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	<title>Página 22 &#187; 12</title>
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		<title>Nos vãos do Centro</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Sep 2007 17:24:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Redação</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Retrato]]></category>
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		<description><![CDATA[Em 2006, o fotógrafo Antonio Brasiliano percorreu o Centro de São Paulo em busca de lugares onde o abandono firmou residência.  Casas, edifícios, terrenos e albergues que abrigam &#8211; ou já abrigaram &#8211; quem tem pouca ou quase nenhuma alternativa. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em 2006, o fotógrafo Antonio Brasiliano percorreu o Centro de São Paulo em busca de lugares onde o abandono firmou residência.  Casas, edifícios, terrenos e albergues que abrigam &#8211; ou já abrigaram &#8211; quem tem pouca ou quase nenhuma alternativa.  Gente esquecida e marginalizada no processo de urbanização do País, movido a uma precária modernização.  Espaços e pessoas que costumam manter-se despercebidos, exceto quando alguma reintegração de posse, manifestação, um choque com a polícia, um incêndio ou outro acidente chama, por alguns instantes, a volátil atenção da mídia e da opinião pública.  Palpitações momentâneas que atraem o olhar para o coração da metrópole, onde o não-lugar teima em existir.</p>
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		<title>Última</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Sep 2007 17:36:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Última]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando se deparou com a notícia das obras de ampliação da Marginal Tietê, na capital paulista, Tiago Nepomuceno decidiu usar o seu hobby de design gráfico para criar um novo brasão para a cidade (maior, à esq.). &#8220;Pensei em criar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Quando se deparou com a notícia das obras de ampliação da Marginal Tietê, na capital paulista, Tiago Nepomuceno decidiu usar o seu hobby de design gráfico para criar um novo brasão para a cidade (maior, à esq.). &#8220;Pensei em criar um novo lema, mas, quando descobri o significado do lema atual, vi que era profético para o carro.&#8221; Tiago tem carro, mas evita.  &#8220;O trânsito me transforma.  Viro um monstro.&#8221;  Há quatro anos, ele prefere a magrela e o transporte público.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Seu brasão se espalhou por diversos blogs e sites brasileiros ligados ao cicloativismo, e há quem proponha transformá-lo em adesivo e estampá-lo nos ônibus, cobrindo o símbolo oficial (menor, à dir.).</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A construção de três faixas nos dois sentidos da Marginal custará R$ 1,3 bilhão e 559 árvores dos canteiros, que serão sobrepostos pelo asfalto.  Assim como Tiago, especialistas em trânsito acreditam que a obra não resolverá o problema dos engarrafamentos, além de aumentar a impermeabilidade da região e as ilhas de calor.  Como compensação, o governo do Estado plantará 4. 900 mudas nos arredores, entre outras medidas.</div>
<p>Quando se deparou com a notícia das obras de ampliação da Marginal Tietê, na capital paulista, Tiago Nepomuceno decidiu usar o seu hobby de design gráfico para criar um novo brasão para a cidade (maior, à esq.). &#8220;Pensei em criar um novo lema, mas, quando descobri o significado do lema atual, vi que era profético para o carro.&#8221; Tiago tem carro, mas evita.  &#8220;O trânsito me transforma.  Viro um monstro.&#8221;  Há quatro anos, ele prefere a magrela e o transporte público.</p>
<p>Seu brasão se espalhou por diversos blogs e sites brasileiros ligados ao cicloativismo, e há quem proponha transformá-lo em adesivo e estampá-lo nos ônibus, cobrindo o símbolo oficial (menor, à dir.).</p>
<p>A construção de três faixas nos dois sentidos da Marginal custará R$ 1,3 bilhão e 559 árvores dos canteiros, que serão sobrepostos pelo asfalto.  Assim como Tiago, especialistas em trânsito acreditam que a obra não resolverá o problema dos engarrafamentos, além de aumentar a impermeabilidade da região e as ilhas de calor.  Como compensação, o governo do Estado plantará 4. 900 mudas nos arredores, entre outras medidas.</p>
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		<title>Fome de futuro</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Sep 2007 17:34:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Foi graças ao engenho humano que chegamos onde chegamos: 6,6 bilhões de pessoas sobre o planeta e comida suficiente para alimentar a todos – ainda que mal distribuída.  Mas, quando a tecnologia parecia ter-nos livrado das “leis” de Malthus – [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Foi graças ao engenho humano que chegamos onde chegamos: 6,6 bilhões de pessoas sobre o planeta e comida suficiente para alimentar a todos – ainda que mal distribuída.  Mas, quando a tecnologia parecia ter-nos livrado das “leis” de Malthus – descontrole demográfico e a limitação produtiva —, a crise ambiental volta a pôr a humanidade diante do desafio de controlar, racional e pacificamente, seu próprio desenvolvimento.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por meio da tecnologia, desde a Idade da Pedra, o homem adquiriu a capacidade de modificar as cadeias alimentares em seu benefício, mas o grande salto veio nos anos 60 com a Revolução Verde e a agricultura industrial, que recorreu aos combustíveis fósseis para garantir a certeza da colheita.  O resultado foi o aumento dramático na capacidade de expansão da população humana, mas não a distribuição igualitária dos benefícios.  Enquanto entre os países ricos a abundante oferta de alimentos industrializados traz problemas graves como obesidade e doenças cardíacas, bolsões de fome persistem mundo afora.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Em vários lugares há mostras de que as práticas agrícolas modernas prejudicam os sistemas complexos e diversos que compõem os ambientes naturais e permitem ao homem dispor de uma variedade quase inacreditável de alimentos.  O elo mais direto do homem com o planeta é a comida – em última instância, ela vem da terra.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Embora as previsões sejam de estabilização no crescimento populacional nas próximas décadas, os desafios que se colocam não são pequenos.  De onde virá o alimento para matar a fome de todos?  Haverá suporte natural para tanto, ainda mais sob condições climáticas extremas?  Será possível, como sugere, em entrevista nesta edição, o economista Ricardo Abramovay, praticar uma agricultura mais “limpa” e socialmente integrada ao processo de desenvolvimento?  Mais uma vez a resposta a essas perguntas dependerá da engenhosidade humana.  Fome, de comida e de futuro, não faltam.  Resta saciá-la.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">BOA LEITURA</div>
<div>Foi graças ao engenho humano que chegamos onde chegamos: 6,6 bilhões de pessoas sobre o planeta e comida suficiente para alimentar a todos – ainda que mal distribuída.  Mas, quando a tecnologia parecia ter-nos livrado das “leis” de Malthus – descontrole demográfico e a limitação produtiva —, a crise ambiental volta a pôr a humanidade diante do desafio de controlar, racional e pacificamente, seu próprio desenvolvimento.</div>
<div>Por meio da tecnologia, desde a Idade da Pedra, o homem adquiriu a capacidade de modificar as cadeias alimentares em seu benefício, mas o grande salto veio nos anos 60 com a Revolução Verde e a agricultura industrial, que recorreu aos combustíveis fósseis para garantir a certeza da colheita.  O resultado foi o aumento dramático na capacidade de expansão da população humana, mas não a distribuição igualitária dos benefícios.  Enquanto entre os países ricos a abundante oferta de alimentos industrializados traz problemas graves como obesidade e doenças cardíacas, bolsões de fome persistem mundo afora.</div>
<div>Em vários lugares há mostras de que as práticas agrícolas modernas prejudicam os sistemas complexos e diversos que compõem os ambientes naturais e permitem ao homem dispor de uma variedade quase inacreditável de alimentos.  O elo mais direto do homem com o planeta é a comida – em última instância, ela vem da terra.</div>
<div>Embora as previsões sejam de estabilização no crescimento populacional nas próximas décadas, os desafios que se colocam não são pequenos.  De onde virá o alimento para matar a fome de todos?  Haverá suporte natural para tanto, ainda mais sob condições climáticas extremas?  Será possível, como sugere, em entrevista nesta edição, o economista Ricardo Abramovay, praticar uma agricultura mais “limpa” e socialmente integrada ao processo de desenvolvimento?  Mais uma vez a resposta a essas perguntas dependerá da engenhosidade humana.  Fome, de comida e de futuro, não faltam.  Resta saciá-la.</div>
<div>BOA LEITURA</div>
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		<title>Doidos por um brotinho</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Sep 2007 17:31:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<category><![CDATA[– gastronomia]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Regina Scharf 
Alain Passard é um caso único no mundo da gastronomia.  Comandante de um dos poucos restaurantes parisienses com três estrelas no exigente Guia Michelin, ele cometeu uma heresia na terra do tournedo Rossini e do steak tartare. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Regina Scharf<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Alain Passard é um caso único no mundo da gastronomia.  Comandante de um dos poucos restaurantes parisienses com três estrelas no exigente Guia Michelin, ele cometeu uma heresia na terra do tournedo Rossini e do steak tartare.  Simplesmente aboliu a carne vermelha do seu cardápio.  Para o chef, “era difícil encontrar inspiração diante de um animal morto”.  Hoje, boa parte dos ingredientes que usa vem de sua fazenda, cultivados sem agrotóxicos e com arados movidos a cavalo, “porque os tratores prejudicam a vida animal e deixam sulcos por onde passam”.  Passard faz parte de um crescente contingente de cidadãos que mudaram as suas dietas – às vezes radicalmente – e abrem mão de comer alguns ou todos os produtos de origem animal.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Na Índia, os vegetarianos são muitos – 220 milhões – e poderosos.  Em Mumbai, uma família de carnívoros pode ser rejeitada na hora de fechar um contrato de compra de imóvel, para não destoar demais da vizinhança.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A Datamonitor, empresa de pesquisas setoriais, estimou em 2002 que haveria cerca de 12 milhões de vegetarianos na Europa.  Nos Estados Unidos, The Vegetarian Resource Group, uma ONG promotora do vegetarianismo, estima que 2,3% dos adultos são vegetarianos (não comem carne, aves e peixes) e 6,7% nunca ingerem carne.  Além disso, cerca de 1,4% seria vegans, ou seja, não consomem nenhum produto de origem animal, até mesmo laticínios, ovos, mel, seda, couro e lã.  