teriam direito.</p>
<p>Nos Estados Unidos, 40% das consultas feitas ao Freedom of Information Act [1] são originárias de empresas.  Para Rodrigues, o Brasil precisa acabar com o conceito de opacidade que domina a administração pública se quiser ser verdadeiramente desenvolvido.  “Tudo que é produzido no governo é público.”</p>
<blockquote><p>[1] Lei de 1966 que regulamenta o acesso a informações públicas nos EUA.</p></blockquote>
<p>A Abraji trabalha junto com outras organizações, entre elas a Artigo 19, a Transparência Brasil e a Transparência Hacker, pressionando pela aprovação da lei no Senado.  Mas o líder do PT, Humberto Costa (PE), admite que até agora não há qualquer articulação para dar mais velocidade ao projeto.</p>
<p>Na visão de Arthur Serra Massuda, da Artigo 19, o projeto não avança por pressão dos ministérios da Defesa e das Relações Exteriores.  A questão mais espinhosa é o fim do sigilo de documentos secretos.  O projeto de lei em tramitação mantém por 25 anos o sigilo de documentos ultrassecretos, renováveis por mais 25 anos, o que Massuda considera um tempo longo demais.</p>
<p>Especialista em políticas comparadas e um dos fundadores do Movimento Brasil Aberto, Greg Michener diz que a lei já nasce atrasada em relação ao que existe de mais atual no mundo, mas é melhor que seja aprovada como está, pois, caso o Senado decida fazer alterações no texto, ele terá que voltar à Câmara dos Deputados, atrasando ainda mais a entrada em vigor.  Michener aponta como pontos positivos da lei o fato de exigir que a informação seja fornecida aberta (em um formato reprocessável ou legível por máquina) e seja abrangente a todos os níveis de governo e corporações ligadas ao poder público.  A parte negativa fica por conta dos três diferentes níveis de sigilo e o prazo de reserva para documentos classificados.</p>
<p>Em vez de publicar os relatórios apenas em PDF, que só podem ser lidos pelas pessoas, a ideia é possibilitar o uso das informações públicas em <em>softwares</em> e aplicativos que estejam aptos a recombiná-las e ressignificá-las, explica o cientista político e membro da comunidade Transparência Hacker, Ricardo Poppi.  Usando dados abertos, o programador Maurício Maia criou um site que mostra de forma simples os alagamentos na cidade de São Paulo, o site alagamentos.topical.com.br.</p>
<p>“Na América Latina, entre os países democráticos, apenas o Brasil e a Costa Rica não têm uma legislação que garanta o acesso à informação pública.  E, mesmo assim, na Costa Rica não há lei, mas existe de fato esse acesso”, lembra Michener.  Cuba, obviamente, fica fora das estatísticas.  “O Brasil está muito atrasado em relação ao assunto”.  Para Michener, é importante que o País aprove a lei rapidamente, para permitir uma maior transparência e agilidade.  “Os projetos envolvendo as Olimpíadas, a Copa do Mundo e o pré-sal são exemplos nos quais há necessidade de maior transparência e acompanhamento.”</p>
<p>O melhor modelo de transparência nas informações públicas é o do México, onde existe um órgão independente responsável pela fiscalização e acompanhamento das requisições feitas pelos cidadãos.  O Instituto Federal de Acesso a Informações Públicas (Ifai) tem poder de pressionar os órgãos do governo e, assim, garantir a divulgação de informações essenciais.  No Brasil, o recurso previsto pelo projeto de lei é a Controladoria-Geral da União, que, na visão de Michener, por ser parte do Executivo, não teria a independência necessária para pressionar os órgãos da administração pública.</p>
<p>Na ausência de uma lei geral que regulamente a questão, no entanto, algumas iniciativas vêm sendo tomadas por setores mais antenados da administração pública.  É o caso da Lei 10.650, que permite o acesso público aos documentos que tratem de matéria ambiental armazenados no Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama).  Com base nesta lei, o site O Eco conseguiu informações exclusivas a respeito das hidrelétricas do Rio Madeira e de Belo Monte, conta o editor-chefe Gustavo Faleiros.  O Portal da Transparência e o E-gov, do governo federal, também seguem em direção a uma maior transparência.</p>
<p><strong>Poder das pessoas </strong></p>
<p>O fato é que, se o Brasil quiser mesmo ser exemplo de democracia para os países do Oriente Médio e do Norte da África, como disse o presidente americano Barack Obama, precisa apressar-se e aprovar a lei de acesso a informações públicas, como já fizeram cerca de 90 países.  O próprio Obama é testemunha do que o movimento de pessoas digitalmente coordenadas pode fazer.  Vivemos a era do poder das pessoas, segundo ensina Gerd Leonhard, futurista e palestrante alemão, CEO da The Future Agency, autor de diversos livros, entre eles, The End of Control.</p>
<p>Para Leonhard, o mundo vive a transformação de um “egossistema” baseado no poder de grandes companhias e grandes governos em um ecossistema onde o poder de muitos pequenos desafia o grande.  “O poder não é mais aquilo que você controla, mas aquilo que você compartilha.”</p>
<p>Talvez a chamada Revolução do Jasmim [2] também possa servir de exemplo para o Estado brasileiro, que caminha lento, enquanto cada vez mais brasileiros se conectam às redes e se articulam.  “É melhor que o Estado brasileiro tome a dianteira, antes que alguém decida usar o Wikileaks para divulgar informações confidenciais”, pensa Arthur Serra Massuda.  “A divulgação das informações não é entendida pelos políticos como um direito do cidadão”, lamenta a vice-diretora geral do Movimento Voto Consciente, Rosangela Giembinsky, opinião compartilhada pelo coordenador de projetos da Transparência Brasil, Rogério Schmitt.</p>
<p>[2] Sucessão de manifestações ocorridas na Tunísia entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011 que levou à saída do presidente da República Zine El-Abidine Ben Ali, e espalhou-se pelo mundo árabe, do Norte da África ao Oriente Médio.</p>
<p>Não se trata apenas de regulamentar a divulgação de informações, mas, sim, de entender qual é a energia que movimenta o mundo hoje, analisa Mauricio Curi, curador do TEDx Vila Madá.  Usando de forma criativa a Teoria da Relatividade de Albert Einstein (E=MC2), Curi acredita que Energia atualmente é gerada pela Mobilização multiplicada pelo Conhecimento de muitos.  “A energia no mundo de hoje não é apenas digital, é humana.  É um modelo propulsor da sociedade.”</p>
<p>As pessoas começam a sentir que não estão sozinhas.  Daniela Silva, cofundadora da empresa Esfera e integrante do Movimento Transparência Hacker resume a necessidade por mais transparência em uma frase: “A internet muda e transforma pra sempre a prática de fazer política”.</p>
<p>Mais iformações sobre fontes, entidades e links citados nesta reportagem <a href="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2011/04/SITEfontes-e-links.doc">aqui</a>.</p>
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		<title>Mobilização 2.0: a voz da Avaaz</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Apr 2011 15:52:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
				<category><![CDATA[Da redação]]></category>
		<category><![CDATA[ativismo na rede]]></category>
		<category><![CDATA[Avaaz]]></category>
		<category><![CDATA[ciberativismo]]></category>
		<category><![CDATA[Graziela Tanaka]]></category>
		<category><![CDATA[mobilização on-line]]></category>
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		<description><![CDATA[Impossível falar hoje em ciberativismo sem citar a Avaaz, atualmente a maior organização internacional de mobilização via Internet. A brasileira Graziela Tanaka, que coordena campanhas pelo mundo inteiro, diz que todo esse movimento mostra que há uma demanda de articulação [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_11738" class="wp-caption alignleft" style="width: 219px"><a href="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2011/04/graziela-avaaz.jpg"><img class="size-full wp-image-11738 " title="graziela avaaz" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2011/04/graziela-avaaz.jpg" alt="Graziela Tanaka, coordenadora de campanhas da Avaaz. Foto Paulo Messina de via Flickr" width="209" height="333" /></a><p class="wp-caption-text">Graziela Tanaka, coordenadora de campanhas da Avaaz. Foto de Paulo Messina via Flickr</p></div>
<p>Impossível falar hoje em ciberativismo sem citar a <a href="http://www.avaaz.org/po/" target="_blank">Avaaz</a>, atualmente a maior organização internacional de mobilização via Internet. A brasileira Graziela Tanaka, que coordena campanhas pelo mundo inteiro, diz que todo esse movimento mostra que há uma demanda de articulação global em torno de questões comuns, como direitos humanos e mudanças climáticas. De olho no Brasil, que alterna com a França a liderança mundial em número de ciberativistas, a Avaaz foi uma das principais articuladoras da mobilização popular em favor da aprovação do Projeto Ficha Limpa, em maio do ano passado.</p>
<p><strong>1) Em 4 anos de existência, a Avaaz já reúne mais de 7 milhões de membros. A que se deve esse resultado? </strong>Quando a Avaaz foi lançada, havia dúvidas se os temas que interessam a determinado país são compartilhados globalmente. Foi uma experiência totalmente nova e que ressoou no mundo inteiro. Para mim, o motivo disso é que havia a demanda por uma comunidade global que tratasse de questões altamente políticas, relacionadas a direitos humanos, mudanças climáticas. Não existia e ainda não existe, nesse sentido, nenhuma organização com as características da Avaaz.</p>
<p><strong>2) Na visão da Avaaz, por que o Brasil está entre os países com os maiores números de membros? </strong>O Brasil já estava no planejamento da Avaaz, antes mesmo de seu lançamento, por ser uma das democracias mais fortes do Cone Sul, além de seu papel geopolítico importante no mundo. Outro aspecto é a conectividade e a globalidade dos brasileiros, fortemente conectados via Twitter, Facebook, e-mail, Orkut, antenados com o que acontece no mundo, interessados em questões relacionadas a direitos humanos, meio ambiente. Mas a época em que o Brasil realmente cresceu na lista da Avaaz foi na época da campanha Ficha Limpa.</p>
