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	<title>Página 22 &#187; 09</title>
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	<description>Informações para o novo século</description>
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		<title>O pecado mora ao lado</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jun 2007 17:14:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Regina Scharf 
Você já viu a cena mil vezes no cinema.  O gramado perfeito, a bela casa, o carrão na garagem.  Tudo serve de cenário para uma família em frangalhos.  Hollywood explorou à exaustão o subúrbio americano enquanto metáfora [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Regina Scharf<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Você já viu a cena mil vezes no cinema.  O gramado perfeito, a bela casa, o carrão na garagem.  Tudo serve de cenário para uma família em frangalhos.  Hollywood explorou à exaustão o subúrbio americano enquanto metáfora da repressão e da podridão dissimulada.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Não se trata de uma escolha aleatória.  Esses bairros periféricos às grandes cidades, que abrigam mais da metade da população dos EUA, têm mesmo um cheiro um tanto fétido.  Sua história passa pelo elitismo, pelo desejo de isolamento, pela discriminação racial, e — surpresa!  — pelo desrespeito aos recursos naturais.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Não é de hoje, evidentemente, que as famílias abonadas constroem suas vilas e datchas longe da patuléia.  Mas os americanos conseguiram a proeza de tornar o subúrbio ao mesmo tempo muito acessível à classe média e inacessível àqueles que não dispunham de carros — geralmente, os negros.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Nos anos 50, tudo parecia empurrar as famílias para o subúrbio.  A produção massiva de veículos, a expansão da rede viária e as leis de zoneamento, que separaram áreas residenciais das comerciais, somaram-se a uma certa visão de idílio rural, abraçada com entusiasmo pelos soldados que voltavam da Segunda Guerra.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Mas o inchaço dos subúrbios teve também uma explicação menos honrosa.  Eram tempos de white flight — a debandada de brancos que viam uma grande leva de negros chegando às cidades em busca de melhores oportunidades e preferiram isolar-se na periferia a misturar- se.  Atlanta, aquela de Scarlett O’Hara, que ganhara durante a luta pelos direitos civis o apelido de “cidade ocupada demais para odiar”, teve de ser rebatizada.  Tão logo as leis de segregação começaram a cair, Atlanta sofreu uma violenta fuga de brancos rumo aos subúrbios e passou a ser a “cidade ocupada demais com mudanças para odiar”.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O que os fujões encontraram foi, em geral, aldeias pré-fabricadas, sem calçadas, transporte público ou pequeno comércio.  Suas ruas são um conjunto de vias sem saída que jamais se comunicam e exigem voltas e mais voltas para se chegar a uma auto-estrada.  E como este é o único meio de escoamento rumo à metrópole, está sujeita a grandes congestionamentos, sobretudo quando há obras ou acidentes.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Vida cultural ou comunitária?  No máximo a da igreja — e olhe lá.  Talvez por isso o escritor e suburbano (de Chicago) Ernest Hemingway tenha dito que o subúrbio é um lugar de “largos gramados e mentes estreitas”.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Isso tudo tem impacto, inclusive, sobre a saúde dos suburbanos.  Pesquisas recentes indicaram que há uma correlação entre esse modo de vida e a incidência de hipertensão e obesidade.  Como têm de dirigir até para comprar pão, o habitante desses bairros pode ter até 3 quilos acima do peso dos seus colegas que vivem numa metrópole como Nova York.  Quem mais sofre com essa configuração são as donas de casa, as crianças e adolescentes, os velhos — gente que raramente vai à cidade, que não encontra viv’alma com quem conversar e simplesmente não tem o que fazer por ali.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A outra vítima desse modelo é a natureza.  Graças aos subúrbios, a grama tornou-se a principal cultura irrigada dos Estados Unidos — três vezes a área irrigada de milho.  E, como se sabe, gramados também consomem grandes quantidades de fertilizantes nitrogenados, altamente contaminantes para os corpos d’água.  E o problema só se agrava com a crescente abertura de fossas sépticas, mais baratas do que as redes de esgoto, e muito mais propensas AO LADO a vazamentos de uréia para o freático.  O nitrogênio dessas fontes, como se sabe, promove a proliferação de algas, a retirada do oxigênio essencial à sobrevivência dos peixes e a redução da potabilidade.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O antídoto aos subúrbios responde pelo nome de Novo Urbanismo, uma corrente surgida nos anos 80.  Ele propõe a construção de vilarejos compactos, charmosos e ricos em diversidade.  Seu sistema quadriculado de ruas estreitas, margeadas de árvores, favorece as caminhadas.  Ali, negócios e residências, ricos e menos ricos, jovens e idosos se mesclam.  As garagens ficam no fundo das casas e edifícios, criando um visual mais homogêneo.  É possível caminhar até a escola, o parquinho, o comércio, o centro comunitário.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A primeira cidade totalmente planejada nesses moldes é Seaside, na costa da Flórida, concebida pelo casal de urbanistas Andrés Duany e Elizabeth Plater-Zyberk.  Lembra-se do filme The Truman Show, em que Jim Carrey é um homem que ignora que a sua vida foi totalmente planejada e filmada para um programa de televisão?  Pois ele foi rodado em Seaside, uma comunidade com pouco mais de 25 anos, que se parece um pouco com a Disney, de tão perfeita, o que é um tanto perturbador.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Mas, definitivamente, ela inclui um componente humano inexistente nos subúrbios.  Como costuma dizer Duany, “o papel da rua é tanto social quanto utilitário”.  É provável que, num futuro próximo, esse modelo comece a atrair hordas de suburbanos levados à bancarrota pela incessante alta dos combustíveis.</div>
<p>Por Regina Scharf<span style="white-space:pre"> </span></p>
<p>Você já viu a cena mil vezes no cinema.  O gramado perfeito, a bela casa, o carrão na garagem.  Tudo serve de cenário para uma família em frangalhos.  Hollywood explorou à exaustão o subúrbio americano enquanto metáfora da repressão e da podridão dissimulada.</p>
<p>Não se trata de uma escolha aleatória.  Esses bairros periféricos às grandes cidades, que abrigam mais da metade da população dos EUA, têm mesmo um cheiro um tanto fétido.  Sua história passa pelo elitismo, pelo desejo de isolamento, pela discriminação racial, e — surpresa!  — pelo desrespeito aos recursos naturais.</p>
<p>Não é de hoje, evidentemente, que as famílias abonadas constroem suas vilas e datchas longe da patuléia.  Mas os americanos conseguiram a proeza de tornar o subúrbio ao mesmo tempo muito acessível à classe média e inacessível àqueles que não dispunham de carros — geralmente, os negros.</p>
<p>Nos anos 50, tudo parecia empurrar as famílias para o subúrbio.  A produção massiva de veículos, a expansão da rede viária e as leis de zoneamento, que separaram áreas residenciais das comerciais, somaram-se a uma certa visão de idílio rural, abraçada com entusiasmo pelos soldados que voltavam da Segunda Guerra.</p>
<p>Mas o inchaço dos subúrbios teve também uma explicação menos honrosa.  Eram tempos de white flight — a debandada de brancos que viam uma grande leva de negros chegando às cidades em busca de melhores oportunidades e preferiram isolar-se na periferia a misturar- se.  Atlanta, aquela de Scarlett O’Hara, que ganhara durante a luta pelos direitos civis o apelido de “cidade ocupada demais para odiar”, teve de ser rebatizada.  Tão logo as leis de segregação começaram a cair, Atlanta sofreu uma violenta fuga de brancos rumo aos subúrbios e passou a ser a “cidade ocupada demais com mudanças para odiar”.</p>
<p>O que os fujões encontraram foi, em geral, aldeias pré-fabricadas, sem calçadas, transporte público ou pequeno comércio.  Suas ruas são um conjunto de vias sem saída que jamais se comunicam e exigem voltas e mais voltas para se chegar a uma auto-estrada.  E como este é o único meio de escoamento rumo à metrópole, está sujeita a grandes congestionamentos, sobretudo quando há obras ou acidentes.</p>
<p>Vida cultural ou comunitária?  No máximo a da igreja — e olhe lá.  Talvez por isso o escritor e suburbano (de Chicago) Ernest Hemingway tenha dito que o subúrbio é um lugar de “largos gramados e mentes estreitas”.</p>
<p>Isso tudo tem impacto, inclusive, sobre a saúde dos suburbanos.  Pesquisas recentes indicaram que há uma correlação entre esse modo de vida e a incidência de hipertensão e obesidade.  Como têm de dirigir até para comprar pão, o habitante desses bairros pode ter até 3 quilos acima do peso dos seus colegas que vivem numa metrópole como Nova York.  Quem mais sofre com essa configuração são as donas de casa, as crianças e adolescentes, os velhos — gente que raramente vai à cidade, que não encontra viv’alma com quem conversar e simplesmente não tem o que fazer por ali.</p>
<p>A outra vítima desse modelo é a natureza.  Graças aos subúrbios, a grama tornou-se a principal cultura irrigada dos Estados Unidos — três vezes a área irrigada de milho.  E, como se sabe, gramados também consomem grandes quantidades de fertilizantes nitrogenados, altamente contaminantes para os corpos d’água.  E o problema só se agrava com a crescente abertura de fossas sépticas, mais baratas do que as redes de esgoto, e muito mais propensas AO LADO a vazamentos de uréia para o freático.  O nitrogênio dessas fontes, como se sabe, promove a proliferação de algas, a retirada do oxigênio essencial à sobrevivência dos peixes e a redução da potabilidade.</p>
<p>O antídoto aos subúrbios responde pelo nome de Novo Urbanismo, uma corrente surgida nos anos 80.  Ele propõe a construção de vilarejos compactos, charmosos e ricos em diversidade.  Seu sistema quadriculado de ruas estreitas, margeadas de árvores, favorece as caminhadas.  Ali, negócios e residências, ricos e menos ricos, jovens e idosos se mesclam.  As garagens ficam no fundo das casas e edifícios, criando um visual mais homogêneo.  É possível caminhar até a escola, o parquinho, o comércio, o centro comunitário.</p>
<p>A primeira cidade totalmente planejada nesses moldes é Seaside, na costa da Flórida, concebida pelo casal de urbanistas Andrés Duany e Elizabeth Plater-Zyberk.  Lembra-se do filme The Truman Show, em que Jim Carrey é um homem que ignora que a sua vida foi totalmente planejada e filmada para um programa de televisão?  Pois ele foi rodado em Seaside, uma comunidade com pouco mais de 25 anos, que se parece um pouco com a Disney, de tão perfeita, o que é um tanto perturbador.</p>
<p>Mas, definitivamente, ela inclui um componente humano inexistente nos subúrbios.  Como costuma dizer Duany, “o papel da rua é tanto social quanto utilitário”.  É provável que, num futuro próximo, esse modelo comece a atrair hordas de suburbanos levados à bancarrota pela incessante alta dos combustíveis.</p>
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		<title>A política na Contramão</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jun 2007 17:11:36 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Por oito anos presidente da República, após exercer funções como senador e duas vezes ministro de Estado, Fernando Henrique Cardoso pode falar de cadeira: &#8220;Política e sustentabilidade andam muito mal&#8221;. Uma se sustenta apenas com apoio local, no aqui e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por oito anos presidente da República, após exercer funções como senador e duas vezes ministro de Estado, Fernando Henrique Cardoso pode falar de cadeira: &#8220;Política e sustentabilidade andam muito mal&#8221;. Uma se sustenta apenas com apoio local, no aqui e agora. A outra engloba o bem comum e duradouro, e pede uma constituency planetária. Tal incompatibilidade é mais grave no Brasil, que segue a cultura ibérica de favoritismo e de protecionismo. Isso se reflete na posição brasileira sobre o clima: para FHC, o Ministério das Relações Exteriores precisa redefinir o interesse nacional considerando o da humanidade.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Amália Safatle e Flavio Lobo<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">PÁGINA 22: Qual é a sua visão de desenvolvimento?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Fernando Henrique Cardoso: Mexo com essa matéria há 50 anos e acompanhei a transformação da visão de desenvolvimento.  Nos anos 50, desenvolvimento era botar a indústria aqui, para falar de forma direta e simples, e Juscelino (Kubitschek) correspondia a essa visão.  Getulio (Vargas) tinha uma visão um pouco diferente, mais a de organizar a infra-estrutura.  Nos anos da Cepal, desenvolvimento era – e eu trabalhei lá com o (Raúl) Prebisch – “o que falta aqui?” O que nos falta é que somos produtores de matéria-prima, e por isso perdemos para o mercado internacional, favorável aos produtos industrializados.  Então precisávamos nos industrializar.  Desenvolvimento era industrializar, por causa do componente tecnológico, que aumenta a produtividade, e assim tem o produto mais barato, consegue exportar.  Como não havia capital, tinha de abrir os capitais e precisava do Estado, para controlar os mecanismos de entrada e saída, e se possível para algum planejamento.  Mas aí entrou a questão social.  O Prebisch lançou essa idéia nas conferências de Mar del Plata.  Não adiantava crescer sem distribuição, educação.  E os anos 70 foram a época da ecologia, em que Ignacy Sachs e (Johan) Galtung convocaram a Conferência de Estocolmo e começaram a construir o conceito de ecodesenvolvimento.  