No Brasil não há estatísticas sólidas, mas a Sociedade Vegetariana Brasileira supõe que 5% da população seria vegetariana ou simpatizante.  Como no futebol, o número de torcedores deve ser bem maior do que o de jogadores.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Argumento é o que não falta para quem quer entrar para esse clube.  Além das razões religiosas (como as proibições dietéticas do Hinduísmo) ou de saúde, muitos vegetarianos vêem aí uma forma de evitar o sofrimento animal e, como dirão os mais extremados, “o trabalho escravo de galinhas poedeiras e vacas leiteiras”.  Mas é crescente o número de indivíduos que muda a dieta na tentativa de reduzir a própria pegada ecológica, preferindo alimentos de baixo impacto ambiental.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Como diz Paul McCartney, notório vegetariano: “Se alguém quer salvar o planeta, tudo o que tem de fazer é deixar de comer carne.  O vegetarianismo lida com muitas coisas simultaneamente: ecologia, fome, crueldade”.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Há várias evidências de que o ex-beatle tem razão.  A produção de 1 quilo de carne requer muito mais recursos naturais e polui muito mais do que a de 1 quilo de legumes.  Um artigo publicado em 2003 no American Journal of Clinical Nutrition compara o custo ambiental de diferentes dietas proteicas.  A conclusão: o consumo de carne demanda de 6 a 17 vezes mais solo do que o de soja, de 4,4 a 26 vezes mais água e de 2,5 a 50 vezes mais combustíveis fósseis.  O alto grau de variabilidade dessas proporções está relacionado às diferentes condições de solo e de pluviosidade, ao tipo de rebanho e de sementes nas diversas partes do mundo.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Lembremos, também, um estudo divulgado pelo Banco Mundial em 2003, que aponta a pecuária de corte como a maior responsável pelos desmatamentos ocorridos na Amazônia durante os anos 90.  Ou ainda os 80 milhões de toneladas de metano que a fermentação dos alimentos no estômago do rebanho bovino mundial produz anualmente, incrementando o aquecimento global.  Ou o imenso volume de resíduos produzidos pela criação de suínos.  E por aí vai.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Ser vegetariano e reduzir seus impactos individuais sobre a natureza pode parecer fácil, mas não é.  Para começar, é difícil determinar quais produtos industrializados levam aditivos de origem animal.  Há alguns anos, quando começaram a pipocar casos do mal da vaca louca, descobriu-se que algumas vinícolas francesas ainda adotavam um sistema antigo que exige a adição de sangue bovino coagulado para permitir a concentração e a remoção das impurezas.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Em outro episódio, a rede McDonald’s teve de indenizar um grupo de consumidores vegetarianos e hinduístas em US$ 10 milhões porque veio à tona que, na época, a empresa utilizava um condimento com extrato de carne na produção de batatas fritas.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Além disso, o ex-carnívoro tem de conviver com a saudade daquela picanha fatiada ou do camarão na moranga.  Para ajudá-lo, cresce o mercado da pseudocarne, do leite de amêndoas, da lagosta vegetal, do camembert de soja.  Algumas pesquisas indicam que ele já se aproxima dos US$ 3 bilhões só nos Estados Unidos.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por fim, ele tem de resistir à pressão de seus pares, já que churrascos, macarronadas à bolonhesa e sukiakis são elementos centrais de inúmeros grupos sociais.  O jeito é recusar polidamente, levar seu lanchinho e citar, mais uma vez, Paul McCartney:“Se os abatedouros tivessem telhado de vidro, todos virariam vegetarianos”.</div>
<div>Por Regina Scharf<span style="white-space: pre;"> </span></div>
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<div></div>
<div>Alain Passard é um caso único no mundo da gastronomia.  Comandante de um dos poucos restaurantes parisienses com três estrelas no exigente Guia Michelin, ele cometeu uma heresia na terra do tournedo Rossini e do steak tartare.  Simplesmente aboliu a carne vermelha do seu cardápio.  Para o chef, “era difícil encontrar inspiração diante de um animal morto”.  Hoje, boa parte dos ingredientes que usa vem de sua fazenda, cultivados sem agrotóxicos e com arados movidos a cavalo, “porque os tratores prejudicam a vida animal e deixam sulcos por onde passam”.  Passard faz parte de um crescente contingente de cidadãos que mudaram as suas dietas – às vezes radicalmente – e abrem mão de comer alguns ou todos os produtos de origem animal.</div>
<div></div>
<div>Na Índia, os vegetarianos são muitos – 220 milhões – e poderosos.  Em Mumbai, uma família de carnívoros pode ser rejeitada na hora de fechar um contrato de compra de imóvel, para não destoar demais da vizinhança.</div>
<div>A Datamonitor, empresa de pesquisas setoriais, estimou em 2002 que haveria cerca de 12 milhões de vegetarianos na Europa.  Nos Estados Unidos, The Vegetarian Resource Group, uma ONG promotora do vegetarianismo, estima que 2,3% dos adultos são vegetarianos (não comem carne, aves e peixes) e 6,7% nunca ingerem carne.  Além disso, cerca de 1,4% seria vegans, ou seja, não consomem nenhum produto de origem animal, até mesmo laticínios, ovos, mel, seda, couro e lã.  No Brasil não há estatísticas sólidas, mas a Sociedade Vegetariana Brasileira supõe que 5% da população seria vegetariana ou simpatizante.  Como no futebol, o número de torcedores deve ser bem maior do que o de jogadores.</div>
<div></div>
<div>Argumento é o que não falta para quem quer entrar para esse clube.  Além das razões religiosas (como as proibições dietéticas do Hinduísmo) ou de saúde, muitos vegetarianos vêem aí uma forma de evitar o sofrimento animal e, como dirão os mais extremados, “o trabalho escravo de galinhas poedeiras e vacas leiteiras”.  Mas é crescente o número de indivíduos que muda a dieta na tentativa de reduzir a própria pegada ecológica, preferindo alimentos de baixo impacto ambiental.</div>
<div></div>
<div>Como diz Paul McCartney, notório vegetariano: “Se alguém quer salvar o planeta, tudo o que tem de fazer é deixar de comer carne.  O vegetarianismo lida com muitas coisas simultaneamente: ecologia, fome, crueldade”.</div>
<div>Há várias evidências de que o ex-beatle tem razão.  A produção de 1 quilo de carne requer muito mais recursos naturais e polui muito mais do que a de 1 quilo de legumes.  Um artigo publicado em 2003 no American Journal of Clinical Nutrition compara o custo ambiental de diferentes dietas proteicas.  A conclusão: o consumo de carne demanda de 6 a 17 vezes mais solo do que o de soja, de 4,4 a 26 vezes mais água e de 2,5 a 50 vezes mais combustíveis fósseis.  O alto grau de variabilidade dessas proporções está relacionado às diferentes condições de solo e de pluviosidade, ao tipo de rebanho e de sementes nas diversas partes do mundo.</div>
<div></div>
<div>Lembremos, também, um estudo divulgado pelo Banco Mundial em 2003, que aponta a pecuária de corte como a maior responsável pelos desmatamentos ocorridos na Amazônia durante os anos 90.  Ou ainda os 80 milhões de toneladas de metano que a fermentação dos alimentos no estômago do rebanho bovino mundial produz anualmente, incrementando o aquecimento global.  Ou o imenso volume de resíduos produzidos pela criação de suínos.  E por aí vai.</div>
<div></div>
<div>Ser vegetariano e reduzir seus impactos individuais sobre a natureza pode parecer fácil, mas não é.  Para começar, é difícil determinar quais produtos industrializados levam aditivos de origem animal.  Há alguns anos, quando começaram a pipocar casos do mal da vaca louca, descobriu-se que algumas vinícolas francesas ainda adotavam um sistema antigo que exige a adição de sangue bovino coagulado para permitir a concentração e a remoção das impurezas.</div>
<div></div>
<div>Em outro episódio, a rede McDonald’s teve de indenizar um grupo de consumidores vegetarianos e hinduístas em US$ 10 milhões porque veio à tona que, na época, a empresa utilizava um condimento com extrato de carne na produção de batatas fritas.</div>
<div></div>
<div>Além disso, o ex-carnívoro tem de conviver com a saudade daquela picanha fatiada ou do camarão na moranga.  Para ajudá-lo, cresce o mercado da pseudocarne, do leite de amêndoas, da lagosta vegetal, do camembert de soja.  Algumas pesquisas indicam que ele já se aproxima dos US$ 3 bilhões só nos Estados Unidos.</div>
<div>Por fim, ele tem de resistir à pressão de seus pares, já que churrascos, macarronadas à bolonhesa e sukiakis são elementos centrais de inúmeros grupos sociais.  O jeito é recusar polidamente, levar seu lanchinho e citar, mais uma vez, Paul McCartney:“Se os abatedouros tivessem telhado de vidro, todos virariam vegetarianos”.</div>
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		<title>Propostas sobre a mesa</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Sep 2007 17:29:54 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Em vez do discurso antiprotecionista, o Brasil ganharia mais assumindo no comércio internacional uma posição em favor da agricultura &#8220;limpa&#8221; e socialmente integrada ao processo de desenvolvimento. Até porque, se os mercados fossem liberalizados, os ganhos para o País seriam [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Em vez do discurso antiprotecionista, o Brasil ganharia mais assumindo no comércio internacional uma posição em favor da agricultura &#8220;limpa&#8221; e socialmente integrada ao processo de desenvolvimento. Até porque, se os mercados fossem liberalizados, os ganhos para o País seriam menores do que se apregoa. As afirmações são de Ricardo Abramovay, chefe do Departamento de Economia da FEA-USP e membro efetivo do Conselho Científico do Centre International de Recherches pour l&#8217;Agriculture et le Développement. Para o professor, a fome no mundo só será combatida quando as populações em carência alimentar tiverem condições de fazer da atividade agrícola sua fonte de renda, em produções descentralizadas</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Amália Safatle<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Página 22: Quais as chances de o protecionismo agrícola praticado pelos países centrais ser reduzido num futuro próximo?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Ricardo Abramovay: Como somos um país exportador e as formas de subsídio que praticamos não estão ligadas a protecionismo, o Brasil se acostumou a encará-lo como pecado, embora não encare como pecado outras formas de subsídio público.  E muitas vezes são formas de subsídio socialmente inaceitáveis, como o praticado desde o final dos anos 60 sob a forma de incentivos fiscais que conduziam a uma extraordinária concentração da propriedade da terra no Centro-Oeste, até atualmente, com a renegociação de dívidas bancárias de grandes produtores.  Protecionismo é escândalo; subvenções que beneficiam segmentos de alta renda não aparecem como tão escandalosos.  Qual é a base histórica das políticas de sustentação da renda na agricultura dos países desenvolvidos?  