<p><strong>3) Você acredita que os mesmos interessados em assinar a petição do Ficha Limpa estariam dispostos a participar de outras formas de atuação política? </strong>Uma forma de mobilização não exclui a outra. Só que nem todo mundo é um ativista em período integral. As pessoas têm família, trabalho. Não se pode julgar as pessoas, no ciberativismo, pelo nível de politização. Eu diria que muitos que participam do ativismo <em>on-line</em> não têm outras opções. Há também aquelas pessoas que estão sendo introduzidas junto às questões políticas. Nesse sentido, a Avaaz funciona mais como uma escada. As pessoas precisam saber qual é o nosso posicionamento em relação à política e, a partir daí, pesquisar e se aprofundar e, se tiverem a oportunidade, se engajar em outra forma de mobilização. Apoiamos as manifestações de rua, mas a mobilização <em>on-line</em> tem um dinamismo, uma rapidez, que a mobilização de rua não permite.</p>
<p><strong>4) Como tornar o ato de mobilização algo além do simples <em>click</em>?</strong> O trabalho de mobilização vai muito além do <em>click</em> da página. “Avaaz” significa “voz” em várias línguas e nossa missão deixa claro que levamos a voz da sociedade civil para momentos de decisão política. O <em>click</em> é uma forma de representação das pessoas ao redor do mundo, mas só que, por detrás disso, há todo um trabalho de ver essas vozes representadas, dentro de um processo de decisão, chegando aos ouvidos dos tomadores de decisão. Temos o compromisso de fazer uma ponte política e contamos com um reconhecimento e um compasso com governos e políticos e uma forma própria de levar a nossa mensagem para eles de fato. Essa é a garantia do impacto político.</p>
<p><strong>5) Como são escolhidas as causas às quais apoiar? </strong>O trabalho do pessoal de campanha é justamente esse: procurar assuntos e, para isso, estar sempre em contato com organizações da sociedade civil e fatos importantes que estejam acontecendo no mundo. Recebemos também muitas sugestões de membros. Todas as campanhas da Avaaz são testadas antes com a lista de membros. A equipe da Avaaz não manda nenhuma campanha que não tenha já o apoio dos integrantes de sua lista.</p>
<p><strong>6) Como é garantida a autenticidade das petições da Avaaz? </strong>Essa é uma grande preocupação da Avaaz: ter uma equipe técnica de ponta, que trabalha com as tecnologias mais sofisticadas. Se vemos, por exemplo, que há muitas assinaturas do mesmo IP, bloqueamos, fazemos uma investigação, verificamos todos os nomes das assinaturas e se, por exemplo, forem os mesmos nomes, os mesmos endereços de e-mail, cancelamos essas petições.</p>
<p><strong>7) Qual é o futuro do ciberativismo? O que a Avaaz espera realizar tendo em vista esse futuro? </strong>Nos primeiros anos, focamos muito no crescimento, pois, para ter impacto com a mídia e os governos, precisamos de números grandes, uma escala de milhões. Acho que agora é buscar um impacto mais forte, um reconhecimento maior e procurar ter um engajamento em níveis mais profundos da comunidade. Tivemos já alguns experimentos em mobilização de rua com pessoas do mundo inteiro. Fizemos uma vigília pelo clima durante a conferência de Copenhague, a COP-15. A ideia agora é realizar outras ações que tenham uma participação mais ativa da nossa lista. Tenho uma expectativa muito grande em relação ao ciberativismo no Brasil porque acho que ainda está engatinhando. As organizações nacionais devem seguir o exemplo da Avaaz e tentar incorporar mais ciberativismo nas suas ações, pois já foi comprovado que isso funciona, realmente tem um impacto político, tem sucesso. Estou muito ansiosa para saber como isso vai se desenvolver em campanhas nacionais, com ONGs e movimentos nacionais.</p>
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		<title>Dia Mundial de Ação pelo Clima</title>
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		<pubDate>Fri, 16 Oct 2009 18:02:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ciberação]]></category>
		<category><![CDATA[Campanha TicTacTicTac]]></category>
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		<description><![CDATA[Se depender da Campanha TicTacTicTac, não é por falta de opção que você vai deixar de participar do Dia Mundial de Ação pelo Clima.  No site da campanha é possível encontrar onde acontecerão os eventos, criar um evento próprio e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Se depender da Campanha TicTacTicTac, não é por falta de opção que você vai deixar de participar do Dia Mundial de Ação pelo Clima.  No site da campanha é possível encontrar onde acontecerão os eventos, criar um evento próprio e participar de um abaixo-assinado que cobrará uma postura mais direta das autoridades mundiais na Coferência Global do Clima, que acontece em dezembro em Copenhague.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Visite o site para saber mais e participar.  Http://www.tictactictac.org.br/</div>
<p>Depois de promover a Hora de Acordar Global, em setembro, a campanha TicTacTicTac encabeça agora o Dia Mundial de Ação pelo Clima.  No site da campanha é possível encontrar onde acontecerão os eventos, criar um evento próprio e participar de um abaixo-assinado (já propagado durante a Hora de Acordar Global) que cobrará uma postura mais direta das autoridades mundiais na Conferência Global do Clima, que acontece em dezembro em Copenhague.</p>
<p><strong><a href="http://www.tictactictac.org.br/" target="_self">Visite o site</a> para saber mais e participar.</strong></p>
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		<title>Levante-se!</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Oct 2009 09:09:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Flavia Pardini</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_3121" class="wp-caption alignleft" style="width: 306px"><a rel="attachment wp-att-3121" href="http://pagina22.com.br/index.php/2009/10/levante-se/2900458677_3029d1e334_b/"><img class="size-medium wp-image-3121" title="Foto de agentdeclan" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2009/10/2900458677_3029d1e334_b-296x198.jpg" alt="Painel solar humano em Sydney -- Foto de agentdeclan" width="296" height="198" /></a><p class="wp-caption-text">Painel solar humano em Sydney -- Foto de agentdeclan</p></div>
<p>A internet é de todos. Foi o que percebeu o <a href="http://www.getup.org.au/" target="_blank">GetUp!</a>, grupo ativista australiano que desde 2005 usa a web para mobilizar cidadãos e “construir uma Austrália progressista”, depois que o <em>lobby </em>do carvão lançou <a href="http://www.cutemissionsnotjobs.com.au/" target="_blank">sua própria campanha online</a> sob o mote “cut emissions not jobs” (corte emissões, não empregos). Promovida pela Australian Coal Association, a campanha diz-se a favor de ações para mitigar as mudanças climáticas, mas defende que <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Carbon_Pollution_Reduction_Scheme" target="_blank">o sistema de </a><em><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Carbon_Pollution_Reduction_Scheme" target="_blank">cap-and-trade</a></em><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Carbon_Pollution_Reduction_Scheme" target="_blank"> proposto pelo governo</a> levará ao fechamento de 16 minas prematuramente e ao corte milhares de empregos. “Temos pouco tempo para consertar o esquema de negociação de emissões. Envie um email ao seu representante agora”, diz o website, que defende como solução <a href="http://pagina22.com.br/index.php/2009/10/na-captura/" target="_blank">a tecnologia de captura e sequestro de carbono</a>.</p>
<p>Em resposta, o GetUp! decidiu que é hora de colocar gente na rua para convencer, no corpo-a-corpo, políticos e cidadãos de que vale a pena investir na transição para uma economia de baixo carbono. Com o carvão movimentando grande parte da economia australiana e a proposta do governo para cortar emissões empacada no Parlamento, a briga promete ser quente. “Eles têm dinheiro, mas nós temos paixão”, disse Simon Sheikh, diretor nacional do GetUp! em palestra ontem em Perth sobre a campanha ReEnergise. O GetUp! depende de doações pela internet para manter-se e rodar suas campanhas.</p>
<p>A idéia é mobilizar voluntários para percorrer locais considerados importantes eleitoralmente e conversar com os cidadãos sobre as mudanças climáticas e uma nova economia baseada em energia limpa. Segundo Simon, as ONGs ambientalistas foram bem sucedidas em inserir a questão climática na mídia, agora é hora de discutir como solucioná-la “e convencer as massas de que a ação é possível”. A partir de pesquisas, o GetUp! decidiu que a melhor maneira de fazer isso é no boca-a-boca, pois os australianos tendem a desconfiar do governo e outras instituições, mas estão abertos a amigos, família, vizinhos. “Gente como eu e você”, disse.</p>
<p>É preciso ser inteligente com a linguagem usada, destacou Simon. A ReEnergise não fala em “green jobs” ou empregos verdes, pois tal expressão faz com que se pense em “plantar árvores”, mas em “clean energy jobs” ou empregos de energia limpa. A campanha não discute o esquema proposto pelo governo, mas a possibilidade de cortar emissões e criar empregos ao mesmo tempo. Isso ajuda as pessoas a saírem da “audácia da esperança para a certeza de que o futuro é brilhante porque é renovável”, garantiu Simon. Segundo ele, <a href="http://www.csiro.au/files/files/plej.pdf" target="_blank">estudos mostram</a> que é possível criar 2,7 milhões de empregos nos próximos 15 anos se a Austrália caminhar para uma economia mais limpa, de baixo carbono. “Uma turbina eólica tem milhares de peças que se movem”, disse. “Quem vai fabricá-las?”</p>
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		<title>Pela arte por toda parte</title>