Mas era uma idéia que não penetrava no core do pensamento desenvolvimentista.  Nos anos 80 e 90, sumiu do mapa a idéia de desenvolvimento, virou mercado.  Demos cambalhotas décadas para trás, passou-se a pensar que o mercado resolveria essas questões.  Quando houve a Conferência do Rio, em 1992, voltou a questão da Terra.  A ONU passou a ter um papel importante, porque era quem havia feito aquelas grandes conferências, sobre meio ambiente, genes, mulher, vários tópicos que não eram absolutamente sobre desenvolvimento.  Hoje desenvolvimento é um processo multidimensional e que não pode se restringir mais a crescimento econômico — e nem a medidas sociais.  Tem de ter uma visão de gerações, pensar em conseqüências a longo prazo, quais são os limites da natureza, novas formas de viver.  Paradoxalmente, quem deu uma cambalhota nessa matéria, talvez sem ter essa consciência, foi o (Mikhail) Gorbatchev, porque, chefiando o Império Russo, chegou à conclusão de que a bomba atômica não adiantaria, destruiria a todos.  Não é por acaso que ele teve a idéia da Cruz Verde, porque há problemas que são da humanidade, não de países nem de classes.  Para os que vêm da formação dele, é uma revolução copernicana.  Ele disse e fez.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: É um conceito parecido com o de sustentabilidade, então?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Vem junto, no momento em que você inclui as gerações.  É quando você consegue reproduzir a vida.  E quando pensa em humanidade, e não mais só num país.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Falamos no conceito do &#8220;bem comum&#8221;, mas na política vemos divisão, visões diferentes, interesses específicos.  Como convivem política e sustentabilidade?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Andam muito mal.  Toda política é local.  E hoje a visão mais complexa de desenvolvimento, de sustentabilidade, é planetária.  Mas não há uma constituency planetária, e o político precisa de voto e se impõe pela força de um exército que é local.  É uma imensa dificuldade para o político raciocinar, pensar no universal.  O que, aliás, é um desafio que vem de Kant, ter uma visão universal, a paz universal, encontrar mecanismos de controle das forças globais, caso contrário a humanidade se destrói.  E esse é o tema, só que não chegou aos políticos ainda porque eles se sustentam a partir do local.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Não só a partir do local, como do curto prazo.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Exatamente.  É imediato, para já e para aqui.  E como é que se vai conciliar isso é o X da questão.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Então, política com sustentabilidade&#8230;</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: &#8230;não vai para a frente.  Agora, talvez possa acontecer, pelo caminho contrário.  Do local não se chega ao universal, mas o universal pode ir pouco a pouco englobando o local.  Hoje temos questões que não podem ser resolvidas localmente, como o terrorismo, a poluição, pois tomaram proporções planetárias.  Então devemos robustecer centros, focos universais.  Nos últimos anos houve um enfraquecimento desses focos, como a ONU.  Os EUA jogaram uma política contrária à ONU, tentaram desqualificá-la como parceira de qualquer jogo.  Se não houver alguma instituição com prestígio global, não haverá capacidade de tomar as decisões que contam.  O século XXI precisa de líderes que renegociem o pacto mundial.  Estão faltando, não se vêem essas lideranças.  É uma pena o que aconteceu com o (Tony) Blair, o Iraque liquidou com o Blair.  Mas era uma pessoa que tinha essa visão, a visão da ecologia, da pobreza, e tinha capacidade de despertar a Europa.  Mas por causa da posição que ele tomou no Iraque, ficou sem.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Com o Iraque, tomou uma posição incoerente.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Totalmente.  Então precisa de alguém, ou “alguéns”, com visão de um novo Pacto Mundial.  Não é só por causa da sustentabilidade, sustentabilidade é política também.  A visão dominante no mundo ocidental, a americana, à qual o Blair se aliou, é a de tornar o mundo um grande Ocidente.  Não vão tornar o mundo um grande Ocidente.  Essa visão é unilateralista, não vai funcionar mais.  Precisamos de lideranças que renegociem, que falem como se vai viver com a diferença.  Tem a China, que não vai ser igual, tem a Rússia, que voltou a ter palavra importante, tem os EUA, tem o mundo islâmico, tem a dramaticidade da África, e tudo isso deverá ser reequacionado neste século.  Essa coisa leva uns cem anos, questões dessa natureza não são locais, não se resolvem de um dia para outro.  E junto tem de resolver a questão do meio ambiente, tem de encarar.  Não é mais possível aceitar os níveis de poluição da China, nem o nosso.  A posição nossa de Kyoto foi defensiva.  Não pode haver mais isso de &#8220;vocês que poluíram que despoluam, nós vamos continuar poluindo&#8221;.  Isso tem de mudar, e muda nos debates gerais, não nos locais.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Ainda em sustentabilidade, nos seus dois mandatos, o que o senhor não conseguiu fazer nessa direção?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Muita coisa.  Avançamos alguma coisa no controle da Amazônia.  Veja como é dramático: conseguimos, por satélite, determinar os focos de fogo, mas não apagá-los.  Não temos a estrutura para colocar a decisão em prática, a estrutura do Estado é fraca.  Além do mais você não consegue se contrapor aos interesses locais.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Mas e os interesses nacionais?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Isso é uma abstração.  Precisa haver uma máquina burocrática de controle e contenção para tudo, e não tem.  Acha que a Marina (ministra Marina Silva) não quer?  Que o Lula não quer?  A Marina não pára porque não consegue.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: E por que não consegue?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Porque não existe ainda uma consciência enraizada na sociedade.  Nem máquinas: não tem instrumental efetivo pra chegar lá.  E por que não proíbe derrubar madeira?  Ou melhor, por que depois de proibido continuam derrubando?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Essa questão da Amazônia vem de muito tempo.  O índice de desmatamento cai um pouco, depois volta&#8230;</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Diminui quando cai a expansão da fronteira agrícola.  Não é que cai por alguma medida do governo.  O governo não tem força para isso, não tem estrutura.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Mas e se o governo tiver vontade?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Não, isso é uma ilusão.  Essa é uma visão superficial e idealista, a da vontade política.  Não basta.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Precisa de vontade política e recursos?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Vontade política, e recursos, e organização.  E uma coisa que seja compatível na sociedade, senão não vai.  Não adianta a vontade do presidente, ou do ministro, tem que ter uma coisa que esteja na consciência da sociedade ativa, e instrumentos para dar vazão a isso.  Um exemplo mais próximo: a poluição do Tietê.  O governo fez um esforço enorme, desde o meu tempo, para arrumar dinheiro, retificar o rio.  Mas as pessoas, as fábricas, jogam lixo.  E não é que o governo quer que polua, ao contrário, isso traz dor de cabeça para ele, que está fazendo o que pode para não poluir.  Mas, se não tiver uma coisa mais enraizada na cultura, não adianta.  Por que não se joga lixo nas estradas dos EUA?  Porque tem uma multa pesada e ela é cumprida.  E isso tem a ver com Estado de Direito, o nosso Estado de Direito é aparente, porque não se tem o respeito à lei.  Se tivesse, aí se poderia dizer que falta vontade política.  A cultura nacional aceita o não cumprimento da lei.  Basta ver o caso das corrupções.  Não é só o meio ambiente, é geral, o desrespeito à lei é geral.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: No caso da Amazônia, o senhor acredita na via da fiscalização e controle?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: As duas coisas têm que vir junto.  Não adianta fiscalização e controle se não houver a consciência da importância da questão e meios de sobrevivência para as pessoas.  A questão da Amazônia se agrava porque começa a entrar o pequeno produtor, que é mais difícil de conter.  E aparece a questão da justiça.  Como fica a balança disso?, Por que o grave é a madeireira?  Vejamos um Estado, como o Pará.  Na prática, qualquer que seja o governo do Pará, ele gostaria mesmo é de ter um bom imposto sobre exportação De madeira, não é?  É muito difícil.  Mas não quer dizer impossível.  Pode ser mais fácil com o “selo verde”.  Se não tiver, não compra a madeira.  Se cortam a madeira é porque tem quem compre.  É mais fácil aumentar a consciência do consumidor do que a do produtor, porque o produtor ganha dinheiro.  E dinheiro é uma arma poderosíssima, maior que a lei, em certos casos.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Mecanismos de mercado são mais eficazes do que comando-e-controle?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Eu diria que tem que combinar os dois.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Há outra coisa que o senhor deixou de fazer?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Não é que deixei de fazer.  Sempre se pode fazer mais.  Sobre a Mata Atlântica, por exemplo, tomamos várias medidas.  E melhorou.  Fizemos uma proposta para que pelo menos 10% da energia do mundo fosse limpa, em cada país.  Apoiar, sempre apoiamos.  Kyoto, por exemplo, foi um acordo meu com o Clinton.  Chegou um limite em que, pelo telefone, ele me disse: &#8220;Olha, todo mundo aqui nos EUA é contra, se vocês não me derem uma mão aí&#8230;”, e o pessoal não queria pagar nada, diziam: “A culpa é deles”.  Assim também não dá.  E isto está enraizado profundamente na nossa cultura.  O Ministério das Relações Exteriores custou a entender essa questão, ainda não entendeu inteiramente.  Porque na visão passada de defesa do interesse nacional se diria isso.  E como é que você vai dizer o contrário do interesse nacional?  Então tem que redefinir o interesse nacional, não o separando do interesse da humanidade.  Fácil de falar, mas dificílimo de botar na cabeça das pessoas.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Mas o Ministério das Relações Exteriores é o que oficialmente negocia&#8230;</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: &#8230;mas não o único.  Geralmente ele tem uma posição restritiva, e também é preciso pressioná-lo.  E quem deveria pressionar?  Eu.  Mas é difícil, mesmo para o presidente, porque o argumento deles é embasado em uma visão diferente de interesse nacional, e acham que é a única.  Está acontecendo agora no governo Lula, estão voltando à tese do governo Geisel.  Lógico que não vão dizer isso hoje: “Vamos poluir, porque poluir é bom, industrializa”.  Ou: “O problema não é a mata, é o povo”.  Como se pudesse haver futuro para um povo sem mata.  Isso é muito enraizado e é cultural.  É cultural nos EUA também.  Na Europa, mas há mais contrapeso.  Nenhum desses temas é fácil.  Mas acho que nosso problema maior é que não acreditamos realmente na democracia, na lei.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: O povo brasileiro?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: A nossa cultura.  Ela não é só brasileira, é, digamos assim, ibérica.  Não é uma cultura racional, é uma cultura de protecionismo, de favoritismo.  Não é uma cultura onde todos são iguais.  Isso é um esforço grande que alguns fazem,.  Se o País tem uma legislação em que não pode derrubar árvore, mas a população não acha isso tão importante, há interesses contrários e não há instrumentos burocráticos que ajudem a levar adiante, fica difícil.  Tem a ver com progresso.  Acho que houve um avanço muito grande, na consciência nacional, a respeito da poluição.  Nos anos 70, ninguém duvidava de que o bom era botar chaminé.  Não havia noção dessa questão, agora há.  Ainda mais com a mudança climática, isso vai se acelerar muito mais.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: As conferências de clima têm ritmo lento, e a urgência é grande.  O senhor defende a criação de uma cúpula do clima?  Como funcionaria?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Defendo, e a razão principal é aumentar a consciência das populações.  A cúpula resolve, objetivamente, muito pouca coisa, mas cria um clima.  Tem que fazer de novo o que foi feito em 92, no Rio.  Juntar os líderes do mundo, os cientistas, os movimentos sociais, jogar a temática, mostrar dados, chamar a atenção, aumentar a consciência, para que os governos tomem as decisões.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Deveria ser mudado o sistema de negociação?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: A única negociação que houve foi Kyoto.  Precisaríamos rever as metas, e agregar preocupações que a ciência trouxe.  A urgência aumentou muito.  Acho que isso criaria condições para compromissos mundiais mais firmes.  O fato de a Europa ter entrado, a Rússia, já foi importante.  Só os EUA e a Austrália não assinaram.  Agora Kyoto não basta, primeiro porque precisa ver se está sendo cumprido, e não está sendo posto em prática de maneira eficaz.  E segundo porque precisa mais.  Pelo que eu ouvi do Al Gore, tem que ser feita alguma coisa dentro dos próximos dez anos.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: A renovação das lideranças – Gordon Brown, Nicolas Sarkozy, Angela Merkel – muda alguma coisa?  Eles têm alguma preocupação com o tema?