O fato de que se trata de um setor altamente competitivo e pulverizado, e em torno do qual se estabeleceu uma espécie de pacto, a partir do New Deal, nos EUA, e da formação da Política Agrícola Comum, na Europa.  Os agricultores adotavam métodos produtivos correspondentes ao que havia de mais moderno na época, o que elevaria suas safras, e haveria instabilidade nos preços.  A política agrícola, antes que a interpretemos como a força deste ou daquele grupo, tem uma função socialmente racional, que é a de tentar estabilizar a oferta, garantir um patamar de renda aos agricultores, progresso técnico, e isso nos países desenvolvidos durante um bom período foi feito de forma razoavelmente adequada.  Sem essa política, dificilmente esses países teriam o poder que alcançaram.  Óbvio que ao longo do tempo provocou distorções.  Fez com que áreas pouco propícias à produção agrícola continuassem com cultivo e, mais que isso: os preços garantidos levaram a um consumo de agrotóxicos e insumos e não estimularam o uso racional e sustentável dos recursos.  Começaram a se manifestar de maneira cada vez mais forte os problemas ambientais resultantes da expansão da produção agrícola, tanto nos EUA como na Europa.  O resultado nós o assistimos nos anos 80: a explosão das supersafras, as montanhas de cereais e de manteiga, os rios de leite.  Aí, sim, era gravíssimo, porque parte muito grande da produção excedente foi competir com mercados locais como os africanos, em condições extremamente destrutivas.  Isso deu lugar a uma série de movimentos sociais para reorganizar esses mercados.  A partir dos anos 90, houve uma tentativa dos países desenvolvidos de redesenhar os mecanismos de subsídio.  Mas permanece até hoje, nos EUA e na Europa, um problema seriíssimo, que é a concentração desses subsídios em segmentos de alta renda na agricultura.  E o Brasil não explora esse flanco nas discussões: a concentração social de subsídios em um pequeno punhado de agricultores mais prósperos e cujo comportamento ambiental está longe de ser o mais adequado.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Um estudo que a FEA fez a pedido da OCDE chegou à conclusão de que são relativamente pequenos e concentrados os ganhos de renda no Brasil numa simulação de queda de 50% dos subsídios.  Qual é o seu comentário em relação a essa conclusão?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RA: O agronegócio chega a quase 40% do PIB, mas a agricultura stricto sensu é 8% a 10% do PIB.  Se houver uma liberalização que implique aumento de 20% da produção agrícola brasileira, que ganhos o País teria?  Não são desprezíveis, mas estão longe de muito consideráveis.  Mas o ponto mais importante dessa discussão não me parece ser o efeito da abertura sobre o crescimento agrícola, mas o efeito do crescimento agrícola sobre o desenvolvimento brasileiro.  Se o crescimento for acompanhado de medidas que permitam melhorar as condições de trabalho dos assalariados e um planejamento para o melhor uso dos recursos naturais, pode ser interessante.  Mas abertura comercial por si só não abre nessa direção, ao contrário.  A bola está passando embaixo das pernas do Brasil nessa história.  O discurso do Brasil na OMC (Organização Mundial do Comércio) deveria ser a favor da agricultura limpa e socialmente integrada ao processo de desenvolvimento.  O Brasil está entre os países que poderiam construir modalidades de produção agropecuária respeitosas ao meio ambiente, transitando rumo a uma agricultura sustentável.  Mas sempre adotou uma posição conservadora e até mesmo reacionária nos organismos internacionais, associando as exigências universalistas relativas à preservação ambiental e condições sociais a barreiras não tarifárias.  Isso colocou o País na defensiva quando deveria estar na ofensiva.  O importante não é que a agricultura cresça ou exporte mais.  É que cresça preservando o meio ambiente, respeitando as condições de trabalho, garantindo um bom futuro para as pessoas.  É essa discussão que países como o Brasil deveriam levar à cena internacional.  Do início do governo FHC até hoje, o discurso é ambíguo.  É de cunho liberal contra o protecionismo, mas o conteúdo do protecionismo corresponde a coisas que o Brasil, se estivesse nas condições dos países desenvolvidos, também faria.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: E por que se repete esse discurso antiprotecionista?  Porque é mais “fácil”?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RA: Porque não existem forças sociais pressionando em outra direção.  Mesmo do lado dos movimentos sociais, os interesses acabam muito mais vinculados à obtenção de renda e de benefícios corporativos.  Por exemplo, é muito bom que haja crédito para o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar).  Mas os movimentos sociais não discutem e não incorporam às suas pautas, e muitos menos às suas práticas de campo, o crédito para o Pronaf com produção limpa, produção sustentável.  O tipo de pressão social que chega ao governo vai todo na direção produtivista, e não daquilo que é hoje o mais notável e avançado na cena internacional, que é como você compatibiliza aumento produtivo com melhoria na qualidade da alimentação, no vínculo entre o ato de comer e a preservação das regiões de onde saem os alimentos, a preservação do patrimônio cultural de uma região.  Esse vínculo hoje nos países desenvolvidos é cada vez mais importante.  Basta ver o impacto que tem um movimento como o Slow Food em toda a Europa.  Isso, que para nós aparece como perfumaria e coisa de país rico, lá é uma tendência extremamente importante, e que poderia se manifestar aqui, mas não faz parte da “discussão séria”.  A “discussão séria” é a OMC, é preço, é protecionismo.  Isso é uma miopia completa, porque é onde os agricultores conseguem qualificar sua produção em mercados diferenciados, que serão organizados, e não obedecem às leis mágicas da livre concorrência.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Então em vez de brigar contra a prática protecionista, que não vai mudar tão cedo, o Brasil ganharia muito mais seguindo essa linha?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RA: Sim.  Mesmo porque, como mostra o estudo de Joaquim Guilhoto e de Carlos Azzoni, caso os mercados fossem liberalizados, os ganhos nossos de renda seriam muito baixos.  Primeiro, porque o impacto não é tão alto como se imagina.  Segundo, que é uma questão de realismo.  Os países desenvolvidos não vão rifar sua estrutura agrícola e sua capacidade produtiva em nome de um princípio de obediência às leis do mercado.  China, Índia e Brasil vão falar de liberalismo?  A China e a Índia é uma piada, o Brasil ainda vá lá.  Mas quando se trata de distribuição de renda na agricultura, o Brasil não tem uma atitude liberal.  Somos um país que subvenciona, mas subvenciona mal a sua agricultura.  O que o Brasil gasta hoje na sustentação dos diferentes segmentos ligados à agricultura precisaria ser repensado no seu formato.  O Brasil gasta muito com política fundiária, com o Pronaf e, sobretudo, com o refinanciamento das dívidas de uma quantidade pequena de agricultores, de grandes devedores do Tesouro Nacional, dívida essa que está securitizada e custa uma fortuna aos cofres públicos.  Que dívida é essa que ao longo dos anos se renegocia e os governos não conseguem enfrentar?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: No Brasil exportamos muito para países como China e Índia, que não têm muita preocupação, ao menos por enquanto, com qualificações socioambientais.  Como o Brasil migrará para essa produção mais sofisticada enquanto a grande procura é pelo tipo de produção mais barata?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RA: Os processos de certificação e de rastreabilidade, que hoje ainda se concentram em produtos considerados de nicho, tendem a aumentar, e rapidamente.  Basta ver o caso dos biocombustíveis.  Quais são os dois segmentos empresariais em que os temas de sustentabilidade estão sendo discutidos?  São a soja, pela Abiove, e toda essa mobilização inédita e importante feita em torno da moratória da soja na Amazônia de um lado, e a cana-de-açúcar, em torno do etanol — as duas por causa do mercado externo.  Isso mostra que muito mais importante que a discussão a respeito do protecionismo é a imensa pressão que já existe, e será cada vez maior, sobre a maneira como se organizam os mercados desses produtos no Brasil.  A Universidade Politécnica de Lausanne, por exemplo, realizou, há poucos meses, uma mesa-redonda que se transformou em atividade permanente em torno da rastreabilidade dos biocombustíveis.  Existe um imenso temor, por parte dos europeus, de que a expansão da cana-de-açúcar vá em direção a áreas ecologicamente frágeis, como ocorreu com o óleo de palma na Indonésia.  O que deu lugar, inclusive, a um movimento social europeu, que é o Biofuel Watch.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Sempre se fala que o problema da fome no mundo não é de oferta, e sim de má distribuição.  Com o aumento demográfico precisaremos produzir muito mais ou não tanto, se é uma questão de acesso aos alimentos?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RA: Em relação à fome não dá para raciocinar em bloco.  Temos de aplicar o raciocínio de Josué de Castro, quando fazia A Geografia da Fome.  A reflexão deve ser localizada.  Onde se localiza a fome no mundo?  A violência, a insegurança, as péssimas condições de vida, os assassinatos de jovens são fenômenos das áreas metropolitanas.  A fome não.  No Brasil, na África, ao Sul do Saara, na Índia e na China, está nas áreas rurais.  Quem são os famintos?  Pessoas que vivem fundamentalmente da agricultura.  Quando dissocio a vitória sobre a fome do aumento da produção agrícola, dizendo que já tem para todo mundo, estou dizendo: deixa que eu abasteço os famintos das áreas rurais com a produção agrícola que virá das planícies da Região Centro-Oeste brasileira, das grandes planícies americanas, das áreas européias altamente produtivas.  Se o raciocínio for esse, estou retirando das populações famintas a única oportunidade que têm de gerar a renda necessária para satisfazer suas necessidades.  O grande desafio hoje não é aumentar a produção agropecuária, é aumentar a produção nas áreas em que existem famintos, em condições ecologicamente aceitáveis, sem o que as migrações continuarão aumentando.  Há um documento escrito por Gordon Conway que se chama A Revolução Duplamente Verde.  Há dois cenários.  Um é concentrar a produção agrícola internacional em áreas supostamente mais aptas para tanto, com base na produção altamente mecanizada e menos consumidora de veneno.  Um low-input sustainable agriculture, que é um conceito dos americanos.  E a partir disso garantir o abastecimento da humanidade, preservando áreas ecologicamente frágeis.  O problema é que populações em situação de carência alimentar precisariam importar suas necessidades alimentares de outros países.  Como vão gerar a renda para isso?  Isso significa dissociar preservação ambiental e produção, que talvez não seja a melhor coisa a se fazer.  Por isso, o segundo cenário, preconizado nesse documento, lança um desafio fantástico para a pesquisa agropecuária: precisamos descentralizar essa produção, em vez de concentrá-la nas áreas mais propícias.  