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		<pubDate>Mon, 22 Dec 2008 15:06:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Assim que terminou de conceder esta entrevista, o historiador e professor Nicolau Sevcenko perguntou se tinha sido muito pessimista. Afinal, concluiu que em um momento de crises globais, como este, a arte mais que nunca é essencial para dar perspectivas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Assim que terminou de conceder esta entrevista, o historiador e professor Nicolau Sevcenko perguntou se tinha sido muito pessimista. Afinal, concluiu que em um momento de crises globais, como este, a arte mais que nunca é essencial para dar perspectivas de futuro &#8211; no entanto, jamais foi tão sufocada por um mercado dominado por concentrações de riqueza e poder. Junte-se a este quadro um esvaziamento da educação no País e uma participação popular que anda em descompasso com a dinâmica imposta por tecnólogos. Mas Sevcenko também deu pinceladas claras na tela sombria: propõe reformular currículos escolares, promover uma educação aberta para a comunidade, a cidade e as dimensões globais, empoderar as novas gerações para criar canais de comunicação mais arejados e estimular a mídia a divulgar variadas e descentralizadas manifestações de arte.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Amália Safatle<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O escritor e ensaísta austríaco Karl Krauss disse que a &#8220;arte é aquilo em que o mundo vai se transformar, não aquilo que o mundo é&#8221;.  O que a arte teria a dizer sobre o mundo que virá?  Que mundo é esse que a arte esboça?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Uma das dimensões da arte é projetar expectativas das pessoas como caixa de ressonância dos sonhos da coletividade, de todas as carências, tanto as do artista como as do público que vai buscar aquilo que falta em seu dia-a-dia, e cobrir as lacunas das relações com outros seres.  Há momentos em que a arte tem um papel importante a cumprir e espaço maior para operar, e outros em que recua.  Neste de crise, a arte seria mais importante do que nunca para dar possibilidade de operar nossas perspectivas de futuro.  No entanto, vivemos nas últimas três, quatro décadas, uma absorção castradora das artes pelo mercado.  A dinâmica da economia tornou-se preponderante sobre os fatores que deveriam ser críticos e desejantes da produção artística, hoje muito mais voltada para corresponder às demandas do mercado e se articular com modos de operação mercadológicos do que de preencher seu papel com autonomia e interlocução crítica com a realidade.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O Renascimento se deu a partir de um momento de &#8220;escuridão&#8221;.  Hoje, com as crises globais, não devíamos estar em um processo de renascimento também?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O Renascimento é a gênese da identidade da arte na sociedade ocidental moderna, mas tinha um drama, que era a dependência do mecenato e que tornava a arte socialmente marcada e articulada com as camadas dominantes, como o Estado centralizado em formação e a Igreja, que ainda exercia papel decisivo na política européia.  Isso até pelo menos o Romantismo, quando os artistas começam a tirá-la desse estado de dependência.  O que era muito difícil, pois a produção artística sempre foi muito cara.  A única forma de o artista tentar se desprender de focos de poder seria, como tentaram os românticos, criar um público consumidor de arte que desse possibilidade de interlocução direta com a coletividade, o que de certa maneira foi possível, mas ainda era voltada para um público de elite.  Foi só no começo do século XX que a erupção da arte moderna permitiu a grupos de artistas abrir mão de processos custosos, materiais nobres e criar um tipo de expressão artística que pudesse se valer de todo e qualquer elemento do cotidiano &#8211; objetos catados nas ruas, embalagens.  Assim também tiraram a arte da academia e dos museus e a trouxeram para as ruas, para o espaço público, para a interação com as pessoas no seu dia-a-dia.  Aí que os artistas ganharam a possibilidade de propor suas próprias agendas e ter participação mais significativa no debate cultural que visava uma transformação da sociedade.  Isso teve altos e baixos.  No período entreguerras, há uma expansão da arte de massas dominada pelo Estado ou pelos partidos.  Depois da guerra, há um período de grande autonomia e experimentação.  Mas, a partir do final dos anos 70, acontece uma captação quase irreversível nas cadeias do mercado, e hoje a arte tem a maior dificuldade de se desligar desse jogo em que é sufocada, justamente neste momento de crise profunda.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Há manifestações artísticas que conseguem manter-se autônomas, ou este é um fenômeno marginal demais?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">É objeto de debate artístico e estético como conseguir uma arte socialmente significativa sem ser cooptada por partidos políticos, Estado, instituições, corporações ou o próprio mercado de arte.  A produção artística realmente significativa é de quem tenta escapar dessas formas de enredamento e embotamento.  Para citar um exemplo, o grupo inglês Regain the Streets, ou Retomar as Ruas, que nasceu no começo dos anos 80, é um coletivo de natureza ambiental e política urbana.  Tem como objetivo recuperar as cidades devoradas pela ocupação do automóvel, que acuou as pessoas para dentro de suas casas e esgarçou a experiência do convívio na cidade, que é, provavelmente, a mais rica forma de interação da sociedade ocidental.  Durante muito tempo, todas as experiências fundamentais, como a construção da democracia, das formas de política representativa, das lutas por direitos trabalhistas, foram forjadas nos grandes aglomerados urbanos, a cidade foi de fato o palco das instituições da democracia moderna e de consolidação da vida coletiva.  O Regain the Streets trabalha para a valorização e ampliação do espaço público, praças, parques.  É uma agenda social, mas a maneira de executá-la é pela arte e para a arte, com jogos de rua, construção de esculturas coletivas, teatro de rua, decoração de árvores.  Isso para mostrar que o espaço público pertence à população e a mais ninguém, noção que foicorroída e chega a corromper a própria idéia de democracia.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O que o senhor pensa do convívio social cibernético, com a construção de redes de relacionamento e compartilhamento e o ciberativismo?  E quanto às manifestações artísticas que podem se dar de forma barata e acessível por meio do computador?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">As tecnologias não são boas ou más por si mesmas, importa é o uso que se faz delas.  Os recursos cibernéticos são um caminho para integração em escalas nunca pensadas, que compartilham interesses, pontos de vistas, agendas de implementação de reformas sociais, e constituem ferramentas políticas da maior importância para uma democracia expandida, em escala global.  Mas é uma área fortemente afetada pela publicidade, com uma agressividade também nunca vista antes e, além disso, tem uma limitação de profundidade e ação: é mais fácil ter ações propositivas e mecanismos de articulação, mas sem necessariamente conduzir a processos de reflexão de maior fôlego.  A rede não é um lugar bom para se ler teoria.  Ela pode estimulá-lo, mas você terá de se desligar dela para essa atividade.  Se você se vicia na rede, dificilmente se dedicará a um estudo mais profundo e sistemático de grandes questões da humanidade.  É preciso ter uma ligação criteriosa com esses recursos, porque eles têm a capacidade sufocante de absorver todo o seu tempo livre.  Outro problema é o esvaziamento do tempo e do espaço.  A rede é uma espécie de grande presente homogêneo, contínuo e desprendido de qualquer conotação local.  O grande fenômeno dessa rede de comunicação integrada é permitir, por exemplo, que o globo inteiro assista à Copa do Mundo em tempo real, sem pagar ingresso.  É fantástico, mas o preço é que cada vez mais se perde a noção de quanto é fundamental para cada pessoa ter um enraizamento no próprio tempo e espaço, com seu modo de vida, sua maneira de ser, a própria história, a da comunidade, o seu quadro de valores culturais.  A tendência pela rede é que você perca tudo isso numa grande abstração geral muito marcada pelo entretenimento, uma espécie de disneyficação em escala global.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Que questão no Brasil o senhor elegeria como fundamental para ser equacionada e redesenhada?  O resgate da dívida social?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Sem dúvida é a pauta social.  Saímos de um regime opressivo militar para cair nesse regime opressivo neoliberal, praticamente sem ter tido espaço para respirar e pensar em como construir uma democracia.  Espero que, com a crise financeira, tenhamos a chance de fazer um recuo e retomar a vocação do nosso brilhante pensamento crítico.  Entre as áreas que foram marginalizadas nesse processo neoconservador, uma das funções de Estado esvaziadas foi a da educação.  A educação sempre teve papel central na agenda da mudança e na pauta dos direitos sociais e a redistribuição da riqueza.  Ao lado da ética e da ecologia, é um dos três grandes pilares dos grupos que mantiveram uma pauta reivindicatória no período neoliberal.  Mais que nunca, esses pilares vão se tornar centrais no debate que se compuser após a turvação que a atual crise trouxe ao cenário.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O senhor uma vez escreveu que estaríamos no loop da montanha-russa, que pode ser considerado &#8220;a síncope final e definitiva, o clímax da aceleração precipitada, sob cuja intensidade extrema relaxamos nosso impulso de reagir, entregando os pontos, entorpecidos, aceitando resignadamente ser conduzidos até o fim pelo maquinismo titânico&#8221;.  O que o senhor quis dizer com isso?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Esse trecho foi extraído de um livro que fiz no final dos anos 90, A Corrida para o Século XXI &#8211; No loop da montanha-russa.  A idéia que quis reforçar é que ao longo do século XX houve um processo de aceleração tecnológica que ganhou uma dinâmica própria, de modo que os seres humanos não têm mais condições de se manter atualizados com esse moto-contínuo.  A tecnologia está sempre na frente, você tenta ir atrás e compreender o que se passa, mas está sempre atrasado em relação a ela.  Quem pauta sua vida são os tecnólogos e, como você não tem a mesma compreensão e velocidade de entendimento, está sempre em um processo de perda.  Então, a democracia torna-se obsoleta em relação à dinâmica da tecnologia, da engenharia, da cibernética.  Esse descompasso colocou a democracia em uma situação subalterna e incompetente para lidar com o processo em curso.  Daí o título do livro, a gente vive uma situação de vertigem, como a de montanha-russa, de perda do controle do mundo ao redor.  Hoje a nossa pauta política está perdida em algum ponto dos anos 1970 e não tem mais contato com o que estamos vivendo na primeira década do século XXI.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">E a saída qual é?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Primeiro, dar-se conta de que esse descompasso existe e se expande, e que a gente precisa abrir canais, criar nexos, recompor o processo de educação, reformular os currículos escolares, reformular a maneira como as crianças são educadas, para não restringir o ensino à sala de aula.  