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Vi o Sarkozy convidar o (Bernard) Kouchner para ser o ministro das Relações Exteriores.  Se fizer isso, é bom, o Kouchner tem uma visão mais ampla das coisas.  O Brown provavelmente não será muito diferente do Blair nessa visão, não sei se tem o mesmo carisma.  O Blair é um tipo muito atraente, o Brown é mais &#8220;pesado&#8221; como liderança.  A Angela tem sido uma pessoa surpreendente.  Os alemães nessa matéria são muito bons, sempre foram.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Na próxima reunião do G8, qual será o peso das questões climáticas e ambientais?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Algum peso vai haver.  Mas o Brasil poderia avançar nisso.  O problema é que o Brasil é ambíguo nessa matéria, pelas razões que já disse aqui.  É preciso assumir mais responsabilidades, para que tenhamos força moral para falar em relação aos outros.  Nosso problema é um pouco menos de retórica e um pouco mais de compromisso efetivo.  Não vejo que o Lula tenha dado o apoio necessário à Marina.  O Itamaraty tem mais voz do que o Meio Ambiente, e acho que essa voz vai afinar diante das necessidades.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: O presidente teria de interceder?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Não necessariamente&#8230; mas as orientações do Lula são mais pelo crescimento do que pela sustentabilidade.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: A sustentabilidade é uma bandeira política eficaz?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: No Brasil, ainda não, mas não importa.  É uma bandeira correta.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: O exemplo de Tony Blair, que seguia na linha da sustentabilidade e perdeu força com a posição sobre o Iraque, indica isso?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: A sustentabilidade é uma bandeira que será crescentemente apoiada.  Não sei se o que você chamou de eficaz é ganhar eleição.  O Fabio Feldmann perdeu a eleição porque tomou uma medida correta em São Paulo, que foi o rodízio.  O que não quer dizer que não se deva seguir o correto.  Não sou muito favorável a essa visão de olhar a pesquisa de opinião e seguir o que ela mandar.  O político, quando lidera, tem é que mudar a opinião, se ele tiver a razão e acreditar.  Não acho que nos próximos anos isso vá ser um divisor de águas no Brasil, mas, pensando a longo prazo, é fundamental.  Nossos políticos devem entrar cada vez mais nessa discussão, e vão entrar, porque não é de dentro para fora, vem da sociedade para os políticos.  Nesse momento, há uma visão de crescimento um pouco simplória no Brasil, de PIB, de que vai crescer 4% ou 5%.  O Brasil, quando cresceu a 7%, foi um desastre social.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: No que o PAC difere do Avança Brasil?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Não sei do PAC, não conheço detalhadamente.  O Avança Brasil era um conjunto de projetos, que tinha gerência específica, verba sem ser contingenciada e uma força estruturante.  E era um planejamento.  O primeiro governo do Lula acabou com o Ministério do Planejamento, virou Ministério do Orçamento.  O PAC é uma volta da idéia de planejamento, mas tem que ter planejamento mesmo.  Cadê as estruturas que controlam isso?  Quem está gerenciando?  Uma pessoa só não gerencia isso.  O PAC vem como impacto, mais como um projeto antigo dos militares do que como um processo.  O impacto pode dar voto, mas não dá resultado.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: No Avança Brasil, o senhor também teve problemas com licenciamentos ambientais.  O que se faz nesses casos?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Negocia, vê o que é razoável, o que não é.  Não dá para fazer hidrelétrica sem pensar no lado ambiental.  Tucuruí é uma represa em que nós pusemos um linhão pra abastecer o Nordeste.  Mas quando chega na época da seca, não adianta nada.  O Amazonas tem um regime de águas complicado, e na seca não dá para levar um megawatt sequer para o Nordeste.  E, como é longe, na transmissão perde-se muito.  Não sou especialista na matéria, não posso dizer se vale a pena ou não.  Mas tem que estudar.  O que vai acontecer com a dengue lá?  E a malária?  Tenho um amigo, Luiz Hildebrando Pereira da Silva, que está em Rondônia.  Ele acha que vai ter um problema violento com malária lá, por causa das represas.  Mas não pode deixar de fazer as represas, tem é que tomar as medidas necessárias.  Às vezes, há uma desconfiança recíproca entre ambientalistas e desenvolvimentistas.  O ideal é uma convergência, difícil, mas necessária.  Houve um problema assim, no Rio Tocantins, com as rotas de proliferação de peixes, e não foi possível fazer navegação lá.  Pensar em grandes obras sem se preocupar com sustentabilidade é loucura.  Tem o São Francisco, questão que vem desde o século XIX, e não é à toa.  Nesta altura, devíamos chamar grupos de fora do Brasil para analisar os efeitos da transposição.  A gente não deve entrar em grandes projetos senão com muita cautela.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: O biocombustível é de fato uma oportunidade histórica para o Brasil?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Depende de como fizer.  Vejo com grande preocupação essa espécie de febre, de corrida pelo etanol.  Não é fácil fazer tanto investimento.  E em que condições vão fazer?  Tem que haver equilíbrio, zoneamento.  Também é possível fazer uma abordagem inteligente, combinada, com cana e gado, por exemplo.  Acho que devíamos fazer uma agência reguladora que defina o que pode, como pode, onde pode.  Ainda está a tempo de tomar medidas que conduzam a política do etanol, não só tendo em vista o custo financeiro, mas os efeitos globais.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Seu governo teve uma política muito restritiva ao crescimento, com juros altos e custo social.  Hoje o senhor faria a mesma coisa?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: A mesma coisa.  O que fiz foi garantir a estabilidade.  A proporção de pobres no Brasil caiu, assim como a de miseráveis, e continua caindo por causa da estabilidade.  O principal elemento de distribuição de renda no Brasil foi estabilizado.  O único país da América Latina, nos anos 90, em que o Coeficiente de Gini melhorou foi o Brasil.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Uma última pergunta, sobre a profundidade do desafio que a sustentabilidade coloca pra humanidade.  O senhor acredita que, para dar conta desse desafio, é necessário superar o capitalismo, ou reformas são suficientes?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Superar o capitalismo para fazer o quê?  O socialismo real capotou.  A China hoje é capitalista de Estado, que é a pior forma de capitalismo.  Não há no horizonte histórico uma alternativa socioeconômica, e há, em um horizonte não muito remoto, uma dramaticidade quanto ao meio ambiente.  Então não vamos esperar que mude o socioeconômico para depois mudar o meio ambiente, porque demora tanto tempo que o meio ambiente se liquida.  Temos que jogar com o que existe.  As empresas são capitalistas, mas estão se movendo.  Discute-se agora o que fazer com a emissão de gases estufa.  Em vez de colocar uma questão ideológica, é melhor colocar uma questão prática.  O que vai ter que mudar são certos aspectos civilizatórios, vai ter que mudar o consumismo.  Como vai se adaptar um capitalismo que não seja desse consumismo &#8220;desbragado&#8221; é uma questão que está posta.  Como é que vai generalizar o consumismo americano para a China?  E a China pode achar uma injustiça, dizer: &#8220;Por que eu não?&#8221;  Ou muda também nos EUA, ou não tem força para mudar na China.  Dá para ter na China o número de carros per capita que temos em São Paulo?  Nós aqui vamos ter que mudar também.  Não é fácil, estamos fazendo metrô, mas tem os hábitos, a pessoa prefere andar sozinha no seu carro.  Nesse sentido, a Europa tem vantagem sobre todos os outros.  Do ponto de vista civilizatório, está à frente do mundo, encontrou um equilíbrio maior.  Inclusive em termos de capitalismo.  E é uma cultura de menos desperdício que a americana, que é a nossa, infelizmente.  Por isso é uma pena não haver uma liderança na Europa, porque eles podem segurar a Rússia.  Por que a Rússia tem que repetir os EUA?  E a China?  Estão repetindo.  A Europa tem essa possibilidade, de mostrar que é possível um desenvolvimento menos agressivo, sem essa coisa doentia, em que o lixo é indicador da prosperidade.  Não consigo dar conta dos papéis que recebo, não leio.  Revistas, propagandas&#8230;</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Mas esta aqui (a PÁGINA 22) o senhor lê.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">FHC: Esta eu leio (risos).</div>
<p>Por oito anos presidente da República, após exercer funções como senador e duas vezes ministro de Estado, Fernando Henrique Cardoso pode falar de cadeira: &#8220;Política e sustentabilidade andam muito mal&#8221;. Uma se sustenta apenas com apoio local, no aqui e agora. A outra engloba o bem comum e duradouro, e pede uma constituency planetária. Tal incompatibilidade é mais grave no Brasil, que segue a cultura ibérica de favoritismo e de protecionismo. Isso se reflete na posição brasileira sobre o clima: para FHC, o Ministério das Relações Exteriores precisa redefinir o interesse nacional considerando o da humanidade.</p>
<p>Por Amália Safatle e Flavio Lobo<span style="white-space: pre;"> </span></p>
<p>PÁGINA 22: Qual é a sua visão de desenvolvimento?</p>
<p>Fernando Henrique Cardoso: Mexo com essa matéria há 50 anos e acompanhei a transformação da visão de desenvolvimento.  Nos anos 50, desenvolvimento era botar a indústria aqui, para falar de forma direta e simples, e Juscelino (Kubitschek) correspondia a essa visão.  Getulio (Vargas) tinha uma visão um pouco diferente, mais a de organizar a infra-estrutura.  Nos anos da Cepal, desenvolvimento era – e eu trabalhei lá com o (Raúl) Prebisch – “o que falta aqui?” O que nos falta é que somos produtores de matéria-prima, e por isso perdemos para o mercado internacional, favorável aos produtos industrializados.  Então precisávamos nos industrializar.  Desenvolvimento era industrializar, por causa do componente tecnológico, que aumenta a produtividade, e assim tem o produto mais barato, consegue exportar.  Como não havia capital, tinha de abrir os capitais e precisava do Estado, para controlar os mecanismos de entrada e saída, e se possível para algum planejamento.  Mas aí entrou a questão social.  O Prebisch lançou essa idéia nas conferências de Mar del Plata.  Não adiantava crescer sem distribuição, educação.  E os anos 70 foram a época da ecologia, em que Ignacy Sachs e (Johan) Galtung convocaram a Conferência de Estocolmo e começaram a construir o conceito de ecodesenvolvimento.  Mas era uma idéia que não penetrava no core do pensamento desenvolvimentista.  Nos anos 80 e 90, sumiu do mapa a idéia de desenvolvimento, virou mercado.  Demos cambalhotas décadas para trás, passou-se a pensar que o mercado resolveria essas questões.  Quando houve a Conferência do Rio, em 1992, voltou a questão da Terra.  A ONU passou a ter um papel importante, porque era quem havia feito aquelas grandes conferências, sobre meio ambiente, genes, mulher, vários tópicos que não eram absolutamente sobre desenvolvimento.  Hoje desenvolvimento é um processo multidimensional e que não pode se restringir mais a crescimento econômico — e nem a medidas sociais.  Tem de ter uma visão de gerações, pensar em conseqüências a longo prazo, quais são os limites da natureza, novas formas de viver.  Paradoxalmente, quem deu uma cambalhota nessa matéria, talvez sem ter essa consciência, foi o (Mikhail) Gorbatchev, porque, chefiando o Império Russo, chegou à conclusão de que a bomba atômica não adiantaria, destruiria a todos.  Não é por acaso que ele teve a idéia da Cruz Verde, porque há problemas que são da humanidade, não de países nem de classes.  Para os que vêm da formação dele, é uma revolução copernicana.  Ele disse e fez.</p>
<p>22: É um conceito parecido com o de sustentabilidade, então?</p>
<p>FHC: Vem junto, no momento em que você inclui as gerações.  É quando você consegue reproduzir a vida.  E quando pensa em humanidade, e não mais só num país.</p>
<p>22: Falamos no conceito do &#8220;bem comum&#8221;, mas na política vemos divisão, visões diferentes, interesses específicos.  Como convivem política e sustentabilidade?</p>
<p>FHC: Andam muito mal.  Toda política é local.  E hoje a visão mais complexa de desenvolvimento, de sustentabilidade, é planetária.  Mas não há uma constituency planetária, e o político precisa de voto e se impõe pela força de um exército que é local.  É uma imensa dificuldade para o político raciocinar, pensar no universal.  O que, aliás, é um desafio que vem de Kant, ter uma visão universal, a paz universal, encontrar mecanismos de controle das forças globais, caso contrário a humanidade se destrói.  E esse é o tema, só que não chegou aos políticos ainda porque eles se sustentam a partir do local.</p>
<p>22: Não só a partir do local, como do curto prazo.</p>
<p>FHC: Exatamente.  É imediato, para já e para aqui.  E como é que se vai conciliar isso é o X da questão.</p>
<p>22: Então, política com sustentabilidade&#8230;</p>
<p>FHC: &#8230;não vai para a frente.  Agora, talvez possa acontecer, pelo caminho contrário.  Do local não se chega ao universal, mas o universal pode ir pouco a pouco englobando o local.  Hoje temos questões que não podem ser resolvidas localmente, como o terrorismo, a poluição, pois tomaram proporções planetárias.  Então devemos robustecer centros, focos universais.  Nos últimos anos houve um enfraquecimento desses focos, como a ONU.  Os EUA jogaram uma política contrária à ONU, tentaram desqualificá-la como parceira de qualquer jogo.  Se não houver alguma instituição com prestígio global, não haverá capacidade de tomar as decisões que contam.  O século XXI precisa de líderes que renegociem o pacto mundial.  Estão faltando, não se vêem essas lideranças.  É uma pena o que aconteceu com o (Tony) Blair, o Iraque liquidou com o Blair.  Mas era uma pessoa que tinha essa visão, a visão da ecologia, da pobreza, e tinha capacidade de despertar a Europa.  Mas por causa da posição que ele tomou no Iraque, ficou sem.</p>
