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	<title>Página 22 &#187; agronegócio</title>
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		<title>Onde achar terra para plantar</title>
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		<pubDate>Fri, 13 May 2011 18:14:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A adoção de poucos recursos tecnológicos disponíveis no Brasil poderia elevar a lotação média das pastagens brasileiras de 1,14 para 1,5 cabeça por hectare, liberando 69 milhões de ha para a agricultura.  Trata-se de número maior que os 60 milhões [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A adoção de poucos recursos tecnológicos disponíveis no Brasil poderia elevar a lotação média das pastagens brasileiras de 1,14 para 1,5 cabeça por hectare, liberando 69 milhões de ha para a agricultura.  Trata-se de número maior que os 60 milhões de ha ocupados hoje por lavouras.  A estimativa está no artigo “A revisão do Código Florestal Brasileiro”, publicado na edição de março da revista <em>Novos Estudos</em> pelo professor Gerd Sparovek, da Esalq/USP, e outros quatro pesquisadores.</p>
<p>Segundo os autores, a produtividade da pecuária poderia aumentar ainda mais se fossem empregadas alternativas tecnológicas mais intensivas, como correção do solo, adubação na formação das pastagens, uso de forrageiras melhoradas e manejo reprodutivo e sanitário eficientes.  Além de redução significativa nas emissões de gases-estufa, o uso de mais e melhor tecnologia no pasto também implicaria carne bovina de melhor qualidade.</p>
<p>“As alegações de que a legislação ambiental impõe restrições não contornáveis para o desenvolvimento do setor agropecuário são equivocadas, mas extremamente úteis para justificar e permitir a manutenção da ineficiência de alguns setores (&#8230;)”, alfinetam os pesquisadores.</p>
<p>O artigo foi um dos subsídios usados no livro <em>O Código Florestal e a ciência: contribuições para o diálogo</em>, publicado no final de abril pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC).  A publicação descarta fundamento científico nas mudanças previstas no substitutivo do deputado federal Aldo Rebelo (PC do B-SP) ao projeto que reforma o Código Florestal e pode ser acessada <a href="http://www.sbpcnet.org.br" target="_blank">aqui</a>.</p>
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		<title>Clima &amp; Economia</title>
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		<pubDate>Thu, 07 Oct 2010 11:50:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Companhias de seguro defendem melhorias no gerenciamento de risco nos países em desenvolvimento
A indústria de seguros é um dos setores econômicos que se têm mostrado mais atuantes na discussão de políticas climáticas.  Cientes de que um mundo com o clima [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Companhias de seguro defendem melhorias no gerenciamento de risco nos países em desenvolvimento</em></p>
<div id="attachment_9614" class="wp-caption alignleft" style="width: 274px"><a href="http://www.flickr.com/photos/pong/288491653/"><img class="size-medium wp-image-9614" title="cofre" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/10/cofre-264x198.jpg" alt="cofre" width="264" height="198" /></a><p class="wp-caption-text">Foto de Rob Pongsajapan via Flickr</p></div>
<p>A indústria de seguros é um dos setores econômicos que se têm mostrado mais atuantes na discussão de políticas climáticas.  Cientes de que um mundo com o clima instável altera a natureza do próprio negócio, as seguradoras estão adaptando seus produtos e, mais recentemente, centrando sua atenção nos países em desenvolvimento.  Como mostram diversos estudos, as regiões mais pobres do planeta são exatamente as mais vulneráveis aos impactos de desastres naturais.</p>
<p>De acordo com relatório publicado pela companhia alemã Munich Re, nos últimos 30 anos, 85% das mortes relacionadas com catástrofes naturais ocorreram em países em desenvolvimento.  Dados revisados pelo IPCC, em seu quarto relatório, indicam que a frequência e a intensidade desses desastres devem aumentar com as alterações do clima.  Por isso, as seguradoras defendem que é preciso melhorar a gestão de risco nas economias emergentes.</p>
<p>Em termos práticos, as companhias recomendam que essa gestão deixe de ser feita apenas por uma empresa ou alguns setores específicos da economia e ganhe escala nacional.  Assim, um planejamento mais detalhado poderia evitar, por exemplo, obras de infraestrutura em locais ameaçados.  “Cada país tem suas diferenças, um plano não serve para todos.  O importante é criar uma cultura de gerenciamento de risco, fazer uma avaliação de risco nacional ou mesmo criar um departamento que seja transversal a várias atividades econômicas”, explica Andrew Voysey, secretário-executivo da ClimateWise [1], uma aliança de 40 seguradoras preocupadas com a mudança climática.</p>
<blockquote><p>[1] Iniciativa que tem o príncipe Charles como patrono, a ClimateWise foi criada em 2006.  As empresas-membros seguem uma série de princípios que pode ser lida <a href="http://tinyurl.com/37ryn4t" target="_blank">aqui</a>.</p></blockquote>
<p>Em 6 de setembro, a ClimateWise – ao lado da divisão financeira do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma-FI) e de outras empresas de seguros – lançou, durante encontro em Londres, um <a href="http://www.climatewise.org.uk/storage/developing-world-adaptation/Global%20Insurance%20Industry%20Statement%20-%20Adapting%20to%20Climate%20Change%20in%20Developing%20Countries%20September%202010.pdf" target="_blank">manifesto</a> em defesa de maiores investimentos em prevenção de risco em nações em desenvolvimento.  O grupo, que ao final reuniu cerca de 100 seguradoras de todo o mundo, fez um chamado para que os governos criem um ambiente regulatório que permita a implementação de instrumentos de controle e compensação de danos causados por alterações climáticas.</p>
<p>“Acreditamos que, em um mercado livre e transparente, as companhias seguradoras podem exercer seu papel fundamental: dar indicações de longo prazo sobre o preço do risco”, diz Voysey.  Segundo ele, a iniciativa liderada pela ClimateWise é uma forma de difundir a regiões mais vulneráveis conceitos que, durante anos, têm permitido que setores econômicos funcionem com eficiência.</p>
<p>Alguns exemplos ajudam a tornar mais claro qual é o papel das seguradoras em um mundo afetado pela mudança do clima.  Na Mongólia, pastores tiveram rebanhos de gado assegurados pelo governo após uma sequência de invernos severos que não permitiram a regeneração das pastagens.  O valor do seguro pago foi de US$ 1,4 milhão.  No Caribe, um esquema para compensar danos causados por desastres naturais pagou US$ 6,3 milhões às Ilhas Turk e Caicos, após serem atingidas pela Furacão Ike, em setembro de 2008.</p>
<p>Não seria difícil, portanto, imaginar que o Brasil poderia beneficiar-se de um esquema semelhante.  Basta olhar para a forte estiagem que atingiu o País em agosto e setembro: diversos agricultores perderam suas lavouras, cidades na Amazônia ficaram isoladas.  Qual foi o custo real da seca de 2010 para a economia do Brasil?</p>
<p>Para as seguradoras, talvez mais importante seja perguntar como evitar danos ainda maiores no futuro.  Tal interesse pode despertar algum grau de desconfiança, já que, no final das contas, evitar o risco econômico representa basicamente comprar uma apólice de seguro.  E o mercado, aparentemente, não é pequeno: nas últimas três décadas, os prejuízos causados pelos desastres naturais foram, em média, US$ 90 bilhões por ano, e 78% desse valor se devem a fenômenos climáticos.</p>
<p>Entretanto, com a tendência de aumento do valor desses danos, as próprias companhias seguradoras parecem um pouco assustadas.  Andrew Voysey, da ClimateWise, pondera que existem oportunidades, mas “ainda há muito trabalho a ser feito” para se captar o “preço do risco”.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>
<p><strong>A competitiva energia do vento</strong></p>
<p>As usinas eólicas foram para o Leilão de Fontes Alternativas, no final de agosto, dispostas a convencer o mercado de que elas são um bom negócio.  O preço médio do megawatt/hora foi o mais competitivo em relação a biomassa e PCHs participantes, um ótimo resultado para uma fonte que era considerada de alto custo.  Ricardo Baitelo, do Greenpeace, aponta outras vantagens competitivas das eólicas como energia do futuro: “Se considerarmos a cadeia completa, ela é a que tem menor impacto ambiental, e o potencial de geração é dez vezes maior que o das PCHs”.  A Europa espera que as usinas eólicas forneçam 15% de toda a energia da comunidade até 2020.  No Brasil, Baitelo acredita que há potencial para chegar a 20%.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p><strong>Entrevista: Jorge Vivan &#8211; </strong><em>O carbono pode ajudar a agricultura de pequena escala a conservar florestas</em></p>
<p>O consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Jorge Vivan, pesquisa serviços ambientais e estímulos econômicos para a conservação em um projeto experimental de extrativismo e sistemas agroflorestais no noroeste de Mato Grosso.  Seus estudos apontam que o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) é economicamente promissor e pode ajudar a resolver problemas de inadequação do uso do solo, mas as políticas de incentivo ainda são tímidas.</p>
<p><strong>As agroflorestas compensam os custos de oportunidade da agropecuária convencional?</strong> O custo de oportunidade de soja em Mato Grosso é de US$ 1.500 ha/ano.  Um agricultor que já tenha um mercado estabelecido está tirando esse mesmo valor com consórcio de café, cacau e pupunha com madeiras nativas.  Se ele aumenta a tecnologia do plantio, adiciona citrus, ou faz o sistema um pouco menos diverso, passa para US$ 2.600 ha/ano.  Com gado de leite mais de corte, a renda está em torno de US$ 350 ha/ano; e só gado de corte gera US$ 117 ha/ano, caso ele tenha um bom manejo.  Isso é facilmente superado por café sombreado ou cacau, por exemplo.  Mas há dois problemas.  Um é o fluxo de caixa, pois no segundo ano já se vende bezerro e leite, enquanto o cacau leva até três anos para produzir.  O segundo é a capacidade de manejo.  Um agricultor consegue manejar facilmente 50 hectares de pasto, mas no máximo 20 hectares de agroflorestas.</p>
<p><strong>Onde entra o PSA nesse cenário?</strong> A castanha, por exemplo, vai render de US$ 30 a US$ 130 ha/ano, e quanto melhor o manejo maior a renda.  Temos um cenário interessante em que ela dá a mesma renda que o gado de corte e ainda torna os 80% de reserva legal produtivos.  Mesmo que a castanha dê a metade do gado, se nessa floresta nós medirmos um estoque de carbono de 200 toneladas, já completaria a renda.  Mas estamos falando de propriedades de 10 a 100 hectares.  Para esse público, o PSA não é adequado em escala individual, uma vez que ele funciona como um catalisador que pode trazer benefícios coletivos como agroindústria, processamento da madeira etc. O PSA pode ser visto como uma política complementar dentro de uma estratégia de reorientação do uso da terra em uma região que o faz de forma insustentável, como é o caso de pastagem em áreas de floresta.  Não se trata de eliminar o gado, mas de mantê-lo e aprimorar seu manejo, e recuperar áreas improdutivas ou de baixa renda com sistemas que agregam mais valor.</p>
<p><strong>É realista pensar em pequenos agricultores entrando no mercado de carbono?</strong> Onde há volatilidade – as pessoas daqui a pouco vão embora, passam o lote para outro – é inviável, pois o comprador não teria segurança.  Eles podem se candidatar, desde que tenham credibilidade, como uma comunidade rural onde as pessoas estão há dez anos e há uma associação que pode ser juridicamente responsável.  Mas será preciso aporte de recursos para montar a linha de base, o monitoramento e a organização do projeto.  Um assentamento não tem como bancar isso, mas uma universidade pode receber o recurso do governo e fazer.  É o que está acontecendo na África Central e nas Filipinas, onde já existem esses projetos.  E, antes disso, é possível investir em outras políticas.  A experiência do assentamento Vale do Amanhecer [<em>em Juruena, noroeste de MT</em>], ainda em pequena escala, mostra isso.  Lá tem o programa de Desenvolvimento Rural Sustentável do Banco do Brasil, uma parceria com a Michelin para compra do látex e o programa de aquisição da Conab.  Não é PSA direto, mas não deixa de ser uma forma, pois estimula uma atividade sustentável que mantém estoques de carbono.</p>
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		<title>Galinha estressada não bota ovo</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Aug 2010 16:24:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_8917" class="wp-caption alignleft" style="width: 370px"><a href="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/08/galinha.jpg"><img class="size-full wp-image-8917" title="galinha" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/08/galinha.jpg" alt="Foto de &quot;Dave-F&quot; via Flickr " width="360" height="500" /></a><p class="wp-caption-text">Foto de &quot;Dave-F&quot; via Flickr </p></div>
<p>Os que são do interior podem compreender melhor. Sabe aquela crendice popular de que animal mal tratado pode resultar em comida ruim? Pois é, um estudo do IFC (International Finance Corporation) acaba de confirmar essa história, revelando, a partir da análise de uma série de casos práticos, a relação direta entre a saúde física e mental dos animais e a rentabilidade dos negócios.</p>
<p>Segundo o <a href="http://www.ifc.org/ifcext/sustainability.nsf/AttachmentsByTitle/p_AnimalWelfare_QuickNote_Portuguese/$FILE/Animal+Welfare+QN_Portuguese.pdf" target="_blank">relatório</a>, o treinamento adequado das pessoas que lidam com os animais pode melhorar a produtividade, o crescimento e a reprodução deles. Isso porque, antes ou durante o abate, o manuseio e o transporte podem, se mal feitos, causar lesões nos animais, o que acaba desvalorizando suas carcaças e resultando em cortes de baixa qualidade. Esses ferimentos elevam o pH da carne, deixando-a mais escura, e podem inclusive torná-la inadequada para o consumo humano.</p>
<p>Entre os casos apresentados, a melhoria do espaço da ordenha, proporcionando um ambiente com mais conforto para as vacas, aumentou significativamente a produção de leite. O crescimento e a reprodução entre porcos também melhorou depois da implantação de métodos de criação que reduziram o medo desses animais no contato com os humanos. E as galinhas também botaram mais ovos depois de reformas no espaço onde eram criadas.</p>
<p>Segundo o IFC, um de seus clientes estava inicialmente transportando as aves em cestos para o abatedouro. Além de estresse, o saldo dessa prática ainda envolvia asas quebradas e outros tipos de contusões. Esses danos acabavam diminuindo o preço das aves em cerca de 8%. A modificação para um outro sistema mais adequado fez com que o produtor deixasse de perder US$ 320 mil ao ano com as desvalorizações.</p>
<p>Os critérios para avaliação do bem-estar dos animais podem ir desde medidas de saúde e comportamento até o nível de produtividade. Tudo depende das características de cada espécie e tipo de criação. A maioria das principais companhias do setor alimentício já contratam apenas fornecedores orientados pelos princípios do bem-estar animal.  Além dos programas individuais, algumas empresas ainda atuam em parcerias específicas com restaurantes e grupos do segmento varejista de alimentos.</p>
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		<title>Não tem pendura</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Aug 2010 16:41:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Entre a anistia e a inação, sobram propostas para recuperar o passivo ambiental sem inviabilizar o agronegócio. Tudo depende de uma combinação de instrumentos de mercado e de governo, além de altas doses de boa vontade
O feliz proprietário de uma [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Entre a anistia e a inação, sobram propostas para recuperar o passivo ambiental sem inviabilizar o agronegócio. Tudo depende de uma combinação de instrumentos de mercado e de governo, além de altas doses de boa vontade</em></p>
<p><a href="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/08/pendura-1.jpg"><img class="alignleft size-large wp-image-8750" title="pendura 1" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/08/pendura-1-365x270.jpg" alt="pendura 1" width="365" height="270" /></a>O feliz proprietário de uma padaria acorda um dia para descobrir que toda sua rua foi tomada por concorrentes.  Logo as lojas se multiplicam em cada esquina do bairro, depois pelos bairros adjacentes, até que a cidade inteira se vê assoberbada de fazedores de pãezinhos.</p>
<p>Fatalmente, o preço do produto despenca, achatando ou aniquilando a margem de lucro.  O sujeito, estarrecido, não tem alternativa senão fechar as portas.  Em lugar disso, no entanto, ele expande seus domínios sobre a paisagem infindável de padarias na esperança de garantir algum fluxo de caixa.</p>
<p>Segundo Roberto Smeraldi, diretor da ONG Amigos da Terra e autor dessa analogia, é exatamente assim que se comporta um produtor rural.  Em parte pela crescente demanda mundial, especialmente por grãos, e em parte pela cultura de economia de fronteira que marcou o agronegócio brasileiro com o único diferencial de terra barata e preço baixo, a atividade no campo prende-se ao paradigma da expansão horizontal.</p>
<p>“O negócio se torna insustentável ambientalmente porque é insustentável economicamente”, diz Smeraldi, “o produtor não deve só ao Ibama, ele deve também ao Banco do Brasil”.  Não deveria ser surpresa, portanto, a enorme resistência da categoria em arcar com os custos da recuperação ambiental, após décadas de descumprimento do Código Florestal, enquadrado na peculiaridade brasileira das leis que não pegam.</p>
<p>O ambientalista conta que, durante uma reunião em Mato Grosso, ouviu um produtor do município de Sinop lamentar-se da margem de lucro de R$ 3 pela saca de milho de 60 quilos.  Mal dá para cobrir os custos.  Em resposta, o presidente da federação dos agricultores conclamou os presentes a não se preocuparem com seus passivos ambientais, já que se poderia costurar uma anistia.</p>
<p>Para Smeraldi, esse é o retrato de uma distorção de mercado, que leva ao ciclo vicioso.  Em qualquer outro terreno do mundo dos negócios, alguma restrição é bem-vinda.  É assim que se refina a dinâmica da concorrência, garantindo preços melhores.  No Brasil, no entanto, a lucratividade da base dessa cadeia está tão aviltada e por vezes negativa que só se pensa em garantir retorno pela quantidade, sem restrições, o que no fim das contas segue penalizando o próprio produtor.</p>
<p>“Se na Europa alguém levantasse a possibilidade de expandir a área, digamos, de beterraba, os produtores iriam a Bruxelas para protestar em frente à Comissão Europeia jogando beterraba em cima dos funcionários”, diz.  Em lugar de combater a legislação ambiental, melhor seria que se discutissem formas de aprimorar a remuneração da base produtiva.</p>
<p>É desse panorama que partem as principais conclusões a que chegaram os dez especialistas consultados por <strong>Página22</strong>, entre representantes de ONGs, consultores, produtores e cientistas.  A primeira delas é de que está fora da realidade supor que os proprietários rurais pagariam a conta ambiental sozinhos.</p>
<p>“Hoje é um mico ter reserva legal.  O mercado simplesmente não reconhece.  Paga-se o mesmo pela produção que vem de uma fazenda com ou sem reserva”, diz José Carlos Pedreira, consultor em sustentabilidade para o agronegócio.</p>