A educação tem de ser aberta para a cidade, para a comunidade e para as dimensões globais.  As nossas pautas educacionais nas escolas primária, secundária e superior são praticamente as do início do século XX.  Algumas do final do século XIX!  É preciso que novas gerações, mais afinadas com essas tecnologias, fiquem mais presentes nos conjuntos decisórios e tornem esses canais mais comunicantes e arejados.  É uma pauta de média e longa duração, mas, quanto mais rápido for percebida e maior for o alarme de que a situação favorece monopólios de informação, privilégios e concentração de renda, mais é possível reformular o quadro.  Nesse sentido, o papel da imprensa e de uma revista como Página 22 é evidente, para trazer esse debate ao espaço público.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A produção de conteúdo de forma descentralizada, compartilhada e interativa, que a tecnologia também permite, seria um caminho para essa democratização, que antes teria de vencer a exclusão digital?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">É de esperar que o acesso à internet também se democratize.  Um dos elementos da nossa agenda social é o acesso à rede, que pode criar canais paralelos que compensem a maneira como a grande mídia centraliza e monopoliza determinados temas e contextos.  A arte, por exemplo, vive em um círculo fechado, que diz respeito aos vínculos dos artistas com galerias, curadorias, museus, setores da crítica e processos de merchandising que ganham ressonância pela mídia, que projetam certos artistas, estilos, obras, enquanto ignoram outros grupos, manifestações, entidades e linguagens.  A rede pode trazer essa informação paralela e dar a ela uma visibilidade até capaz de competir com o grande circuito artístico, mas que nunca vai abalá-lo.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Como o artista que não se vincula ao mercado pode sobreviver?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Quando o artista se conecta ao mercado de arte, ele se descaracteriza instantaneamente.  Quer ver o lado oposto disso?  No final dos anos 90, eu tinha um compromisso acadêmico na Universidade de Nova York e aproveitei para ver o que havia nas exposições pela cidade.  Estava meio entediado, porque tudo é &#8220;a maior exposição de Picasso&#8221;, &#8220;os Matisse que nunca foram a público&#8221;, aquele repertório pisado e repisado, mas escalonado em uma dimensão mega, em um museu mega, em um prédio mega e com uma megalojinha na saída.  E fui ao Whitney Museum, onde tinha a exposição de dois fotógrafos de grande reputação.  Quando entrei no prédio, aparecia no diretório uma sala chamada Inferior.  Era de fato muito pequena, no porão, onde ficava a reserva técnica.  Nem constava na Time Out, mas lá tinha uma exposição de papel produzido de legumes e hortaliças feita pelo John Cage e seu parceiro amoroso, Merce Cunningham.  Pacientemente, produziram um papel de textura rugosa, cheia de interferências, com enorme requinte.  E era um papel comestível, desenhavam com tinta também comestível e a pessoa provava.  Se eles fizessem uma pintura nesse papel, congelassem e dessem para um museu ou galeria, ganhariam centenas de milhares de dólares.  Mas a idéia era: desenhavam e serviam para quem comesse na hora, de forma que não ficasse rastro algum, a obra tinha de ser inteiramente digerida.  O empenho de artistas como eles, que já têm um nome e não precisam correr atrás da grana, foi de não deixar o mercado os capturar!  Foi a coisa mais impressionante que vi em Nova York naquela temporada, e não tinha destaque nenhum na imprensa.  Então, qual é o sentido da arte?  Essa delicadeza.  A fragilidade daquela coisa quase oriental &#8211; a base é o papel de arroz, com uma pintura caligráfica &#8211; foi usada como um aríete para detonar o mercado e mostrar o quanto a arte virou uma massa de mistificação, transformada e especulada como mera commodity.  Um mercado igualzinho ao Nasdaq.</div>
<div><a rel="attachment wp-att-4558" href="http://pagina22.com.br/index.php/2008/12/pela-arte-por-toda-parte/entrevista_nicolausevcenko/"><img class="alignleft size-medium wp-image-4558" title="entrevista_nicolausevcenko" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2008/12/entrevista_nicolausevcenko-262x198.jpg" alt="entrevista_nicolausevcenko" width="262" height="198" /></a>Assim que terminou de conceder esta entrevista, o historiador e professor Nicolau Sevcenko perguntou se tinha sido muito pessimista. Afinal, concluiu que em um momento de crises globais, como este, a arte mais que nunca é essencial para dar perspectivas de futuro &#8211; no entanto, jamais foi tão sufocada por um mercado dominado por concentrações de riqueza e poder. Junte-se a este quadro um esvaziamento da educação no País e uma participação popular que anda em descompasso com a dinâmica imposta por tecnólogos. Mas Sevcenko também deu pinceladas claras na tela sombria: propõe reformular currículos escolares, promover uma educação aberta para a comunidade, a cidade e as dimensões globais, empoderar as novas gerações para criar canais de comunicação mais arejados e estimular a mídia a divulgar variadas e descentralizadas manifestações de arte.</div>
<div></div>
<div><strong>O escritor e ensaísta austríaco Karl Krauss disse que a &#8220;arte é aquilo em que o mundo vai se transformar, não aquilo que o mundo é&#8221;.  O que a arte teria a dizer sobre o mundo que virá?  Que mundo é esse que a arte esboça?</strong></div>
<div>Uma das dimensões da arte é projetar expectativas das pessoas como caixa de ressonância dos sonhos da coletividade, de todas as carências, tanto as do artista como as do público que vai buscar aquilo que falta em seu dia-a-dia, e cobrir as lacunas das relações com outros seres.  Há momentos em que a arte tem um papel importante a cumprir e espaço maior para operar, e outros em que recua.  Neste de crise, a arte seria mais importante do que nunca para dar possibilidade de operar nossas perspectivas de futuro.  No entanto, vivemos nas últimas três, quatro décadas, uma absorção castradora das artes pelo mercado.  A dinâmica da economia tornou-se preponderante sobre os fatores que deveriam ser críticos e desejantes da produção artística, hoje muito mais voltada para corresponder às demandas do mercado e se articular com modos de operação mercadológicos do que de preencher seu papel com autonomia e interlocução crítica com a realidade.</div>
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<div><strong>O Renascimento se deu a partir de um momento de &#8220;escuridão&#8221;.  Hoje, com as crises globais, não devíamos estar em um processo de renascimento também?</strong></div>
<div>O Renascimento é a gênese da identidade da arte na sociedade ocidental moderna, mas tinha um drama, que era a dependência do mecenato e que tornava a arte socialmente marcada e articulada com as camadas dominantes, como o Estado centralizado em formação e a Igreja, que ainda exercia papel decisivo na política européia.  Isso até pelo menos o Romantismo, quando os artistas começam a tirá-la desse estado de dependência.  O que era muito difícil, pois a produção artística sempre foi muito cara.  A única forma de o artista tentar se desprender de focos de poder seria, como tentaram os românticos, criar um público consumidor de arte que desse possibilidade de interlocução direta com a coletividade, o que de certa maneira foi possível, mas ainda era voltada para um público de elite.  Foi só no começo do século XX que a erupção da arte moderna permitiu a grupos de artistas abrir mão de processos custosos, materiais nobres e criar um tipo de expressão artística que pudesse se valer de todo e qualquer elemento do cotidiano &#8211; objetos catados nas ruas, embalagens.  Assim também tiraram a arte da academia e dos museus e a trouxeram para as ruas, para o espaço público, para a interação com as pessoas no seu dia-a-dia.  Aí que os artistas ganharam a possibilidade de propor suas próprias agendas e ter participação mais significativa no debate cultural que visava uma transformação da sociedade.  Isso teve altos e baixos.  No período entreguerras, há uma expansão da arte de massas dominada pelo Estado ou pelos partidos.  Depois da guerra, há um período de grande autonomia e experimentação.  Mas, a partir do final dos anos 70, acontece uma captação quase irreversível nas cadeias do mercado, e hoje a arte tem a maior dificuldade de se desligar desse jogo em que é sufocada, justamente neste momento de crise profunda.</div>
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<div><strong>Há manifestações artísticas que conseguem manter-se autônomas, ou este é um fenômeno marginal demais?</strong></div>
<div>É objeto de debate artístico e estético como conseguir uma arte socialmente significativa sem ser cooptada por partidos políticos, Estado, instituições, corporações ou o próprio mercado de arte.  A produção artística realmente significativa é de quem tenta escapar dessas formas de enredamento e embotamento.  Para citar um exemplo, o grupo inglês Regain the Streets, ou Retomar as Ruas, que nasceu no começo dos anos 80, é um coletivo de natureza ambiental e política urbana.  Tem como objetivo recuperar as cidades devoradas pela ocupação do automóvel, que acuou as pessoas para dentro de suas casas e esgarçou a experiência do convívio na cidade, que é, provavelmente, a mais rica forma de interação da sociedade ocidental.  Durante muito tempo, todas as experiências fundamentais, como a construção da democracia, das formas de política representativa, das lutas por direitos trabalhistas, foram forjadas nos grandes aglomerados urbanos, a cidade foi de fato o palco das instituições da democracia moderna e de consolidação da vida coletiva.  O Regain the Streets trabalha para a valorização e ampliação do espaço público, praças, parques.  É uma agenda social, mas a maneira de executá-la é pela arte e para a arte, com jogos de rua, construção de esculturas coletivas, teatro de rua, decoração de árvores.  Isso para mostrar que o espaço público pertence à população e a mais ninguém, noção que foicorroída e chega a corromper a própria idéia de democracia.</div>
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<div><strong>O que o senhor pensa do convívio social cibernético, com a construção de redes de relacionamento e compartilhamento e o ciberativismo?  E quanto às manifestações artísticas que podem se dar de forma barata e acessível por meio do computador?</strong></div>