<p>22: Com o Iraque, tomou uma posição incoerente.</p>
<p>FHC: Totalmente.  Então precisa de alguém, ou “alguéns”, com visão de um novo Pacto Mundial.  Não é só por causa da sustentabilidade, sustentabilidade é política também.  A visão dominante no mundo ocidental, a americana, à qual o Blair se aliou, é a de tornar o mundo um grande Ocidente.  Não vão tornar o mundo um grande Ocidente.  Essa visão é unilateralista, não vai funcionar mais.  Precisamos de lideranças que renegociem, que falem como se vai viver com a diferença.  Tem a China, que não vai ser igual, tem a Rússia, que voltou a ter palavra importante, tem os EUA, tem o mundo islâmico, tem a dramaticidade da África, e tudo isso deverá ser reequacionado neste século.  Essa coisa leva uns cem anos, questões dessa natureza não são locais, não se resolvem de um dia para outro.  E junto tem de resolver a questão do meio ambiente, tem de encarar.  Não é mais possível aceitar os níveis de poluição da China, nem o nosso.  A posição nossa de Kyoto foi defensiva.  Não pode haver mais isso de &#8220;vocês que poluíram que despoluam, nós vamos continuar poluindo&#8221;.  Isso tem de mudar, e muda nos debates gerais, não nos locais.</p>
<p>22: Ainda em sustentabilidade, nos seus dois mandatos, o que o senhor não conseguiu fazer nessa direção?</p>
<p>FHC: Muita coisa.  Avançamos alguma coisa no controle da Amazônia.  Veja como é dramático: conseguimos, por satélite, determinar os focos de fogo, mas não apagá-los.  Não temos a estrutura para colocar a decisão em prática, a estrutura do Estado é fraca.  Além do mais você não consegue se contrapor aos interesses locais.</p>
<p>22: Mas e os interesses nacionais?</p>
<p>FHC: Isso é uma abstração.  Precisa haver uma máquina burocrática de controle e contenção para tudo, e não tem.  Acha que a Marina (ministra Marina Silva) não quer?  Que o Lula não quer?  A Marina não pára porque não consegue.</p>
<p>22: E por que não consegue?</p>
<p>FHC: Porque não existe ainda uma consciência enraizada na sociedade.  Nem máquinas: não tem instrumental efetivo pra chegar lá.  E por que não proíbe derrubar madeira?  Ou melhor, por que depois de proibido continuam derrubando?</p>
<p>22: Essa questão da Amazônia vem de muito tempo.  O índice de desmatamento cai um pouco, depois volta&#8230;</p>
<p>FHC: Diminui quando cai a expansão da fronteira agrícola.  Não é que cai por alguma medida do governo.  O governo não tem força para isso, não tem estrutura.</p>
<p>22: Mas e se o governo tiver vontade?</p>
<p>FHC: Não, isso é uma ilusão.  Essa é uma visão superficial e idealista, a da vontade política.  Não basta.</p>
<p>22: Precisa de vontade política e recursos?</p>
<p>FHC: Vontade política, e recursos, e organização.  E uma coisa que seja compatível na sociedade, senão não vai.  Não adianta a vontade do presidente, ou do ministro, tem que ter uma coisa que esteja na consciência da sociedade ativa, e instrumentos para dar vazão a isso.  Um exemplo mais próximo: a poluição do Tietê.  O governo fez um esforço enorme, desde o meu tempo, para arrumar dinheiro, retificar o rio.  Mas as pessoas, as fábricas, jogam lixo.  E não é que o governo quer que polua, ao contrário, isso traz dor de cabeça para ele, que está fazendo o que pode para não poluir.  Mas, se não tiver uma coisa mais enraizada na cultura, não adianta.  Por que não se joga lixo nas estradas dos EUA?  Porque tem uma multa pesada e ela é cumprida.  E isso tem a ver com Estado de Direito, o nosso Estado de Direito é aparente, porque não se tem o respeito à lei.  Se tivesse, aí se poderia dizer que falta vontade política.  A cultura nacional aceita o não cumprimento da lei.  Basta ver o caso das corrupções.  Não é só o meio ambiente, é geral, o desrespeito à lei é geral.</p>
<p>22: No caso da Amazônia, o senhor acredita na via da fiscalização e controle?</p>
<p>FHC: As duas coisas têm que vir junto.  Não adianta fiscalização e controle se não houver a consciência da importância da questão e meios de sobrevivência para as pessoas.  A questão da Amazônia se agrava porque começa a entrar o pequeno produtor, que é mais difícil de conter.  E aparece a questão da justiça.  Como fica a balança disso?, Por que o grave é a madeireira?  Vejamos um Estado, como o Pará.  Na prática, qualquer que seja o governo do Pará, ele gostaria mesmo é de ter um bom imposto sobre exportação De madeira, não é?  É muito difícil.  Mas não quer dizer impossível.  Pode ser mais fácil com o “selo verde”.  Se não tiver, não compra a madeira.  Se cortam a madeira é porque tem quem compre.  É mais fácil aumentar a consciência do consumidor do que a do produtor, porque o produtor ganha dinheiro.  E dinheiro é uma arma poderosíssima, maior que a lei, em certos casos.</p>
<p>22: Mecanismos de mercado são mais eficazes do que comando-e-controle?</p>
<p>FHC: Eu diria que tem que combinar os dois.</p>
<p>22: Há outra coisa que o senhor deixou de fazer?</p>
<p>FHC: Não é que deixei de fazer.  Sempre se pode fazer mais.  Sobre a Mata Atlântica, por exemplo, tomamos várias medidas.  E melhorou.  Fizemos uma proposta para que pelo menos 10% da energia do mundo fosse limpa, em cada país.  Apoiar, sempre apoiamos.  Kyoto, por exemplo, foi um acordo meu com o Clinton.  Chegou um limite em que, pelo telefone, ele me disse: &#8220;Olha, todo mundo aqui nos EUA é contra, se vocês não me derem uma mão aí&#8230;”, e o pessoal não queria pagar nada, diziam: “A culpa é deles”.  Assim também não dá.  E isto está enraizado profundamente na nossa cultura.  O Ministério das Relações Exteriores custou a entender essa questão, ainda não entendeu inteiramente.  Porque na visão passada de defesa do interesse nacional se diria isso.  E como é que você vai dizer o contrário do interesse nacional?  Então tem que redefinir o interesse nacional, não o separando do interesse da humanidade.  Fácil de falar, mas dificílimo de botar na cabeça das pessoas.</p>
<p>22: Mas o Ministério das Relações Exteriores é o que oficialmente negocia&#8230;</p>
<p>FHC: &#8230;mas não o único.  Geralmente ele tem uma posição restritiva, e também é preciso pressioná-lo.  E quem deveria pressionar?  Eu.  Mas é difícil, mesmo para o presidente, porque o argumento deles é embasado em uma visão diferente de interesse nacional, e acham que é a única.  Está acontecendo agora no governo Lula, estão voltando à tese do governo Geisel.  Lógico que não vão dizer isso hoje: “Vamos poluir, porque poluir é bom, industrializa”.  Ou: “O problema não é a mata, é o povo”.  Como se pudesse haver futuro para um povo sem mata.  Isso é muito enraizado e é cultural.  É cultural nos EUA também.  Na Europa, mas há mais contrapeso.  Nenhum desses temas é fácil.  Mas acho que nosso problema maior é que não acreditamos realmente na democracia, na lei.</p>
<p>22: O povo brasileiro?</p>
<p>FHC: A nossa cultura.  Ela não é só brasileira, é, digamos assim, ibérica.  Não é uma cultura racional, é uma cultura de protecionismo, de favoritismo.  Não é uma cultura onde todos são iguais.  Isso é um esforço grande que alguns fazem,.  Se o País tem uma legislação em que não pode derrubar árvore, mas a população não acha isso tão importante, há interesses contrários e não há instrumentos burocráticos que ajudem a levar adiante, fica difícil.  Tem a ver com progresso.  Acho que houve um avanço muito grande, na consciência nacional, a respeito da poluição.  Nos anos 70, ninguém duvidava de que o bom era botar chaminé.  Não havia noção dessa questão, agora há.  Ainda mais com a mudança climática, isso vai se acelerar muito mais.</p>
<p>22: As conferências de clima têm ritmo lento, e a urgência é grande.  O senhor defende a criação de uma cúpula do clima?  Como funcionaria?</p>
<p>FHC: Defendo, e a razão principal é aumentar a consciência das populações.  A cúpula resolve, objetivamente, muito pouca coisa, mas cria um clima.  Tem que fazer de novo o que foi feito em 92, no Rio.  Juntar os líderes do mundo, os cientistas, os movimentos sociais, jogar a temática, mostrar dados, chamar a atenção, aumentar a consciência, para que os governos tomem as decisões.</p>
<p>22: Deveria ser mudado o sistema de negociação?</p>
<p>FHC: A única negociação que houve foi Kyoto.  Precisaríamos rever as metas, e agregar preocupações que a ciência trouxe.  A urgência aumentou muito.  Acho que isso criaria condições para compromissos mundiais mais firmes.  O fato de a Europa ter entrado, a Rússia, já foi importante.  Só os EUA e a Austrália não assinaram.  Agora Kyoto não basta, primeiro porque precisa ver se está sendo cumprido, e não está sendo posto em prática de maneira eficaz.  E segundo porque precisa mais.  Pelo que eu ouvi do Al Gore, tem que ser feita alguma coisa dentro dos próximos dez anos.</p>
<p>22: A renovação das lideranças – Gordon Brown, Nicolas Sarkozy, Angela Merkel – muda alguma coisa?  Eles têm alguma preocupação com o tema?</p>
<p>FHC: Vi o Sarkozy convidar o (Bernard) Kouchner para ser o ministro das Relações Exteriores.  Se fizer isso, é bom, o Kouchner tem uma visão mais ampla das coisas.  O Brown provavelmente não será muito diferente do Blair nessa visão, não sei se tem o mesmo carisma.  O Blair é um tipo muito atraente, o Brown é mais &#8220;pesado&#8221; como liderança.  A Angela tem sido uma pessoa surpreendente.  Os alemães nessa matéria são muito bons, sempre foram.</p>
<p>22: Na próxima reunião do G8, qual será o peso das questões climáticas e ambientais?</p>
<p>FHC: Algum peso vai haver.  Mas o Brasil poderia avançar nisso.  O problema é que o Brasil é ambíguo nessa matéria, pelas razões que já disse aqui.  É preciso assumir mais responsabilidades, para que tenhamos força moral para falar em relação aos outros.  Nosso problema é um pouco menos de retórica e um pouco mais de compromisso efetivo.  Não vejo que o Lula tenha dado o apoio necessário à Marina.  O Itamaraty tem mais voz do que o Meio Ambiente, e acho que essa voz vai afinar diante das necessidades.</p>
<p>22: O presidente teria de interceder?</p>
<p>FHC: Não necessariamente&#8230; mas as orientações do Lula são mais pelo crescimento do que pela sustentabilidade.</p>
<p>22: A sustentabilidade é uma bandeira política eficaz?</p>
<p>FHC: No Brasil, ainda não, mas não importa.  É uma bandeira correta.</p>
<p>22: O exemplo de Tony Blair, que seguia na linha da sustentabilidade e perdeu força com a posição sobre o Iraque, indica isso?</p>
<p>FHC: A sustentabilidade é uma bandeira que será crescentemente apoiada.  Não sei se o que você chamou de eficaz é ganhar eleição.  O Fabio Feldmann perdeu a eleição porque tomou uma medida correta em São Paulo, que foi o rodízio.  O que não quer dizer que não se deva seguir o correto.  Não sou muito favorável a essa visão de olhar a pesquisa de opinião e seguir o que ela mandar.  O político, quando lidera, tem é que mudar a opinião, se ele tiver a razão e acreditar.  Não acho que nos próximos anos isso vá ser um divisor de águas no Brasil, mas, pensando a longo prazo, é fundamental.  Nossos políticos devem entrar cada vez mais nessa discussão, e vão entrar, porque não é de dentro para fora, vem da sociedade para os políticos.  Nesse momento, há uma visão de crescimento um pouco simplória no Brasil, de PIB, de que vai crescer 4% ou 5%.  O Brasil, quando cresceu a 7%, foi um desastre social.</p>
<p>22: No que o PAC difere do Avança Brasil?</p>
<p>FHC: Não sei do PAC, não conheço detalhadamente.  O Avança Brasil era um conjunto de projetos, que tinha gerência específica, verba sem ser contingenciada e uma força estruturante.  E era um planejamento.  O primeiro governo do Lula acabou com o Ministério do Planejamento, virou Ministério do Orçamento.  O PAC é uma volta da idéia de planejamento, mas tem que ter planejamento mesmo.  Cadê as estruturas que controlam isso?  Quem está gerenciando?  Uma pessoa só não gerencia isso.  O PAC vem como impacto, mais como um projeto antigo dos militares do que como um processo.  O impacto pode dar voto, mas não dá resultado.</p>
<p>22: No Avança Brasil, o senhor também teve problemas com licenciamentos ambientais.  O que se faz nesses casos?</p>
<p>FHC: Negocia, vê o que é razoável, o que não é.  Não dá para fazer hidrelétrica sem pensar no lado ambiental.  Tucuruí é uma represa em que nós pusemos um linhão pra abastecer o Nordeste.  Mas quando chega na época da seca, não adianta nada.  O Amazonas tem um regime de águas complicado, e na seca não dá para levar um megawatt sequer para o Nordeste.  E, como é longe, na transmissão perde-se muito.  Não sou especialista na matéria, não posso dizer se vale a pena ou não.  Mas tem que estudar.  O que vai acontecer com a dengue lá?  E a malária?  Tenho um amigo, Luiz Hildebrando Pereira da Silva, que está em Rondônia.  Ele acha que vai ter um problema violento com malária lá, por causa das represas.  Mas não pode deixar de fazer as represas, tem é que tomar as medidas necessárias.  Às vezes, há uma desconfiança recíproca entre ambientalistas e desenvolvimentistas.  O ideal é uma convergência, difícil, mas necessária.  Houve um problema assim, no Rio Tocantins, com as rotas de proliferação de peixes, e não foi possível fazer navegação lá.  Pensar em grandes obras sem se preocupar com sustentabilidade é loucura.  Tem o São Francisco, questão que vem desde o século XIX, e não é à toa.  Nesta altura, devíamos chamar grupos de fora do Brasil para analisar os efeitos da transposição.  A gente não deve entrar em grandes projetos senão com muita cautela.</p>