<p>Para amortizar os custos, há uma miríade de sugestões que apontam para a combinação de políticas públicas, requalificação de subsídios agrícolas e mecanismos de mercado.  É compreensível que se torça o nariz para o rateio, quando todo o problema se originou pelo descumprimento de uma obrigação vigente desde 1965.</p>
<p>Por outro lado, a valorização do produtor rural como prestador de serviços ambientais pode não apenas erguer uma bandeira branca na briga entre ruralistas e ambientalistas, como também inaugurar o tão sonhado paradigma segundo o qual as florestas e os recursos naturais passam a ter valor de mercado.</p>
<p>Como exemplo, Pedreira cita o mecanismo da servidão florestal [1], já previsto no Código.  “Se a gente consegue chegar a um acordo, o cara que fez uma RPPN (<em>Reserva Particular do Patrimônio Natural</em>), e foi chamado de louco pela mulher e pelos filhos, passa a ter o que oferecer.  Está cheio de hectare de soja por aí.  Hectare de floresta, não.”</p>
<blockquote><p>[1] O proprietário rural pode compensar a sua reserva legal comprando ou arrendando outra área já florestada fora da propriedade, desde que na mesma microbacia.</p></blockquote>
<p>Nos últimos dez anos, o Brasil avançou com medidas para restringir o crédito a propriedades irregulares, criminalizando não apenas os produtores como também os grandes compradores de <em>commodities</em>.  Mas faltam os incentivos.  “O que acontece se afugentarmos o setor agrícola só com multas?  Reformam a lei.  Bela solução”, ironiza André Nassar, do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone).</p>
<p>Enquanto a polêmica proposta de reforma do Código Florestal dorme no Congresso à espera do resultado das eleições, está aberta a temporada de ideias arrojadas e conciliadoras.  Vamos a elas.</p>
<p><strong>Virando o jogo </strong></p>
<p><a href="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/08/pendura-3.jpg"><img class="alignleft size-large wp-image-8752" title="pendura 3" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/08/pendura-3-173x270.jpg" alt="pendura 3" width="173" height="270" /></a>Para Paulo Barreto, pesquisador do Instituto do Homem e do Meio ambiente da Amazônia (Imazon), e Raul do Valle, do Instituto Socioambiental (ISA), é necessário estabelecer, antes de tudo, que o passivo ambiental brasileiro não é apenas formal, mas tremendamente real. </p>
<p>Às tragédias de deslizamento em Santa Catarina e no Rio de Janeiro somam-se agora as enchentes no Nordeste, que castigaram, sobretudo, o estado de Alagoas.  “Naquela região, há cidades na várzea, desmatamento excessivo e rios extremamente assoreados, com pouquíssima capacidade de reter água”, explica Valle.  Para Barreto, a ciência está devendo estimativas mais claras sobre os custos de fundo ambiental dos desastres.</p>
<p>Philippe Lisbona, diretor da empresa Verdesa, dedicada à regularização ambiental de propriedades rurais, acrescenta ainda os prejuízos para a hidreletricidade.  Florestas e rios são irmãos.  É a cobertura vegetal que reduz a velocidade da água, aumenta a captação e porosidade dos solos e contribui para os aquíferos subterrâneos, que, por sua vez, geram as nascentes.</p>
<p>“Se você pegar a curva hidrológica dos últimos 30 anos, verá que a constância dos rios diminuiu muito.  E constância é a coisa mais importante para um empreendimento de energia.  Do contrário, são necessários altos investimentos com baixa eficiência”, afirma Lisbona.  Belo Monte, por exemplo, gerará energia média de 40% da sua capacidade.</p>
<p>Caracterizado o interesse público, justifica-se a proposta de subsídios para recuperação de reservas legais e áreas de preservação permanente, o que não necessariamente precisa acarretar mais pressão sobre os cofres públicos.  O modelo lembrado pelos especialistas é o europeu, chamado de <em>cross compliance</em>.  Para adquirir crédito subsidiado, o produtor precisa comprometer-se com metas e normas ambientais.</p>
<p>Considerando que o enforcamento do crédito agrícola para propriedades irregulares já causou mais insatisfação que benefícios, Francisco Maciel, diretor da Bravo Ambiental, propõe uma estratégia: “Não precisamos cancelar o que já existe, mas garantir maiores vantagens para quem se propõe a recuperar.  Assim, não se entra em conflito com o <em>lobby</em> estabelecido, mas criam-se condições para surgir um novo<em> lobby</em> de produtores engajados na recuperação”.</p>
<p>Isso é música para os ouvidos de John Carter, fundador da Aliança da Terra – rede de grandes proprietários rurais na Amazônia interessados em cumprir a legislação ambiental –, assim como para Brás Albertini, presidente licenciado da Federação dos Trabalhadores Rurais do Estado de São Paulo, mais ligado à pequena agricultura.</p>
<p>Ambos concordam, por exemplo, que a manutenção de nascentes e mata ciliar é uma obrigação inerente à propriedade da terra e que, ao propor a redução, o projeto de reforma que corre no Congresso jogou o acordo pela janela.  É a reserva legal, nas palavras de Carter, que se apresenta como “uma mochila de chumbo que só o produtor brasileiro precisa carregar”.</p>
<p>Para Albertini, repasses da ordem de um salário mínimo por hectare, bem abaixo do preço de restauro florestal, já fariam diferença.  “Assim o produtor também paga a sua parte, mas pelo menos se sente valorizado.”</p>
<p>Outro candidato primordial a subsídios públicos é o aumento da produtividade na pecuária.  A atividade ocupa hoje 80% das áreas agricultáveis no Brasil, cerca de 220 milhões de hectares.  Segundo estudo do Banco mundial sobre baixo carbono no Brasil, em parceria com o Icone, seriam necessários 70 milhões de hectares [2] adicionais até 2030.</p>
<blockquote><p>[2] 17 milhões para expansão da agropecuária e 53 milhões para mitigação de emissões e sequestro de carbono, dos quais 44 milhões iriam para restauração florestal.</p></blockquote>
<p>Teoricamente, é possível encontrar todo esse espaço apenas nas pastagens subutilizadas.  “Isso aconteceu nos Estados Unidos já nos anos 80.  Mas o Brasil precisaria de 20 anos para entrar num sistema especializado.  Ou vai ter muito incentivo ou não se consegue fazer essa revolução completa”, diz Nassar.</p>
<p><strong>Carbono pra que te quero </strong></p>
<p>Está no mecanismo Redd (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação) a maior oportunidade para financiar a recuperação florestal no Brasil.  Por enquanto, o mecanismo ainda não teve as regras definidas pela Convenção do Clima, mas é uma das poucas expectativas para a próxima reunião das partes, tendo em vista o esperado aumento de demanda por créditos nos Estados Unidos.</p>
<p>Segundo Lisbona, o Brasil já tem 21 milhões de toneladas de créditos de carbono anuais registrados no MDL [3].  No dia da entrevista, a tonelada estava cotada em 14 euros, o que representa R$ 693 milhões.  Na pauta de exportações, esse montante coloca os projetos de carbono em uma posição atrás do suco de laranja e à frente do algodão.</p>
<blockquote><p>[3] Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, criado pela Convenção do Clima, possibilita que países sem compromissos quantitativos no Protocolo de Kyoto reduzam emissões e vendam créditos para os países com metas formais de redução.</p></blockquote>
<p>Ressalte-se que no momento há apenas projetos de energia limpa, área em que o Brasil tem poucas chances de competir com países de matriz mais suja, como China e Índia.  “Hoje, o Brasil ocupa por volta de 7% desse mercado.  Com a entrada em vigor do Redd, poderíamos dominar tranquilamente 30% a 40%”, aposta Lisbona.</p>
<p><a href="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/08/pendura-4.jpg"><img class="alignleft size-large wp-image-8753" title="pendura 4" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2010/08/pendura-4-166x270.jpg" alt="pendura 4" width="166" height="270" /></a>O obstáculo é o critério de adicionalidade.  Pelas regras atuais, um projeto que resulte do mero cumprimento da lei não é elegível para gerar créditos, pouco importando se no caso do Brasil trata-se de letra morta.  Para Lisbona, cabe ao País negociar esses termos.  “Vamos focar no que o Brasil tem potencial competitivo, que é floresta, em lugar de ficar brigando com o Código.”</p>
<p>Uma saída seria integrar o restauro florestal aos compromissos voluntários de redução de emissões, já assumidos nacionalmente e em alguns estados.  Se é voluntário, é elegível.  Assim, os governos poderiam atuar como repassadores desses recursos, poupando os produtores rurais da burocracia altamente especializada.</p>
<p>Roberto Smeraldi propõe ainda que se cobre a responsabilidade dos atores com maior margem de lucro na cadeia agropecuária, notadamente redes de supermercados e frigoríficos.  Ele explica que, na maioria dos estados, o pecuarista é pago apenas pelo peso do boi.  A pele do animal acaba saindo de graça.  “É o negócio dos sonhos.  Eu recebo couro de graça e vendo a peso de ouro para a Gucci fazer bolsas.  Ou recebo o sebo de graça e uso para abastecer meus caminhões com biocombustível.”</p>
<p>A Amigos da Terra propõe que frigoríficos e supermercados não se atenham apenas aos critérios negativos, que excluem da lista de fornecedores aqueles em desconformidade ambiental, mas também adotem políticas de remuneração positiva para premiar os bons exemplos.</p>
<p>Até para os pontos mais polêmicos do Código Florestal há propostas nem tanto ao céu nem tanto à terra.  Para as áreas consolidadas em encostas e várzeas – leia-se frutas, arroz e café – Smeraldi e Nassar sugerem que a lei deveria balizar-se pelas melhores práticas em cada segmento.  Com uso de piquetes e curvas de nível, uma plantação de maçã no morro pode ter benefício ambiental de fixação do solo, e não o contrário.</p>
<p>Esses casos demandariam compensação fora da propriedade e uma das grandes reclamações é que a restrição à microbacia reduz muito a oferta de remanescentes florestais.  São Paulo avançou nesse sentido ao dividir o Estado em apenas duas grandes bacias, a do Atlântico e a do Paraná.  Esta última, que comporta quase toda a agricultura, também representa quase 90% do território, portanto há mais opções.  O Programa Biota, da Secretaria de Meio Ambiente, identificou as áreas prioritárias para conservação e orienta os interessados na compensação.</p>
<p>O cômputo de APP na reserva legal para diminuir o encargo daqueles que iniciarem seus restauros é cada vez mais palatável para ambientalistas.  Jean Paul Metzger, ecólogo do Instituto de Biociências da USP, diz ser indispensável manter as duas áreas, já que ambas apresentam funções ecossistêmicas e diversidades biológicas diferentes, porém igualmente importantes.</p>
<p>No entanto, segundo uma extensa revisão da literatura científica que inclui sua própria pesquisa de campo, Metzger afirma que 30% de remanescente nativo na Mata Atlântica é o mínimo necessário para manutenção da biodiversidade.  Assim, seria aceitável cogitar a soma de APP e reserva legal para os casos em que a área florestal supere 30% da propriedade.  Já para a Amazônia, o percentual razoável é de 50%, preferencialmente 60%.</p>
<p>Ao contrário do que dá a entender a contenda em Brasília, não faltam alternativas para conciliar os interesses do agronegócio e da sustentabilidade ambiental.  Tudo depende da capacidade de ambos os lados dessa questão superarem diferenças históricas e baixarem as armas em favor do diálogo.</p>
<p>________________________________</p>
<p><strong>O tamanho da conta</strong></p>
<p>Estabelecer quanto custa recuperar o passivo ambiental no campo é um desafio à altura de Einstein.  Tudo é relativo.  A técnica para replantar vegetação nativa, e recriar a biodiversidade em um patamar aceitável, ainda não é plenamente dominada.  Os custos dependem do tipo de bioma e das condições de degradação do solo e do entorno.</p>
<p>Há ainda a possibilidade de regeneração natural, que consiste basicamente em cercar a área, dedicar alguma manutenção para controle de pragas e deixar que a natureza se encarregue do resto.  O custo é baixo e pelo menos o Cerrado e a Caatinga têm reconhecida capacidade de regeneração.</p>
<p>O Estudo de Baixo Carbono no Brasil, do Banco Mundial, trabalha com estimativas que vão de R$ 3 mil a R$ 10 mil por hectare na maioria dos casos, podendo chegar a R$ 17 mil na hipótese de uma intervenção severa no solo.  Mas o Código Florestal também abre a possibilidade de compensação em áreas já florestadas fora da propriedade, cujos preços ainda precisam ser definidos por um mercado quase inexistente.</p>
<p>Francisco Maciel, diretor da Bravo Ambiental, promove plantio florestal há mais de dez anos e diz que nunca viu um hectare custar menos de R$ 4 mil.  Para ele, uma média modesta de R$ 5 mil por hectare em todo o Brasil seria “cientificamente inquestionável”.  Daí a conclusão de que o tamanho da conta está na ordem das centenas de bilhões.  Mesmo que se aposte na menor estimativa, de R$ 3 mil, o cômputo final indica R$ 261 bilhões para recuperar áreas desmatadas ilegalmente e regularizar todas as propriedades rurais no Brasil.</p>
<p>_________________________</p>
<p><strong>As peças da discórdia</strong></p>
<p><em>Áreas De Preservação Permanente</em>: são áreas específicas de grande importância ecológica, que têm como função preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem-estar das populações humanas.  Exemplos: mata ciliar, encostas, topos de morro, várzeas.</p>
<p><em>Reserva Legal</em>: são remanescentes genéricos de mata nativa que precisam ser mantidos no interior das propriedades rurais, seguindo percentuais que variam de 20% a 80%, dependendo da região do País.  São necessários ao uso sustentável dos recursos naturais, à reabilitação dos processos ecológicos e à conservação da biodiversidade.</p>
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		<title>Encolheram as vacas</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Aug 2010 16:21:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Pecuaristas dos Estados Unidos têm apostado em um segmento que até pouco tempo não passava do exótico.  As minivacas, que em média não atingem 1 metro de altura, oferecem uma alternativa aos que desejam obter mais carne com espaços reduzidos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pecuaristas dos Estados Unidos têm apostado em um segmento que até pouco tempo não passava do exótico.  As minivacas, que em média não atingem 1 metro de altura, oferecem uma alternativa aos que desejam obter mais carne com espaços reduzidos de pastagem.</p>
<p>Segundo o professor Richard Gradwohl, que cria 18 espécies diferentes desses animais, é possível sustentar dez minivacas em 5 acres (cerca de 2 hectares), porção que comportaria apenas dois animais do tamanho tradicional.  Na prática, isso significaria uma produção de carne três vezes maior, com apenas um terço do volume de alimentação.</p>
<p>Além disso, a carne das minivacas seria mais macia do que a dos tipos maiores, pois elas desenvolvem menos músculos durante seu processo de crescimento.  Os Estados Unidos são um dos maiores consumidores de carne do mundo: mais de 30 quilos por pessoa ao ano.</p>
<p>Gradwohl ainda afirma que, além do maior aproveitamento do espaço, as minivacas ainda ofereceriam outra vantagem relacionada às preocupações ambientais.  Segundo o professor, dez desses animais emitem a mesma quantidade de metano – um dos gases de efeito estufa – do que apenas uma vaca tradicional.</p>
<p>A prática tem despertado as atenções dos pecuaristas principalmente depois de sucessivos aumentos de impostos nos últimos anos, o que tem onerado bastante a produção.  Mas a atividade ainda está no início.  Hoje os Estados Unidos contam com cerca de 20.000 cabeças dessa espécie, fatia ainda pequena quando comparada, por exemplo, ao número total do rebanho brasileiro, com mais de 200 milhões de animais.</p>
<p>Com informações do <em>The Guardian</em>.</p>
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		<title>Desmatamento zero, passo 1</title>
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		<pubDate>Mon, 05 Oct 2009 22:22:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_2825" class="wp-caption alignleft" style="width: 281px"><a rel="attachment wp-att-2825" href="http://pagina22.com.br/index.php/2009/10/desmatamento-zero-passo-1/cow11/"><img class="size-medium wp-image-2825" title="Cow11" src="http://pagina22.com.br/wp-content/uploads/2009/10/Cow11-271x198.jpg" alt="Crédito: Macieklew" width="271" height="198" /></a><p class="wp-caption-text">Crédito: Macieklew</p></div>
<p>Hoje foi assinado o<a href="http://www.greenpeace.org/brasil/documentos/amazonia/criterios-m-nimos-para-opera-2" target="_blank"> compromisso de desmatamento zero</a> por parte dos frigoríficos na Amazônia. Vamos começar logo pela pergunta latente: <strong>o consumidor já pode comprar carne no supermercado sem peso na consciência? Não, ainda não</strong>. Na melhor das hipóteses, só depois de dois anos as empresas serão capazes de dar garantias robustas sobre os produtos que comercializam.</p>
<p>Isso porque o ponto de partida é um total vazio de informações. Com o caos fundiário na Amazônia, os frigoríficos não sabem ao certo quem são seus fornecedores indiretos, muito menos o status socioambiental de cada fazenda. Pra complicar ainda mais, um único animal passa por diversas propriedades antes de chegar ao abate.</p>
<p>Tem fazendeiro que só cria bezerros e depois vende para quem cria o garrote (boi “adolescente”), que depois vende para quem faz a engorda , que finalmente vende o animal para o frigorífico.</p>
<p>Pelos termos do compromisso, Bertin, Marfrig, JBS-Friboi e Minerva terão seis meses para comprovar que nenhum de seus fornecedores diretos (fazendas de engorda) promoveu desmatamento a partir da data de hoje. E mais dois anos para garantir o mesmo quanto aos fornecedores de seus fornecedores, ou seja, toda a cadeia.</p>
<p>Mas as empresas ainda terão três missões, para as quais não há prazo definido: banir de suas cadeias o trabalho escravo e qualquer propriedade que tenha invadido unidades de conservação e terras indígenas. Além disso, estabelecer sistemas de rastreabilidade “confiáveis e internacionalmente aceitos” para garantir a origem de todos os produtos e subprodutos.</p>
<p>Funciona assim: não basta dar selo de garantia para a terra, é preciso garantir o produto. Afinal, boi caminha. Vai saber por quais outras pastagens passou aquele animal, se ele veio de área desmatada ou não. Na edição 34 de Página 22, publicamos uma <a href="http://pagina22.com.br/index.php/2009/09/no-rastro-das-commodities/" target="_blank">reportagem </a>que explica, tecnicamente, como é difícil garantir a idoneidade ambiental da picanha no supermercado sem monitorar os animais.</p>
<p>Depois de assinado o histórico compromisso, a impressão que fica é que fazer o mínimo da lição de casa já foi tão complicado, que as questões mais refinadas ficarão para o futuro. Perguntamos ao Paulo Adário, coordenador do Greenpeace, se a rastreabilidade boi a boi é imprescindível para garantir o desmatamento zero. A resposta:</p>
<p>“É muito importante. Não sei se é imprescindível. Temos que pensar melhor sobre isso”.</p>
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		<title>No rastro das commodities</title>
		<link>http://pagina22.com.br/index.php/2009/09/no-rastro-das-commodities/</link>
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		<pubDate>Sat, 12 Sep 2009 18:10:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
				<category><![CDATA[34]]></category>
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		<description><![CDATA[Ex-vilã número 1 do desmatamento, a soja dá sinais de retração, mas ainda não passou por um teste definitivo.  Quanto à pecuária, não basta monitorar as propriedades rurais.  É preciso rastrear os bois.