E qual é o balanço 13 anos depois da publicação do Gordon Conway?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: O que aconteceu de lá para cá?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RA: O caminho dominante está vencendo, e essa é mais uma razão para o discurso antiprotecionista ser socialmente suspeito.  Porque então passamos à abertura completa dos mercados, deixamos que essas populações, em áreas ecologicamente frágeis, sem produzir, porque não têm vantagens comparativas, e vamos doar alimentos, subsidiar pelo fundo internacional.  Mas o cenário que emerge disso é o de um mundo ainda mais desarticulado do que está hoje.  O discurso antiprotecionista não é o que mais protege essas populações, contrariamente ao que um certo bom senso internacional, inclusive o praticado pelo governo brasileiro, gostaria de fazer crer.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Nesse crescimento demográfico, o agribusiness brasileiro vê uma janela comercial enorme ao mesmo tempo que começa a adotar o discurso da sustentabilidade.  Faz a moratória da soja, cria o ARES (Instituto para o Agronegócio Responsável).  Estamos migrando para outro modelo ou apenas adaptando ao modelo vigente técnicas mais aceitáveis pela sociedade?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RA: Mudança social é sempre mudança adaptativa.  Há uma expressão francesa, chassez le naturel, il revient au galop: expulse o que é natural, e ele volta galopando.  Mudanças revolucionárias, com muita freqüência, produzem situações em que os piores traços do que existia voltam com força extraordinária.  Poderíamos reformular assim: mudanças, em democracia, são sempre adaptativas.  Nesse sentido, há oposição entre mudança e adaptação que costumamos fazer, e que no fundo poderíamos dizer “estamos mudando mesmo ou só jogando areia nos olhos dos trouxas?” Acho que não, que as mudanças que passam por transformações na maneira como os mercados se organizam tendem a ser muito profundas.  Não são espetaculares, resultantes de expressões bombásticas e localizadas, mas sim de uma pressão pulverizada.  Acabam se traduzindo em comportamentos que vão sendo assumidos pelos atores, mais lentamente, mais rapidamente, dependendo das circunstâncias.  No caso da sustentabilidade ou da responsabilidade social corporativa, é impressionante quando se pega o caso americano.  Nos anos 60, o tema não existia, foi com o livro da Rachel Carlson, Primavera Silenciosa, que começou a existir.  A reação das empresas foi dizer: “Essa mulher é louca”.  Quando foi criada a EPA (Environmental Protection Agency), a reação foi: “Lá vêm esses burocratas atrapalhar o funcionamento do livre mercado”.  O governo Reagan, quando assume, procura manipular a EPA.  Como isso coincidiu com desastres ambientais, essa manipulação não deu certo.  A EPA adquiriu independência, prestígio.  E a reação das empresas, mais que se adaptar às exigências da EPA, foi ultrapassá-las, transformando os elementos referentes a meio ambiente em formas estratégicas de comportamento.  O que não pode ser simplesmente cortina de fumaça, porque começam a se montar diretorias ambientais com força dentro das empresas e, uma vez que elas assumem compromissos ambientais, fica relativamente fácil de checar o cumprimento ou não desses compromissos junto aos movimentos sociais.  Estes passam a atuar com as empresas e não mais em situação permanente de oposição.  22: É o que se vê no Ares e na moratória da soja?  RA: Sim.  Hoje, o envolvimento de dirigentes empresariais com a questão da sustentabilidade é tão forte que não dá para achar que é cortina de fumaça.  Isso nos faz rever a maneira como enxergamos o que quer dizer mercado.  Temos uma visão distorcida e anti-sociológica, e a tendência de encará-lo como entidade mágica.  De um lado, têm-se a sociedade, a cultura, os valores, as coisas que realmente contam, e, de outro, uma coisa meio fria, interesseira, mecânica.  Não é assim.  Mercado é uma estrutura social.  É uma expressão da sociedade, como a cultura é uma expressão da sociedade.  Os mercados podem ser interpretados a partir de uma abordagem político-cultural, e não de uma abordagem mecânica, como se fosse o sistema planetário newtoniano.  Se isso é verdade, é muito importante entender a evolução político-cultural dos mercados, e essa evolução coloca cada vez mais no seu interior os temas ambientais e numa menor proporção, os sociais.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Então estamos em uma mudança de modelo?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RA: Acho que sim, mas não acho que seja “a antecâmara do Apocalipse”, ou que estejamos indo para o brejo.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Como podemos falar em produção responsável de alimentos dentro de um modelo ainda concentrador de renda como o brasileiro?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RA: As empresas que estão se organizando em torno do tema da sustentabilidade na agricultura vão ter de enfrentar o problema da concentração dos recursos produtivos, sobretudo no que se refere à lavoura canavieira.  Não é verdade que essa concentração reflita eficiência, nem que ela seja condição de eficiência, porque se apóia na obtenção de terra muito barata, obtida numa cadeia de ocupação em que atividades ilícitas estão incluídas, como grilagem, desmatamento ilegal etc. Atividades do passado que acabam não se exprimindo hoje em crime, porque muitas dessas terras já estão legalizadas.  Esse tema não tem como deixar de ser enfrentado em algum momento: concentração produtiva.  O segundo tema são as condições de trabalho.  Um trabalhador, na usina canavieira, desfere trinta golpes de foice por minuto para obter R$ 800 por mês.  Claro que alguém pode dizer que, se ele não estivesse fazendo isso, estaria morrendo de fome.  Essa afirmação é uma confissão de que a sociedade está doente.  O terceiro tema é a questão ambiental.  Na expansão da cana e da soja, o foco está na Amazônia e os cerrados têm sido totalmente deixados de lado.  O Cerrado é uma floresta de cabeça para baixo, dele depende grande parte do sistema de águas do continente e ainda possui uma biodiversidade extraordinariamente rica.  Mas a sociedade brasileira se habituou a encará-lo como terra livre, fronteira agrícola a ser ocupada.  Por isso é que temos 90 milhões, 110 milhões de hectares de fronteira agrícola.  Não é verdade.  Temos 110 milhões de áreas biologicamente fragilizadas, cuja ocupação a sociedade, de maneira inteligente, tem de decidir qual vai ser.  Não pode considerar isso como área livre porque vai preservar a Amazônia.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Isso ocorre porque há uma pressão internacional muito forte para a preservação da Amazônia que não existe para os outros biomas?  O próprio governo incentivou a ocupação do Cerrado.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RA: E hoje também.  Não há nenhum tipo de medida, governamental ou empresarial, sinalizando aos atores privados que ocupar o Cerrado é algo que precisa ser objeto de cuidado.  Ocupa, desmata e pronto.  Porque o grande objetivo nacional é aumentar a produção agrícola.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Qual é o potencial dos orgânicos ou da agroecologia para suprir a demanda de alimentos?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RA: Ainda é um nicho.  No Brasil, existe um potencial muito grande, mas que foi pessimamente aproveitado.  Quando, por exemplo, o governo gaúcho tentou implantar uma política em que a extensão rural fosse vinculada à agroecologia, foi cometido um erro crucial.  Não se cuidou da criação de qualquer forma certificada de mercado, envolvimento do setor privado etc. A agroecologia tornou-se um discurso vazio e o resultado foi pífio.  Temos também de raciocinar mais em termos de processos de transição do que em modelos polares.  A tendência é de uma transição lenta em direção à redução no uso de insumos, por razões econômicas e ambientais, até que em muitos produtos se chegue ao uso mínimo ou até na abolição do uso.  22: Sem cair no transgênico?  RA: É claro que existe algum tipo de risco nos transgênicos, risco em torno de monotonia de paisagem, de monotonia na própria diversidade do leque genético que compõe a produção agropecuária.  Entretanto, existem situações nas quais possivelmente o uso dos transgênicos poderá ser importantíssimo: no combate à fome.  E se em situações semiáridas nos países da África negra se descobrem sementes compatíveis com as condições locais, capazes de ampliar as capacidades produtivas dessas populações que estão em situação de pobreza e que o ambiente é muito hostil?  Não se devem empregar esses produtos pelo fato de serem transgênicos?  É preciso tomar cuidado com isso.  O mais interessante na discussão dos transgênicos é que ela coloca em realce o sentido do progresso técnico para o processo de desenvolvimento, ou seja, para as populações a que esse progresso técnico se refere.  Para as populações européias essa é uma inovação que não lhes traz nada em termos de progresso técnico, mas talvez traga para as africanas.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Defensores dos transgênicos costumam argumentar que é preciso combater a fome no mundo, produzir alimento de forma abundante e barata diante de um crescimento demográfico, sem avançar a fronteira agrícola.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RA: Esse argumento acabou se voltando contra as empresas, porque é muito fácil provar que o problema da fome não vai ser resolvido com a produção de alimento barato.  Como as pesquisas que essas empresas fizeram não foram dirigidas a melhorar as capacidades produtivas de populações pobres, elas foram pegas no contrapé de um movimento de contestação social extraordinário, que bloqueou os seus avanços.  Quando entraram nesses mercados com argumentos que eram inconsistentes, isso contribuiu para abalar suas posições de mercado e fragilizá-las.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Fala-se que o Brasil tem áreas degradadas e por isso não seria necessário abrir novas fronteiras.  Mas abri-las não é mais barato que recuperar as terras degradadas?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">RA: Exatamente, tem de recuperar etc. No Brasil, a grilagem e ocupação de terras continua.  O governo não tem como, sozinho, cuidar disso.  As entidades empresariais, juntamente com o governo, precisariam ter uma ação muito incisiva no sentido de interromper esse processo de destruição imediatamente.  Entretanto, formou-se no Brasil uma tradição, que corresponde de alguma maneira ao que existia nos EUA quando a EPA foi formada, de oposição entre o órgão ambiental e os interesses empresariais, como se os órgãos nada mais fizessem que impor limites burocráticos à livre manifestação dos interesses empresariais.  É uma tragédia que ainda estejamos nessa etapa.  O drama da degradação é que a transição é lenta, mas a destruição é rápida, e não dá para esperar a transição se completar, porque aí a destruição já terá sido muito vigorosa.  Existe um duplo processo de diabolizar as condutas empresariais como anti-sociais e de caracterizar as condutas estatais como burocratizantes, o que nos conduz à paralisia.</div>