<p>22: O biocombustível é de fato uma oportunidade histórica para o Brasil?</p>
<p>FHC: Depende de como fizer.  Vejo com grande preocupação essa espécie de febre, de corrida pelo etanol.  Não é fácil fazer tanto investimento.  E em que condições vão fazer?  Tem que haver equilíbrio, zoneamento.  Também é possível fazer uma abordagem inteligente, combinada, com cana e gado, por exemplo.  Acho que devíamos fazer uma agência reguladora que defina o que pode, como pode, onde pode.  Ainda está a tempo de tomar medidas que conduzam a política do etanol, não só tendo em vista o custo financeiro, mas os efeitos globais.</p>
<p>22: Seu governo teve uma política muito restritiva ao crescimento, com juros altos e custo social.  Hoje o senhor faria a mesma coisa?</p>
<p>FHC: A mesma coisa.  O que fiz foi garantir a estabilidade.  A proporção de pobres no Brasil caiu, assim como a de miseráveis, e continua caindo por causa da estabilidade.  O principal elemento de distribuição de renda no Brasil foi estabilizado.  O único país da América Latina, nos anos 90, em que o Coeficiente de Gini melhorou foi o Brasil.</p>
<p>22: Uma última pergunta, sobre a profundidade do desafio que a sustentabilidade coloca pra humanidade.  O senhor acredita que, para dar conta desse desafio, é necessário superar o capitalismo, ou reformas são suficientes?</p>
<p>FHC: Superar o capitalismo para fazer o quê?  O socialismo real capotou.  A China hoje é capitalista de Estado, que é a pior forma de capitalismo.  Não há no horizonte histórico uma alternativa socioeconômica, e há, em um horizonte não muito remoto, uma dramaticidade quanto ao meio ambiente.  Então não vamos esperar que mude o socioeconômico para depois mudar o meio ambiente, porque demora tanto tempo que o meio ambiente se liquida.  Temos que jogar com o que existe.  As empresas são capitalistas, mas estão se movendo.  Discute-se agora o que fazer com a emissão de gases estufa.  Em vez de colocar uma questão ideológica, é melhor colocar uma questão prática.  O que vai ter que mudar são certos aspectos civilizatórios, vai ter que mudar o consumismo.  Como vai se adaptar um capitalismo que não seja desse consumismo &#8220;desbragado&#8221; é uma questão que está posta.  Como é que vai generalizar o consumismo americano para a China?  E a China pode achar uma injustiça, dizer: &#8220;Por que eu não?&#8221;  Ou muda também nos EUA, ou não tem força para mudar na China.  Dá para ter na China o número de carros per capita que temos em São Paulo?  Nós aqui vamos ter que mudar também.  Não é fácil, estamos fazendo metrô, mas tem os hábitos, a pessoa prefere andar sozinha no seu carro.  Nesse sentido, a Europa tem vantagem sobre todos os outros.  Do ponto de vista civilizatório, está à frente do mundo, encontrou um equilíbrio maior.  Inclusive em termos de capitalismo.  E é uma cultura de menos desperdício que a americana, que é a nossa, infelizmente.  Por isso é uma pena não haver uma liderança na Europa, porque eles podem segurar a Rússia.  Por que a Rússia tem que repetir os EUA?  E a China?  Estão repetindo.  A Europa tem essa possibilidade, de mostrar que é possível um desenvolvimento menos agressivo, sem essa coisa doentia, em que o lixo é indicador da prosperidade.  Não consigo dar conta dos papéis que recebo, não leio.  Revistas, propagandas&#8230;</p>
<p>22: Mas esta aqui (a PÁGINA 22) o senhor lê.</p>
<p>FHC: Esta eu leio (risos).</p>
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		<title>Querer ser</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jun 2007 17:06:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O especialista em sustentabilidade urbana Peter Newman diz que o maior desafio para as cidades, onde quer que estejam, é acreditar que o sonho pode ser urbano
Por Flavia Pardini 
Página 22: O fato de que este ano a população urbana [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O especialista em sustentabilidade urbana Peter Newman diz que o maior desafio para as cidades, onde quer que estejam, é acreditar que o sonho pode ser urbano</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Flavia Pardini<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Página 22: O fato de que este ano a população urbana ultrapassa a rural é bom ou mau presságio?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Peter Newman: Eu digo que é bom.  Participei da produção do relatório sobre o Estado do Mundo em 2007, do WorldWatch Institute.  Tivemos muitas discussões e, no final, houve consenso de que as cidades podem trazer mais bem do que mal.  Pode-se ver a questão de diversas maneiras.  Por exemplo, as áreas rurais são onde o grosso do crescimento populacional ocorre.  Quando as pessoas mudam para as cidades, em geral param de ter filhos.  Então as cidades podem ajudar um país a ter uma população mais sustentável.  Pode-se perguntar: se essas pessoas ficassem no campo, teriam impacto maior sobre o planeta do que na cidade?  Elas certamente ocupam menos espaço na cidade; podem consumir mais, mas não causam o dano a florestas, rios e áreas agricultáveis que as populações rurais pobres provocam na maior parte do mundo.  Há dados que mostram que, se despovoássemos as cidades e colocássemos as pessoas nas demais áreas, destruiríamos o planeta rapidamente.  De certa maneira, as cidades estão ajudando o planeta nessa transição por que passamos.  Há muitas coisas que elas precisam fazer, entretanto, para melhorar sua performance, mas não há esperança de reverter a tendência (de urbanização).</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Mesmo em países pobres, onde as condições de vida não são boas, as pessoas migram para centros urbanos.  O que as atrai?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">PN: As oportunidades para seus filhos, mais do que qualquer coisa.  Em muitos lugares o campo ainda é feudal, poucas pessoas mandam nas vilas ou em regiões inteiras.  A escravidão ainda existe em algumas partes do mundo, mas não nas cidades, normalmente no campo, onde as pessoas ficam ligadas a um fazendeiro ou proprietário de terras, tão endividadas que não conseguem mais ganhar dinheiro.  Então elas fogem, cortam as amarras.  A cidade é onde há oportunidade de educação, de emprego.  Em geral, apesar do fato de que as pessoas vêm e vivem em favelas, elas conseguem algum tipo de emprego para sair dessa situação.  Não são todas, e às vezes pensamos: &#8220;O que essas pessoas estão fazendo aqui, por que não voltam para o campo, onde é agradável e tudo está em paz?&#8221;  Não está em paz.  Por isso as cidades crescem 2,5% ao ano globalmente e as áreas rurais atingiram o pico e agora estão decrescendo.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Apesar da atração, parece haver uma tendência antiurbana nos círculos acadêmicos e políticos.  Por quê?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">PN: Em geral as cidades são vistas como algo negativo.  Acho que este é um período em que o crescimento urbano é tão grande que ainda não aceitamos que a vida na cidade pode ser boa.  Há também uma dimensão cultural que alimenta nossa imaginação, e em geral ela é rural.  A tradição anglo-saxã considera que os ambientes puros são os naturais, e as cidades são vistas como artificiais, negativas, algo a evitar sempre que possível.  É por isso que as pessoas moram em subúrbios, para ter um pouco de natureza, de pureza, de volta.  É uma dicotomia falsa, porque os subúrbios não são nem um pouco naturais.  Os chineses não têm essa tradição, sempre se deliciaram nas cidades.  A tradição judaica é mais pró-urbana, assim como em partes da Europa.  Algumas tradições islâmicas também, com as cidades no centro da cultura.  Minha impressão é de que na Austrália e nos EUA estamos presos no meio&#8230;</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Presos nos subúrbios&#8230;</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">PN: Sim, dominados pelos planejadores britânicos.  A profissão de planejamento urbano sofreu uma lavagem cerebral por pessoas que compartilham da visão da &#8220;Garden City&#8221;, que acham que as pessoas precisam, para seu próprio bem, evitar os horríveis edifícios altos e fugir de lugares onde a indústria pode se instalar.  Têm de viver em um ambiente puro, onde há ar fresco.  Isso vem do passado industrial, do século XIX, que eles queriam limpar, mas foi exportado para o mundo.  Os britânicos dominaram a profissão de planejamento.  Mas isso não é necessariamente o que as pessoas estão procurando.  Na minha opinião, elas buscam diversidade nas cidades.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: O que move o espalhamento das cidades australianas é o chamado &#8220;Great Australian Dream&#8221;?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">PN: É em parte verdade que o &#8220;Great Australian Dream&#8221; é movido por uma cultura que exalta a aquisição da casa própria, o desejo de ter um pouco de espaço para si mesmo.  Mas muito é marketing.  Diante da opção de ter menos espaço, mas mais proximidade de uma infra-estrutura urbana de boa qualidade, as pessoas optam por isso.  Cada vez mais os jovens querem essa proximidade.  Na Austrália, os subúrbios mais próximos do centro das cidades e as áreas centrais estão florescendo.  Há um mercado para pessoas que querem viver nos centros e ter uma existência mais urbana.  O sonho pode ser urbano.  Nos EUA, ouve-se sobre o &#8220;American Dream&#8221;, mas muito da corrida para os subúrbios, a chamada &#8220;fuga branca&#8221; (leia Coluna nesta edição), foi uma reação contra o racismo das áreas centrais.  A realidade é que as escolas estavam morrendo, não se podia encontrar emprego ali, não era um bom lugar para se viver, então quem tinha dinheiro se mudou.  Não foi movido pelo sonho americano de lindos subúrbios, mas pelo desejo de afastar-se da bagunça.  Isso também está mudando, os subúrbios mais centrais estão sendo repovoados.  Então isso também é parte do &#8220;American Dream&#8221;?  Acho que sim, é parte do mix.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Qual é o impacto dos subúrbios?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">PN: Em geral é onde se dá boa parte do consumo de combustíveis fósseis e de água, e onde ocorre a produção de lixo.  Ecologicamente, os subúrbios são um desastre.  Os dados mostram que as pessoas nos subúrbios australianos consomem duas ou três vezes mais combustível para transporte do que as que vivem no centro.  E nas bordas da cidade, onde há casas de campo e condomínios de alto padrão, é ainda mais desastroso &#8211; essas áreas não têm produção agrícola, não ajudam a formar comunidades, apenas tornam-se intensas em tráfego e fonte de pestes e animais ferozes.  Em qualquer cenário futuro em que haja limites quanto às emissões de carbono, vão perecer.  Os dados mostram que a variável-chave para avaliar o consumo de recursos nas cidades é a densidade.  Riqueza é um fator pequeno &#8211; quanto mais rico você é, mais consome.  Mas não é tão simples.  Se você é rico e vive no centro de Sydney ou São Paulo, não usa tanto o carro, não precisa.  Vai ao teatro, a galerias de arte, consome livros.  Não vai necessariamente aguar um jardim enorme.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Qual é o papel do carro na configuração e sustentabilidade das cidades?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">PN: O carro é chave para entender a estrutura das cidades.  Se você constrói uma cidade em torno do carro, consome enormes quantidades de energia e água, e produz muito lixo.  Quanto menos o carro for central na construção da cidade, mais ela será focada no transporte público e no hábito de andar a pé, menos ela vai consumir e se espalhar.  Carros e densidade estão sempre juntos.  Para acomodar os carros, é preciso investir em avenidas e estacionamentos, permitir que os subúrbios se desenvolvam cada vez mais longe.  Se substituído por investimento em um bom transporte público, na possibilidade de andar, de construir muito densamente, então a cidade é diferente, muito mais sustentável.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Se riqueza é um fator pequeno, qual é o impacto ambiental das favelas, por exemplo?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">PN: Pessoas de baixa renda têm pouco impacto no meio ambiente global.  Não consomem tanto combustível e contribuem menos para as mudanças climáticas, mas podem tem um impacto poderoso localmente.  Podem destruir um rio, criar vários problemas com seu lixo.  Se elas estão em uma área central, provavelmente &#8220;colonizaram&#8221; um terreno aberto, seja ao longo de um rio, de uma avenida, em que não havia construção por alguma razão.  Acho que a melhor maneira de lidar com isso, em vez de retirá-las e mandá-las para outro lugar, é legitimá-las, fornecer infra-estrutura e torná-las parte da cidade.  Com isso, essas áreas podem rapidamente deixar de ser fonte de impacto para tornar-se contribuintes para a cidade.  Precisam fazer parte da economia formal, em vez de parecer que não existem.  Uma vez que há serviço de água, esgoto, coleta de lixo, em geral essas áreas são muito densas, as ruas são pequenas, orgânicas, podem se tornar pontos atraentes.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: O que as cidades de países em desenvolvimento podem aprender com suas irmãs do Norte?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">PN: De certa maneira, não podem aprender nada.  Se você disser &#8220;precisamos de um planejador para ajudar a consertar nossas cidades&#8221;, eles irão a São Paulo ou Nairóbi e não terão idéia do que fazer.  Não foram treinados para lidar com esses problemas, mas sim para começar com um terreno vazio, dividi-lo, planejá-lo e ter um processo ordenado de construção.  Nessas cidades tudo isso já aconteceu, então o que fazer?  Cada vez mais, os especialistas com quem converso dizem que é preciso trabalhar com o que está disponível, mas transformar essas áreas em algo mais sustentável.  