Por Carolina Derivi
Organizações não governamentais lançam seus relatórios [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Ex-vilã número 1 do desmatamento, a soja dá sinais de retração, mas ainda não passou por um teste definitivo.  Quanto à pecuária, não basta monitorar as propriedades rurais.  É preciso rastrear os bois.</em></p>
<p>Por Carolina Derivi</p>
<p>Organizações não governamentais lançam seus relatórios de denúncia sobre o agronegócio.  A imprensa repercute.  Grandes compradores, multinacionais e marcas famosas, suspendem fornecedores e declaram uma agenda mínima de providências e compromissos.  Em pauta, um dos principais vetores do desmatamento na Amazônia.  Este é o cenário de 2009, desde que o Greenpeace e os Amigos da Terra denunciaram o avanço da pecuária sobre novas áreas de floresta, provocando uma reação em cadeia que envolveu não só empresas, como governos e Ministério Público.  Mas está longe de ser uma novidade.</p>
<p>A mesma comoção se deu em 2006, também em reação a um relatório do Greenpeace [1], sobre os crimes na cadeia da soja.  E foi bater na Europa, arrancando um embargo de supermercados, fabricantes do setor de alimentos e redes de fast-food, como o McDonald&#8217;s.</p>
<p>Não faz muito tempo, portanto, a soja era apontada como um dos grandes vilões na Amazônia.  Se o ritmo de desmatamento desacelerava, era porque o preço da soja caía, e vice-versa.</p>
<p>Fora dos holofotes, essa cadeia dá sinais de retração, no que diz respeito ao desmatamento, mas ainda não passou por um teste definitivo.  Lembrar essa trajetória, além de ser um exercício importante de fiscalização, ajuda a lançar luz sobre os desafios atuais da pecuária.  Momentos de grande repercussão são estratégicos para firmar novas práticas no agronegócio que ajudem a estancar o desmatamento.  A soja tem lições a oferecer, mas para dar fim à &#8220;farra do boi&#8221; na Amazônia será preciso avançar muito mais.</p>
<p><strong>As origens</strong></p>
<p>A pecuária sempre foi o mais grave vetor de desmatamento, lembra o pesquisador-sênior do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, Paulo Barreto.  Espalhada pelos rincões da floresta, essa atividade não demanda grande infraestrutura e pode ser realizada na base do pioneirismo.</p>
<p>Primeiro, porque o rebanho caminha.  Segundo, porque são raríssimas as fazendas que se dedicam ao ciclo completo, do nascimento do animal até a engorda e o abate, o que demandaria uma estrutura industrial.  Dessa forma, reina na cadeia da pecuária alto índice de informalidade.  Ao contrário da soja, em que a produção se dá em uma única fazenda, e que precisa de canais de escoamento da safra e trânsito de insumos, como fertilizantes.</p>
<p>Assim, o boom da soja ligado ao desmatamento, no começo dos anos 2000, não se deu tanto da maneira típica em que florestas são convertidas em lavouras.  Em lugar disso, a soja avançou sobre antigas pastagens no chamado arco do desmatamento,aproveitando o aquecimento dos mercados e empurrando a pecuária para o centro da Amazônia.  Seria então indiretamente responsável pelos novos desmatamentos causados pela pecuária.</p>
<p>&#8220;Em algum momento houve desmatamento direto.  Mas esses dois vetores, funcionando juntos (soja e pecuária), aumentaram muito a derrubada de 2001 a 2004.  As pessoas começaram a falar &#8217;soja, soja&#8217; porque parecia que a novidade era essa&#8221;, diz Barreto.</p>
<p>A solução, naquele momento, foi a criação da moratória da soja, um plano de ação que acaba de ser renovado até julho do ano que vem.  A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), que respondem em conjunto por 90% da compra de soja em grãos no Brasil, prometeram não comprar mais a produção de áreas onde se constatassem novos desmatamentos.  Trata-se de um compromisso essencialmente igual ao que hoje firmam frigoríficos da Amazônia e grandes redes de supermercado.</p>
<p>Os resultados dos primeiros dois anos de monitoramento parecem confirmar a efetividade da moratória.  No período entre 2006 e 2007, não foi constatada presença e soja em nenhuma nova área desmatada.  No período seguinte (2007-2008), apenas 12 dos 630 polígonos visitados em campo tinham soja e foram devidamente embargados, segundo Fabio Trigueirinho, secretário da Abiove.</p>
<p>Mas o monitoramento é limitado, já que se concentra nos municípios em que a soja está amplamente instalada, com mais de 5 mil hectares de área plantada, e apenas nos polígonos com mais de 100 hectares, área tida como mínima para a rentabilidade dessa cultura.</p>
<p>Raquel de Carvalho, campaigner do Greenpeace, reconhece que o sistema precisa ser revisto e que as características do desflorestamento provocado pela soja podem estar mudando, assim como do desmatamento em geral &#8211; dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelam que as áreas desmatadas estão se tornando menores e mais espalhadas.</p>
<p>&#8220;Só dentro dos municípios que foram alvo (do monitoramento) a gente está falando de 8.030 polígonos com menos de 100 hectares.  É impossível sobrevoar isso tudo.  A gente vai ter que começar a dar mais ênfase aos dados orbitais (imagens de satélite)&#8221;, diz Raquel.</p>
<p>Para Karin Kaechele, coordenadora-adjunta do Instituto Centro de Vida (ICV), ONG ambientalista de Mato Grosso, a cadeia da soja ainda não está sob controle: &#8220;Pelo nosso ponto de vista, a soja tem crescido em Mato Grosso.Tem que ficar de olho&#8221;.  Ela informa que as negociações da mesa-redonda da soja, iniciativa que busca estabelecer princípios e critérios para certificação socioambiental da cadeia, não estão indo muito bem.</p>
<p>As ONGs defendiam desmatamento zero, o que foi recusado pelos produtores.  Então, elas propuseram que o critério se aplicasse ao menos às Áreas de Alto Valor para Conservação, e, segundo Karin, os produtores de soja de Mato Grosso se retiraram.</p>
<p>De acordo com Roberto Smeraldi, diretor da Amigos da Terra &#8211; Amazônia Brasileira, a moratória é um instrumento importante, mas limita-se &#8220;ao que há de pior&#8221; na Amazônia e cumpre mais uma função educativa.  Ele acredita que os fatores que suavizaram o papel da soja no desmatamento são principalmente econômicos: &#8220;Os grãos em geral não estão naquela fase de pico de preço, como em 2002 e 2003.  Não é que o mercado hoje esteja baixíssimo, mas não tem mais uma grande pressão para expansão de área&#8221;.</p>
<p>Analisar a série histórica de preço da soja na Bolsa de Mercadorias &amp; Futuros (BM&amp;FBovespa) é dar razão às ONGs.  O aquecimento dos mercados, que fez com que a saca de soja passasse dos R$ 17 em março de 2001 para mais de R$ 50 em março de 2004, acompanha a evolução do desmatamento.  No entanto, a performance do setor em 2009 pode ser a chave para confirmar ou rechaçar o novo desempenho ambiental na Amazônia.  Isso porque, apesar da crise econômica e da escalada mais lenta, os preços da soja este ano alcançam os mesmos níveis negociados em 2004, quando o desmatamento atingiu mais de 27 mil quilômetros quadrados, a segunda maior marca da história.</p>
<p>Ao mesmo tempo, o Ministério do Meio Ambiente aposta que o desmatamento em 2009 será o mais baixo dos últimos 20 anos.</p>
<p>Seria a primeira vez que a correlação &#8220;preço da soja e desmatamento&#8221;não se confirmaria, mas o resultado definitivo virá apenas em 2010, quando o Inpe divulgar os dados do sistema Prodes relativos ao período.</p>
<p>Muito mais complexa que a cadeia da soja, a pecuária na Amazônia tem, por outro lado, a oportunidade de avançar em garantias que a soja possivelmente nunca terá.  Trata-se da rastreabilidade, mecanismo que identifica e monitora cada animal e as propriedades pelas quais passa ao longo da vida.</p>
<p>Os desafios são a escolha da tecnologia &#8211; há desde a tradicional marca de ferro em brasa até chips subcutâneos &#8211; e a forma como os altos custos serão distribuídos pela cadeia, já que pequenos criadores podem ter mais dificuldade em aderir.</p>
<p>Segundo Rodrigo Lima, do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), a maneira como os grãos de soja são transportados &#8211; soltos, não em sacas &#8211; cria um impedimento logístico.  &#8220;Uma das grandes discussões para identificação da soja transgênica foi exatamente essa dificuldade de rastrear.  Tem navio que troca de carga com outro no meio do oceano&#8221;, diz Lima.</p>
<p>Já para os bois, esse problema não existe.  E a importância de rastrear está na dinâmica da cadeia da pecuária.  O próprio Greenpeace descreve no relatório A farra do boi como os frigoríficos da Amazônia &#8220;esquentam&#8221; a carne e o couro processados em municípios do Sul e do Sudeste, de forma a ocultar sua origem ilegal.  Sem a rastreabilidade, nada impede que o gado do desmatamento seja &#8220;esquentado&#8221; em fazendas com cadastro e licença ambientais.</p>
<p>Até agora, o compromisso firmado pelas redes de supermercado e pelos frigoríficos Bertin e Marfrig envolve mapea e monitorar todos os seus fornecedores diretos, que devem cumprir o Código Florestal e fornecer imagens de satélite que serão comparadas com as imagens do desmatamento ano a ano.</p>
<p>&#8220;Esse compromisso não garante totalmente, boi a boi.  Só com rastreabilidade, que é ext remament e importante.  É algo que eles vão implementar, mas, se formos esperar a rastreabilidade para fazer um compromisso de desmatamento zero, só vai começar o processo daqui a uns dez anos&#8221;, diz Marcio Astrini, do Greenpeace.</p>
<p>Talvez não demore tanto.  Em audiência sobre o tema na Câmara dos Deputados, em Brasília, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, afirmou que o Pará deve implantar um sistema em até seis meses.  O BNDES aprovou novas diretrizes para o financiamento de frigoríficos, o que inclui adesão à rastreabilidade de bovinos a partir de 2010.</p>
<p>Para Smeraldi, se há uma lição na trajetória da soja para a pecuária, é que, apesar de as medidas pontuais em cada cadeia serem necessárias, dificilmente se vai conseguir resolver o problema do uso da terra com base em um único processo produtivo.  &#8220;Tem sempre a história do vazamento.  Se eu não posso criar boi, vou fazer outra coisa&#8221;, diz.</p>
<p>Tudo indica que, enquanto a economia da Amazônia basear-se somente em commodities, as motivações para o desmatamento não deixarão de existir.</p>
<p>&#8220;Todas as experiências que a gente conhece de uso da biodiversidade local seriam muito mais interessantes economicamente, porque têm mais capacidade de gerar renda&#8221;, diz Reginaldo Magalhães, da International Finance Corporation (IFC).</p>
<p>Mas, para isso, falta tudo.  Segundo Magalhães, faltam mercados estruturados, capacitação em modos de produção e de gestão, linhas de crédito específicas para produtos da biodiversidade, e ainda muito know-how e tecnologia por serem gerados.  Se há em algum lugar uma nova economia verde, ela ainda não encontrou a Amazônia.</p>
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		<title>Nosso etanol é sustentável?</title>
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		<pubDate>Sat, 01 Aug 2009 20:32:14 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Para abordar a questão levantada no título, precisamos examinar três perguntas. O que é ser sustentável? A que distância está o etanol dessa condição? O que faremos para chegar lá?  Nenhum produto ou empresa pode sustentar-se isoladamente. É preciso que sua cadeia de valor se sustente. Por sua vez, a cadeia de valor depende da sociedade. E a sociedade, de quem depende? Dos sistemas naturais. Já que tudo está interligado, ser sustentável no caso do etanol é contribuir com a sociedade, ajudando-a a respeitar as regras do jogo do planeta. Se o uso do combustível de cana nos ajudar, que se fortaleça cada vez mais.</p>
<p>Além de viável economicamente, nosso etanol é menos poluente, pode ser produzido com razoável preservação da biodiversidade e até, em alguma medida, provir da agricultura familiar &#8211; temos exemplos no Brasil.  E a questão da segurança alimentar?  Vejamos alguns números: os canaviais ocupam o equivalente a 1% da área das propriedades rurais, 2,3% das áreas de pastagem, 5% da área cultivada nacional e 0,5% da superfície total do País.</p>
<p>Considerando a subutilização das áreas agrícolas, há ainda bastante espaço para crescer sem afetar a disponibilidade de alimento. E o desmatamento?  Pelos mesmos números, vemos que o etanol pode aumentar muito apenas em áreas agrícolas subutilizadas, sem avançar sobre a mata.</p>
<p>E como saberemos a que distância da sustentabilidade está nossa produção de etanol?  Para responder a esta segunda pergunta, precisamos de sistemas de certificação que identifiquem o que ocorre nos sistemas produtivos. Apesar da superioridade do álcool de cana-de-açúcar em relação ao de outras culturas, a postura dos produtores não é homogênea. Há fazendas ecologicamente tão ajustadas que chegam a atrair e abrigar animais ameaçados. Mas não são muitas.</p>
<p>Algumas usinas preparam os funcionários para a crescente mecanização. Outras, porém, nem os registram.  Há ainda as denúncias de trabalho análogo ao de escravo que continuam a surgir em diversos setores do agronegócio e incluem o de etanol.</p>
<p>Alguns produtores mantêm áreas de reserva e preservação, respeitando a lei. Outros a combatem. A redução ou mesmo a eliminação do uso de agrotóxicos ocorre, mas não é regra.  Em resumo, para o consumidor saber o que está comprando só há uma solução: conhecer a origem do produto.  A melhor forma de fazê-lo?  Exigindo certificado.</p>
<p>Vários institutos de pesquisa, empresas privadas, mesas-redondas e governos vêm se envolvendo na qualificação da produção de etanol. Os critérios da mesa-redonda organizada pela Escola Politécnica Federal de Lausanne, por exemplo, abrangem os biocombustíveis de forma genérica e, com isso, contemplam o etanol.</p>
<p>Os critérios Better Sugar Cane Initiative (BSI), com uma boa diversidade de participantes, tratam da cana-de- açúcar. A organização não governamental Rainforest Alliance estabeleceu critérios para o tema, definidos com muito cuidado. O Inmetro também tem desenvolvido um sistema com a participação de especialistas renomados. Quanto ao benefício climático do etanol brasileiro, o professor Isaias Macedo, do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe), da Unicamp, mostrou que é inigualável.  Além disso, algumas iniciativas empresariais trazem transparência a esse mercado. Entre os muitos critérios já existentes ou por nascer, ainda não se sabe qual será adotado de forma ampla.</p>
<p>Mas algum deles nos ajudará a conhecer a distância que separa a produção de etanol da sustentabilidade, caso a caso.</p>
<p>Como estamos falando em soluções, vamos à terceira pergunta: qual a estratégia para chegar à sustentabilidade?  Vejamos três pontos importantes: para que os sistemas de certificação sejam de fato aplicados, o fator fundamental é a demanda.  É preciso que os compradores exerçam a responsabilidade de procurar etanol de acordo com certas características, sob os pontos de vista de qualidade do produto e da produção.</p>
<p>Quanto mais diversas as partes envolvidas na definição dos critérios para atestar a qualidade, tanto melhor. Para oferecer seus benefícios às prementes questões de energia e clima, o etanol precisa ser usado de forma ampla. Ou seja, tornar-se uma commodity global.</p>
<p>Além disso, um mercado internacional grande e sustentado beneficiaria o Brasil, que exportaria mais etanol e tecnologia. Se ajudasse, portanto, países da África e da América Latina a produzir o álcool com critérios de sustentabilidade, o Brasil estrategicamente ajudaria a si mesmo.  Ao mesmo tempo, alguns dos povos mais sofridos do mundo teriam grande oportunidade de melhorar suas condições econômicas e de vida.  O clima do planeta agradeceria.</p>
<p>Os europeus questionam a sustentabilidade do nosso etanol, aparentemente tentando defender o produtor local, cujos custos são muito altos. Os suecos, porém, sugerem uma estratégia tributária interessante para resolver o impasse: manter os impostos de importação quando o etanol brasileiro servir à mistura obrigatória na gasolina, mas eliminá-los quando abastecer carros flex.  Dessa forma, o produtor europeu teria proteção em uma grande fatia do mercado e o produtor brasileiro, por sua vez, teria isenção tarifária para atender o mercado em outra fatia que tende a crescer muito: o de automóveis bicombustíveis na Europa.</p>
<p>Essa divisão tornaria o debate técnico, pois as questões de proteção de mercado seriam tratadas no âmbito tributário. Responder às três perguntas do primeiro parágrafo é fundamental.  As respostas serão sempre complexas, multifacetadas e multidisciplinares. O Brasil pode destacar-se ainda mais como potência na produção, uso e exportação de etanol, mas precisa encarar a sustentabilidade de frente, com coragem.</p>
<p>*Leciona no MBA de Gestão da Sustentabilidade da FGV e é sócio-diretor da consultoria Eternare</p>