<div>Em vez do discurso antiprotecionista, o Brasil ganharia mais assumindo no comércio internacional uma posição em favor da agricultura &#8220;limpa&#8221; e socialmente integrada ao processo de desenvolvimento. Até porque, se os mercados fossem liberalizados, os ganhos para o País seriam menores do que se apregoa. As afirmações são de Ricardo Abramovay, chefe do Departamento de Economia da FEA-USP e membro efetivo do Conselho Científico do Centre International de Recherches pour l&#8217;Agriculture et le Développement. Para o professor, a fome no mundo só será combatida quando as populações em carência alimentar tiverem condições de fazer da atividade agrícola sua fonte de renda, em produções descentralizadas</div>
<div>Por Amália Safatle<span style="white-space: pre;"> </span></div>
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<div>Página 22: Quais as chances de o protecionismo agrícola praticado pelos países centrais ser reduzido num futuro próximo?</div>
<div>Ricardo Abramovay: Como somos um país exportador e as formas de subsídio que praticamos não estão ligadas a protecionismo, o Brasil se acostumou a encará-lo como pecado, embora não encare como pecado outras formas de subsídio público.  E muitas vezes são formas de subsídio socialmente inaceitáveis, como o praticado desde o final dos anos 60 sob a forma de incentivos fiscais que conduziam a uma extraordinária concentração da propriedade da terra no Centro-Oeste, até atualmente, com a renegociação de dívidas bancárias de grandes produtores.  Protecionismo é escândalo; subvenções que beneficiam segmentos de alta renda não aparecem como tão escandalosos.  Qual é a base histórica das políticas de sustentação da renda na agricultura dos países desenvolvidos?  O fato de que se trata de um setor altamente competitivo e pulverizado, e em torno do qual se estabeleceu uma espécie de pacto, a partir do New Deal, nos EUA, e da formação da Política Agrícola Comum, na Europa.  Os agricultores adotavam métodos produtivos correspondentes ao que havia de mais moderno na época, o que elevaria suas safras, e haveria instabilidade nos preços.  A política agrícola, antes que a interpretemos como a força deste ou daquele grupo, tem uma função socialmente racional, que é a de tentar estabilizar a oferta, garantir um patamar de renda aos agricultores, progresso técnico, e isso nos países desenvolvidos durante um bom período foi feito de forma razoavelmente adequada.  Sem essa política, dificilmente esses países teriam o poder que alcançaram.  Óbvio que ao longo do tempo provocou distorções.  Fez com que áreas pouco propícias à produção agrícola continuassem com cultivo e, mais que isso: os preços garantidos levaram a um consumo de agrotóxicos e insumos e não estimularam o uso racional e sustentável dos recursos.  Começaram a se manifestar de maneira cada vez mais forte os problemas ambientais resultantes da expansão da produção agrícola, tanto nos EUA como na Europa.  O resultado nós o assistimos nos anos 80: a explosão das supersafras, as montanhas de cereais e de manteiga, os rios de leite.  Aí, sim, era gravíssimo, porque parte muito grande da produção excedente foi competir com mercados locais como os africanos, em condições extremamente destrutivas.  Isso deu lugar a uma série de movimentos sociais para reorganizar esses mercados.  A partir dos anos 90, houve uma tentativa dos países desenvolvidos de redesenhar os mecanismos de subsídio.  Mas permanece até hoje, nos EUA e na Europa, um problema seriíssimo, que é a concentração desses subsídios em segmentos de alta renda na agricultura.  E o Brasil não explora esse flanco nas discussões: a concentração social de subsídios em um pequeno punhado de agricultores mais prósperos e cujo comportamento ambiental está longe de ser o mais adequado.</div>
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<div>22: Um estudo que a FEA fez a pedido da OCDE chegou à conclusão de que são relativamente pequenos e concentrados os ganhos de renda no Brasil numa simulação de queda de 50% dos subsídios.  Qual é o seu comentário em relação a essa conclusão?</div>
<div>RA: O agronegócio chega a quase 40% do PIB, mas a agricultura stricto sensu é 8% a 10% do PIB.  Se houver uma liberalização que implique aumento de 20% da produção agrícola brasileira, que ganhos o País teria?  Não são desprezíveis, mas estão longe de muito consideráveis.  Mas o ponto mais importante dessa discussão não me parece ser o efeito da abertura sobre o crescimento agrícola, mas o efeito do crescimento agrícola sobre o desenvolvimento brasileiro.  Se o crescimento for acompanhado de medidas que permitam melhorar as condições de trabalho dos assalariados e um planejamento para o melhor uso dos recursos naturais, pode ser interessante.  Mas abertura comercial por si só não abre nessa direção, ao contrário.  A bola está passando embaixo das pernas do Brasil nessa história.  O discurso do Brasil na OMC (Organização Mundial do Comércio) deveria ser a favor da agricultura limpa e socialmente integrada ao processo de desenvolvimento.  O Brasil está entre os países que poderiam construir modalidades de produção agropecuária respeitosas ao meio ambiente, transitando rumo a uma agricultura sustentável.  Mas sempre adotou uma posição conservadora e até mesmo reacionária nos organismos internacionais, associando as exigências universalistas relativas à preservação ambiental e condições sociais a barreiras não tarifárias.  Isso colocou o País na defensiva quando deveria estar na ofensiva.  O importante não é que a agricultura cresça ou exporte mais.  É que cresça preservando o meio ambiente, respeitando as condições de trabalho, garantindo um bom futuro para as pessoas.  É essa discussão que países como o Brasil deveriam levar à cena internacional.  Do início do governo FHC até hoje, o discurso é ambíguo.  É de cunho liberal contra o protecionismo, mas o conteúdo do protecionismo corresponde a coisas que o Brasil, se estivesse nas condições dos países desenvolvidos, também faria.</div>
<div></div>
<div>22: E por que se repete esse discurso antiprotecionista?  Porque é mais “fácil”?</div>
<div>RA: Porque não existem forças sociais pressionando em outra direção.  Mesmo do lado dos movimentos sociais, os interesses acabam muito mais vinculados à obtenção de renda e de benefícios corporativos.  Por exemplo, é muito bom que haja crédito para o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar).  Mas os movimentos sociais não discutem e não incorporam às suas pautas, e muitos menos às suas práticas de campo, o crédito para o Pronaf com produção limpa, produção sustentável.  O tipo de pressão social que chega ao governo vai todo na direção produtivista, e não daquilo que é hoje o mais notável e avançado na cena internacional, que é como você compatibiliza aumento produtivo com melhoria na qualidade da alimentação, no vínculo entre o ato de comer e a preservação das regiões de onde saem os alimentos, a preservação do patrimônio cultural de uma região.  Esse vínculo hoje nos países desenvolvidos é cada vez mais importante.  Basta ver o impacto que tem um movimento como o Slow Food em toda a Europa.  Isso, que para nós aparece como perfumaria e coisa de país rico, lá é uma tendência extremamente importante, e que poderia se manifestar aqui, mas não faz parte da “discussão séria”.  A “discussão séria” é a OMC, é preço, é protecionismo.  Isso é uma miopia completa, porque é onde os agricultores conseguem qualificar sua produção em mercados diferenciados, que serão organizados, e não obedecem às leis mágicas da livre concorrência.</div>
<div></div>
<div>22: Então em vez de brigar contra a prática protecionista, que não vai mudar tão cedo, o Brasil ganharia muito mais seguindo essa linha?</div>
<div>RA: Sim.  Mesmo porque, como mostra o estudo de Joaquim Guilhoto e de Carlos Azzoni, caso os mercados fossem liberalizados, os ganhos nossos de renda seriam muito baixos.  Primeiro, porque o impacto não é tão alto como se imagina.  Segundo, que é uma questão de realismo.  Os países desenvolvidos não vão rifar sua estrutura agrícola e sua capacidade produtiva em nome de um princípio de obediência às leis do mercado.  China, Índia e Brasil vão falar de liberalismo?  A China e a Índia é uma piada, o Brasil ainda vá lá.  Mas quando se trata de distribuição de renda na agricultura, o Brasil não tem uma atitude liberal.  Somos um país que subvenciona, mas subvenciona mal a sua agricultura.  O que o Brasil gasta hoje na sustentação dos diferentes segmentos ligados à agricultura precisaria ser repensado no seu formato.  O Brasil gasta muito com política fundiária, com o Pronaf e, sobretudo, com o refinanciamento das dívidas de uma quantidade pequena de agricultores, de grandes devedores do Tesouro Nacional, dívida essa que está securitizada e custa uma fortuna aos cofres públicos.  Que dívida é essa que ao longo dos anos se renegocia e os governos não conseguem enfrentar?</div>
<div></div>
<div>22: No Brasil exportamos muito para países como China e Índia, que não têm muita preocupação, ao menos por enquanto, com qualificações socioambientais.  Como o Brasil migrará para essa produção mais sofisticada enquanto a grande procura é pelo tipo de produção mais barata?</div>
<div>RA: Os processos de certificação e de rastreabilidade, que hoje ainda se concentram em produtos considerados de nicho, tendem a aumentar, e rapidamente.  Basta ver o caso dos biocombustíveis.  Quais são os dois segmentos empresariais em que os temas de sustentabilidade estão sendo discutidos?  São a soja, pela Abiove, e toda essa mobilização inédita e importante feita em torno da moratória da soja na Amazônia de um lado, e a cana-de-açúcar, em torno do etanol — as duas por causa do mercado externo.  Isso mostra que muito mais importante que a discussão a respeito do protecionismo é a imensa pressão que já existe, e será cada vez maior, sobre a maneira como se organizam os mercados desses produtos no Brasil.  A Universidade Politécnica de Lausanne, por exemplo, realizou, há poucos meses, uma mesa-redonda que se transformou em atividade permanente em torno da rastreabilidade dos biocombustíveis.  Existe um imenso temor, por parte dos europeus, de que a expansão da cana-de-açúcar vá em direção a áreas ecologicamente frágeis, como ocorreu com o óleo de palma na Indonésia.  O que deu lugar, inclusive, a um movimento social europeu, que é o Biofuel Watch.</div>
<div></div>
<div>22: Sempre se fala que o problema da fome no mundo não é de oferta, e sim de má distribuição.  Com o aumento demográfico precisaremos produzir muito mais ou não tanto, se é uma questão de acesso aos alimentos?</div>