<div>As tecnologias não são boas ou más por si mesmas, importa é o uso que se faz delas.  Os recursos cibernéticos são um caminho para integração em escalas nunca pensadas, que compartilham interesses, pontos de vistas, agendas de implementação de reformas sociais, e constituem ferramentas políticas da maior importância para uma democracia expandida, em escala global.  Mas é uma área fortemente afetada pela publicidade, com uma agressividade também nunca vista antes e, além disso, tem uma limitação de profundidade e ação: é mais fácil ter ações propositivas e mecanismos de articulação, mas sem necessariamente conduzir a processos de reflexão de maior fôlego.  A rede não é um lugar bom para se ler teoria.  Ela pode estimulá-lo, mas você terá de se desligar dela para essa atividade.  Se você se vicia na rede, dificilmente se dedicará a um estudo mais profundo e sistemático de grandes questões da humanidade.  É preciso ter uma ligação criteriosa com esses recursos, porque eles têm a capacidade sufocante de absorver todo o seu tempo livre.  Outro problema é o esvaziamento do tempo e do espaço.  A rede é uma espécie de grande presente homogêneo, contínuo e desprendido de qualquer conotação local.  O grande fenômeno dessa rede de comunicação integrada é permitir, por exemplo, que o globo inteiro assista à Copa do Mundo em tempo real, sem pagar ingresso.  É fantástico, mas o preço é que cada vez mais se perde a noção de quanto é fundamental para cada pessoa ter um enraizamento no próprio tempo e espaço, com seu modo de vida, sua maneira de ser, a própria história, a da comunidade, o seu quadro de valores culturais.  A tendência pela rede é que você perca tudo isso numa grande abstração geral muito marcada pelo entretenimento, uma espécie de disneyficação em escala global.</div>
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<div><strong>Que questão no Brasil o senhor elegeria como fundamental para ser equacionada e redesenhada?  O resgate da dívida social?</strong></div>
<div>Sem dúvida é a pauta social.  Saímos de um regime opressivo militar para cair nesse regime opressivo neoliberal, praticamente sem ter tido espaço para respirar e pensar em como construir uma democracia.  Espero que, com a crise financeira, tenhamos a chance de fazer um recuo e retomar a vocação do nosso brilhante pensamento crítico.  Entre as áreas que foram marginalizadas nesse processo neoconservador, uma das funções de Estado esvaziadas foi a da educação.  A educação sempre teve papel central na agenda da mudança e na pauta dos direitos sociais e a redistribuição da riqueza.  Ao lado da ética e da ecologia, é um dos três grandes pilares dos grupos que mantiveram uma pauta reivindicatória no período neoliberal.  Mais que nunca, esses pilares vão se tornar centrais no debate que se compuser após a turvação que a atual crise trouxe ao cenário.</div>
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<div><strong>O senhor uma vez escreveu que estaríamos no loop da montanha-russa, que pode ser considerado &#8220;a síncope final e definitiva, o clímax da aceleração precipitada, sob cuja intensidade extrema relaxamos nosso impulso de reagir, entregando os pontos, entorpecidos, aceitando resignadamente ser conduzidos até o fim pelo maquinismo titânico&#8221;.  O que o senhor quis dizer com isso?</strong></div>
<div>Esse trecho foi extraído de um livro que fiz no final dos anos 90, A Corrida para o Século XXI &#8211; No loop da montanha-russa.  A idéia que quis reforçar é que ao longo do século XX houve um processo de aceleração tecnológica que ganhou uma dinâmica própria, de modo que os seres humanos não têm mais condições de se manter atualizados com esse moto-contínuo.  A tecnologia está sempre na frente, você tenta ir atrás e compreender o que se passa, mas está sempre atrasado em relação a ela.  Quem pauta sua vida são os tecnólogos e, como você não tem a mesma compreensão e velocidade de entendimento, está sempre em um processo de perda.  Então, a democracia torna-se obsoleta em relação à dinâmica da tecnologia, da engenharia, da cibernética.  Esse descompasso colocou a democracia em uma situação subalterna e incompetente para lidar com o processo em curso.  Daí o título do livro, a gente vive uma situação de vertigem, como a de montanha-russa, de perda do controle do mundo ao redor.  Hoje a nossa pauta política está perdida em algum ponto dos anos 1970 e não tem mais contato com o que estamos vivendo na primeira década do século XXI.</div>
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<div><strong>E a saída qual é?</strong></div>
<div>Primeiro, dar-se conta de que esse descompasso existe e se expande, e que a gente precisa abrir canais, criar nexos, recompor o processo de educação, reformular os currículos escolares, reformular a maneira como as crianças são educadas, para não restringir o ensino à sala de aula.  A educação tem de ser aberta para a cidade, para a comunidade e para as dimensões globais.  As nossas pautas educacionais nas escolas primária, secundária e superior são praticamente as do início do século XX.  Algumas do final do século XIX!  É preciso que novas gerações, mais afinadas com essas tecnologias, fiquem mais presentes nos conjuntos decisórios e tornem esses canais mais comunicantes e arejados.  É uma pauta de média e longa duração, mas, quanto mais rápido for percebida e maior for o alarme de que a situação favorece monopólios de informação, privilégios e concentração de renda, mais é possível reformular o quadro.  Nesse sentido, o papel da imprensa e de uma revista como Página 22 é evidente, para trazer esse debate ao espaço público.</div>
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<div><strong>A produção de conteúdo de forma descentralizada, compartilhada e interativa, que a tecnologia também permite, seria um caminho para essa democratização, que antes teria de vencer a exclusão digital?</strong></div>
<div>É de esperar que o acesso à internet também se democratize.  Um dos elementos da nossa agenda social é o acesso à rede, que pode criar canais paralelos que compensem a maneira como a grande mídia centraliza e monopoliza determinados temas e contextos.  A arte, por exemplo, vive em um círculo fechado, que diz respeito aos vínculos dos artistas com galerias, curadorias, museus, setores da crítica e processos de merchandising que ganham ressonância pela mídia, que projetam certos artistas, estilos, obras, enquanto ignoram outros grupos, manifestações, entidades e linguagens.  A rede pode trazer essa informação paralela e dar a ela uma visibilidade até capaz de competir com o grande circuito artístico, mas que nunca vai abalá-lo.</div>
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<div><strong>Como o artista que não se vincula ao mercado pode sobreviver?</strong></div>
<div>Quando o artista se conecta ao mercado de arte, ele se descaracteriza instantaneamente.  Quer ver o lado oposto disso?  No final dos anos 90, eu tinha um compromisso acadêmico na Universidade de Nova York e aproveitei para ver o que havia nas exposições pela cidade.  Estava meio entediado, porque tudo é &#8220;a maior exposição de Picasso&#8221;, &#8220;os Matisse que nunca foram a público&#8221;, aquele repertório pisado e repisado, mas escalonado em uma dimensão mega, em um museu mega, em um prédio mega e com uma megalojinha na saída.  E fui ao Whitney Museum, onde tinha a exposição de dois fotógrafos de grande reputação.  Quando entrei no prédio, aparecia no diretório uma sala chamada Inferior.  Era de fato muito pequena, no porão, onde ficava a reserva técnica.  Nem constava na Time Out, mas lá tinha uma exposição de papel produzido de legumes e hortaliças feita pelo John Cage e seu parceiro amoroso, Merce Cunningham.  Pacientemente, produziram um papel de textura rugosa, cheia de interferências, com enorme requinte.  E era um papel comestível, desenhavam com tinta também comestível e a pessoa provava.  Se eles fizessem uma pintura nesse papel, congelassem e dessem para um museu ou galeria, ganhariam centenas de milhares de dólares.  Mas a idéia era: desenhavam e serviam para quem comesse na hora, de forma que não ficasse rastro algum, a obra tinha de ser inteiramente digerida.  O empenho de artistas como eles, que já têm um nome e não precisam correr atrás da grana, foi de não deixar o mercado os capturar!  Foi a coisa mais impressionante que vi em Nova York naquela temporada, e não tinha destaque nenhum na imprensa.  Então, qual é o sentido da arte?  Essa delicadeza.  A fragilidade daquela coisa quase oriental &#8211; a base é o papel de arroz, com uma pintura caligráfica &#8211; foi usada como um aríete para detonar o mercado e mostrar o quanto a arte virou uma massa de mistificação, transformada e especulada como mera commodity.  Um mercado igualzinho ao Nasdaq.</div>
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		<title>O byte nosso de cada dia</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Jun 2008 20:32:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Fruto da contracultura, a internet renovou o sentido de democracia, cidadania e mobilização. Mas sob o peso da marginalidade digital, a rede prova que não é panacéia. Será o que fizermos dela
Por Carolina Derivi 