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		<title>A fome dos grandes</title>
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		<pubDate>Thu, 01 May 2008 20:06:12 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Representante dos produtores de açúcar e álcool, Marcos Jank está no olho do furacão do debate sobre a influência dos biocombustíveis no encarecimento mundial de alimentos. No dia em que recebeu PÁGINA 22 na sede da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), da qual é presidente, eram anunciadas duas grandes operações no setor, que projeta para 2008/2009 a maior safra de todos os tempos. Suas declarações evidenciam o jogo de forças entre pesos pesados da economia e a disputa para abocanhar as maiores fatias. A seu ver, o bombardeio à agroenergia parte de lobbies contrários, como o dos combustíveis fósseis, de parcela da indústria auto- FOTO: BRUNO BERNARDimobilística e da alimentícia. Por isso, Jank aceita a cobrança pela sustentabilidade do etanol, mas desde que feita também ao setor petrolífero e às demais culturas agrícolas. Enquanto defende na produção da cana as melhores práticas socioambientais, é a favor do uso dos controversos transgênicos e da ocupação do Cerrado. Ex-presidente do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais, considera a inflação dos alimentos resultado do descompasso momentâneo entre a oferta, prejudicada por fenômenos climáticos, e a demanda, impulsionada por países emergentes, além da alta dos insumos agrícolas oriundos do petróleo.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Amália Safatle<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;"><span style="white-space: pre;"> </span>Versão</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">em PDF</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Acabam de ser anunciadas duas grandes operações no mercado alcooleiro.  O que significa esse movimento? É a primeira vez que uma petroleira no mundo compra uma usina e a primeira vez que uma usina compra uma distribuidora.  A British Petroleum (BP) entrou no mercado brasileiro de biocombustíveis, ao comprar 50% da Tropical, usina do grupo Biaggi, e o Grupo Cosan comprou a operação brasileira da Esso, composta de 1.500 postos.  Apesar das críticas ao álcool, há um movimento empresarial.  De um lado, as grandes empresas de petróleo interessadas em conhecer o setor de álcool de perto e a tentativa de ingressar nele – o que é muito bom, porque a BP tem enorme poder de influência, sobretudo no mercado inglês.  E, de outro lado, a Cosan.  Quando se anunciou a venda da Esso e, hoje, se anuncia a venda Texaco, sempre achamos que o setor alcooleiro tinha de entrar nisso.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Ainda não foi fechada a venda da Texaco?  Não, a Petrobras havia manifestado interesse em comprar a Esso e a Texaco, e para nós seria muito ruim ver uma concentração na mão da Petrobras, que já tem mais 40% da distribuição de combustível.  Então, o fato de uma grande empresa do nosso setor entrar em distribuição é uma mudança importante.  Aqui dentro se fala que o setor deveria se aproximar mais do consumidor, não ficar vendendo álcool na porteira, mas também entrar em distribuição.  O que acontece, então, é um maior domínio da cadeia produtiva.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Essas operações indicam o fortalecimento do setor de biocombustíveis?  Digamos que é uma estratégia de uma grande empresa do setor.  Não dá pra dizer ainda que isso vá se repetir em larga escala.  Mas a Cosan, além do tamanho que já tinha, dá um salto na cadeia produtiva.  As duas operações foram anunciadas hoje, mas não têm nada a ver uma com a outra.  Nós ainda teremos de refletir sobre isso, e neste momento é difícil dar uma declaração, porque não se sabe se isso é ou não um movimento isolado.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Pelo menos hoje esses anúncios tiram o foco da discussão dos biocombustíveis versus oferta de alimentos? Não sei se vai tirar, porque a discussão dos alimentos nasceu de uma decisão relativamente equivocada dos EUA e da Europa de fazer biocombustíveis em larga escala de matérias-primas agrícolas centrais nas suas cadeias produtivas.  O fato de os americanos usarem grandes quantidades de milho para fazer álcool e os europeus grandes quantidades de canola para o biodiesel teria gerado uma pressão que estaria puxando o preço dos alimentos, o que não é verdade.  O que realmente está puxando é a demanda asiática, problemas de oferta no mundo e o custo do petróleo na produção agrícola.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Estas são as verdadeiras razões, a seu ver? Sim.  A influência (dos biocombustíveis na alta dos alimentos) nos EUA existe em relação ao milho, e pode ser totalmente superada se for aumentada a produtividade.  E no Brasil essa influência não existe.  O País aumentou muito sua produção de álcool, ao mesmo tempo que a de soja, milho, algodão, carne, leite, café, fumo.  E se tornou um dos maiores produtores do mundo de alimentos, de rações, de fibras e de agroenergia.  Isso graças ao aumento da produtividade.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Mesmo com toda a perspectiva de uma demanda crescente por agroenergia, não o existe risco de futuramente afetar a oferta de alimentos? Nós já substituímos 50% da gasolina no Brasil por etanol, usando apenas 1% da área agricultável.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Essa área agricultável inclui vegetação nativa?  Não.  Estou excluindo 60% de florestas, Pantanal, biomas sensíveis.  Sobram 40%.  Desses 40%, estamos usando 1% para fazer etanol de cana.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Mas existe uma demanda crescente para exportação, não?  Sim, mas é muito incipiente ainda.  Porque o mercado não existe no mundo.  O que existe é o mercado brasileiro de carros flex, mistura de álcool nos motores a gasolina (leia reportagem sobre indústria automobilística à pág.  40).  Não faz sentido pegar uma coisa no Brasil que ocupa 7 milhões de hectares de cana, sendo 3,5 milhões para fazer álcool, e dizer que isso tem algum problema num país com 340 milhões de hectares agricultáveis, e dentro de um mundo que tem potencial gigantesco para fazer agroenergia na África, na Ásia, na América Central, na América do Sul.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Podemos incluir a questão dos subsídios agrícolas à alta de preços dos alimentos? Não.  Hoje há 20 países no mundo que abastecem 200 com combustível fóssil.  Com os agrocombustíveis, poderia ter 100 países produtores.  É bem mais democrático e pode beneficiar os países em desenvolvimento.  Depois tem a discussão sobre o protecionismo.  O que é imoral não é alocar uma pequena quantidade de matéria-prima agrícola para fazer biocombustíveis, e sim o mundo rico gastar bilhões de dólares para produzir artificialmente (com subsídios) produtos que têm um custo muito maior do que teriam nos países em desenvolvimento.  É uma questão importante, mas não diria que está ligada à inflação neste momento.  Essa inflação decorre do problema de oferta e demanda.  Oferta problemática, em razão de secas, safras agrícolas baixas, demanda acelerada e uma questão de custo.  Alguns itens para produção de alimentos, como óleo diesel e fertilizantes, tiveram aumentos brutais nos últimos tempos, por causa do petróleo.  É curioso as pessoas falarem mal de biocombustíveis, que equivale a 1% do consumo de produtos fósseis, e não falar dos outros 99%.  O fato de o petróleo ter passado de US$ 30 para US$ 120 não tem merecido da mídia uma atenção como os biocombustíveis.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por quê?  Trata-se de uma perseguição? Perseguição não é bem a palavra.  No momento em que os produtos agrícolas deixam o mundo dos alimentos, e começam a entrar no da energia, encontram forças muito poderosas, como as do mundo petrolífero e algumas empresas automobilísticas – a resistência ao álcool na Europa em parte vem da indústria que investiu em carros a diesel.  E também um ator importante, que tem feito lobby contrário, é a indústria alimentar.  O grande erro é colocar tudo na mesma sacola, em vez de pontuar e dizer: realmente há um problema nos EUA, mas não há com o álcool da cana.  Os preços de açúcar e álcool estão, inclusive, muito baixos.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Outro fator apontado para a alta dos preços é a especulação no mercado financeiro em torno das commodities agrícolas.  Fundos hedge (especulativos) e até pequenos investidores estariam contribuindo para inflar preços.  O senhor concorda? É preciso ver, hoje, o que são razões estruturais e razões conjunturais.  Estruturalmente, há o problema de demanda e oferta, que vai ser resolvido com o tempo e é localizado.  O papel dos hedge funds tem sido qual?  São fundos que ficam migrando atrás de possibilidades de lucro.E, de repente, quando o mercado financeiro está complicado – e tem estado por conta da crise americana –, o pessoal fala: “Vamos investir um pedacinho disso em commodities” (leia reportagem de capa sobre os mercados à pág.16). Isso causa uma volatilidade maior, pois é um capital altamente especulativo.  Acaba transformando uma alta de preços em uma alta muito maior, ou uma baixa em uma baixa muito maior, amplificando o sobe-e-desce.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Isso acaba afetando a economia real, a vida produtor e do consumidor. E o produtor não ganha nada com isso.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Em um artigo recente, o jornalista Paul Krugman cita essas mesmas razões de oferta e demanda, mas acrescenta outra, a da escassez dos recursos naturais e os limites físicos do planeta, e a conseqüente dificuldade de atender a toda a demanda crescente de alimentos e energia.  O senhor concorda com isso? Não.  Desde quando era professor na USP, sempre fuimuito crítico da visão neomalthusiana.  A história da agricultura no último século é uma história de imenso ganho de produtividade.  A população rural, que no começo do século passado era 50% da total, está se tornando 10%.  Quem fica no campo está aumentando imensamente a produtividade, inclusive na Ásia, na América Latina.  A industrialização aconteceu no campo também.  O que se tem visto no mundo, no último século, é uma redução brutal no preço dos alimentos.  Hoje é muito mais fácil produzir alimentos do que há um século.  Essa visão malthusiana, de que faltará comida, é um desconhecimento do processo de mudança tecnológica.  Na cana, hoje, estamos produzindo 7 mil litros de álcool por hectare.  Quando o Proálcool começou, eram 3 mil litros.  Há nos laboratórios brasileiros – no Centro de Tecnologia Canavieira, na Embrapa etc. – variedades de cana e técnicas de produção de álcool de segunda geração que podem elevar a produtividade para 14 mil litros por hectare.  Podemos dobrar em uma década, sem contar toda a revolução de energia elétrica que está vindo aí, no uso do bagaço e da palha, antes subprodutos jogados fora.  Essa transformação da cana de uma cultura alimentícia clássica – da cana-de-açúcar para a cana de etanol e de bioeletricidade – é um dos maiores exemplos no mundo de como se consegue, pela tecnologia, mudar paradigmas.  A cana é cada vez mais energética.  No Brasil houve ganhos de produtividade nos últimos 15 anos que nenhum país teve.  E isso pode acontecer na América do Sul, na África e na Ásia.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O que há, então, é um desajuste momentâneo? Sim.  Existe uma questão global: o mundo vai precisar comer muito mais, e vai precisar de muito mais energia.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">E o quanto isso é sustentável? A saída para isso é a tecnologia, para que a produção seja sustentável econômica, social e ambientalmente.  Ou seja, você pode aumentar a produtividade de alimentos, rações, fibra e energia, sem precisar desmatar.  Isso a agronomia nos ensina há muitas décadas e é isso que temos de praticar daqui pra frente.  Há muito tempo a gente devia estar praticando isso, mas hoje há essa fronteira, que é a do aumento da produtividade.  Não é mais a fronteira da área plantada, como foi no passado.  Por exemplo, na Amazônia, há 40 anos, o que o regime militar dizia é que precisava ocupar a Amazônia.  Hoje, o que a sociedade quer é preservar a Amazônia.  Com isso, abrimos mão de 50% do território brasileiro.  Mas nos outros 50% podemos perfeitamente ter uma agricultura de alta produtividade que gere mais alimentos, melhores e mais baratos, mais fibra, mais rações, mais energia.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Mas na prática, quando se tem a possibilidade de ocupar uma área virgem, o produtor não vai preferir ocupá-la em vez de buscar uma área degradada, que exige custos para recuperação?  Não é isso que acontece?Por que a mídia assume que a expansão da cana vai se dar em floresta?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Não digo especificamente a cana, mas a produção agropecuária como um todo. Vamos olhar os números.Você tem 3,5 milhões de hectares para fazer álcool e outros 3,5 milhões para fazer açúcar.  Aí tem 13 milhões de hectares de milho e 23 milhões de hectares de soja.  E 220 milhões de hectares de pastagem.  A pastagem, comparada com a cana, é 60 vezes maior.  Você precisa ir para a Amazônia?  Não.  Por que as usinas não estão indo para a Amazônia?  Estão indo para o Oeste de São Paulo, para o Triângulo Mineiro.  Por quê?  Porque lá tem áreas de pastagem degradada, onde há 0,7 ou 0,8 cabeças de boi por hectare.  E você tem logística, tem tudo aqui.  O que há no Brasil é uma monocultura de pasto.  A ocupação do Centro-Oeste foi feita em cima de pasto e soja.  Hoje há naquela região uma diversificação do modelo pastosoja para pecuária de corte, pecuária de leite, suínos, aves, soja, milho, algodão, arroz, café, cana.  Tudo isso acontecendo em um processo de integração em uma das grandes fronteiras tecnológicas do mundo, com uso de terras de maneira mais intensiva, eficiente, com técnicas conservacionistas incríveis, como a do plantio direto.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Então, por que a taxa de desmatamento no Cerrado hoje é de 22 mil quilômetros quadrados por ano?  Se não tivéssemos um pé de cana no Brasil, estaríamos desmatando a Amazônia.  A idéia de que a cana e a soja empurram a pastagem para cima não é verdade.  As causas do desmatamento são basicamente duas: a falta de direito de propriedade e a falta de fiscalização.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Mas no Cerrado o problema não é esse.  Vamos começar pela Amazônia. Lá, para você se instalar, deveria ocupar apenas 20% da área das propriedades.Quando se ocupa mais que isso, está-se quebrando a lei.  E, fora isso, mais de 75% das áreas da Amazônia não têm título, são terras do Estado, ou devolutas – há muitas décadas um convite para grileiros e posseiros.  Se não mexer nisso, não se vai interromper esse processo.  Porque esse desmatamento se dá com a grilagem, a ocupação e o madeireiro ilegal.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Mas não se pode dizer que não tem usinas de cana na Amazônia, ainda que em escala pequena.  Tem três usinas lá, que foram criadas naquela política de 40 anos atrás, quando a regra era ocupar.  Um caso simbólico é a usina ao norte de Manaus, da Coca-Cola, que foicriada para a empresa se instalar na cidade, pois a regra estabelecia que o açúcar usado na fabricação precisava ser produzido na região.  Então a Coca-Cola recebeu incentivo para instalar sua usina lá.  Tem cabimento isso no mundo de hoje?  Não.  Nem tinha naquela época, era até muito mais barato levar açúcar do Sul para lá.  Mas se fez a usina.  Isso é economicamente viável?  Tenho minhas dúvidas.  Numa região que tem dez meses de chuva por ano, que não tem logística, se não tiver incentivos, não vai ser vantajoso.  A cana é perecível, precisa ser transportada rapidamente.  Por isso o pessoal que está indo hoje para Goiás está desesperado para ter um alcoolduto.  Então, não consigo enxergar essa necessidade. É até uma contradição você imaginar que um produto que é ambientalmente correto vá se desenvolver em cima de desmatamento.  Então, onde a cana está crescendo?  Basicamente em cima de áreas de pastagem de baixa produtividade. É isso que os dados de satélite mostram.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Especiais)?  Do Inpe, do Canasat (Mapeamento da cana via imagens de satélite), o que você quiser pegar.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Mas e o desmatamento no Cerrado?  No Cerrado, a ocupação da cana se dá basicamente em áreas que já tinham sido desmatadas.  O agente do desmatamento foi a pastagem.  Mas o Cerrado tem de ser preservado em sua íntegra? O que a legislação determina é que, em um tipo de Cerrado, é preciso manter 20% da cobertura vegetal e, em outro, 35%.  Essa é uma das leis ambientais mais rígidas do mundo, a reserva legal.