O primeiro passo é legitimar, dizer &#8220;sim, vocês existem e podem ter um futuro, não vamos mandar o Exército para limpar a área&#8221;.  Se isso for possível, então será possível fazer várias coisas, e a comunidade vai ajudar a construir a rede de esgoto, de água, a criar espaços verdes, a construir escolas.  De outro lado, podemos mostrar que as cidades não são necessariamente lugares degradados, indicar que nossas cidades administraram os problemas de água e lixo, dos direitos fundamentais das pessoas, que é possível acreditar que pode ser diferente.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: É preciso limitar o espalhamento, seja de subúrbios ricos, seja de periferias pobres?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">PN: É nossa agenda mais importante.  Falamos muito sobre isso, mas não estamos controlando.  Temos um espalhamento planejado, mas ainda assim ele depende do carro, não é feito para ser sustentável.  Vamos sofrer com a alta do preço do petróleo e com os efeitos das mudanças climáticas.  E o mesmo processo ocorre no mundo todo, até nas bordas das cidades européias há o espalhamento e a dependência do carro.  No Terceiro Mundo, em Bangcoc e mesmo nas cidades chinesas, e com certeza na América Latina.  A expansão periférica das cidades, porque depende do carro, é algo que temos de evitar.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Como convencer autoridades e construtoras?  As mudanças climáticas são um argumento?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">PN: A mudança climática está cada vez mais na agenda, mas as construtoras australianas, por exemplo, não estariam atuando nas áreas centrais se não tivessem lucro com isso.  Cada vez mais se paga um prêmio por morar perto das estações de trem em Perth, por exemplo.  Um construtor me disse que a margem em geral é de 20% a 30% em qualquer lugar, mas há 15% a mais para construções próximas a estações de trem.  Viver perto de uma estação é hoje uma característica cobiçada nas cidades australianas.  Os planejadores urbanos britânicos ainda estão lá no canto, dizendo que ninguém quer viver perto da linha do trem&#8230; Mas se vê que isso é movido pelo mercado quanto qualquer outra coisa.  Todas as cidades australianas desenvolveram planos estratégicos de reordenamento nos últimos cinco anos, todos elaborados em um framework político em que as mudanças climáticas, o impacto do carro, estão presentes.  Todos contêm as palavras certas, mas na prática os planejadores ainda seguem a tradição britânica.  Há um conflito de culturas dentro da profissão que gera uma certa tensão em nossas cidades no momento.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Para cidades ricas ou pobres, o maior desafio é tornarem-se mais densas?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">PN: O maior desafio é uma cidade acreditar em si mesma.  Quanto mais as pessoas querem estar juntas, em um lugar onde se podem fazer todas as transações, negócios, construir comunidades e uma vida urbana, mais isso tudo vai acontecer.  Se tentam escapar, como no período em que os americanos abandonaram suas cidades, se a cultura diz que as cidades são ruins e apenas o campo é bom, então não vai acontecer.  Você não vai ter as economias de escala que a densidade oferece, não vai ter todas as idéias e visões florescendo.  O desafio é ser uma sociedade humana urbana, a densidade não faz mágica.  É preciso atentar para as exigências de planejamento e design que permitem que a densidade aconteça, mas ela precisa ser motivada pelo desejo das pessoas de viver, trabalhar e juntar-se nesses espaços.  Temos um certo problema nessa área na Austrália.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">22: Mas as cidades australianas estão no topo da lista das mais agradáveis de viver…</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">PN: &#8230;porque as pessoas que fazem os critérios para essa lista são muito suburbanas.</div>
<div>O especialista em sustentabilidade urbana Peter Newman diz que o maior desafio para as cidades, onde quer que estejam, é acreditar que o sonho pode ser urbano</div>
<div>Por Flavia Pardini<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div></div>
<div>Página 22: O fato de que este ano a população urbana ultrapassa a rural é bom ou mau presságio?</div>
<div>Peter Newman: Eu digo que é bom.  Participei da produção do relatório sobre o Estado do Mundo em 2007, do WorldWatch Institute.  Tivemos muitas discussões e, no final, houve consenso de que as cidades podem trazer mais bem do que mal.  Pode-se ver a questão de diversas maneiras.  Por exemplo, as áreas rurais são onde o grosso do crescimento populacional ocorre.  Quando as pessoas mudam para as cidades, em geral param de ter filhos.  Então as cidades podem ajudar um país a ter uma população mais sustentável.  Pode-se perguntar: se essas pessoas ficassem no campo, teriam impacto maior sobre o planeta do que na cidade?  Elas certamente ocupam menos espaço na cidade; podem consumir mais, mas não causam o dano a florestas, rios e áreas agricultáveis que as populações rurais pobres provocam na maior parte do mundo.  Há dados que mostram que, se despovoássemos as cidades e colocássemos as pessoas nas demais áreas, destruiríamos o planeta rapidamente.  De certa maneira, as cidades estão ajudando o planeta nessa transição por que passamos.  Há muitas coisas que elas precisam fazer, entretanto, para melhorar sua performance, mas não há esperança de reverter a tendência (de urbanização).</div>
<div></div>
<div>22: Mesmo em países pobres, onde as condições de vida não são boas, as pessoas migram para centros urbanos.  O que as atrai?</div>
<div>PN: As oportunidades para seus filhos, mais do que qualquer coisa.  Em muitos lugares o campo ainda é feudal, poucas pessoas mandam nas vilas ou em regiões inteiras.  A escravidão ainda existe em algumas partes do mundo, mas não nas cidades, normalmente no campo, onde as pessoas ficam ligadas a um fazendeiro ou proprietário de terras, tão endividadas que não conseguem mais ganhar dinheiro.  Então elas fogem, cortam as amarras.  A cidade é onde há oportunidade de educação, de emprego.  Em geral, apesar do fato de que as pessoas vêm e vivem em favelas, elas conseguem algum tipo de emprego para sair dessa situação.  Não são todas, e às vezes pensamos: &#8220;O que essas pessoas estão fazendo aqui, por que não voltam para o campo, onde é agradável e tudo está em paz?&#8221;  Não está em paz.  Por isso as cidades crescem 2,5% ao ano globalmente e as áreas rurais atingiram o pico e agora estão decrescendo.</div>
<div></div>
<div>22: Apesar da atração, parece haver uma tendência antiurbana nos círculos acadêmicos e políticos.  Por quê?</div>
<div>PN: Em geral as cidades são vistas como algo negativo.  Acho que este é um período em que o crescimento urbano é tão grande que ainda não aceitamos que a vida na cidade pode ser boa.  Há também uma dimensão cultural que alimenta nossa imaginação, e em geral ela é rural.  A tradição anglo-saxã considera que os ambientes puros são os naturais, e as cidades são vistas como artificiais, negativas, algo a evitar sempre que possível.  É por isso que as pessoas moram em subúrbios, para ter um pouco de natureza, de pureza, de volta.  É uma dicotomia falsa, porque os subúrbios não são nem um pouco naturais.  Os chineses não têm essa tradição, sempre se deliciaram nas cidades.  A tradição judaica é mais pró-urbana, assim como em partes da Europa.  Algumas tradições islâmicas também, com as cidades no centro da cultura.  Minha impressão é de que na Austrália e nos EUA estamos presos no meio&#8230;</div>
<div></div>
<div>22: Presos nos subúrbios&#8230;</div>
<div>PN: Sim, dominados pelos planejadores britânicos.  A profissão de planejamento urbano sofreu uma lavagem cerebral por pessoas que compartilham da visão da &#8220;Garden City&#8221;, que acham que as pessoas precisam, para seu próprio bem, evitar os horríveis edifícios altos e fugir de lugares onde a indústria pode se instalar.  Têm de viver em um ambiente puro, onde há ar fresco.  Isso vem do passado industrial, do século XIX, que eles queriam limpar, mas foi exportado para o mundo.  Os britânicos dominaram a profissão de planejamento.  Mas isso não é necessariamente o que as pessoas estão procurando.  Na minha opinião, elas buscam diversidade nas cidades.</div>
<div></div>
<div>22: O que move o espalhamento das cidades australianas é o chamado &#8220;Great Australian Dream&#8221;?</div>
<div>PN: É em parte verdade que o &#8220;Great Australian Dream&#8221; é movido por uma cultura que exalta a aquisição da casa própria, o desejo de ter um pouco de espaço para si mesmo.  Mas muito é marketing.  Diante da opção de ter menos espaço, mas mais proximidade de uma infra-estrutura urbana de boa qualidade, as pessoas optam por isso.  Cada vez mais os jovens querem essa proximidade.  Na Austrália, os subúrbios mais próximos do centro das cidades e as áreas centrais estão florescendo.  Há um mercado para pessoas que querem viver nos centros e ter uma existência mais urbana.  O sonho pode ser urbano.  Nos EUA, ouve-se sobre o &#8220;American Dream&#8221;, mas muito da corrida para os subúrbios, a chamada &#8220;fuga branca&#8221; (leia Coluna nesta edição), foi uma reação contra o racismo das áreas centrais.  A realidade é que as escolas estavam morrendo, não se podia encontrar emprego ali, não era um bom lugar para se viver, então quem tinha dinheiro se mudou.  Não foi movido pelo sonho americano de lindos subúrbios, mas pelo desejo de afastar-se da bagunça.  Isso também está mudando, os subúrbios mais centrais estão sendo repovoados.  Então isso também é parte do &#8220;American Dream&#8221;?  Acho que sim, é parte do mix.</div>
<div></div>
<div>22: Qual é o impacto dos subúrbios?</div>
<div>PN: Em geral é onde se dá boa parte do consumo de combustíveis fósseis e de água, e onde ocorre a produção de lixo.  Ecologicamente, os subúrbios são um desastre.  Os dados mostram que as pessoas nos subúrbios australianos consomem duas ou três vezes mais combustível para transporte do que as que vivem no centro.  E nas bordas da cidade, onde há casas de campo e condomínios de alto padrão, é ainda mais desastroso &#8211; essas áreas não têm produção agrícola, não ajudam a formar comunidades, apenas tornam-se intensas em tráfego e fonte de pestes e animais ferozes.  Em qualquer cenário futuro em que haja limites quanto às emissões de carbono, vão perecer.  Os dados mostram que a variável-chave para avaliar o consumo de recursos nas cidades é a densidade.  Riqueza é um fator pequeno &#8211; quanto mais rico você é, mais consome.  Mas não é tão simples.  Se você é rico e vive no centro de Sydney ou São Paulo, não usa tanto o carro, não precisa.  Vai ao teatro, a galerias de arte, consome livros.  Não vai necessariamente aguar um jardim enorme.</div>
<div></div>
<div>22: Qual é o papel do carro na configuração e sustentabilidade das cidades?</div>
<div>PN: O carro é chave para entender a estrutura das cidades.  Se você constrói uma cidade em torno do carro, consome enormes quantidades de energia e água, e produz muito lixo.  Quanto menos o carro for central na construção da cidade, mais ela será focada no transporte público e no hábito de andar a pé, menos ela vai consumir e se espalhar.  Carros e densidade estão sempre juntos.  Para acomodar os carros, é preciso investir em avenidas e estacionamentos, permitir que os subúrbios se desenvolvam cada vez mais longe.  Se substituído por investimento em um bom transporte público, na possibilidade de andar, de construir muito densamente, então a cidade é diferente, muito mais sustentável.</div>
<div></div>
<div>22: Se riqueza é um fator pequeno, qual é o impacto ambiental das favelas, por exemplo?</div>
<div>PN: Pessoas de baixa renda têm pouco impacto no meio ambiente global.  Não consomem tanto combustível e contribuem menos para as mudanças climáticas, mas podem tem um impacto poderoso localmente.  Podem destruir um rio, criar vários problemas com seu lixo.  Se elas estão em uma área central, provavelmente &#8220;colonizaram&#8221; um terreno aberto, seja ao longo de um rio, de uma avenida, em que não havia construção por alguma razão.  Acho que a melhor maneira de lidar com isso, em vez de retirá-las e mandá-las para outro lugar, é legitimá-las, fornecer infra-estrutura e torná-las parte da cidade.  Com isso, essas áreas podem rapidamente deixar de ser fonte de impacto para tornar-se contribuintes para a cidade.  Precisam fazer parte da economia formal, em vez de parecer que não existem.  Uma vez que há serviço de água, esgoto, coleta de lixo, em geral essas áreas são muito densas, as ruas são pequenas, orgânicas, podem se tornar pontos atraentes.</div>
<div></div>
<div>22: O que as cidades de países em desenvolvimento podem aprender com suas irmãs do Norte?</div>
<div>PN: De certa maneira, não podem aprender nada.  Se você disser &#8220;precisamos de um planejador para ajudar a consertar nossas cidades&#8221;, eles irão a São Paulo ou Nairóbi e não terão idéia do que fazer.  Não foram treinados para lidar com esses problemas, mas sim para começar com um terreno vazio, dividi-lo, planejá-lo e ter um processo ordenado de construção.  Nessas cidades tudo isso já aconteceu, então o que fazer?  Cada vez mais, os especialistas com quem converso dizem que é preciso trabalhar com o que está disponível, mas transformar essas áreas em algo mais sustentável.  O primeiro passo é legitimar, dizer &#8220;sim, vocês existem e podem ter um futuro, não vamos mandar o Exército para limpar a área&#8221;.  Se isso for possível, então será possível fazer várias coisas, e a comunidade vai ajudar a construir a rede de esgoto, de água, a criar espaços verdes, a construir escolas.  De outro lado, podemos mostrar que as cidades não são necessariamente lugares degradados, indicar que nossas cidades administraram os problemas de água e lixo, dos direitos fundamentais das pessoas, que é possível acreditar que pode ser diferente.</div>