Em fevereiro passado, mais de 500 [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Fruto da contracultura, a internet renovou o sentido de democracia, cidadania e mobilização. Mas sob o peso da marginalidade digital, a rede prova que não é panacéia. Será o que fizermos dela</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Carolina Derivi<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Em fevereiro passado, mais de 500 mil cidadãos colombianos se reuniram em Bogotá na maior marcha da história do país contra a violência das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc.  Outros milhares protestaram em diversas áreas do país e em outras 100 cidades mundo afora.  Dois anos antes, o chefe de milícia congolês, Thomas Lubanga Dyilo, tornara-se o primeiro prisioneiro da Corte Internacional de Justiça, acusado de recrutar crianças como soldados.  E, em outubro de 2007, o Conselho de Segurança da ONU condenou a repressão violenta do regime militar de Mianmar contra protestos pacíficos de monges budistas, a primeira manifestação formal do órgão sobre o conflito.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">São fatos de uma conturbada geopolítica pós-moderna, amplamente conhecidos e aparentemente desconexos. Mas, na raiz desses acontecimentos, há algo em comum que diz muito sobre as novas formas de mobilização social na chamada “era da informação”: todos foram desencadeados por meio da internet.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Na Colômbia, tudo começou com o engenheiro Oscar Morales, que fundou um grupo de discussão sobre as Farc no site de relacionamentos Facebook, o mais popular da rede mundial.  Em menos de um Unimês, 250 mil usuários se inscreveram para apoiar a causa e passaram a trocar informações que resultaram na articulação dos protestos.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Tanto a prisão de Lubanga quanto a mudança de postura da ONU em relação a Mianmar tiveram como fator decisivo a produção de vídeos para a internet com flagrantes dos crimes cometidos contra a população local.  As filmagens foram publicadas no site The Hub, uma plataforma on-line para registro audiovisual de violações dos direitos humanos criada pela ONG Witness, organização que há 15 anos atua como facilitadora do uso de novas tecnologias no combate a crimes contra a humanidade.  Uma vez na rede, os vídeos se difundiram como rastilho de pólvora, criando um escândalo internacional.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Talvez o aspecto mais imediato que se pode depreender com base nesses casos é a capacidade da internet de documentar situações que os veículos de comunicação tradicionais muitas vezes não alcançam, seja devido a restrições à liberdade de imprensa, seja por questões meramente logísticas.  Em 2005, em meio à tragédia provocada pelo furacão Katrina, o jornal Times-Picayune, de Nova Orleans, ficou impossibilitado de funcionar devido à completa destruição das máquinas rotativas.  Os repórteres, então, transformaram o site do jornal em um blog.  Em 2006, a cobertura em tempo real lhes valeu dois prêmios Pulitzer, pela primeira vez concedidos ao jornalismo on-line.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Ciberativismo</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Os fenômenos sociais suscitados pela internet, entretanto, vão muito além das questões pertinentes à imprensa.  As novas possibilidades para a construção do conhecimento, e para as relações entre pessoas e comunidades, alteraram o modus operandi dos movimentos sociais, tornando-o nitidamente diverso do tipo de ativismo que prevaleceu no mundo bipolarizado entre comunismo e capitalismo.  “É próprio do século 20 a figura do grande intelectual que deve levar a sua idéia salvadora às massas”, explica Simone Andrade Pereira de Sá, doutora em comunicação e diretora da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber). “Definitivamente acho que a gente não perdeu nada.  As lideranças hoje são pulverizadas.  O ativismo contemporâneo é a atividade de criar pontes.  O agir político está ligado à possibilidade da diversidade.”</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Depois de um século tão marcado pela disputa entre dois modelos civilizatórios e pelo papel preponderante dos movimentos de juventude, como o que deu origem ao Maio de 1968, é fácil cair na presunção de que as novas gerações são formadas por “órfãos de causa”.  Aparentemente é essa a premissa de uma reportagem da revista Newsweek, publicada em 2007, sobre a crescente agitação dos campi nos Estados Unidos em torno do tema do aquecimento global.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A campanha Step it Up, criada com a ambiciosa missão de persuadir o governo americano a criar regras para reduzir as emissões de carbono, já reúne mais de mil entidades estudantis universitárias, cujas ações se concentram na web.  A reportagem compara o fenômeno a movimentos que mudaram a história americana, como a luta pelos direitos civis ou contra a Guerra do Vietnã.  E lança a pergunta: “Será esse o próximo grande movimento de juventude?”</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Certo é que, armados de novas tecnologias como YouTube, blogs e podcasts, os jovens ativistas de hoje têm larga vantagem sobre os hippies de outrora.  Mas isso não se deve apenas à interatividade facilitada e ao novo alcance de disseminação e visibilidade online. Inspirados pela própria internet, os movimentos sociais passaram a apostar em sistemas de gestão mais cooperativos e horizontalizados, que traduzem na vida real uma cultura de rede.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">“Redes sempre existiram, mas com a popularização da internet produziu-se um boom de redes sociais no Brasil e no mundo.  Para além do aspecto instrumental, a internet foicapaz de ilustrar esse modelo para as pessoas, se é que elas não conseguiam ver isso em outras instâncias da realidade”, diz Cássio Martinho, autor do livro Redes – Uma Introdução às Dinâmicas da Conectividade e da Auto-organização, e um dos maiores especialistas brasileiros nesse conceito.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Segundo Martinho, as redes sociais são sistemas de associação cooperativa, cujo intuito é a troca de informações e experiências e o estabelecimento de parcerias, pautados por uma lógica não hierárquica.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">No Brasil, a idéia se difundiu no terceiro setor a partir da Conferência Eco-92, sob influência de outros movimentos internacionais reunidos na ocasião.A Rede Brasileira de Educação Ambiental (Rebea) foi pioneira ao estabelecer um projeto de alcance nacional já em 1992.  “Naquela época, marcávamos reuniões por cartas e telefonemas.  Era difícil, mas não impossível”, conta Jacqueline Guerreiro, uma das fundadoras da Rebea.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Segundo Jacqueline, a criação da Rebea influenciou o amadurecimento de referências para a educadores ambientais no Brasil, como a idéia de que sociedade e ambientes urbanos são indissociáveis dos ambientes naturais e de que a atuação deve ser interdisciplinar.Como principal conquista ela aponta o empoderamento dos membros para a participação em políticas públicas.  Em 2003, o Programa Nacional de Educação Ambiental (Pronea), um projeto conjunto dos Ministério do Meio Ambiente e da Educação, foi gestado pelos membros da rede.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">&#8220;Hoje é difícil encontrar fóruns oficiais em que os &#8216;rebeanos&#8217; não tenham assento cativo&#8221;, diz Jacqueline. No mesmo ano, quando o então ministro da educação Cristovam Buarque decidiu extinguir a Coordenadoria de Educação Ambiental do ministério, a reação da Rebea foi provocar uma avalanche de e-mails em protesto.  Tanto fizeram que Buarque voltou atrás.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">“Na hora em que você está num coletivo, a agenda de interesse social é muito mais ampla.  As causas se potencializam, a sociedade ganha com isso e atribui mais legitimidade aos seus interlocutores”, considera Cinthia Sento Sé, coordenadora de articulação do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife).</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Entre as dificuldades apontadas pelos especialistas está a manutenção da horizontalidade.  “É da nossa cultura política achar que ordem é sinônimo de hierarquia”, aponta Martinho.  Segundo ele, muitas iniciativas em rede descambam para o controle centralizado de uma entidade ou indivíduo e acabam se descaracterizando.  Na outra ponta, estão os entraves práticos do excesso de democracia.  “Como todo mundo tem que ser ouvido para tudo, o maior problema é fazer com que a rede não seja tão lenta que ela não possa acontecer.  Por outro lado, a rede é um organismo vivo e o processo de construção dos consensos é muito fértil de idéias”, conta Cinthia.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Exclusão e contracultura</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Se por um lado a internet possibilitou experiências sociais baseadas em valores da sustentabilidade, por outro, nasceu para ser um novo indicador da desigualdade no mundo.  No artigo “Access denied – marginalização na era da informação”, o sociólogo Christian German afirma que “a quinta parte mais pobre dos Information Poor conta com meros 0,2% das conexões à internet, enquanto a quinta parte mais rica dos Information Rich chega a abocanhar mais de 93%.  No máximo, 3% da população mundial dispõe atualmente de uma conexão à internet”.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">No Brasil, apenas 17% da população possuiconexão domiciliar e 59% jamais utilizaram a rede.  Matthew Shirts, curador do projeto Planeta Sustentável, da Editora Abril, exemplifica bem a relatividade do alcance da internet no País.  O projeto lançou, primeiramente no portal de mesmo nome, o Manual de Etiqueta Sustentável, um guia com 50 dicas para a responsabilidade socioambiental cotidiana.  “Mas foi só quando produzimos 2,5 milhões de encartes e distribuímos junto com as revistas da editora que percebemos uma resposta realmente poderosa por parte do público&#8221;, diz Shirts.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Para Alice Gismonti, coordenadora da Rede Jovem, projeto de inclusão digital da ONG Comunitas, a lógica é perversa: “Quem não tem acesso a esse instrumento é justamente quem mais precisa das oportunidades difundidas na web.  Informação no Brasil é TV aberta, a que todo mundo tem acesso, mas mantém as pessoas limitadas a um ponto de vista que é quase uma ditadura”.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">É importante perceber, entretanto, que a exclusão digital não se limita à questão do acesso à pluralidade de informações, mas também impõe a marginalidade de produção e vivência culturais.  É o que o mundo acadêmico passou a chamar de “cibercultura”.  Depois de montada a estrutura das relações estabelecidas em rede, criam-se linguagens, signos, fenômenos e normas próprias do meio virtual.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A ética da informação livre, limitada pelo respeito aos direitos intelectuais é uma dessas marcas.  Para notá-la, basta tomar como exemplo os softwares livres ou o movimento copyleft.  Parte desse caldo cultural se presta também a reproduzir experiências de cidadania que já parecem enfraquecidas nos meios tradicionais. O exemplo mais elementar é a ampla difusão dos fóruns, espaços de debate que ocupam hoje o papel que já foi das “ágoras” em espaços públicos.  Mas a vivência da “cibercidadania” pode chegar a quadrantes quase inimagináveis, como as “cibernações”.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Palestinos e expatriados da antiga Iugoslávia, por exemplo, recriaram na internet um ambiente capaz de fortalecer os laços de fraternidade e nação, com base na metáfora da cidadania perdida.  