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Que não é respeitada, em grande parte.  Que é respeitada, sim, em muitos estados.  Em algumas regiões, há problemas. Mas se um produtor hoje compra uma terra no Centro-Oeste, vai ter de passar por “n” processos para aprovar o uso dessa terra para agricultura.  Jamais conseguirá derrubar tudo.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Só que isso depende de haver fiscalização.  Depende, mas a fiscalização tem sido crescente no Cerrado.  Nos projetos empresariais que tenho visto, as dificuldades para se implantar uma atividade agrícola é grande.  A sociedade tem que dar esse direito de usar essa região. O desenvolvimento de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e outros estados está muito ligado ao agronegócio.  Então, se você mantiver as áreas de proteção permanente em ordem, a reserva legal, se fizer um uso racional de água, de agroquímicos, eu não vejo por que não usar essas áreas.  A ocupação dentro da legislação brasileira hoje é uma ocupação necessária para o Brasil e o mundo.  A lei brasileira é bastante avançada nessa área da ocupação agrícola.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O senhor afirma que a sustentabilidade é um dos temas que mais têm recebido atenção da Unica atualmente.  Por quê?  Por uma questão estratégica? O tempo na Unica tem sido usado de maneira crescente com o tema da sustentabilidade ambiental e social. Isso está ligado a toda a questão da energia.  Quando você passa a utilizar a cana para fazer combustível, ou eletricidade, tem que discutir emissões, mudanças climáticas, uso de água, vinhaça (subproduto poluente do álcool), agroquímicos, transgênicos… Colocou-se uma posição no Brasil historicamente contra transgênicos. Uma forma de se evitar a expansão horizontal da agricultura é aumentar a produtividade.  Desde que sejam seguros ambientalmente e como alimentos, é uma tecnologia que não se pode ignorar, até para combater a fome no mundo.  Esse debate precisa ser conduzido por cientistas, por especialistas em biossegurança, e não carregados de ideologia.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">É que existe o princípio da precaução, segundo o qual, quando se desconhecem os riscos, não se pode avançar.  Mas tudo no mundo é precaução, você sempre lida com risco.  Os americanos invadiram o Iraque usando o princípio da precaução. Mas não são conhecidos exatamente os efeitos a longo prazo dos transgênicos no ambiente.  Vamos pegar o exemplo da soja transgênica.  Essa que se planta no País, que demorou tanto tempo para ser aprovada, é uma variedade usada no mundo inteiro.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A soja não tem risco tão alto de contaminação, porque não tem o pólen, como o milho.  Certo.  Então, você poderia ter uma cana transgênica para fazer álcool.  E ninguém até agora conseguiu fazer, não foi liberado.  Tenho tido esse debate sobre biossegurança com ONGs, e algumas entendem isso, que se pode reduzir o uso de agroquímicos, de expansão horizontal, produzir alimentos em regiões áridas.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A Unica diz que sua missão é liderar o processo de transformação do tradicional setor de cana em uma moderna agroindústria capaz de competir de modo sustentável.  O quanto os agentes produtivos estão preparados para isso?  O quanto entendem o conceito da sustentabilidade?  A sociedade hoje está mais consciente do tema da sustentabilidade, em todos os níveis, e a produção agrícola também.  A própria Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), que era uma escola de agronomia, hoje tem gestão ambiental.  É claro que o setor da cana, como todo setor, é muito heterogêneo.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">E muito tradicional, não é?  É, mas também de muita vanguarda.  Ao mesmo tempo que a cana chegou aqui em 1532 com os portugueses, hoje é uma fronteira de energia produzida por plantas que o mundo começou a buscar.  A Europa está fazendo álcool, os EUA estão fazendo álcool.  O que o Brasil fez nos últimos 35 anos hoje é observado pelo resto do mundo.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O quanto um selo socioambiental é decisivo para as exportações de etanol e o quanto está próximo de acontecer? A certificação é uma exigência cada vez mais forte, do exterior, do governo brasileiro, da sociedade.  Ela vai existir.  O que queremos é que seja feita sobre todas as plantas, e não só sobre a cana.  E que se discuta também a sustentabilidade do combustível fóssil.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Para a cobrança não ficar desigual, é isso?  É isso.  A Unica hoje está se engajando em todas as frentes que discutem sustentabilidade.  Estamos, por exemplo, entrando para a Better Sugar Cane Initiative, iniciativa global para melhores padrões de produção de cana.  Já estamos conversando com ONGs aqui dentro e lá fora.  No ano passado fizemos o protocolo do fim da queima da cana e estamos antecipando o fim da queima muito rapidamente.  É o típico assunto que beneficia o lado ambiental, mas causa desemprego (entre os cortadores de cana, pois a colheita torna-se mecanizada).</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Já se sabe o que vai ser feito para gerar empregos depois da diminuição da queima da cana na colheita?  Estamos discutindo isso com trabalhadores e o próprio governo.  Este ano será de um grande debate nacional sobre o sistema trabalhista do setor sucroalcooleiro.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Que tem problemas, e há várias denúncias sobre trabalho degradante.  É, tem várias denúncias sobre trabalho degradante.  Agora, acho que precisa haver uma clarificação do que é trabalho degradante, porque a lei brasileira é fluida nesse assunto.  E tem de haver realmente um processo de combate e eliminação desses problemas, que são exceções, não regras.  O que nos preocupa é que as pessoas pegam casos isolados e transformam em regra.  É importante verificar os avanços que houve.  Nós estamos hoje conversando com trabalhadores colhedores de cana sobre dez itens que serão introduzidos acima do que a lei brasileira prevê.  Em São Paulo, estamos eliminando o “gato”, que é o agenciador de mão-de-obra.  As empresas associadas à Unica estão com 100% de carteira assinada, mas alguns fornecedores não estão.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">E quanto à participação do pequeno produtor no setor?  O professor Ignacy Sachs aponta a pequena agricultura da biomassa como uma saída de inclusão social, enquanto o professor José Goldemberg afirma que a produção de etanol só é viável em larga escala.  Hoje há 400 usinas e 70 mil fornecedores no País, quase todos pequenos e médios.  A presença do pequeno produtor já é real.  É um equívoco imaginar que a cana é atividade de grande produtor.  Você tem, de fato, cana própria em grandes usinas, mas também uma grande rede de pequenos.  Todas as commodities têm essa questão da escala.  Agora, a escala não quer dizer que é uma firma única.  Pode-se ter uma usina supereficiente, com 30% de cana própria, e 70% de cana contratada de pequenos e médios fornecedores.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O balanço de emissões do etanol de cana em relação ao petróleo é bem favorável à cana.  Mas, considerando a queima da cana, que hoje ainda é de 53% do total colhido, mais a do combustível nos automóveis e a de combustível fóssil por máquinas agrícolas e no transporte para as distribuidoras, qual é o balanço das emissões do etanol?  Já foi estimado?  Já, e a metodologia do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), que usa análise do ciclo de vida, considera tudo isso.  De fato, existem essas emissões, mas a cana absorve grande quantidade de CO2, e o balanço é de 90% de redução em comparação à gasolina.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Isso se a cana não tiver causado desmatamento?  Sim.</div>
<div>Representante dos produtores de açúcar e álcool, Marcos Jank está no olho do furacão do debate sobre a influência dos biocombustíveis no encarecimento mundial de alimentos. No dia em que recebeu PÁGINA 22 na sede da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), da qual é presidente, eram anunciadas duas grandes operações no setor, que projeta para 2008/2009 a maior safra de todos os tempos. Suas declarações evidenciam o jogo de forças entre pesos pesados da economia e a disputa para abocanhar as maiores fatias. A seu ver, o bombardeio à agroenergia parte de lobbies contrários, como o dos combustíveis fósseis, de parcela da indústria auto- FOTO: BRUNO BERNARDimobilística e da alimentícia. Por isso, Jank aceita a cobrança pela sustentabilidade do etanol, mas desde que feita também ao setor petrolífero e às demais culturas agrícolas. Enquanto defende na produção da cana as melhores práticas socioambientais, é a favor do uso dos controversos transgênicos e da ocupação do Cerrado. Ex-presidente do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais, considera a inflação dos alimentos resultado do descompasso momentâneo entre a oferta, prejudicada por fenômenos climáticos, e a demanda, impulsionada por países emergentes, além da alta dos insumos agrícolas oriundos do petróleo.</div>
<div>Por Amália Safatle<span style="white-space: pre;"> </span></div>
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<div>Acabam de ser anunciadas duas grandes operações no mercado alcooleiro.  O que significa esse movimento? É a primeira vez que uma petroleira no mundo compra uma usina e a primeira vez que uma usina compra uma distribuidora.  A British Petroleum (BP) entrou no mercado brasileiro de biocombustíveis, ao comprar 50% da Tropical, usina do grupo Biaggi, e o Grupo Cosan comprou a operação brasileira da Esso, composta de 1.500 postos.  Apesar das críticas ao álcool, há um movimento empresarial.  De um lado, as grandes empresas de petróleo interessadas em conhecer o setor de álcool de perto e a tentativa de ingressar nele – o que é muito bom, porque a BP tem enorme poder de influência, sobretudo no mercado inglês.  E, de outro lado, a Cosan.  Quando se anunciou a venda da Esso e, hoje, se anuncia a venda Texaco, sempre achamos que o setor alcooleiro tinha de entrar nisso.</div>
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<div>Ainda não foi fechada a venda da Texaco?  Não, a Petrobras havia manifestado interesse em comprar a Esso e a Texaco, e para nós seria muito ruim ver uma concentração na mão da Petrobras, que já tem mais 40% da distribuição de combustível.  Então, o fato de uma grande empresa do nosso setor entrar em distribuição é uma mudança importante.  Aqui dentro se fala que o setor deveria se aproximar mais do consumidor, não ficar vendendo álcool na porteira, mas também entrar em distribuição.  O que acontece, então, é um maior domínio da cadeia produtiva.</div>
<div></div>
<div>Essas operações indicam o fortalecimento do setor de biocombustíveis?  Digamos que é uma estratégia de uma grande empresa do setor.  Não dá pra dizer ainda que isso vá se repetir em larga escala.  Mas a Cosan, além do tamanho que já tinha, dá um salto na cadeia produtiva.  As duas operações foram anunciadas hoje, mas não têm nada a ver uma com a outra.  Nós ainda teremos de refletir sobre isso, e neste momento é difícil dar uma declaração, porque não se sabe se isso é ou não um movimento isolado.</div>
<div></div>
<div>Pelo menos hoje esses anúncios tiram o foco da discussão dos biocombustíveis versus oferta de alimentos? Não sei se vai tirar, porque a discussão dos alimentos nasceu de uma decisão relativamente equivocada dos EUA e da Europa de fazer biocombustíveis em larga escala de matérias-primas agrícolas centrais nas suas cadeias produtivas.  O fato de os americanos usarem grandes quantidades de milho para fazer álcool e os europeus grandes quantidades de canola para o biodiesel teria gerado uma pressão que estaria puxando o preço dos alimentos, o que não é verdade.  O que realmente está puxando é a demanda asiática, problemas de oferta no mundo e o custo do petróleo na produção agrícola.</div>
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<div>Estas são as verdadeiras razões, a seu ver? Sim.  A influência (dos biocombustíveis na alta dos alimentos) nos EUA existe em relação ao milho, e pode ser totalmente superada se for aumentada a produtividade.  E no Brasil essa influência não existe.  O País aumentou muito sua produção de álcool, ao mesmo tempo que a de soja, milho, algodão, carne, leite, café, fumo.  E se tornou um dos maiores produtores do mundo de alimentos, de rações, de fibras e de agroenergia.  Isso graças ao aumento da produtividade.</div>
<div></div>
<div>Mesmo com toda a perspectiva de uma demanda crescente por agroenergia, não o existe risco de futuramente afetar a oferta de alimentos? Nós já substituímos 50% da gasolina no Brasil por etanol, usando apenas 1% da área agricultável.</div>
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<div>Essa área agricultável inclui vegetação nativa?  Não.  Estou excluindo 60% de florestas, Pantanal, biomas sensíveis.  Sobram 40%.  Desses 40%, estamos usando 1% para fazer etanol de cana.</div>
<div></div>
<div>Mas existe uma demanda crescente para exportação, não?  Sim, mas é muito incipiente ainda.  Porque o mercado não existe no mundo.  O que existe é o mercado brasileiro de carros flex, mistura de álcool nos motores a gasolina (leia reportagem sobre indústria automobilística à pág.  40).  Não faz sentido pegar uma coisa no Brasil que ocupa 7 milhões de hectares de cana, sendo 3,5 milhões para fazer álcool, e dizer que isso tem algum problema num país com 340 milhões de hectares agricultáveis, e dentro de um mundo que tem potencial gigantesco para fazer agroenergia na África, na Ásia, na América Central, na América do Sul.</div>
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<div>Podemos incluir a questão dos subsídios agrícolas à alta de preços dos alimentos? Não.  Hoje há 20 países no mundo que abastecem 200 com combustível fóssil.  Com os agrocombustíveis, poderia ter 100 países produtores.  É bem mais democrático e pode beneficiar os países em desenvolvimento.  Depois tem a discussão sobre o protecionismo.  O que é imoral não é alocar uma pequena quantidade de matéria-prima agrícola para fazer biocombustíveis, e sim o mundo rico gastar bilhões de dólares para produzir artificialmente (com subsídios) produtos que têm um custo muito maior do que teriam nos países em desenvolvimento.  É uma questão importante, mas não diria que está ligada à inflação neste momento.  Essa inflação decorre do problema de oferta e demanda.  Oferta problemática, em razão de secas, safras agrícolas baixas, demanda acelerada e uma questão de custo.  Alguns itens para produção de alimentos, como óleo diesel e fertilizantes, tiveram aumentos brutais nos últimos tempos, por causa do petróleo.  É curioso as pessoas falarem mal de biocombustíveis, que equivale a 1% do consumo de produtos fósseis, e não falar dos outros 99%.  O fato de o petróleo ter passado de US$ 30 para US$ 120 não tem merecido da mídia uma atenção como os biocombustíveis.</div>
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<div>Por quê?  Trata-se de uma perseguição? Perseguição não é bem a palavra.  No momento em que os produtos agrícolas deixam o mundo dos alimentos, e começam a entrar no da energia, encontram forças muito poderosas, como as do mundo petrolífero e algumas empresas automobilísticas – a resistência ao álcool na Europa em parte vem da indústria que investiu em carros a diesel.  E também um ator importante, que tem feito lobby contrário, é a indústria alimentar.  O grande erro é colocar tudo na mesma sacola, em vez de pontuar e dizer: realmente há um problema nos EUA, mas não há com o álcool da cana.  Os preços de açúcar e álcool estão, inclusive, muito baixos.</div>
<div></div>
<div>Outro fator apontado para a alta dos preços é a especulação no mercado financeiro em torno das commodities agrícolas.  Fundos hedge (especulativos) e até pequenos investidores estariam contribuindo para inflar preços.  O senhor concorda? É preciso ver, hoje, o que são razões estruturais e razões conjunturais.  Estruturalmente, há o problema de demanda e oferta, que vai ser resolvido com o tempo e é localizado.  O papel dos hedge funds tem sido qual?  São fundos que ficam migrando atrás de possibilidades de lucro.E, de repente, quando o mercado financeiro está complicado – e tem estado por conta da crise americana –, o pessoal fala: “Vamos investir um pedacinho disso em commodities” (leia reportagem de capa sobre os mercados à pág.16). Isso causa uma volatilidade maior, pois é um capital altamente especulativo.  Acaba transformando uma alta de preços em uma alta muito maior, ou uma baixa em uma baixa muito maior, amplificando o sobe-e-desce.</div>
<div></div>
<div>Isso acaba afetando a economia real, a vida produtor e do consumidor. E o produtor não ganha nada com isso.</div>
<div></div>