<div>RA: Em relação à fome não dá para raciocinar em bloco.  Temos de aplicar o raciocínio de Josué de Castro, quando fazia A Geografia da Fome.  A reflexão deve ser localizada.  Onde se localiza a fome no mundo?  A violência, a insegurança, as péssimas condições de vida, os assassinatos de jovens são fenômenos das áreas metropolitanas.  A fome não.  No Brasil, na África, ao Sul do Saara, na Índia e na China, está nas áreas rurais.  Quem são os famintos?  Pessoas que vivem fundamentalmente da agricultura.  Quando dissocio a vitória sobre a fome do aumento da produção agrícola, dizendo que já tem para todo mundo, estou dizendo: deixa que eu abasteço os famintos das áreas rurais com a produção agrícola que virá das planícies da Região Centro-Oeste brasileira, das grandes planícies americanas, das áreas européias altamente produtivas.  Se o raciocínio for esse, estou retirando das populações famintas a única oportunidade que têm de gerar a renda necessária para satisfazer suas necessidades.  O grande desafio hoje não é aumentar a produção agropecuária, é aumentar a produção nas áreas em que existem famintos, em condições ecologicamente aceitáveis, sem o que as migrações continuarão aumentando.  Há um documento escrito por Gordon Conway que se chama A Revolução Duplamente Verde.  Há dois cenários.  Um é concentrar a produção agrícola internacional em áreas supostamente mais aptas para tanto, com base na produção altamente mecanizada e menos consumidora de veneno.  Um low-input sustainable agriculture, que é um conceito dos americanos.  E a partir disso garantir o abastecimento da humanidade, preservando áreas ecologicamente frágeis.  O problema é que populações em situação de carência alimentar precisariam importar suas necessidades alimentares de outros países.  Como vão gerar a renda para isso?  Isso significa dissociar preservação ambiental e produção, que talvez não seja a melhor coisa a se fazer.  Por isso, o segundo cenário, preconizado nesse documento, lança um desafio fantástico para a pesquisa agropecuária: precisamos descentralizar essa produção, em vez de concentrá-la nas áreas mais propícias.  E qual é o balanço 13 anos depois da publicação do Gordon Conway?</div>
<div></div>
<div>22: O que aconteceu de lá para cá?</div>
<div>RA: O caminho dominante está vencendo, e essa é mais uma razão para o discurso antiprotecionista ser socialmente suspeito.  Porque então passamos à abertura completa dos mercados, deixamos que essas populações, em áreas ecologicamente frágeis, sem produzir, porque não têm vantagens comparativas, e vamos doar alimentos, subsidiar pelo fundo internacional.  Mas o cenário que emerge disso é o de um mundo ainda mais desarticulado do que está hoje.  O discurso antiprotecionista não é o que mais protege essas populações, contrariamente ao que um certo bom senso internacional, inclusive o praticado pelo governo brasileiro, gostaria de fazer crer.</div>
<div></div>
<div>22: Nesse crescimento demográfico, o agribusiness brasileiro vê uma janela comercial enorme ao mesmo tempo que começa a adotar o discurso da sustentabilidade.  Faz a moratória da soja, cria o ARES (Instituto para o Agronegócio Responsável).  Estamos migrando para outro modelo ou apenas adaptando ao modelo vigente técnicas mais aceitáveis pela sociedade?</div>
<div>RA: Mudança social é sempre mudança adaptativa.  Há uma expressão francesa, chassez le naturel, il revient au galop: expulse o que é natural, e ele volta galopando.  Mudanças revolucionárias, com muita freqüência, produzem situações em que os piores traços do que existia voltam com força extraordinária.  Poderíamos reformular assim: mudanças, em democracia, são sempre adaptativas.  Nesse sentido, há oposição entre mudança e adaptação que costumamos fazer, e que no fundo poderíamos dizer “estamos mudando mesmo ou só jogando areia nos olhos dos trouxas?” Acho que não, que as mudanças que passam por transformações na maneira como os mercados se organizam tendem a ser muito profundas.  Não são espetaculares, resultantes de expressões bombásticas e localizadas, mas sim de uma pressão pulverizada.  Acabam se traduzindo em comportamentos que vão sendo assumidos pelos atores, mais lentamente, mais rapidamente, dependendo das circunstâncias.  No caso da sustentabilidade ou da responsabilidade social corporativa, é impressionante quando se pega o caso americano.  Nos anos 60, o tema não existia, foi com o livro da Rachel Carlson, Primavera Silenciosa, que começou a existir.  A reação das empresas foi dizer: “Essa mulher é louca”.  Quando foi criada a EPA (Environmental Protection Agency), a reação foi: “Lá vêm esses burocratas atrapalhar o funcionamento do livre mercado”.  O governo Reagan, quando assume, procura manipular a EPA.  Como isso coincidiu com desastres ambientais, essa manipulação não deu certo.  A EPA adquiriu independência, prestígio.  E a reação das empresas, mais que se adaptar às exigências da EPA, foi ultrapassá-las, transformando os elementos referentes a meio ambiente em formas estratégicas de comportamento.  O que não pode ser simplesmente cortina de fumaça, porque começam a se montar diretorias ambientais com força dentro das empresas e, uma vez que elas assumem compromissos ambientais, fica relativamente fácil de checar o cumprimento ou não desses compromissos junto aos movimentos sociais.  Estes passam a atuar com as empresas e não mais em situação permanente de oposição.  22: É o que se vê no Ares e na moratória da soja?  RA: Sim.  Hoje, o envolvimento de dirigentes empresariais com a questão da sustentabilidade é tão forte que não dá para achar que é cortina de fumaça.  Isso nos faz rever a maneira como enxergamos o que quer dizer mercado.  Temos uma visão distorcida e anti-sociológica, e a tendência de encará-lo como entidade mágica.  De um lado, têm-se a sociedade, a cultura, os valores, as coisas que realmente contam, e, de outro, uma coisa meio fria, interesseira, mecânica.  Não é assim.  Mercado é uma estrutura social.  É uma expressão da sociedade, como a cultura é uma expressão da sociedade.  Os mercados podem ser interpretados a partir de uma abordagem político-cultural, e não de uma abordagem mecânica, como se fosse o sistema planetário newtoniano.  Se isso é verdade, é muito importante entender a evolução político-cultural dos mercados, e essa evolução coloca cada vez mais no seu interior os temas ambientais e numa menor proporção, os sociais.</div>
<div></div>
<div>22: Então estamos em uma mudança de modelo?</div>
<div>RA: Acho que sim, mas não acho que seja “a antecâmara do Apocalipse”, ou que estejamos indo para o brejo.</div>
<div></div>
<div>22: Como podemos falar em produção responsável de alimentos dentro de um modelo ainda concentrador de renda como o brasileiro?</div>
<div>RA: As empresas que estão se organizando em torno do tema da sustentabilidade na agricultura vão ter de enfrentar o problema da concentração dos recursos produtivos, sobretudo no que se refere à lavoura canavieira.  Não é verdade que essa concentração reflita eficiência, nem que ela seja condição de eficiência, porque se apóia na obtenção de terra muito barata, obtida numa cadeia de ocupação em que atividades ilícitas estão incluídas, como grilagem, desmatamento ilegal etc. Atividades do passado que acabam não se exprimindo hoje em crime, porque muitas dessas terras já estão legalizadas.  Esse tema não tem como deixar de ser enfrentado em algum momento: concentração produtiva.  O segundo tema são as condições de trabalho.  Um trabalhador, na usina canavieira, desfere trinta golpes de foice por minuto para obter R$ 800 por mês.  Claro que alguém pode dizer que, se ele não estivesse fazendo isso, estaria morrendo de fome.  Essa afirmação é uma confissão de que a sociedade está doente.  O terceiro tema é a questão ambiental.  Na expansão da cana e da soja, o foco está na Amazônia e os cerrados têm sido totalmente deixados de lado.  O Cerrado é uma floresta de cabeça para baixo, dele depende grande parte do sistema de águas do continente e ainda possui uma biodiversidade extraordinariamente rica.  Mas a sociedade brasileira se habituou a encará-lo como terra livre, fronteira agrícola a ser ocupada.  Por isso é que temos 90 milhões, 110 milhões de hectares de fronteira agrícola.  Não é verdade.  Temos 110 milhões de áreas biologicamente fragilizadas, cuja ocupação a sociedade, de maneira inteligente, tem de decidir qual vai ser.  Não pode considerar isso como área livre porque vai preservar a Amazônia.</div>
<div></div>
<div>22: Isso ocorre porque há uma pressão internacional muito forte para a preservação da Amazônia que não existe para os outros biomas?  O próprio governo incentivou a ocupação do Cerrado.</div>
<div>RA: E hoje também.  Não há nenhum tipo de medida, governamental ou empresarial, sinalizando aos atores privados que ocupar o Cerrado é algo que precisa ser objeto de cuidado.  Ocupa, desmata e pronto.  Porque o grande objetivo nacional é aumentar a produção agrícola.</div>
<div></div>
<div>22: Qual é o potencial dos orgânicos ou da agroecologia para suprir a demanda de alimentos?</div>
<div>RA: Ainda é um nicho.  No Brasil, existe um potencial muito grande, mas que foi pessimamente aproveitado.  Quando, por exemplo, o governo gaúcho tentou implantar uma política em que a extensão rural fosse vinculada à agroecologia, foi cometido um erro crucial.  Não se cuidou da criação de qualquer forma certificada de mercado, envolvimento do setor privado etc. A agroecologia tornou-se um discurso vazio e o resultado foi pífio.  Temos também de raciocinar mais em termos de processos de transição do que em modelos polares.  A tendência é de uma transição lenta em direção à redução no uso de insumos, por razões econômicas e ambientais, até que em muitos produtos se chegue ao uso mínimo ou até na abolição do uso.  22: Sem cair no transgênico?  RA: É claro que existe algum tipo de risco nos transgênicos, risco em torno de monotonia de paisagem, de monotonia na própria diversidade do leque genético que compõe a produção agropecuária.  Entretanto, existem situações nas quais possivelmente o uso dos transgênicos poderá ser importantíssimo: no combate à fome.  E se em situações semiáridas nos países da África negra se descobrem sementes compatíveis com as condições locais, capazes de ampliar as capacidades produtivas dessas populações que estão em situação de pobreza e que o ambiente é muito hostil?  Não se devem empregar esses produtos pelo fato de serem transgênicos?  É preciso tomar cuidado com isso.  O mais interessante na discussão dos transgênicos é que ela coloca em realce o sentido do progresso técnico para o processo de desenvolvimento, ou seja, para as populações a que esse progresso técnico se refere.  Para as populações européias essa é uma inovação que não lhes traz nada em termos de progresso técnico, mas talvez traga para as africanas.</div>
<div></div>
<div>22: Defensores dos transgênicos costumam argumentar que é preciso combater a fome no mundo, produzir alimento de forma abundante e barata diante de um crescimento demográfico, sem avançar a fronteira agrícola.</div>
<div>RA: Esse argumento acabou se voltando contra as empresas, porque é muito fácil provar que o problema da fome não vai ser resolvido com a produção de alimento barato.  Como as pesquisas que essas empresas fizeram não foram dirigidas a melhorar as capacidades produtivas de populações pobres, elas foram pegas no contrapé de um movimento de contestação social extraordinário, que bloqueou os seus avanços.  Quando entraram nesses mercados com argumentos que eram inconsistentes, isso contribuiu para abalar suas posições de mercado e fragilizá-las.</div>
<div></div>