A Ciber Yugoslavia, fundada em 1999, tem Constituição, ministérios, passaportes e mais de 16 mil ciberiugoslavos inscritos. Dizem os fundadores: “Quando atingirmos 5 milhões de cidadãos, planejamos requerer o reconhecimento da ONU com status de membro.  Quando isso acontecer, reivindicaremos 20 metros quadrados de terra em qualquer parte do planeta e nesse território manteremos o nosso servidor”.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A idéia pode soar um tanto amalucada, mas é bom saber que experiências como as nações virtuais estão superalinhadas com os valores que, lá nos primórdios, fizeram da internet o que ela é hoje.  É o que explica Simone, da ABCiber: “A rede nasceu por uma necessidade da inteligência militar americana, no contexto da Guerra Fria.  Mas a sua democratização, a partir dos anos 70, é obra da intelectualidade do Vale do Silício. Uma geração de cientistas ligados à contracultura, que contestavam modelos hegemônicos de civilização e que enxergavam na rede a possibilidade de articulação da informação para novos modelos”.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">É claro que a internet, por si só, não garante nenhuma transformação social.  Em A Sociedade em Rede, a mais célebre obra sobre a era da informação, Manuel Castells escreve: “A sociedade informacional, em sua manifestação global, é também o mundo de Aum Shinrikyo (seita Verdade Suprema), da milícia americana, das ambições teocráticas islâmicas/cristãs e do genocídio recíproco de hutus e tutsis”.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">“Seria determinismo tecnológico imaginar a cibercultura como um mundo à parte, uma ferramenta capaz de mudar a sociedade sozinha, já que os discursos de ódio encontram as mesmas facilidades”, ensina Simone.  “Mas o que se pode dizer é que a internet se consolidou como um ambiente propício para a prática e a disseminação do espírito colaborativo.  E esse é o grande barato.”</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Caindo na rede</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Uma das características fundamentais das redes é que seus resultados são, em larga medida, imprevisíveis.  A convicção de que o ambiente interativo é fértil para a criatividade, além de ser, por si só, uma inovação solidária, é o que move grande parte dos projetos. Apesar disso, as redes desenvolveram um know how em como otimizar os resultados e focar em objetivos, freqüentemente por obra de agentes conhecidos como facilitadores ou animadores.  Página 22 selecionou exemplos criativos de mobilização pela inernet:</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">TakingITGlobal (ta kingitglobal.org) – Sediada em Toronto, é uma rede mundial voltada para incentivar novos atores sociais, especialmente jovens, a desenvolverem movimentos e projetos em suas próprias localidades.  Além de interconectar milhares de membros através do site, os organizadores disponibilizam manuais sobre formulação de projetos, oficinas e captação de recursos, e prestam consultoria especializada.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">UnlimitedWorld (unltdworld.com) – Espécie de Orkut da sustentabilidade.  Com base na plataforma clássica de site de relacionamentos, a UnLtd — the Foundation for Social Entrepreneurs, sediada em Londres, desenvolveu novas ferramentas para atender indivíduos e organizações com trabalhos socioambientais.  Por meio de miniblogs, os usuários podem fazer o upload do conteúdo digital que desejam compartilhar.  Um sistema de busca garante a pesquisa por áreas de interesse, campanhas, oportunidades profissionais, produtos e serviços.  Para que a interação não fique só no virtual, a ferramenta Let’s meet up informa quando um usuário visitará uma nova cidade e quais são seus interesses.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Ecomom Alliance (ecomomalliance.org) – Só nos Estados Unidos há 82 milhões de mulheres com filhos, que controlam cerca de 85% dos gastos de uma casa.  Foi esse cenário que motivou Kimberly Danek Pinkson a lançar uma rede mundial de mães preocupadas com o meio ambiente.  O site permite o compartilhamento de noções e estratégias para o consumo responsável.  Além disso, Kimberly já formou 76 “ecomães líderes comunitárias” responsáveis por disseminar o movimento além do mundo web.</div>
<div>Fruto da contracultura, a internet renovou o sentido de democracia, cidadania e mobilização. Mas sob o peso da marginalidade digital, a rede prova que não é panacéia. Será o que fizermos dela</div>
<div>Por Carolina Derivi<span style="white-space: pre;"> </span></div>
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<div>Em fevereiro passado, mais de 500 mil cidadãos colombianos se reuniram em Bogotá na maior marcha da história do país contra a violência das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc.  Outros milhares protestaram em diversas áreas do país e em outras 100 cidades mundo afora.  Dois anos antes, o chefe de milícia congolês, Thomas Lubanga Dyilo, tornara-se o primeiro prisioneiro da Corte Internacional de Justiça, acusado de recrutar crianças como soldados.  E, em outubro de 2007, o Conselho de Segurança da ONU condenou a repressão violenta do regime militar de Mianmar contra protestos pacíficos de monges budistas, a primeira manifestação formal do órgão sobre o conflito.</div>
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<div>São fatos de uma conturbada geopolítica pós-moderna, amplamente conhecidos e aparentemente desconexos. Mas, na raiz desses acontecimentos, há algo em comum que diz muito sobre as novas formas de mobilização social na chamada “era da informação”: todos foram desencadeados por meio da internet.</div>
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<div>Na Colômbia, tudo começou com o engenheiro Oscar Morales, que fundou um grupo de discussão sobre as Farc no site de relacionamentos Facebook, o mais popular da rede mundial.  Em menos de um Unimês, 250 mil usuários se inscreveram para apoiar a causa e passaram a trocar informações que resultaram na articulação dos protestos.</div>
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<div>Tanto a prisão de Lubanga quanto a mudança de postura da ONU em relação a Mianmar tiveram como fator decisivo a produção de vídeos para a internet com flagrantes dos crimes cometidos contra a população local.  As filmagens foram publicadas no site The Hub, uma plataforma on-line para registro audiovisual de violações dos direitos humanos criada pela ONG Witness, organização que há 15 anos atua como facilitadora do uso de novas tecnologias no combate a crimes contra a humanidade.  Uma vez na rede, os vídeos se difundiram como rastilho de pólvora, criando um escândalo internacional.</div>
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<div>Talvez o aspecto mais imediato que se pode depreender com base nesses casos é a capacidade da internet de documentar situações que os veículos de comunicação tradicionais muitas vezes não alcançam, seja devido a restrições à liberdade de imprensa, seja por questões meramente logísticas.  Em 2005, em meio à tragédia provocada pelo furacão Katrina, o jornal Times-Picayune, de Nova Orleans, ficou impossibilitado de funcionar devido à completa destruição das máquinas rotativas.  Os repórteres, então, transformaram o site do jornal em um blog.  Em 2006, a cobertura em tempo real lhes valeu dois prêmios Pulitzer, pela primeira vez concedidos ao jornalismo on-line.</div>
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<div>Ciberativismo</div>
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<div>Os fenômenos sociais suscitados pela internet, entretanto, vão muito além das questões pertinentes à imprensa.  As novas possibilidades para a construção do conhecimento, e para as relações entre pessoas e comunidades, alteraram o modus operandi dos movimentos sociais, tornando-o nitidamente diverso do tipo de ativismo que prevaleceu no mundo bipolarizado entre comunismo e capitalismo.  “É próprio do século 20 a figura do grande intelectual que deve levar a sua idéia salvadora às massas”, explica Simone Andrade Pereira de Sá, doutora em comunicação e diretora da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber). “Definitivamente acho que a gente não perdeu nada.  As lideranças hoje são pulverizadas.  O ativismo contemporâneo é a atividade de criar pontes.  O agir político está ligado à possibilidade da diversidade.”</div>
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<div>Depois de um século tão marcado pela disputa entre dois modelos civilizatórios e pelo papel preponderante dos movimentos de juventude, como o que deu origem ao Maio de 1968, é fácil cair na presunção de que as novas gerações são formadas por “órfãos de causa”.  Aparentemente é essa a premissa de uma reportagem da revista Newsweek, publicada em 2007, sobre a crescente agitação dos campi nos Estados Unidos em torno do tema do aquecimento global.</div>
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<div>A campanha Step it Up, criada com a ambiciosa missão de persuadir o governo americano a criar regras para reduzir as emissões de carbono, já reúne mais de mil entidades estudantis universitárias, cujas ações se concentram na web.  A reportagem compara o fenômeno a movimentos que mudaram a história americana, como a luta pelos direitos civis ou contra a Guerra do Vietnã.  E lança a pergunta: “Será esse o próximo grande movimento de juventude?”</div>
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<div>Certo é que, armados de novas tecnologias como YouTube, blogs e podcasts, os jovens ativistas de hoje têm larga vantagem sobre os hippies de outrora.  Mas isso não se deve apenas à interatividade facilitada e ao novo alcance de disseminação e visibilidade online. Inspirados pela própria internet, os movimentos sociais passaram a apostar em sistemas de gestão mais cooperativos e horizontalizados, que traduzem na vida real uma cultura de rede.</div>
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<div>“Redes sempre existiram, mas com a popularização da internet produziu-se um boom de redes sociais no Brasil e no mundo.  Para além do aspecto instrumental, a internet foicapaz de ilustrar esse modelo para as pessoas, se é que elas não conseguiam ver isso em outras instâncias da realidade”, diz Cássio Martinho, autor do livro Redes – Uma Introdução às Dinâmicas da Conectividade e da Auto-organização, e um dos maiores especialistas brasileiros nesse conceito.</div>