<div>Em um artigo recente, o jornalista Paul Krugman cita essas mesmas razões de oferta e demanda, mas acrescenta outra, a da escassez dos recursos naturais e os limites físicos do planeta, e a conseqüente dificuldade de atender a toda a demanda crescente de alimentos e energia.  O senhor concorda com isso? Não.  Desde quando era professor na USP, sempre fuimuito crítico da visão neomalthusiana.  A história da agricultura no último século é uma história de imenso ganho de produtividade.  A população rural, que no começo do século passado era 50% da total, está se tornando 10%.  Quem fica no campo está aumentando imensamente a produtividade, inclusive na Ásia, na América Latina.  A industrialização aconteceu no campo também.  O que se tem visto no mundo, no último século, é uma redução brutal no preço dos alimentos.  Hoje é muito mais fácil produzir alimentos do que há um século.  Essa visão malthusiana, de que faltará comida, é um desconhecimento do processo de mudança tecnológica.  Na cana, hoje, estamos produzindo 7 mil litros de álcool por hectare.  Quando o Proálcool começou, eram 3 mil litros.  Há nos laboratórios brasileiros – no Centro de Tecnologia Canavieira, na Embrapa etc. – variedades de cana e técnicas de produção de álcool de segunda geração que podem elevar a produtividade para 14 mil litros por hectare.  Podemos dobrar em uma década, sem contar toda a revolução de energia elétrica que está vindo aí, no uso do bagaço e da palha, antes subprodutos jogados fora.  Essa transformação da cana de uma cultura alimentícia clássica – da cana-de-açúcar para a cana de etanol e de bioeletricidade – é um dos maiores exemplos no mundo de como se consegue, pela tecnologia, mudar paradigmas.  A cana é cada vez mais energética.  No Brasil houve ganhos de produtividade nos últimos 15 anos que nenhum país teve.  E isso pode acontecer na América do Sul, na África e na Ásia.</div>
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<div>O que há, então, é um desajuste momentâneo? Sim.  Existe uma questão global: o mundo vai precisar comer muito mais, e vai precisar de muito mais energia.</div>
<div></div>
<div>E o quanto isso é sustentável? A saída para isso é a tecnologia, para que a produção seja sustentável econômica, social e ambientalmente.  Ou seja, você pode aumentar a produtividade de alimentos, rações, fibra e energia, sem precisar desmatar.  Isso a agronomia nos ensina há muitas décadas e é isso que temos de praticar daqui pra frente.  Há muito tempo a gente devia estar praticando isso, mas hoje há essa fronteira, que é a do aumento da produtividade.  Não é mais a fronteira da área plantada, como foi no passado.  Por exemplo, na Amazônia, há 40 anos, o que o regime militar dizia é que precisava ocupar a Amazônia.  Hoje, o que a sociedade quer é preservar a Amazônia.  Com isso, abrimos mão de 50% do território brasileiro.  Mas nos outros 50% podemos perfeitamente ter uma agricultura de alta produtividade que gere mais alimentos, melhores e mais baratos, mais fibra, mais rações, mais energia.</div>
<div></div>
<div>Mas na prática, quando se tem a possibilidade de ocupar uma área virgem, o produtor não vai preferir ocupá-la em vez de buscar uma área degradada, que exige custos para recuperação?  Não é isso que acontece?Por que a mídia assume que a expansão da cana vai se dar em floresta?</div>
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<div>Não digo especificamente a cana, mas a produção agropecuária como um todo. Vamos olhar os números.Você tem 3,5 milhões de hectares para fazer álcool e outros 3,5 milhões para fazer açúcar.  Aí tem 13 milhões de hectares de milho e 23 milhões de hectares de soja.  E 220 milhões de hectares de pastagem.  A pastagem, comparada com a cana, é 60 vezes maior.  Você precisa ir para a Amazônia?  Não.  Por que as usinas não estão indo para a Amazônia?  Estão indo para o Oeste de São Paulo, para o Triângulo Mineiro.  Por quê?  Porque lá tem áreas de pastagem degradada, onde há 0,7 ou 0,8 cabeças de boi por hectare.  E você tem logística, tem tudo aqui.  O que há no Brasil é uma monocultura de pasto.  A ocupação do Centro-Oeste foi feita em cima de pasto e soja.  Hoje há naquela região uma diversificação do modelo pastosoja para pecuária de corte, pecuária de leite, suínos, aves, soja, milho, algodão, arroz, café, cana.  Tudo isso acontecendo em um processo de integração em uma das grandes fronteiras tecnológicas do mundo, com uso de terras de maneira mais intensiva, eficiente, com técnicas conservacionistas incríveis, como a do plantio direto.</div>
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<div>Então, por que a taxa de desmatamento no Cerrado hoje é de 22 mil quilômetros quadrados por ano?  Se não tivéssemos um pé de cana no Brasil, estaríamos desmatando a Amazônia.  A idéia de que a cana e a soja empurram a pastagem para cima não é verdade.  As causas do desmatamento são basicamente duas: a falta de direito de propriedade e a falta de fiscalização.</div>
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<div>Mas no Cerrado o problema não é esse.  Vamos começar pela Amazônia. Lá, para você se instalar, deveria ocupar apenas 20% da área das propriedades.Quando se ocupa mais que isso, está-se quebrando a lei.  E, fora isso, mais de 75% das áreas da Amazônia não têm título, são terras do Estado, ou devolutas – há muitas décadas um convite para grileiros e posseiros.  Se não mexer nisso, não se vai interromper esse processo.  Porque esse desmatamento se dá com a grilagem, a ocupação e o madeireiro ilegal.</div>
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<div>Mas não se pode dizer que não tem usinas de cana na Amazônia, ainda que em escala pequena.  Tem três usinas lá, que foram criadas naquela política de 40 anos atrás, quando a regra era ocupar.  Um caso simbólico é a usina ao norte de Manaus, da Coca-Cola, que foicriada para a empresa se instalar na cidade, pois a regra estabelecia que o açúcar usado na fabricação precisava ser produzido na região.  Então a Coca-Cola recebeu incentivo para instalar sua usina lá.  Tem cabimento isso no mundo de hoje?  Não.  Nem tinha naquela época, era até muito mais barato levar açúcar do Sul para lá.  Mas se fez a usina.  Isso é economicamente viável?  Tenho minhas dúvidas.  Numa região que tem dez meses de chuva por ano, que não tem logística, se não tiver incentivos, não vai ser vantajoso.  A cana é perecível, precisa ser transportada rapidamente.  Por isso o pessoal que está indo hoje para Goiás está desesperado para ter um alcoolduto.  Então, não consigo enxergar essa necessidade. É até uma contradição você imaginar que um produto que é ambientalmente correto vá se desenvolver em cima de desmatamento.  Então, onde a cana está crescendo?  Basicamente em cima de áreas de pastagem de baixa produtividade. É isso que os dados de satélite mostram.</div>
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<div>Do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Especiais)?  Do Inpe, do Canasat (Mapeamento da cana via imagens de satélite), o que você quiser pegar.</div>
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<div>Mas e o desmatamento no Cerrado?  No Cerrado, a ocupação da cana se dá basicamente em áreas que já tinham sido desmatadas.  O agente do desmatamento foi a pastagem.  Mas o Cerrado tem de ser preservado em sua íntegra? O que a legislação determina é que, em um tipo de Cerrado, é preciso manter 20% da cobertura vegetal e, em outro, 35%.  Essa é uma das leis ambientais mais rígidas do mundo, a reserva legal.</div>
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<div>Que não é respeitada, em grande parte.  Que é respeitada, sim, em muitos estados.  Em algumas regiões, há problemas. Mas se um produtor hoje compra uma terra no Centro-Oeste, vai ter de passar por “n” processos para aprovar o uso dessa terra para agricultura.  Jamais conseguirá derrubar tudo.</div>
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<div>Só que isso depende de haver fiscalização.  Depende, mas a fiscalização tem sido crescente no Cerrado.  Nos projetos empresariais que tenho visto, as dificuldades para se implantar uma atividade agrícola é grande.  A sociedade tem que dar esse direito de usar essa região. O desenvolvimento de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e outros estados está muito ligado ao agronegócio.  Então, se você mantiver as áreas de proteção permanente em ordem, a reserva legal, se fizer um uso racional de água, de agroquímicos, eu não vejo por que não usar essas áreas.  A ocupação dentro da legislação brasileira hoje é uma ocupação necessária para o Brasil e o mundo.  A lei brasileira é bastante avançada nessa área da ocupação agrícola.</div>
<div></div>
<div>O senhor afirma que a sustentabilidade é um dos temas que mais têm recebido atenção da Unica atualmente.  Por quê?  Por uma questão estratégica? O tempo na Unica tem sido usado de maneira crescente com o tema da sustentabilidade ambiental e social. Isso está ligado a toda a questão da energia.  Quando você passa a utilizar a cana para fazer combustível, ou eletricidade, tem que discutir emissões, mudanças climáticas, uso de água, vinhaça (subproduto poluente do álcool), agroquímicos, transgênicos… Colocou-se uma posição no Brasil historicamente contra transgênicos. Uma forma de se evitar a expansão horizontal da agricultura é aumentar a produtividade.  Desde que sejam seguros ambientalmente e como alimentos, é uma tecnologia que não se pode ignorar, até para combater a fome no mundo.  Esse debate precisa ser conduzido por cientistas, por especialistas em biossegurança, e não carregados de ideologia.</div>
<div></div>
<div>É que existe o princípio da precaução, segundo o qual, quando se desconhecem os riscos, não se pode avançar.  Mas tudo no mundo é precaução, você sempre lida com risco.  Os americanos invadiram o Iraque usando o princípio da precaução. Mas não são conhecidos exatamente os efeitos a longo prazo dos transgênicos no ambiente.  Vamos pegar o exemplo da soja transgênica.  Essa que se planta no País, que demorou tanto tempo para ser aprovada, é uma variedade usada no mundo inteiro.</div>
<div></div>
<div>A soja não tem risco tão alto de contaminação, porque não tem o pólen, como o milho.  Certo.  Então, você poderia ter uma cana transgênica para fazer álcool.  E ninguém até agora conseguiu fazer, não foi liberado.  Tenho tido esse debate sobre biossegurança com ONGs, e algumas entendem isso, que se pode reduzir o uso de agroquímicos, de expansão horizontal, produzir alimentos em regiões áridas.</div>
<div></div>
<div>A Unica diz que sua missão é liderar o processo de transformação do tradicional setor de cana em uma moderna agroindústria capaz de competir de modo sustentável.  O quanto os agentes produtivos estão preparados para isso?  O quanto entendem o conceito da sustentabilidade?  A sociedade hoje está mais consciente do tema da sustentabilidade, em todos os níveis, e a produção agrícola também.  A própria Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), que era uma escola de agronomia, hoje tem gestão ambiental.  É claro que o setor da cana, como todo setor, é muito heterogêneo.</div>
<div></div>
<div>E muito tradicional, não é?  É, mas também de muita vanguarda.  Ao mesmo tempo que a cana chegou aqui em 1532 com os portugueses, hoje é uma fronteira de energia produzida por plantas que o mundo começou a buscar.  A Europa está fazendo álcool, os EUA estão fazendo álcool.  O que o Brasil fez nos últimos 35 anos hoje é observado pelo resto do mundo.</div>
<div></div>
<div>O quanto um selo socioambiental é decisivo para as exportações de etanol e o quanto está próximo de acontecer? A certificação é uma exigência cada vez mais forte, do exterior, do governo brasileiro, da sociedade.  Ela vai existir.  O que queremos é que seja feita sobre todas as plantas, e não só sobre a cana.  E que se discuta também a sustentabilidade do combustível fóssil.</div>
<div></div>
<div>Para a cobrança não ficar desigual, é isso?  É isso.  A Unica hoje está se engajando em todas as frentes que discutem sustentabilidade.  Estamos, por exemplo, entrando para a Better Sugar Cane Initiative, iniciativa global para melhores padrões de produção de cana.  Já estamos conversando com ONGs aqui dentro e lá fora.  No ano passado fizemos o protocolo do fim da queima da cana e estamos antecipando o fim da queima muito rapidamente.  É o típico assunto que beneficia o lado ambiental, mas causa desemprego (entre os cortadores de cana, pois a colheita torna-se mecanizada).</div>
<div></div>
<div>Já se sabe o que vai ser feito para gerar empregos depois da diminuição da queima da cana na colheita?  Estamos discutindo isso com trabalhadores e o próprio governo.  Este ano será de um grande debate nacional sobre o sistema trabalhista do setor sucroalcooleiro.</div>
<div></div>
<div>Que tem problemas, e há várias denúncias sobre trabalho degradante.  É, tem várias denúncias sobre trabalho degradante.  Agora, acho que precisa haver uma clarificação do que é trabalho degradante, porque a lei brasileira é fluida nesse assunto.  E tem de haver realmente um processo de combate e eliminação desses problemas, que são exceções, não regras.  O que nos preocupa é que as pessoas pegam casos isolados e transformam em regra.  É importante verificar os avanços que houve.  Nós estamos hoje conversando com trabalhadores colhedores de cana sobre dez itens que serão introduzidos acima do que a lei brasileira prevê.  Em São Paulo, estamos eliminando o “gato”, que é o agenciador de mão-de-obra.  As empresas associadas à Unica estão com 100% de carteira assinada, mas alguns fornecedores não estão.</div>
<div></div>
<div>E quanto à participação do pequeno produtor no setor?  O professor Ignacy Sachs aponta a pequena agricultura da biomassa como uma saída de inclusão social, enquanto o professor José Goldemberg afirma que a produção de etanol só é viável em larga escala.  Hoje há 400 usinas e 70 mil fornecedores no País, quase todos pequenos e médios.  A presença do pequeno produtor já é real.  É um equívoco imaginar que a cana é atividade de grande produtor.  Você tem, de fato, cana própria em grandes usinas, mas também uma grande rede de pequenos.  Todas as commodities têm essa questão da escala.  Agora, a escala não quer dizer que é uma firma única.  Pode-se ter uma usina supereficiente, com 30% de cana própria, e 70% de cana contratada de pequenos e médios fornecedores.</div>
<div></div>
<div>O balanço de emissões do etanol de cana em relação ao petróleo é bem favorável à cana.  Mas, considerando a queima da cana, que hoje ainda é de 53% do total colhido, mais a do combustível nos automóveis e a de combustível fóssil por máquinas agrícolas e no transporte para as distribuidoras, qual é o balanço das emissões do etanol?  Já foi estimado?  Já, e a metodologia do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), que usa análise do ciclo de vida, considera tudo isso.  De fato, existem essas emissões, mas a cana absorve grande quantidade de CO2, e o balanço é de 90% de redução em comparação à gasolina.</div>
<div></div>
<div>Isso se a cana não tiver causado desmatamento?  Sim.</div>
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		<title>A floresta repartida</title>
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		<pubDate>Sat, 02 Feb 2008 19:37:07 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Projeto de lei que propõe flexibilização do Código Florestal reacende o antagonismo entre interesses do agronegócio e a necessidade de conservação dos biomas brasileiros. Fora da batalha legal, mecanismos de mercado podem ser capazes de conciliar esses dois pólos