<div>22: Fala-se que o Brasil tem áreas degradadas e por isso não seria necessário abrir novas fronteiras.  Mas abri-las não é mais barato que recuperar as terras degradadas?</div>
<div>RA: Exatamente, tem de recuperar etc. No Brasil, a grilagem e ocupação de terras continua.  O governo não tem como, sozinho, cuidar disso.  As entidades empresariais, juntamente com o governo, precisariam ter uma ação muito incisiva no sentido de interromper esse processo de destruição imediatamente.  Entretanto, formou-se no Brasil uma tradição, que corresponde de alguma maneira ao que existia nos EUA quando a EPA foi formada, de oposição entre o órgão ambiental e os interesses empresariais, como se os órgãos nada mais fizessem que impor limites burocráticos à livre manifestação dos interesses empresariais.  É uma tragédia que ainda estejamos nessa etapa.  O drama da degradação é que a transição é lenta, mas a destruição é rápida, e não dá para esperar a transição se completar, porque aí a destruição já terá sido muito vigorosa.  Existe um duplo processo de diabolizar as condutas empresariais como anti-sociais e de caracterizar as condutas estatais como burocratizantes, o que nos conduz à paralisia.</div>
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		<title>Sobre outros pilares</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Sep 2007 17:26:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Milene Pacheco 
Para deixar de lado a fama de vilão, dado que o setor da construção civil é responsável por signifi cativos impactos socioambientais, foi criado em agosto o Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS).  Trata-se de uma organização [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Milene Pacheco<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Para deixar de lado a fama de vilão, dado que o setor da construção civil é responsável por signifi cativos impactos socioambientais, foi criado em agosto o Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS).  Trata-se de uma organização sem fi ns lucrativos que já conta com 90 integrantes, entre profi ssionais, empresas e entidades ligadas ao setor.  “O objetivo é promover o desenvolvimento sustentável por meio da geração e disseminação de conhecimento e pela mobilização da cadeia produtiva da construção civil, seus clientes e consumidores”, afi rma o presidente do CBCS, Marcelo Vespoli Takaoka, que dirige a construtora Y. Takaoka e integra o conselho de administração da Bolsa de Valores Sociais e Ambientais (BVS&amp;A).  O meio ambiente, a economia e o social são os três pilares de ação do CBCS, que produzirá propostas para resolver problemas como a informalidade na contratação dos empregados, o consumo de 75% dos recursos naturais extraídos no País e a geração de 80 milhões de toneladas de resíduos por ano.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O engenheiro Vanderley John, professor do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e membro do CBCS, afi rma que no Brasil o setor está 20 anos atrasado em relação ao resto do mundo no campo da sustentabilidade.  “Há pessoas trabalhando com o tema, mas boa parte do setor está acostumada a pensar que o impacto ambiental está ligado a outras áreas”, diz o professor.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A idéia do CBCS é colocar todo o conteúdo produzido na internet (www.cbcs.org.br), além de realizar projetos específi cos contratados e oferecer serviços como capacitação, cursos e publicações.</div>
<div>Por Milene Pacheco<span style="white-space: pre;"> </span></div>
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<div>Para deixar de lado a fama de vilão, dado que o setor da construção civil é responsável por signifi cativos impactos socioambientais, foi criado em agosto o Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS).  Trata-se de uma organização sem fi ns lucrativos que já conta com 90 integrantes, entre profi ssionais, empresas e entidades ligadas ao setor.  “O objetivo é promover o desenvolvimento sustentável por meio da geração e disseminação de conhecimento e pela mobilização da cadeia produtiva da construção civil, seus clientes e consumidores”, afi rma o presidente do CBCS, Marcelo Vespoli Takaoka, que dirige a construtora Y. Takaoka e integra o conselho de administração da Bolsa de Valores Sociais e Ambientais (BVS&amp;A).  O meio ambiente, a economia e o social são os três pilares de ação do CBCS, que produzirá propostas para resolver problemas como a informalidade na contratação dos empregados, o consumo de 75% dos recursos naturais extraídos no País e a geração de 80 milhões de toneladas de resíduos por ano.</div>
<div>O engenheiro Vanderley John, professor do Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e membro do CBCS, afi rma que no Brasil o setor está 20 anos atrasado em relação ao resto do mundo no campo da sustentabilidade.  “Há pessoas trabalhando com o tema, mas boa parte do setor está acostumada a pensar que o impacto ambiental está ligado a outras áreas”, diz o professor.</div>
<div>A idéia do CBCS é colocar todo o conteúdo produzido na internet (www.cbcs.org.br), além de realizar projetos específi cos contratados e oferecer serviços como capacitação, cursos e publicações.</div>
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		<title>Melhor sem hífen</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Sep 2007 17:23:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Amália Safatle 
Na capa, a tinta verde carimbada por mãos de forma vigorosa sobre um fundo branco dá o recado.  E o recado é urgente: meio ambiente e seres humanos devem andar juntos.  Nessa unidade ganham poder transformador e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Amália Safatle<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Na capa, a tinta verde carimbada por mãos de forma vigorosa sobre um fundo branco dá o recado.  E o recado é urgente: meio ambiente e seres humanos devem andar juntos.  Nessa unidade ganham poder transformador e político.  A Emergência Socioambiental — assim mesmo, sem hífen — é a nova obra de José Eli da Veiga, professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Lançado no final de agosto pela Editora Senac, o livro empresta da expressão “socioambiental” o sentido do movimento necessário para unir aquilo que a sociedade ocidental, desde o Renascimento, soube tão bem separar: cultura de natureza, economia e sociedade de meio ambiente.  Para a sustentabilidade, é uma dialética que não funciona.</div>
<div>Por Amália Safatle<span style="white-space: pre;"> </span></div>
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<div>Na capa, a tinta verde carimbada por mãos de forma vigorosa sobre um fundo branco dá o recado.  E o recado é urgente: meio ambiente e seres humanos devem andar juntos.  Nessa unidade ganham poder transformador e político.  A Emergência Socioambiental — assim mesmo, sem hífen — é a nova obra de José Eli da Veiga, professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP.</div>
<div>Lançado no final de agosto pela Editora Senac, o livro empresta da expressão “socioambiental” o sentido do movimento necessário para unir aquilo que a sociedade ocidental, desde o Renascimento, soube tão bem separar: cultura de natureza, economia e sociedade de meio ambiente.  Para a sustentabilidade, é uma dialética que não funciona.</div>
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		<title>Nova avaliação na praça</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Sep 2007 17:21:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Revista]]></category>
		<category><![CDATA[A Emergência Socioambiental]]></category>
		<category><![CDATA[José Eli da Veiga]]></category>
		<category><![CDATA[notas]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Amália Safatle 
Ferramenta já consolidada para avaliação de risco de crédito, o Credit Rating da Serasa fornece informações econômico-financeiras das principais companhias no Brasil.  A novidade é que um produto similar foi lançado pela empresa, desta vez para análise [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Amália Safatle<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Ferramenta já consolidada para avaliação de risco de crédito, o Credit Rating da Serasa fornece informações econômico-financeiras das principais companhias no Brasil.  A novidade é que um produto similar foi lançado pela empresa, desta vez para análise do risco ambiental.  “Trata-se de um instrumento a mais para tomada de decisão na concessão de empréstimos”, conta Franklin Mendes Thame, gerente de produtos de risco socioambiental da Serasa.  “Hoje poucos bancos fazem esse tipo de avaliação.  Com a nova ferramenta, a prática pode ser generalizada”, avalia Victorio Mattarozzi, sócio da Finanças Sustentáveis, consultoria voltada à sustentabilidade no setor fi nanceiro.  Ele e seu sócio Cássio Trunkl explicam que empresas bem pontuadas na avaliação ambiental da Serasa deverão pagar spreads menores.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por isso, as que têm bom desempenho ambiental tendem a responder o questionário distribuído a mais de 2 mil empresas no País.  O produto, chamado Relatório de Responsabilidade Ambiental (RRA), permite avaliação das empresas segundo quatro critérios: política e gestão ambiental; forma de uso dos recursos naturais; medidas adotadas para evitar, diminuir ou remediar impactos; e cumprimento das disposições legais.  O atendimento a esses parâmetros resulta numa nota, enquanto o não-atendimento pontua negativamente.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Mais que isso, explicam os consultores, o RRA dará informações para que os bancos forneçam produtos e serviços financeiros específi cos para as empresas superarem suas vulnerabilidades.  E para elas será uma forma de identificá-las e corrigi-las.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Um dos benchmarks utilizados na construção do questionário foi o Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa (ISE).  Até o fim do ano, informa Thame, a Serasa lançará também o Relatório de Responsabilidade Social, produto que se unirá aos anteriores (econômico-fi nanceiro e ambiental) para completar o tripé da sustentabilidade.</div>
<div>Por Amália Safatle<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div></div>
<div>Ferramenta já consolidada para avaliação de risco de crédito, o Credit Rating da Serasa fornece informações econômico-financeiras das principais companhias no Brasil.  A novidade é que um produto similar foi lançado pela empresa, desta vez para análise do risco ambiental.  “Trata-se de um instrumento a mais para tomada de decisão na concessão de empréstimos”, conta Franklin Mendes Thame, gerente de produtos de risco socioambiental da Serasa.  “Hoje poucos bancos fazem esse tipo de avaliação.  Com a nova ferramenta, a prática pode ser generalizada”, avalia Victorio Mattarozzi, sócio da Finanças Sustentáveis, consultoria voltada à sustentabilidade no setor fi nanceiro.  Ele e seu sócio Cássio Trunkl explicam que empresas bem pontuadas na avaliação ambiental da Serasa deverão pagar spreads menores.</div>