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<div>Segundo Martinho, as redes sociais são sistemas de associação cooperativa, cujo intuito é a troca de informações e experiências e o estabelecimento de parcerias, pautados por uma lógica não hierárquica.</div>
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<div>No Brasil, a idéia se difundiu no terceiro setor a partir da Conferência Eco-92, sob influência de outros movimentos internacionais reunidos na ocasião.A Rede Brasileira de Educação Ambiental (Rebea) foi pioneira ao estabelecer um projeto de alcance nacional já em 1992.  “Naquela época, marcávamos reuniões por cartas e telefonemas.  Era difícil, mas não impossível”, conta Jacqueline Guerreiro, uma das fundadoras da Rebea.</div>
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<div>Segundo Jacqueline, a criação da Rebea influenciou o amadurecimento de referências para a educadores ambientais no Brasil, como a idéia de que sociedade e ambientes urbanos são indissociáveis dos ambientes naturais e de que a atuação deve ser interdisciplinar.Como principal conquista ela aponta o empoderamento dos membros para a participação em políticas públicas.  Em 2003, o Programa Nacional de Educação Ambiental (Pronea), um projeto conjunto dos Ministério do Meio Ambiente e da Educação, foi gestado pelos membros da rede.</div>
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<div>&#8220;Hoje é difícil encontrar fóruns oficiais em que os &#8216;rebeanos&#8217; não tenham assento cativo&#8221;, diz Jacqueline. No mesmo ano, quando o então ministro da educação Cristovam Buarque decidiu extinguir a Coordenadoria de Educação Ambiental do ministério, a reação da Rebea foi provocar uma avalanche de e-mails em protesto.  Tanto fizeram que Buarque voltou atrás.</div>
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<div>“Na hora em que você está num coletivo, a agenda de interesse social é muito mais ampla.  As causas se potencializam, a sociedade ganha com isso e atribui mais legitimidade aos seus interlocutores”, considera Cinthia Sento Sé, coordenadora de articulação do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife).</div>
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<div>Entre as dificuldades apontadas pelos especialistas está a manutenção da horizontalidade.  “É da nossa cultura política achar que ordem é sinônimo de hierarquia”, aponta Martinho.  Segundo ele, muitas iniciativas em rede descambam para o controle centralizado de uma entidade ou indivíduo e acabam se descaracterizando.  Na outra ponta, estão os entraves práticos do excesso de democracia.  “Como todo mundo tem que ser ouvido para tudo, o maior problema é fazer com que a rede não seja tão lenta que ela não possa acontecer.  Por outro lado, a rede é um organismo vivo e o processo de construção dos consensos é muito fértil de idéias”, conta Cinthia.</div>
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<div>Exclusão e contracultura</div>
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<div>Se por um lado a internet possibilitou experiências sociais baseadas em valores da sustentabilidade, por outro, nasceu para ser um novo indicador da desigualdade no mundo.  No artigo “Access denied – marginalização na era da informação”, o sociólogo Christian German afirma que “a quinta parte mais pobre dos Information Poor conta com meros 0,2% das conexões à internet, enquanto a quinta parte mais rica dos Information Rich chega a abocanhar mais de 93%.  No máximo, 3% da população mundial dispõe atualmente de uma conexão à internet”.</div>
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<div>No Brasil, apenas 17% da população possuiconexão domiciliar e 59% jamais utilizaram a rede.  Matthew Shirts, curador do projeto Planeta Sustentável, da Editora Abril, exemplifica bem a relatividade do alcance da internet no País.  O projeto lançou, primeiramente no portal de mesmo nome, o Manual de Etiqueta Sustentável, um guia com 50 dicas para a responsabilidade socioambiental cotidiana.  “Mas foi só quando produzimos 2,5 milhões de encartes e distribuímos junto com as revistas da editora que percebemos uma resposta realmente poderosa por parte do público&#8221;, diz Shirts.</div>
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<div>Para Alice Gismonti, coordenadora da Rede Jovem, projeto de inclusão digital da ONG Comunitas, a lógica é perversa: “Quem não tem acesso a esse instrumento é justamente quem mais precisa das oportunidades difundidas na web.  Informação no Brasil é TV aberta, a que todo mundo tem acesso, mas mantém as pessoas limitadas a um ponto de vista que é quase uma ditadura”.</div>
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<div>É importante perceber, entretanto, que a exclusão digital não se limita à questão do acesso à pluralidade de informações, mas também impõe a marginalidade de produção e vivência culturais.  É o que o mundo acadêmico passou a chamar de “cibercultura”.  Depois de montada a estrutura das relações estabelecidas em rede, criam-se linguagens, signos, fenômenos e normas próprias do meio virtual.</div>
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<div>A ética da informação livre, limitada pelo respeito aos direitos intelectuais é uma dessas marcas.  Para notá-la, basta tomar como exemplo os softwares livres ou o movimento copyleft.  Parte desse caldo cultural se presta também a reproduzir experiências de cidadania que já parecem enfraquecidas nos meios tradicionais. O exemplo mais elementar é a ampla difusão dos fóruns, espaços de debate que ocupam hoje o papel que já foi das “ágoras” em espaços públicos.  Mas a vivência da “cibercidadania” pode chegar a quadrantes quase inimagináveis, como as “cibernações”.</div>
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<div>Palestinos e expatriados da antiga Iugoslávia, por exemplo, recriaram na internet um ambiente capaz de fortalecer os laços de fraternidade e nação, com base na metáfora da cidadania perdida.  A Ciber Yugoslavia, fundada em 1999, tem Constituição, ministérios, passaportes e mais de 16 mil ciberiugoslavos inscritos. Dizem os fundadores: “Quando atingirmos 5 milhões de cidadãos, planejamos requerer o reconhecimento da ONU com status de membro.  Quando isso acontecer, reivindicaremos 20 metros quadrados de terra em qualquer parte do planeta e nesse território manteremos o nosso servidor”.</div>
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<div>A idéia pode soar um tanto amalucada, mas é bom saber que experiências como as nações virtuais estão superalinhadas com os valores que, lá nos primórdios, fizeram da internet o que ela é hoje.  É o que explica Simone, da ABCiber: “A rede nasceu por uma necessidade da inteligência militar americana, no contexto da Guerra Fria.  Mas a sua democratização, a partir dos anos 70, é obra da intelectualidade do Vale do Silício. Uma geração de cientistas ligados à contracultura, que contestavam modelos hegemônicos de civilização e que enxergavam na rede a possibilidade de articulação da informação para novos modelos”.</div>
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<div>É claro que a internet, por si só, não garante nenhuma transformação social.  Em A Sociedade em Rede, a mais célebre obra sobre a era da informação, Manuel Castells escreve: “A sociedade informacional, em sua manifestação global, é também o mundo de Aum Shinrikyo (seita Verdade Suprema), da milícia americana, das ambições teocráticas islâmicas/cristãs e do genocídio recíproco de hutus e tutsis”.</div>
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<div>“Seria determinismo tecnológico imaginar a cibercultura como um mundo à parte, uma ferramenta capaz de mudar a sociedade sozinha, já que os discursos de ódio encontram as mesmas facilidades”, ensina Simone.  “Mas o que se pode dizer é que a internet se consolidou como um ambiente propício para a prática e a disseminação do espírito colaborativo.  E esse é o grande barato.”</div>
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<div>Caindo na rede</div>
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<div>Uma das características fundamentais das redes é que seus resultados são, em larga medida, imprevisíveis.  A convicção de que o ambiente interativo é fértil para a criatividade, além de ser, por si só, uma inovação solidária, é o que move grande parte dos projetos. Apesar disso, as redes desenvolveram um know how em como otimizar os resultados e focar em objetivos, freqüentemente por obra de agentes conhecidos como facilitadores ou animadores.  Página 22 selecionou exemplos criativos de mobilização pela inernet:</div>
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<div>TakingITGlobal (ta kingitglobal.org) – Sediada em Toronto, é uma rede mundial voltada para incentivar novos atores sociais, especialmente jovens, a desenvolverem movimentos e projetos em suas próprias localidades.  Além de interconectar milhares de membros através do site, os organizadores disponibilizam manuais sobre formulação de projetos, oficinas e captação de recursos, e prestam consultoria especializada.</div>
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<div>UnlimitedWorld (unltdworld.com) – Espécie de Orkut da sustentabilidade.  Com base na plataforma clássica de site de relacionamentos, a UnLtd — the Foundation for Social Entrepreneurs, sediada em Londres, desenvolveu novas ferramentas para atender indivíduos e organizações com trabalhos socioambientais.  Por meio de miniblogs, os usuários podem fazer o upload do conteúdo digital que desejam compartilhar.  Um sistema de busca garante a pesquisa por áreas de interesse, campanhas, oportunidades profissionais, produtos e serviços.  Para que a interação não fique só no virtual, a ferramenta Let’s meet up informa quando um usuário visitará uma nova cidade e quais são seus interesses.</div>
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<div>Ecomom Alliance (ecomomalliance.org) – Só nos Estados Unidos há 82 milhões de mulheres com filhos, que controlam cerca de 85% dos gastos de uma casa.  Foi esse cenário que motivou Kimberly Danek Pinkson a lançar uma rede mundial de mães preocupadas com o meio ambiente.  O site permite o compartilhamento de noções e estratégias para o consumo responsável.  Além disso, Kimberly já formou 76 “ecomães líderes comunitárias” responsáveis por disseminar o movimento além do mundo web.</div>
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