Por Carolina [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Projeto de lei que propõe flexibilização do Código Florestal reacende o antagonismo entre interesses do agronegócio e a necessidade de conservação dos biomas brasileiros. Fora da batalha legal, mecanismos de mercado podem ser capazes de conciliar esses dois pólos</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Carolina Derivi<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;"><span style="white-space: pre;"> </span>Versão</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">em PDF</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Ambientalistas e ruralistas costumam brigar feito cão e gato. Tem sido assim desde que o primeiro ativista abraçou a primeira árvore e declarou guerra aos tratores e serras elétricas. No Brasil, país marcado por uma história de desenvolvimento baseada em ciclos agrícolas, a disputa é reflexo do trauma provocado por paradigmas em transição. Os mais recentes — e alarmantes — dados sobre o desmatamento na Amazônia mostram que a sociedade brasileira de forma geral ainda dá valor às terras de acordo com a sua produtividade.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Uma parcela minoritária insurge contra o velho paradigma e questiona as formas de ocupação, ao enxergar valor também na biodiversidade que essas terras abrigam. Essa nova força parte especialmente da sociedade civil organizada, ao mesmo tempo que os mercados internacionais começam a exigir certifi cados de que a produção tenha sido feita de maneira ambientalmente correta e socialmente justa. O choque entre as duas visões torna mais complexa a equação do uso do espaço no meio rural.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O mais novo round dessa história de confl itos é o Projeto de Lei nº 6424/05, de autoria do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), que visa fl exibilizar as regras para recomposição fl orestal em propriedades rurais. O Código Florestal Brasileiro (Lei nº 4771/65) estabelece que todo proprietário deve manter um mínimo de vegetação nativa (80% do total da propriedade para o bioma Amazônia, 35% para o Cerrado dentro da Amazônia Legal — a Região Norte mais o estado de Mato Grosso e uma parte do Maranhão — e 20% para o restante do País) a título de Reserva Legal (RL). O que o projeto sugere é computar o plantio de palmáceas e espécies exóticas na RL, muitas das quais são oleaginosas usadas na produção de biodiesel. A idéia é garantir maior retorno fi nanceiro aos fazendeiros e, assim, estimular o cumprimento da lei. A proposta deixou muitas ONGs socioambientais de cabelo em pé neste fi m de ano. &#8220;Na prática, isso reduz a Reserva Legal e desvirtua a função do dispositivo, porque você tem na realidade uma área de produção. A Reserva Legal é fundamental para a manutenção da biodiversidade&#8221;, contesta Sérgio Leitão, coordenador de políticas públicas do Greenpeace. Em outubro passado, 13 entidades assinaram um manifesto contra o projeto, apelidado pelo Greenpeace de &#8220;Floresta Zero&#8221;.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">&#8220;As pessoas ficam dizendo que o PL é contra a fl oresta, mas é o contrário. A nossa intenção é dar destinação econômica às áreas que já foram desmatadas, mas compensar em lugares onde ainda há fl oresta&#8221;, defende-se o senador Flexa Ribeiro. A lei permite compensação fora da propriedade, desde que dentro da mesma microbacia e do mesmo bioma. Apesar de tantas divergências, a oportunidade é propícia para discutir formas de efetivar uma das mais importantes peças da legislação ambiental, que desde a sua criação integra o campo das “leis que não pegam”.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Ao contrário do que se poderia esperar, o Código Florestal é mais antigo que a consciência ambiental. Desde 1934, a legislação obriga os fazendeiros a manter um percentual de mata em suas terras. Na época, entretanto, a medida visava apenas garantir estoques de madeira, para as fazendas e para a infra-estrutura do País. Mas com a ausência de fi scalização e medidas punitivas efi cientes, aliada aos incentivos governamentais para expansão da agropecuária, a regra foi sendo empurrada para debaixo do tapete.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Décadas depois, com a percepção do interesse público pela conservação da biodiversidade e, mais modernamente, dos serviços ambientais prestados pela vegetação nativa, tais como proteção do solo, equilíbrio do ciclo hidrológico etc., a lei cobrou sua conta: à obrigação de manter a Reserva Legal somou-se a de repor tudo o que havia sido ilegalmente desmatado (quadro abaixo).</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Reserva Legal  | De estoque de madeira à tentativa de conservação</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">1934 — É criado o primeiro Código Florestal Brasileiro. O conceito de &#8220;Reserva Florestal&#8221; nasce apenas com o intuito de garantir o estoque de madeira nas propriedades rurais. Tanto é assim que a lei permite que essa reserva seja constituída de mata nativa ou de fl orestas homogêneas, plantadas<span style="white-space: pre;"> </span>1965 — O segundo Código Florestal estabelece limites de preservação de áreas nativas em 20% nas regiões Leste Meridional, Sul e parte do Centro-Oeste, e em 50% nas áreas ainda não desbravadas como a Região Norte e o Norte do Centro-Oeste<span style="white-space: pre;"> </span>1989 — Surge o termo &#8220;Reserva Legal&#8221; (RL), com a Lei nº 7.803, que reforma o Código Florestal. Pela primeira vez a legislação trata a RL como interesse público, voltado para a conservação da biodiversidade. A intervenção nessas áreas fica condicionada à autorização do órgão ambiental. Também passa a ser obrigatória a averbação de RL nos registros de imóveis<span style="white-space: pre;"> </span>1991 — A Lei de Política Agrícola (8.171) causa alvoroço no meio rural ao determinar a obrigatoriedade de reposição de mata nativa tanto para efeito de Reserva Legal quanto nas Áreas de Preservação Permanente (APP). A partir daí, mais de 60 medidas provisórias (MP) são editadas para orientar as regras de reposição<span style="white-space: pre;"> </span>1995 — O desmatamento na Amazônia atinge 29 mil quilômetros quadrados, um recorde histórico. Em caráter emergencial, o presidente Fernando Henrique Cardoso edita medida provisória que eleva a área de RL no bioma Amazônia de 50% para 80% da área total das propriedades. A partir daí, a MP vem sendo reeditada sucessivamente</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O resultado do endurecimento da legislação foi um fiasco que se sustenta até hoje. Embora não haja números precisos sobre o défi cit, um parecer publicado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) em 2005 estima que menos de 10% das propriedades rurais no País mantêm a Reserva Legal e, ainda assim, as áreas estão freqüentemente abaixo do mínimo exigido por lei. Uma das principais críticas apresentadas no manifesto das ONGs é &#8220;a falta de vinculação da concessão de crédito à regularização ambiental das propriedades rurais&#8221;, uma responsabilidade que deveria ser do governo e dos bancos.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">&#8220;Você paga Imposto de Renda?&#8221;, questiona o diretor da Fundação SOS Mata Atlântica, Mario Mantovani. &#8220;Eu pago. Acho muito caro. Mas, se eu não fi zer isso, estou perdido, vou sofrer um monte de restrições. O mesmo não acontece para o Código Florestal.&#8221; Recentemente, a entidade realizou um levantamento na região de Araçatuba (SP) para verifi car o status de cumprimento do Código. Concluiu que menos de 2% do registro dos imóveis têm Reserva Legal averbada, uma obrigação vigente desde 1989.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Do lado dos produtores rurais, as críticas à legislação dizem respeito aos altos custos de reposição da mata nativa. Segundo o consultor em sustentabilidade para o agronegócio José Carlos Pedreira, esses valores vão de R$ 600 a R$ 4 mil por hectare, dependendo do tipo de solo e de bioma. Mônika Bergamaschi, diretora da Associação Brasileira de Agribusiness (Abag), reclama: &#8220;Na Amazônia, por exemplo, teve toda aquela história de &#8216;integrar para não entregar&#8217;. As pessoas foram obrigadas a derrubar fl oresta no passado e agora são obrigadas a plantar de novo. O que a legislação faz é atribuir apenas ao proprietário um ônus que também é do governo e de toda a sociedade&#8221;.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Além disso, os ruralistas criticam a ausência de critérios técnicos para fundamentar os percentuais de Reserva Legal em cada bioma, conforme explica Paulo Barreto, pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon):</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">&#8220;Realmente não houve uma determinação científi ca para esses números. Recentemente, estudos do LBA (Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia) demonstraram que um desmatamento acima de 30% da região poderia criar a retroalimentação negativa com mudança de clima e transformação da paisagem mais ampla. Mas na época em que se defi niu a Reserva Legal não se sabia disso. Para a Amazônia, foi uma decisão arbitrária e emergencial&#8221;, afi rma Barreto.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Segundo John Carter, produtor de soja em Mato Grosso e fundador da Aliança da Terra (uma iniciativa para sustentabilidade no agronegócio), a fatia de 80% para a Amazônia é &#8220;proibitiva&#8221;. &#8220;Depois que veio a medida provisória, em 95, quem respeitou a Reserva Legal em 50% passou a fi car ilegal. Isso não é justo. Ao menos no Mato Grosso, 80% é completamente inviável. Só faz provocar desobediência civil.&#8221; Para Carter, o percentual mais alto deveria valer apenas para novos desmatamentos.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">É difícil dizer se a redução das áreas de Reserva Legal seria efi ciente para estimular o refl orestamento das propriedades, mas uma boa pista para essa hipótese está no estado de Rondônia. Assim como Mato Grosso, Rondônia é um dos estados amazônicos onde o desmatamento é mais severo. Lá restam 48% da vegetação nativa, praticamente restrita às unidades de conservação, enquanto a média para Amazônia Legal é de 83%. Desde 2006, um decreto estadual atrelado ao Zoneamento Econômico-Ecológico (ZEE) do estado determinou a redução de RL para 50% na chamada &#8216;Zona 1&#8242;, onde a atividade econômica é mais intensa.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Segundo Luiz Carlos Maretto, engenheiro fl orestal da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé (ONG local), a medida não teve nenhum retorno para o meio ambiente: &#8220;Isso veio a favorecer quem já destruiu a fl oresta, e fi cou no prejuízo a pessoa que foi correta. Até agora ninguém cumpriu a reposição&#8221;. A Secretaria Estadual de Desenvolvimento Ambiental (Sedam) foi procurada, mas até o fechamento desta reportagem não designou ninguém que pudesse comentar a constatação de Maretto.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A utilização de plantações de palmáceas e espécies exóticas, de que trata o PL nº 6424/05, também apresenta problemas do ponto de vista ambiental. O mais evidente deles é que qualquer monocultura, ainda que intercalada com outras espécies vegetais, jamais poderia ser capaz de prover os mesmos benefícios ecológicos de um bioma nativo. Para Barreto, do Imazon, a proposta pode até ser interessante para recuperação do solo degradado, mas não para cumprir função de Reserva Legal. Recentemente, a ONG Conservação Internacional publicou um trabalho que analisa a proposta do PL com base na literatura científi ca. Comprovou que &#8220;espécies mais exigentes e geralmente consideradas indicadoras da qualidade ambiental desaparecem em ambientes artificiais&#8221;.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Além disso, aos ouvidos dos ambientalistas, o PL grita &#8220;biocombustíveis na Amazônia&#8221;. Há tempos o governo vem garantindo que não haverá plantação de culturas para produção de etanol ou biodiesel na região. O que se teme é que, com o aquecimento da demanda, o mercado de biocombustíveis possa se tornar um novo fator de desmatamento, assim como a soja e a pecuária. A menção específi ca a palmáceas no texto do PL, entre as quais se inclui o dendê, um dos insumos do biodiesel, reforça esse temor. &#8220;É um portão de boas-vindas para os biocombustíveis na região! Isso demonstra que o discurso do governo não corresponde à prática&#8221;, avalia Leitão, do Greenpeace.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Engrossando o caldo da polêmica</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Depois de passar pelo crivo do Senado e da Comissão de Meio Ambiente da Câmara, o PL aportou na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural, por pressão da bancada ruralista, e de lá saiu ainda mais controverso. &#8220;Nós tínhamos alcançado um entendimento com os setores ambientais do governo. Mas o projeto foi totalmente desvirtuado na Comissão de Agricultura. Quando retomarmos os trabalhos legislativos vai ser uma batalha&#8221;, diz Flexa Ribeiro. O Ministério do Meio Ambiente também foi procurado pela reportagem, mas, segundo sua assessoria, nenhum dos diretores estaria interessado em comentar o projeto porque ainda está em discussão no Congresso.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Entre as principais alterações aprovadas está a possibilidade de compensar o passivo ambiental em outra bacia hidrográfi ca e, em alguns casos, até mesmo em outro estado. &#8220;Esse dispositivo atende em cheio a interesses de estados como São Paulo, dividindo a federação em estados produtores e estados preservadores.” argumenta Mario Menezes, diretor-adjunto da Amigos da Terra — Amazônia Brasileira. Para ele, a medida livra os fazendeiros de reparar o passivo ambiental que desmantelou a Mata Atlântica e possibilita a compensação no Norte, onde a terra é mais barata. Alguns ambientalistas até concordam que permitir a compensação de Reserva Legal fora da propriedade é importante. Em última análise, isso pode atribuir valor econômico a remanescentes fl orestais mais vulneráveis e contribuir com a preservação do que resta dos biomas brasileiros. Mas, do ponto de vista dos sistemas ecológicos, pretender equivalência entre um pedaço de mata no Espírito Santo e outro no Pará é uma aberração.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">É o que explica Renata Pardini, professora do Instituto de Biociências da USP e especialista em ecologia da paisagem: &#8220;O grande valor do Código Florestal é que ele leva em conta a espacialização. Ou seja, a gente tem de pensar a questão ecológica em escalas espaciais grandes. Você pode ter dois fragmentos do mesmo tamanho, do mesmo bioma, mas se eles estiverem em campos distintos a biodiversidade é completamente diferente&#8221;.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Outra proposta polêmica determina a soma das Áreas de Preservação Permanente (mata ciliar, topos de morros, nascentes de rios etc.) com os fragmentos de ecossistemas naturais para o cômputo fi nal da Reserva Legal. Atualmente, a legislação considera os dois tipos de reserva complementares, porém separados. A mudança representaria perda de 10% do tamanho da Reserva Legal, já que a fração representa a média da área ocupada por APPs nas propriedades rurais em todo o país.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Caminhos de conciliação</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Apesar da evidente difi culdade em se fazer aplicar o Código Florestal, algumas iniciativas vêm apresentando bons resultados em promover a adesão dos produtores rurais a uma agenda de sustentabilidade. Essa tendência se deve principalmente à crescente exigência dos mercados internacionais pela observância de critérios socioambientais nas cadeias produtivas. &#8220;Hoje você tem setores do meio agrícola, como o de celulose, por exemplo, que não sobrevivem mais sem certifi cação&#8221;, garante Ricardo Rodrigues, professor do Departamento de Ciências Biológicas da Esalq.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">É graças à demanda pela certifi cação, os chamados “selos verdes”, que Rodrigues vem sendo requisitado para coordenar projetos de adequação ao Código Florestal. A estratégia consiste em aproveitar áreas de baixa aptidão agrícola para recuperação fl orestal, onde também se aplicam o manejo de madeira e a exploração de plantas medicinais e frutíferas. Além disso, promove-se a ligação entre fragmentos de mata nativa na fazenda por meio de corredores ecológicos, aumentando a RL. O que eventualmente faltar para atingir o percentual mínimo é compensado fora da propriedade. &#8220;As pessoas perceberam que, comprando pequenas áreas naturais, conseguem fazer a compensação ambiental. Isso em ganho de mercado e marketing é muito mais signifi cativo que o lucro que se teria não fazendo a regularização&#8221;, diz Rodrigues.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Em Mato Grosso, a ONG The Nature Conservancy (TNC) lançou em dezembro do ano passado o projeto Soja Mais Verde. Trata-se de um fundo para regularização do setor no estado, com recursos da Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso (Aprosoja) e da própria TNC. As entidades entraram com US$ 1 milhão cada. A meta é chegar a US$ 15 milhões. O capital será investido em georreferenciamento e recuperação de APPs e RL em 3.500 propriedades ao longo de quatro anos.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Segundo a coordenadora nacional da TNC, Ana Cristina Barros, o projeto é um empurrão que se pretende auto-sustentável no futuro: &#8220;Quando o mecanismo não existe, você tem um custo inicial de transação. Mas a gente espera que, com o tempo, esses custos sejam incorporados pela própria cadeia produtiva. O consumidor e os intermediários podem pagar um pouco mais pelo valor agregado e pela vantagem competitiva. Aos poucos, o que se vê é esse ônus se transformando numa oportunidade de negócio. Mas não majoritariamente, claro. Se fosse, a discussão no Congresso seria muito mais fácil&#8230;&#8221;</div>