<div>Por isso, as que têm bom desempenho ambiental tendem a responder o questionário distribuído a mais de 2 mil empresas no País.  O produto, chamado Relatório de Responsabilidade Ambiental (RRA), permite avaliação das empresas segundo quatro critérios: política e gestão ambiental; forma de uso dos recursos naturais; medidas adotadas para evitar, diminuir ou remediar impactos; e cumprimento das disposições legais.  O atendimento a esses parâmetros resulta numa nota, enquanto o não-atendimento pontua negativamente.</div>
<div>Mais que isso, explicam os consultores, o RRA dará informações para que os bancos forneçam produtos e serviços financeiros específi cos para as empresas superarem suas vulnerabilidades.  E para elas será uma forma de identificá-las e corrigi-las.</div>
<div>Um dos benchmarks utilizados na construção do questionário foi o Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa (ISE).  Até o fim do ano, informa Thame, a Serasa lançará também o Relatório de Responsabilidade Social, produto que se unirá aos anteriores (econômico-fi nanceiro e ambiental) para completar o tripé da sustentabilidade.</div>
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		<title>Do outro lado da cerca</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Sep 2007 17:18:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Flavia Pardini 
A famosa rabitt-proof fence, uma cerca construída há 102 anos para evitar que o Oeste da Austrália fosse invadido por coelhos importados da Europa em 1859, não impediu que os animais se espalhassem pelo país, mas tem [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Flavia Pardini<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A famosa rabitt-proof fence, uma cerca construída há 102 anos para evitar que o Oeste da Austrália fosse invadido por coelhos importados da Europa em 1859, não impediu que os animais se espalhassem pelo país, mas tem ajudado os cientistas a compreender as implicações do uso da terra para o clima local.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Uma das poucas estruturas feitas pelo homem que pode ser vista do espaço, a cerca separa a região agrícola do estado de Western Australia de uma enorme porção de terra, de propriedade do governo federal, em que prevalece a vegetação nativa.  Nas fazendas do lado oeste, produz-se cerca de 50% do trigo exportado pela Austrália.  Do outro lado, verdeja a vegetação conhecida como mallee, dominada por eucaliptos e arbustos.  Sobre a vegetação nativa geralmente há nuvens, enquanto no lado das fazendas reina o sol e o céu azul (foto), com implicações nas taxas de precipitação.  “A cerca é uma fronteira política, em termos de solo não há diferença entre os dois lados”, explica Tom Lyons, pesquisador da Murdoch University.  “É um perfeito laboratório natural, em que podemos isolar os efeitos da mudança no uso da terra.” A região toda é de deserto, mas o lado das fazendas sofre a cada ano com menos precipitação.  Do outro lado, a vegetação nativa, resistente à seca, é escura, absorve calor do sol e, embora transpire pouco, é capaz de gerar o fenômeno da convecção, ajudando a umidade a subir, condensar e cair na forma de chuva.  A vegetação nas áreas de plantio é mais clara, usa a umidade do ar para crescer e, mesmo transpirando muito, não favorece a formação de nuvens e a condensação.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A próxima etapa do trabalho de Lyons é elaborar recomendações de políticas para o uso da terra.  Em agosto, ele e sua equipe reuniram fazendeiros no pub de uma cidade da região — que consiste numa rua e quatro casas &#8211; para explicar sua pesquisa.  “Alguns viajaram 80 ou 90 quilômetros para ouvir”, conta.  “Estão preocupados com a falta de chuva.” Ao saber que o corte da vegetação nativa tem muito a ver com a estiagem, veio a reação: “Se soubéssemos antes, tudo seria PARIS: 750 estações para alugar bicicletas diferente”.</div>
<div>Por Flavia Pardini<span style="white-space: pre;"> </span></div>
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<div>A famosa rabitt-proof fence, uma cerca construída há 102 anos para evitar que o Oeste da Austrália fosse invadido por coelhos importados da Europa em 1859, não impediu que os animais se espalhassem pelo país, mas tem ajudado os cientistas a compreender as implicações do uso da terra para o clima local.</div>
<div>Uma das poucas estruturas feitas pelo homem que pode ser vista do espaço, a cerca separa a região agrícola do estado de Western Australia de uma enorme porção de terra, de propriedade do governo federal, em que prevalece a vegetação nativa.  Nas fazendas do lado oeste, produz-se cerca de 50% do trigo exportado pela Austrália.  Do outro lado, verdeja a vegetação conhecida como mallee, dominada por eucaliptos e arbustos.  Sobre a vegetação nativa geralmente há nuvens, enquanto no lado das fazendas reina o sol e o céu azul (foto), com implicações nas taxas de precipitação.  “A cerca é uma fronteira política, em termos de solo não há diferença entre os dois lados”, explica Tom Lyons, pesquisador da Murdoch University.  “É um perfeito laboratório natural, em que podemos isolar os efeitos da mudança no uso da terra.” A região toda é de deserto, mas o lado das fazendas sofre a cada ano com menos precipitação.  Do outro lado, a vegetação nativa, resistente à seca, é escura, absorve calor do sol e, embora transpire pouco, é capaz de gerar o fenômeno da convecção, ajudando a umidade a subir, condensar e cair na forma de chuva.  A vegetação nas áreas de plantio é mais clara, usa a umidade do ar para crescer e, mesmo transpirando muito, não favorece a formação de nuvens e a condensação.</div>
<div>A próxima etapa do trabalho de Lyons é elaborar recomendações de políticas para o uso da terra.  Em agosto, ele e sua equipe reuniram fazendeiros no pub de uma cidade da região — que consiste numa rua e quatro casas &#8211; para explicar sua pesquisa.  “Alguns viajaram 80 ou 90 quilômetros para ouvir”, conta.  “Estão preocupados com a falta de chuva.” Ao saber que o corte da vegetação nativa tem muito a ver com a estiagem, veio a reação: “Se soubéssemos antes, tudo seria PARIS: 750 estações para alugar bicicletas diferente”.</div>
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		<title>Sobre rodas e consciência</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Sep 2007 17:13:32 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Por Flavia Pardini 
Aliberdade das bicicletas não é uma opção em muitos locais, como São Paulo, onde o tráfico intenso, o relevo acidentado e a falta de segurança nas ruas desencorajam até os mais ardorosos ciclistas.  Na Islândia, onde a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Flavia Pardini<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Aliberdade das bicicletas não é uma opção em muitos locais, como São Paulo, onde o tráfico intenso, o relevo acidentado e a falta de segurança nas ruas desencorajam até os mais ardorosos ciclistas.  Na Islândia, onde a temperatura no verão em geral não passa dos 15 graus e a taxa de automóveis per capita está entre as mais altas do mundo, o jeito foi incentivar o uso de carros menos poluentes.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A capital Reykjavík aprovou em agosto regras que permitem o estacionamento de graça para os donos de automóveis considerados menos danosos ao meio ambiente — aqueles que consomem menos de 5 litros de gasolina para rodar 100 quilômetros.  A medida pode significar uma economia de cerca de 8 euros por dia e foi recebida com entusiasmo pela população.  Reykjavík, Dia Mundial Sem localizada perto do Círculo Ártico, tem aproximadamente 117 mil habitantes e cerca de 230 mil carros registrados.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Mais ao sul, na província canadense de Ontário, o governo anunciou que automóveis mais eficientes e que rodam com combustíveis alternativos poderão receber, a partir de 2008, placas verdes e garantir descontos em estacionamentos e a possibilidade de rodar em faixas exclusivas.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Influenciar o motorista na hora da compra é a intenção do estado de Nova York, que aprovou legislação em agosto exigindo que modelos novos saiam das fábricas, a partir de 2010, com um adesivo informando o “índice de aquecimento global”: a quantidade de CO2 e outros gases de efeito estufa emitidos pelos automóveis.  Regras semelhantes entram em vigor na Califórnia em 2009.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">De olho na liberdade do consumidor e no aumento da consciência ambiental, as montadoras reagem.  A japonesa Nissan, por exemplo, promete equipar todos os modelos com um medidor da eficiência do combustível, indicando o aumento no consumo à medida que o motorista acelera.  A montadora acredita que o resultado pode ser um aumento de até 10% na eficiência.  Mas, para o motorista consciente, do Ártico ao Equador e mais ao sul, performance total significa deixar o carro em casa.</div>
<div>Por Flavia Pardini<span style="white-space: pre;"> </span></div>
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<div>Aliberdade das bicicletas não é uma opção em muitos locais, como São Paulo, onde o tráfico intenso, o relevo acidentado e a falta de segurança nas ruas desencorajam até os mais ardorosos ciclistas.  Na Islândia, onde a temperatura no verão em geral não passa dos 15 graus e a taxa de automóveis per capita está entre as mais altas do mundo, o jeito foi incentivar o uso de carros menos poluentes.</div>
<div>A capital Reykjavík aprovou em agosto regras que permitem o estacionamento de graça para os donos de automóveis considerados menos danosos ao meio ambiente — aqueles que consomem menos de 5 litros de gasolina para rodar 100 quilômetros.  A medida pode significar uma economia de cerca de 8 euros por dia e foi recebida com entusiasmo pela população.  Reykjavík, Dia Mundial Sem localizada perto do Círculo Ártico, tem aproximadamente 117 mil habitantes e cerca de 230 mil carros registrados.</div>
<div>Mais ao sul, na província canadense de Ontário, o governo anunciou que automóveis mais eficientes e que rodam com combustíveis alternativos poderão receber, a partir de 2008, placas verdes e garantir descontos em estacionamentos e a possibilidade de rodar em faixas exclusivas.</div>
<div>Influenciar o motorista na hora da compra é a intenção do estado de Nova York, que aprovou legislação em agosto exigindo que modelos novos saiam das fábricas, a partir de 2010, com um adesivo informando o “índice de aquecimento global”: a quantidade de CO2 e outros gases de efeito estufa emitidos pelos automóveis.  Regras semelhantes entram em vigor na Califórnia em 2009.</div>
<div>De olho na liberdade do consumidor e no aumento da consciência ambiental, as montadoras reagem.  A japonesa Nissan, por exemplo, promete equipar todos os modelos com um medidor da eficiência do combustível, indicando o aumento no consumo à medida que o motorista acelera.  A montadora acredita que o resultado pode ser um aumento de até 10% na eficiência.  Mas, para o motorista consciente, do Ártico ao Equador e mais ao sul, performance total significa deixar o carro em casa.</div>
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