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<div>22: É preciso limitar o espalhamento, seja de subúrbios ricos, seja de periferias pobres?</div>
<div>PN: É nossa agenda mais importante.  Falamos muito sobre isso, mas não estamos controlando.  Temos um espalhamento planejado, mas ainda assim ele depende do carro, não é feito para ser sustentável.  Vamos sofrer com a alta do preço do petróleo e com os efeitos das mudanças climáticas.  E o mesmo processo ocorre no mundo todo, até nas bordas das cidades européias há o espalhamento e a dependência do carro.  No Terceiro Mundo, em Bangcoc e mesmo nas cidades chinesas, e com certeza na América Latina.  A expansão periférica das cidades, porque depende do carro, é algo que temos de evitar.</div>
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<div>22: Como convencer autoridades e construtoras?  As mudanças climáticas são um argumento?</div>
<div>PN: A mudança climática está cada vez mais na agenda, mas as construtoras australianas, por exemplo, não estariam atuando nas áreas centrais se não tivessem lucro com isso.  Cada vez mais se paga um prêmio por morar perto das estações de trem em Perth, por exemplo.  Um construtor me disse que a margem em geral é de 20% a 30% em qualquer lugar, mas há 15% a mais para construções próximas a estações de trem.  Viver perto de uma estação é hoje uma característica cobiçada nas cidades australianas.  Os planejadores urbanos britânicos ainda estão lá no canto, dizendo que ninguém quer viver perto da linha do trem&#8230; Mas se vê que isso é movido pelo mercado quanto qualquer outra coisa.  Todas as cidades australianas desenvolveram planos estratégicos de reordenamento nos últimos cinco anos, todos elaborados em um framework político em que as mudanças climáticas, o impacto do carro, estão presentes.  Todos contêm as palavras certas, mas na prática os planejadores ainda seguem a tradição britânica.  Há um conflito de culturas dentro da profissão que gera uma certa tensão em nossas cidades no momento.</div>
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<div>22: Para cidades ricas ou pobres, o maior desafio é tornarem-se mais densas?</div>
<div>PN: O maior desafio é uma cidade acreditar em si mesma.  Quanto mais as pessoas querem estar juntas, em um lugar onde se podem fazer todas as transações, negócios, construir comunidades e uma vida urbana, mais isso tudo vai acontecer.  Se tentam escapar, como no período em que os americanos abandonaram suas cidades, se a cultura diz que as cidades são ruins e apenas o campo é bom, então não vai acontecer.  Você não vai ter as economias de escala que a densidade oferece, não vai ter todas as idéias e visões florescendo.  O desafio é ser uma sociedade humana urbana, a densidade não faz mágica.  É preciso atentar para as exigências de planejamento e design que permitem que a densidade aconteça, mas ela precisa ser motivada pelo desejo das pessoas de viver, trabalhar e juntar-se nesses espaços.  Temos um certo problema nessa área na Austrália.</div>
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<div>22: Mas as cidades australianas estão no topo da lista das mais agradáveis de viver…</div>
<div>PN: &#8230;porque as pessoas que fazem os critérios para essa lista são muito suburbanas.</div>
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		<title>Investimento no futuro comum</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jun 2007 17:04:16 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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Trata-se de um mecanismo em que alguns investem, mas todos ganham: a Bolsa de Valores de São Paulo criou no fim de maio a Bolsa de Valores Sociais e Ambientais (BVS&#38;A), iniciativa para captar recursos financeiros para [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Maurício Araújo<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Trata-se de um mecanismo em que alguns investem, mas todos ganham: a Bolsa de Valores de São Paulo criou no fim de maio a Bolsa de Valores Sociais e Ambientais (BVS&amp;A), iniciativa para captar recursos financeiros para ONGs socioambientais brasileiras e cujas ações privilegiam cinco áreas temáticas: Educação para a Sustentabilidade, Mudanças Climáticas, Biodiversidade e Florestas, Recursos Hídricos e Cidades Sustentáveis.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A BVS&amp;A apresentará no total 35 projetos, que serão substituídos por outros à medida que estes alcançarem a meta de captação estipulada.  Os investidores poderão acompanhar a utilização dos recursos e o desenvolvimento pela internet.  Para participar, as entidades socioambientais devem inscrever seus projetos, que, após análise e seleção, passam a constar do portfólio de empreendimentos da BVS&amp;A, disponível no endereço www.bovespasocial.org.br. Por meio do site, os investidores escolhem as iniciativas em quais desejam realizar as doações em dinheiro.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">&#8220;É como se o investidor estivesse comprando uma ação, que trará lucros como a conservação de ecossistemas importantes, geração de emprego e renda&#8221;, diz Raymundo Magliano Filho, presidente da Bovespa.  Isso tudo por meio do fomento da gestão ambiental sustentável, da adoção de tecnologias limpas e do combate às mudanças climáticas globais, entre outros instrumentos.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A BVS&amp;A integra sua predecessora, a Bolsa de Valores Sociais (BVS), criada em 2003 pela Bovespa.  A BVS, voltada para iniciativas ligadas à educação, arrecadou cerca de R$ 5 milhões, contribuindo até agora para a realização de 36 projetos.  Os membros do Conselho de Administração da nova bolsa são Fabio Feldmann, José Goldemberg, Marcelo Takaoka e Stela Goldenstein.</div>
<p>Por Maurício Araújo<span style="white-space: pre;"> </span></p>
<p>Trata-se de um mecanismo em que alguns investem, mas todos ganham: a Bolsa de Valores de São Paulo criou no fim de maio a Bolsa de Valores Sociais e Ambientais (BVS&amp;A), iniciativa para captar recursos financeiros para ONGs socioambientais brasileiras e cujas ações privilegiam cinco áreas temáticas: Educação para a Sustentabilidade, Mudanças Climáticas, Biodiversidade e Florestas, Recursos Hídricos e Cidades Sustentáveis.</p>
<p>A BVS&amp;A apresentará no total 35 projetos, que serão substituídos por outros à medida que estes alcançarem a meta de captação estipulada.  Os investidores poderão acompanhar a utilização dos recursos e o desenvolvimento pela internet.  Para participar, as entidades socioambientais devem inscrever seus projetos, que, após análise e seleção, passam a constar do portfólio de empreendimentos da BVS&amp;A, disponível no endereço www.bovespasocial.org.br. Por meio do site, os investidores escolhem as iniciativas em quais desejam realizar as doações em dinheiro.</p>
<p>&#8220;É como se o investidor estivesse comprando uma ação, que trará lucros como a conservação de ecossistemas importantes, geração de emprego e renda&#8221;, diz Raymundo Magliano Filho, presidente da Bovespa.  Isso tudo por meio do fomento da gestão ambiental sustentável, da adoção de tecnologias limpas e do combate às mudanças climáticas globais, entre outros instrumentos.</p>
<p>A BVS&amp;A integra sua predecessora, a Bolsa de Valores Sociais (BVS), criada em 2003 pela Bovespa.  A BVS, voltada para iniciativas ligadas à educação, arrecadou cerca de R$ 5 milhões, contribuindo até agora para a realização de 36 projetos.  Os membros do Conselho de Administração da nova bolsa são Fabio Feldmann, José Goldemberg, Marcelo Takaoka e Stela Goldenstein.</p>
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		<title>São Paulo em números</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jun 2007 17:02:48 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Por Amália Safatle 
É prevista, entre agosto e setembro, a publicação de um raio X ambiental da cidade de São Paulo.  Trata-se de um índice sintético construído pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) em parceria com o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Amália Safatle<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">É prevista, entre agosto e setembro, a publicação de um raio X ambiental da cidade de São Paulo.  Trata-se de um índice sintético construído pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) em parceria com o Centro de Estudos da Metrópole, para servir como ferramenta para a administração pública e uma forma mais simples de a sociedade avaliar a situação ambiental da cidade.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">São Paulo já conta com um sistema de indicadores, publicados em 2004 com base na metodologia Global Environmental Outlook, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.  São 83 indicadores formados por 254 variáveis.  A quantidade de informações, entretanto, impede uma visão clara e resumida da situação.  Por isso a iniciativa de criar um indicador sintético, explica Patricia Sepe, que integra a coordenadoria de planejamento ambiental da SVMA.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Segundo ela, o secretário Eduardo Jorge defende a divulgação de dois índices, um ambiental e um socioambiental.  Uma das maiores dificuldades, diz ela, é a heterogeneidade da cidade, onde há uma discrepância muito grande entre as várias regiões, o que pediu a criação de cinco tipologias distintas.  Outro complicador é a falta de série histórica de informações ambientais.  &#8220;Isso reflete a pouca importância que o administrador público em geral dá a esse tipo de assunto&#8221;, diz Patricia.</div>
<p>Por Amália Safatle<span style="white-space: pre;"> </span></p>
<p>É prevista, entre agosto e setembro, a publicação de um raio X ambiental da cidade de São Paulo.  Trata-se de um índice sintético construído pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) em parceria com o Centro de Estudos da Metrópole, para servir como ferramenta para a administração pública e uma forma mais simples de a sociedade avaliar a situação ambiental da cidade.</p>
<p>São Paulo já conta com um sistema de indicadores, publicados em 2004 com base na metodologia Global Environmental Outlook, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.  São 83 indicadores formados por 254 variáveis.  A quantidade de informações, entretanto, impede uma visão clara e resumida da situação.  Por isso a iniciativa de criar um indicador sintético, explica Patricia Sepe, que integra a coordenadoria de planejamento ambiental da SVMA.</p>
<p>Segundo ela, o secretário Eduardo Jorge defende a divulgação de dois índices, um ambiental e um socioambiental.  Uma das maiores dificuldades, diz ela, é a heterogeneidade da cidade, onde há uma discrepância muito grande entre as várias regiões, o que pediu a criação de cinco tipologias distintas.  Outro complicador é a falta de série histórica de informações ambientais.  &#8220;Isso reflete a pouca importância que o administrador público em geral dá a esse tipo de assunto&#8221;, diz Patricia.</p>
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		<title>À espera da mudança</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jun 2007 17:00:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Flavia Pardini 
Apesar da urgência, as duas semanas de negociações internacionais sobre mudanças climáticas em maio na Alemanha terminaram sem medidas concretas, aumentando a expectativa para a reunião, em dezembro, das partes da Conferência Quadro das Nações Unidas sobre [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Flavia Pardini<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Apesar da urgência, as duas semanas de negociações internacionais sobre mudanças climáticas em maio na Alemanha terminaram sem medidas concretas, aumentando a expectativa para a reunião, em dezembro, das partes da Conferência Quadro das Nações Unidas sobre o assunto.  Espera-se que dali saia um mandato para negociação de novas metas para redução de emissões de gases de efeito estufa após 2012.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Para alguns observadores, entretanto, as reuniões dos órgãos de assessoramento científico (SBSTA) e de implementação (SBI) da Convenção não foram em vão.  Mostraram, pelo menos, que a posição do Brasil e de uma coalizão de países detentores de florestas tropicais em favor de algum mecanismo que recompense o desmatamento evitado pode deixar os Estados Unidos em uma posição desconfortável.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Nas reuniões, os EUA se opuseram à proposta brasileira de um fundo voluntário com recursos dos países industrializados para compensar as nações tropicais que reduzam o desmatamento.  Mas a insistência desses países em voltar ao tema em futuras negociações pode enfraquecer o argumento americano para não se juntar às demais partes do Protocolo de Kyoto na adoção de metas: o de que nações em desenvolvimento não participam do esforço para conter as emissões.  Contribuiu a declaração do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, de que o Brasil estuda estabelecer metas unilaterais e voluntárias para reduzir o desmatamento da Amazônia.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Até a reunião de dezembro, entretanto, outros fóruns estarão abertos &#8211; o encontro do G8 em junho, novas reuniões dos órgãos técnicos da Convenção em agosto &#8211; e, por enquanto, os EUA continuam irredutíveis.</div>
<p>Por Flavia Pardini<span style="white-space: pre;"> </span></p>
<p>Apesar da urgência, as duas semanas de negociações internacionais sobre mudanças climáticas em maio na Alemanha terminaram sem medidas concretas, aumentando a expectativa para a reunião, em dezembro, das partes da Conferência Quadro das Nações Unidas sobre o assunto.  Espera-se que dali saia um mandato para negociação de novas metas para redução de emissões de gases de efeito estufa após 2012.</p>