<div>Projeto de lei que propõe flexibilização do Código Florestal reacende o antagonismo entre interesses do agronegócio e a necessidade de conservação dos biomas brasileiros. Fora da batalha legal, mecanismos de mercado podem ser capazes de conciliar esses dois pólos</div>
<div>Por Carolina Derivi<span style="white-space: pre;"> </span></div>
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<div><span style="white-space: pre;"><span style="white-space: normal;">Ambientalistas e ruralistas costumam brigar feito cão e gato. Tem sido assim desde que o primeiro ativista abraçou a primeira árvore e declarou guerra aos tratores e serras elétricas. No Brasil, país marcado por uma história de desenvolvimento baseada em ciclos agrícolas, a disputa é reflexo do trauma provocado por paradigmas em transição. Os mais recentes — e alarmantes — dados sobre o desmatamento na Amazônia mostram que a sociedade brasileira de forma geral ainda dá valor às terras de acordo com a sua produtividade.</span></span></div>
<div>Uma parcela minoritária insurge contra o velho paradigma e questiona as formas de ocupação, ao enxergar valor também na biodiversidade que essas terras abrigam. Essa nova força parte especialmente da sociedade civil organizada, ao mesmo tempo que os mercados internacionais começam a exigir certifi cados de que a produção tenha sido feita de maneira ambientalmente correta e socialmente justa. O choque entre as duas visões torna mais complexa a equação do uso do espaço no meio rural.</div>
<div>O mais novo round dessa história de confl itos é o Projeto de Lei nº 6424/05, de autoria do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), que visa fl exibilizar as regras para recomposição fl orestal em propriedades rurais. O Código Florestal Brasileiro (Lei nº 4771/65) estabelece que todo proprietário deve manter um mínimo de vegetação nativa (80% do total da propriedade para o bioma Amazônia, 35% para o Cerrado dentro da Amazônia Legal — a Região Norte mais o estado de Mato Grosso e uma parte do Maranhão — e 20% para o restante do País) a título de Reserva Legal (RL). O que o projeto sugere é computar o plantio de palmáceas e espécies exóticas na RL, muitas das quais são oleaginosas usadas na produção de biodiesel. A idéia é garantir maior retorno fi nanceiro aos fazendeiros e, assim, estimular o cumprimento da lei. A proposta deixou muitas ONGs socioambientais de cabelo em pé neste fi m de ano. &#8220;Na prática, isso reduz a Reserva Legal e desvirtua a função do dispositivo, porque você tem na realidade uma área de produção. A Reserva Legal é fundamental para a manutenção da biodiversidade&#8221;, contesta Sérgio Leitão, coordenador de políticas públicas do Greenpeace. Em outubro passado, 13 entidades assinaram um manifesto contra o projeto, apelidado pelo Greenpeace de &#8220;Floresta Zero&#8221;.</div>
<div>&#8220;As pessoas ficam dizendo que o PL é contra a fl oresta, mas é o contrário. A nossa intenção é dar destinação econômica às áreas que já foram desmatadas, mas compensar em lugares onde ainda há fl oresta&#8221;, defende-se o senador Flexa Ribeiro. A lei permite compensação fora da propriedade, desde que dentro da mesma microbacia e do mesmo bioma. Apesar de tantas divergências, a oportunidade é propícia para discutir formas de efetivar uma das mais importantes peças da legislação ambiental, que desde a sua criação integra o campo das “leis que não pegam”.</div>
<div>Ao contrário do que se poderia esperar, o Código Florestal é mais antigo que a consciência ambiental. Desde 1934, a legislação obriga os fazendeiros a manter um percentual de mata em suas terras. Na época, entretanto, a medida visava apenas garantir estoques de madeira, para as fazendas e para a infra-estrutura do País. Mas com a ausência de fi scalização e medidas punitivas efi cientes, aliada aos incentivos governamentais para expansão da agropecuária, a regra foi sendo empurrada para debaixo do tapete.</div>
<div>Décadas depois, com a percepção do interesse público pela conservação da biodiversidade e, mais modernamente, dos serviços ambientais prestados pela vegetação nativa, tais como proteção do solo, equilíbrio do ciclo hidrológico etc., a lei cobrou sua conta: à obrigação de manter a Reserva Legal somou-se a de repor tudo o que havia sido ilegalmente desmatado (quadro abaixo).</div>
<div>Reserva Legal  | De estoque de madeira à tentativa de conservação</div>
<div>1934 — É criado o primeiro Código Florestal Brasileiro. O conceito de &#8220;Reserva Florestal&#8221; nasce apenas com o intuito de garantir o estoque de madeira nas propriedades rurais. Tanto é assim que a lei permite que essa reserva seja constituída de mata nativa ou de fl orestas homogêneas, plantadas<span style="white-space: pre;"> </span>1965 — O segundo Código Florestal estabelece limites de preservação de áreas nativas em 20% nas regiões Leste Meridional, Sul e parte do Centro-Oeste, e em 50% nas áreas ainda não desbravadas como a Região Norte e o Norte do Centro-Oeste<span style="white-space: pre;"> </span>1989 — Surge o termo &#8220;Reserva Legal&#8221; (RL), com a Lei nº 7.803, que reforma o Código Florestal. Pela primeira vez a legislação trata a RL como interesse público, voltado para a conservação da biodiversidade. A intervenção nessas áreas fica condicionada à autorização do órgão ambiental. Também passa a ser obrigatória a averbação de RL nos registros de imóveis<span style="white-space: pre;"> </span>1991 — A Lei de Política Agrícola (8.171) causa alvoroço no meio rural ao determinar a obrigatoriedade de reposição de mata nativa tanto para efeito de Reserva Legal quanto nas Áreas de Preservação Permanente (APP). A partir daí, mais de 60 medidas provisórias (MP) são editadas para orientar as regras de reposição<span style="white-space: pre;"> </span>1995 — O desmatamento na Amazônia atinge 29 mil quilômetros quadrados, um recorde histórico. Em caráter emergencial, o presidente Fernando Henrique Cardoso edita medida provisória que eleva a área de RL no bioma Amazônia de 50% para 80% da área total das propriedades. A partir daí, a MP vem sendo reeditada sucessivamente</div>
<div>O resultado do endurecimento da legislação foi um fiasco que se sustenta até hoje. Embora não haja números precisos sobre o défi cit, um parecer publicado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) em 2005 estima que menos de 10% das propriedades rurais no País mantêm a Reserva Legal e, ainda assim, as áreas estão freqüentemente abaixo do mínimo exigido por lei. Uma das principais críticas apresentadas no manifesto das ONGs é &#8220;a falta de vinculação da concessão de crédito à regularização ambiental das propriedades rurais&#8221;, uma responsabilidade que deveria ser do governo e dos bancos.</div>
<div>&#8220;Você paga Imposto de Renda?&#8221;, questiona o diretor da Fundação SOS Mata Atlântica, Mario Mantovani. &#8220;Eu pago. Acho muito caro. Mas, se eu não fi zer isso, estou perdido, vou sofrer um monte de restrições. O mesmo não acontece para o Código Florestal.&#8221; Recentemente, a entidade realizou um levantamento na região de Araçatuba (SP) para verifi car o status de cumprimento do Código. Concluiu que menos de 2% do registro dos imóveis têm Reserva Legal averbada, uma obrigação vigente desde 1989.</div>
<div>Do lado dos produtores rurais, as críticas à legislação dizem respeito aos altos custos de reposição da mata nativa. Segundo o consultor em sustentabilidade para o agronegócio José Carlos Pedreira, esses valores vão de R$ 600 a R$ 4 mil por hectare, dependendo do tipo de solo e de bioma. Mônika Bergamaschi, diretora da Associação Brasileira de Agribusiness (Abag), reclama: &#8220;Na Amazônia, por exemplo, teve toda aquela história de &#8216;integrar para não entregar&#8217;. As pessoas foram obrigadas a derrubar fl oresta no passado e agora são obrigadas a plantar de novo. O que a legislação faz é atribuir apenas ao proprietário um ônus que também é do governo e de toda a sociedade&#8221;.</div>
<div>Além disso, os ruralistas criticam a ausência de critérios técnicos para fundamentar os percentuais de Reserva Legal em cada bioma, conforme explica Paulo Barreto, pesquisador do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon):</div>
<div>&#8220;Realmente não houve uma determinação científi ca para esses números. Recentemente, estudos do LBA (Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia) demonstraram que um desmatamento acima de 30% da região poderia criar a retroalimentação negativa com mudança de clima e transformação da paisagem mais ampla. Mas na época em que se defi niu a Reserva Legal não se sabia disso. Para a Amazônia, foi uma decisão arbitrária e emergencial&#8221;, afi rma Barreto.</div>
<div>Segundo John Carter, produtor de soja em Mato Grosso e fundador da Aliança da Terra (uma iniciativa para sustentabilidade no agronegócio), a fatia de 80% para a Amazônia é &#8220;proibitiva&#8221;. &#8220;Depois que veio a medida provisória, em 95, quem respeitou a Reserva Legal em 50% passou a fi car ilegal. Isso não é justo. Ao menos no Mato Grosso, 80% é completamente inviável. Só faz provocar desobediência civil.&#8221; Para Carter, o percentual mais alto deveria valer apenas para novos desmatamentos.</div>
<div>É difícil dizer se a redução das áreas de Reserva Legal seria efi ciente para estimular o refl orestamento das propriedades, mas uma boa pista para essa hipótese está no estado de Rondônia. Assim como Mato Grosso, Rondônia é um dos estados amazônicos onde o desmatamento é mais severo. Lá restam 48% da vegetação nativa, praticamente restrita às unidades de conservação, enquanto a média para Amazônia Legal é de 83%. Desde 2006, um decreto estadual atrelado ao Zoneamento Econômico-Ecológico (ZEE) do estado determinou a redução de RL para 50% na chamada &#8216;Zona 1&#8242;, onde a atividade econômica é mais intensa.</div>
<div>Segundo Luiz Carlos Maretto, engenheiro fl orestal da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé (ONG local), a medida não teve nenhum retorno para o meio ambiente: &#8220;Isso veio a favorecer quem já destruiu a fl oresta, e fi cou no prejuízo a pessoa que foi correta. Até agora ninguém cumpriu a reposição&#8221;. A Secretaria Estadual de Desenvolvimento Ambiental (Sedam) foi procurada, mas até o fechamento desta reportagem não designou ninguém que pudesse comentar a constatação de Maretto.</div>
<div>A utilização de plantações de palmáceas e espécies exóticas, de que trata o PL nº 6424/05, também apresenta problemas do ponto de vista ambiental. O mais evidente deles é que qualquer monocultura, ainda que intercalada com outras espécies vegetais, jamais poderia ser capaz de prover os mesmos benefícios ecológicos de um bioma nativo. Para Barreto, do Imazon, a proposta pode até ser interessante para recuperação do solo degradado, mas não para cumprir função de Reserva Legal. Recentemente, a ONG Conservação Internacional publicou um trabalho que analisa a proposta do PL com base na literatura científi ca. Comprovou que &#8220;espécies mais exigentes e geralmente consideradas indicadoras da qualidade ambiental desaparecem em ambientes artificiais&#8221;.</div>
<div>Além disso, aos ouvidos dos ambientalistas, o PL grita &#8220;biocombustíveis na Amazônia&#8221;. Há tempos o governo vem garantindo que não haverá plantação de culturas para produção de etanol ou biodiesel na região. O que se teme é que, com o aquecimento da demanda, o mercado de biocombustíveis possa se tornar um novo fator de desmatamento, assim como a soja e a pecuária. A menção específi ca a palmáceas no texto do PL, entre as quais se inclui o dendê, um dos insumos do biodiesel, reforça esse temor. &#8220;É um portão de boas-vindas para os biocombustíveis na região! Isso demonstra que o discurso do governo não corresponde à prática&#8221;, avalia Leitão, do Greenpeace.</div>
<div>Engrossando o caldo da polêmica</div>
<div>Depois de passar pelo crivo do Senado e da Comissão de Meio Ambiente da Câmara, o PL aportou na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural, por pressão da bancada ruralista, e de lá saiu ainda mais controverso. &#8220;Nós tínhamos alcançado um entendimento com os setores ambientais do governo. Mas o projeto foi totalmente desvirtuado na Comissão de Agricultura. Quando retomarmos os trabalhos legislativos vai ser uma batalha&#8221;, diz Flexa Ribeiro. O Ministério do Meio Ambiente também foi procurado pela reportagem, mas, segundo sua assessoria, nenhum dos diretores estaria interessado em comentar o projeto porque ainda está em discussão no Congresso.</div>
<div>Entre as principais alterações aprovadas está a possibilidade de compensar o passivo ambiental em outra bacia hidrográfi ca e, em alguns casos, até mesmo em outro estado. &#8220;Esse dispositivo atende em cheio a interesses de estados como São Paulo, dividindo a federação em estados produtores e estados preservadores.” argumenta Mario Menezes, diretor-adjunto da Amigos da Terra — Amazônia Brasileira. Para ele, a medida livra os fazendeiros de reparar o passivo ambiental que desmantelou a Mata Atlântica e possibilita a compensação no Norte, onde a terra é mais barata. Alguns ambientalistas até concordam que permitir a compensação de Reserva Legal fora da propriedade é importante. Em última análise, isso pode atribuir valor econômico a remanescentes fl orestais mais vulneráveis e contribuir com a preservação do que resta dos biomas brasileiros. Mas, do ponto de vista dos sistemas ecológicos, pretender equivalência entre um pedaço de mata no Espírito Santo e outro no Pará é uma aberração.</div>
<div>É o que explica Renata Pardini, professora do Instituto de Biociências da USP e especialista em ecologia da paisagem: &#8220;O grande valor do Código Florestal é que ele leva em conta a espacialização. Ou seja, a gente tem de pensar a questão ecológica em escalas espaciais grandes. Você pode ter dois fragmentos do mesmo tamanho, do mesmo bioma, mas se eles estiverem em campos distintos a biodiversidade é completamente diferente&#8221;.</div>
<div>Outra proposta polêmica determina a soma das Áreas de Preservação Permanente (mata ciliar, topos de morros, nascentes de rios etc.) com os fragmentos de ecossistemas naturais para o cômputo fi nal da Reserva Legal. Atualmente, a legislação considera os dois tipos de reserva complementares, porém separados. A mudança representaria perda de 10% do tamanho da Reserva Legal, já que a fração representa a média da área ocupada por APPs nas propriedades rurais em todo o país.</div>
<div>Caminhos de conciliação</div>
<div>Apesar da evidente difi culdade em se fazer aplicar o Código Florestal, algumas iniciativas vêm apresentando bons resultados em promover a adesão dos produtores rurais a uma agenda de sustentabilidade. Essa tendência se deve principalmente à crescente exigência dos mercados internacionais pela observância de critérios socioambientais nas cadeias produtivas. &#8220;Hoje você tem setores do meio agrícola, como o de celulose, por exemplo, que não sobrevivem mais sem certifi cação&#8221;, garante Ricardo Rodrigues, professor do Departamento de Ciências Biológicas da Esalq.</div>
<div>É graças à demanda pela certifi cação, os chamados “selos verdes”, que Rodrigues vem sendo requisitado para coordenar projetos de adequação ao Código Florestal. A estratégia consiste em aproveitar áreas de baixa aptidão agrícola para recuperação fl orestal, onde também se aplicam o manejo de madeira e a exploração de plantas medicinais e frutíferas. Além disso, promove-se a ligação entre fragmentos de mata nativa na fazenda por meio de corredores ecológicos, aumentando a RL. O que eventualmente faltar para atingir o percentual mínimo é compensado fora da propriedade. &#8220;As pessoas perceberam que, comprando pequenas áreas naturais, conseguem fazer a compensação ambiental. Isso em ganho de mercado e marketing é muito mais signifi cativo que o lucro que se teria não fazendo a regularização&#8221;, diz Rodrigues.</div>
<div>Em Mato Grosso, a ONG The Nature Conservancy (TNC) lançou em dezembro do ano passado o projeto Soja Mais Verde. Trata-se de um fundo para regularização do setor no estado, com recursos da Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso (Aprosoja) e da própria TNC. As entidades entraram com US$ 1 milhão cada. A meta é chegar a US$ 15 milhões. O capital será investido em georreferenciamento e recuperação de APPs e RL em 3.500 propriedades ao longo de quatro anos.</div>
<div>Segundo a coordenadora nacional da TNC, Ana Cristina Barros, o projeto é um empurrão que se pretende auto-sustentável no futuro: &#8220;Quando o mecanismo não existe, você tem um custo inicial de transação. Mas a gente espera que, com o tempo, esses custos sejam incorporados pela própria cadeia produtiva. O consumidor e os intermediários podem pagar um pouco mais pelo valor agregado e pela vantagem competitiva. Aos poucos, o que se vê é esse ônus se transformando numa oportunidade de negócio. Mas não majoritariamente, claro. Se fosse, a discussão no Congresso seria muito mais fácil&#8230;&#8221;</div>
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