<p>Para alguns observadores, entretanto, as reuniões dos órgãos de assessoramento científico (SBSTA) e de implementação (SBI) da Convenção não foram em vão.  Mostraram, pelo menos, que a posição do Brasil e de uma coalizão de países detentores de florestas tropicais em favor de algum mecanismo que recompense o desmatamento evitado pode deixar os Estados Unidos em uma posição desconfortável.</p>
<p>Nas reuniões, os EUA se opuseram à proposta brasileira de um fundo voluntário com recursos dos países industrializados para compensar as nações tropicais que reduzam o desmatamento.  Mas a insistência desses países em voltar ao tema em futuras negociações pode enfraquecer o argumento americano para não se juntar às demais partes do Protocolo de Kyoto na adoção de metas: o de que nações em desenvolvimento não participam do esforço para conter as emissões.  Contribuiu a declaração do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, de que o Brasil estuda estabelecer metas unilaterais e voluntárias para reduzir o desmatamento da Amazônia.</p>
<p>Até a reunião de dezembro, entretanto, outros fóruns estarão abertos &#8211; o encontro do G8 em junho, novas reuniões dos órgãos técnicos da Convenção em agosto &#8211; e, por enquanto, os EUA continuam irredutíveis.</p>
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		<title>Percepção em alta, ação em baixa</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jun 2007 16:58:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Desmatamento]]></category>
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		<description><![CDATA[Por Maurício Araújo 
O aquecimento global já é conhecido pela maior parte dos brasileiros.  No entanto, apenas uma pequena parcela da população afirma estar fazendo algo ou sabe o que fazer para evitá-lo.  É o que demonstra a Pesquisa sobre [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Maurício Araújo<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O aquecimento global já é conhecido pela maior parte dos brasileiros.  No entanto, apenas uma pequena parcela da população afirma estar fazendo algo ou sabe o que fazer para evitá-lo.  É o que demonstra a Pesquisa sobre Meio Ambiente e Aquecimento Global, realizada pela Ipsos Public Affairs para o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP), realizada em 70 cidades e 9 regiões metropolitanas.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Segundo o levantamento, 79% dos brasileiros já ouviram falar do fenômeno e estão cientes do risco de catástrofe.  Para 72% deles, suas vidas serão diretamente afetadas.  Nas classes A e B, o conhecimento chega a 96%.  Mas 58% afirmam não estar fazendo nada para evitar as mudanças no clima.  Daqueles que contribuem de alguma forma, as ações ainda são tímidas: 22% aderem à coleta seletiva de lixo, 13% não compram produtos com grande impacto ambiental, 5% preferem itens com embalagens fáceis de eliminar e 2% afirmam usar carro a álcool.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O desmatamento encabeça a lista dos &#8220;vilões&#8221; do aquecimento: é citado por 50% das pessoas.  Em seguida, vêm indústria (16%), aumento de poluentes (14%), desperdício de água e energia (3%), governo (3%), automóveis (2%) e agricultura (1%).  Não souberam ou não quiseram responder 11% dos entrevistados.</div>
<p>Por Maurício Araújo<span style="white-space: pre;"> </span></p>
<p>O aquecimento global já é conhecido pela maior parte dos brasileiros.  No entanto, apenas uma pequena parcela da população afirma estar fazendo algo ou sabe o que fazer para evitá-lo.  É o que demonstra a Pesquisa sobre Meio Ambiente e Aquecimento Global, realizada pela Ipsos Public Affairs para o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP), realizada em 70 cidades e 9 regiões metropolitanas.</p>
<p>Segundo o levantamento, 79% dos brasileiros já ouviram falar do fenômeno e estão cientes do risco de catástrofe.  Para 72% deles, suas vidas serão diretamente afetadas.  Nas classes A e B, o conhecimento chega a 96%.  Mas 58% afirmam não estar fazendo nada para evitar as mudanças no clima.  Daqueles que contribuem de alguma forma, as ações ainda são tímidas: 22% aderem à coleta seletiva de lixo, 13% não compram produtos com grande impacto ambiental, 5% preferem itens com embalagens fáceis de eliminar e 2% afirmam usar carro a álcool.</p>
<p>O desmatamento encabeça a lista dos &#8220;vilões&#8221; do aquecimento: é citado por 50% das pessoas.  Em seguida, vêm indústria (16%), aumento de poluentes (14%), desperdício de água e energia (3%), governo (3%), automóveis (2%) e agricultura (1%).  Não souberam ou não quiseram responder 11% dos entrevistados.</p>
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		<title>Cuidar das raízes</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jun 2007 16:55:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Flavia Pardini 
O indiano Anil Gupta está entusiasmado com uma inovação que encontrou no Brasil.  Em visita ao Rio em maio, ele foi apresentado a uma bicicleta cuja roda da frente conta com uma moldura &#8211; que garante estabilidade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Flavia Pardini<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O indiano Anil Gupta está entusiasmado com uma inovação que encontrou no Brasil.  Em visita ao Rio em maio, ele foi apresentado a uma bicicleta cuja roda da frente conta com uma moldura &#8211; que garante estabilidade quando a bicicleta está estacionada e permite que se carreguem mercadorias -, a solução perfeita para vendedores porta a porta.  Que o digam os tantos que percorrem as ruas do interior do País vendendo Q&#8217;boa e que tais.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">&#8220;Eu nunca tinha visto essa característica na Índia ou na China, dois países que usam muito a bicicleta&#8221;, conta Gupta, professor do Instituto Indiano de Administração, em Ahmedabad, e co-presidente da Fundação Nacional para Inovação da Índia.  &#8220;Embora a necessidade exista nesses países, uma inovação simples como essa não surgiu lá.&#8221;</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Esse é um exemplo de como as pessoas de diferentes países podem se beneficiar de inovações e conhecimentos tradicionais de outras nações, se tiverem contato com elas.  Por isso, Gupta está trabalhando para construir uma &#8220;incubadora virtual&#8221;, na forma de uma base de dados e uma plataforma on-line, que permita não só a troca de idéias, mas a conexão entre inovadores, investidores e empreendedores.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O projeto conta com a parceria da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), no Brasil, e de duas entidades chinesas.  Será oficialmente lançado em junho em um workshop na China.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">&#8220;Em vez de olhar para os habitantes das regiões pobres como se fossem, coletivamente, um receptor de ajuda, reconhecemos as contribuições deles como uma fonte de invenções e inovações&#8221;, resume Gupta, que coordena também a Honey Bee, uma rede que prospecta, apóia e recompensa inovadores na chamada &#8220;base da pirâmide&#8221; e conta com 50 mil inovações e práticas tradicionais em seu banco de dados</div>
<p>Por Flavia Pardini<span style="white-space: pre;"> </span></p>
<p>O indiano Anil Gupta está entusiasmado com uma inovação que encontrou no Brasil.  Em visita ao Rio em maio, ele foi apresentado a uma bicicleta cuja roda da frente conta com uma moldura &#8211; que garante estabilidade quando a bicicleta está estacionada e permite que se carreguem mercadorias -, a solução perfeita para vendedores porta a porta.  Que o digam os tantos que percorrem as ruas do interior do País vendendo Q&#8217;boa e que tais.</p>
<p>&#8220;Eu nunca tinha visto essa característica na Índia ou na China, dois países que usam muito a bicicleta&#8221;, conta Gupta, professor do Instituto Indiano de Administração, em Ahmedabad, e co-presidente da Fundação Nacional para Inovação da Índia.  &#8220;Embora a necessidade exista nesses países, uma inovação simples como essa não surgiu lá.&#8221;</p>
<p>Esse é um exemplo de como as pessoas de diferentes países podem se beneficiar de inovações e conhecimentos tradicionais de outras nações, se tiverem contato com elas.  Por isso, Gupta está trabalhando para construir uma &#8220;incubadora virtual&#8221;, na forma de uma base de dados e uma plataforma on-line, que permita não só a troca de idéias, mas a conexão entre inovadores, investidores e empreendedores.</p>
<p>O projeto conta com a parceria da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), no Brasil, e de duas entidades chinesas.  Será oficialmente lançado em junho em um workshop na China.</p>
<p>&#8220;Em vez de olhar para os habitantes das regiões pobres como se fossem, coletivamente, um receptor de ajuda, reconhecemos as contribuições deles como uma fonte de invenções e inovações&#8221;, resume Gupta, que coordena também a Honey Bee, uma rede que prospecta, apóia e recompensa inovadores na chamada &#8220;base da pirâmide&#8221; e conta com 50 mil inovações e práticas tradicionais em seu banco de dados</p>
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		<title>Vale quanto pesa?</title>
		<link>http://pagina22.com.br/index.php/2007/06/vale-quanto-pesa/</link>
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		<pubDate>Fri, 01 Jun 2007 16:53:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Flavia Pardini 
Quanto valem os serviços prestados por um ecossistema?  A pergunta soa técnica, mas levanta paixões.
Os serviços oferecidos pelos ecossistemas do estado americano de Nova Jersey em um ano, por exemplo, valem de US$ 8,6 bilhões a US$ [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Flavia Pardini<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Quanto valem os serviços prestados por um ecossistema?  A pergunta soa técnica, mas levanta paixões.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Os serviços oferecidos pelos ecossistemas do estado americano de Nova Jersey em um ano, por exemplo, valem de US$ 8,6 bilhões a US$ 19,8 bilhões, concluiu um estudo finalizado em abril.  E o valor total do capital natural de Nova Jersey pode variar de US$ 288 bilhões a US$ 600 bilhões, excluindo a produção de bens, como os agrícolas, pescado, minérios e água.  Um dos estados mais densamente povoados dos EUA, Nova Jersey é vizinho a Nova York, tem vocação industrial, mas preserva refúgios onde a natureza executa serviços como filtragem da água, contenção de enchentes, polinização de lavouras, entre outros.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O estudo é um de vários que tentam colocar preço em serviços que só o meio ambiente oferece.  Levantamento divulgado em janeiro, por exemplo, estimou em US$ 448 bilhões o valor dos serviços na Bacia do Rio Mackenzie, no Canadá, região de floresta boreal.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A avaliação dos ativos naturais de Nova Jersey, encomendada pelo Departamento de Proteção Ambiental do estado, leva a assinatura de Robert Costanza e outros pesquisadores do Gund Institute for Ecological Economics, da Universidade de Vermont.  É de Costanza também a estimativa, publicada em 1997, de que a biomassa do planeta valeria aproximadamente US$ 33 trilhões por ano, quase o dobro do Produto Nacional Bruto global, de US$ 18 trilhões.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Economistas ligados à corrente ambiental discordam do trabalho de economistas ecológicos como Costanza.  Segundo eles, é impossível que os ativos naturais do planeta superem o valor da renda produzida no mesmo período &#8211; o que significa que, mesmo que quisessem pagar por eles, os homens não teriam dinheiro para tanto.  Para Costanza e outros, porém, é preciso colocar a questão na agenda e, sem preço, os serviços ambientais continuarão fora das decisões econômicas.</div>
<p>Por Flavia Pardini<span style="white-space: pre;"> </span></p>
<p>Quanto valem os serviços prestados por um ecossistema?  A pergunta soa técnica, mas levanta paixões.</p>
<p>Os serviços oferecidos pelos ecossistemas do estado americano de Nova Jersey em um ano, por exemplo, valem de US$ 8,6 bilhões a US$ 19,8 bilhões, concluiu um estudo finalizado em abril.  E o valor total do capital natural de Nova Jersey pode variar de US$ 288 bilhões a US$ 600 bilhões, excluindo a produção de bens, como os agrícolas, pescado, minérios e água.  Um dos estados mais densamente povoados dos EUA, Nova Jersey é vizinho a Nova York, tem vocação industrial, mas preserva refúgios onde a natureza executa serviços como filtragem da água, contenção de enchentes, polinização de lavouras, entre outros.</p>
<p>O estudo é um de vários que tentam colocar preço em serviços que só o meio ambiente oferece.  Levantamento divulgado em janeiro, por exemplo, estimou em US$ 448 bilhões o valor dos serviços na Bacia do Rio Mackenzie, no Canadá, região de floresta boreal.</p>
<p>A avaliação dos ativos naturais de Nova Jersey, encomendada pelo Departamento de Proteção Ambiental do estado, leva a assinatura de Robert Costanza e outros pesquisadores do Gund Institute for Ecological Economics, da Universidade de Vermont.  É de Costanza também a estimativa, publicada em 1997, de que a biomassa do planeta valeria aproximadamente US$ 33 trilhões por ano, quase o dobro do Produto Nacional Bruto global, de US$ 18 trilhões.</p>
<p>Economistas ligados à corrente ambiental discordam do trabalho de economistas ecológicos como Costanza.  Segundo eles, é impossível que os ativos naturais do planeta superem o valor da renda produzida no mesmo período &#8211; o que significa que, mesmo que quisessem pagar por eles, os homens não teriam dinheiro para tanto.  Para Costanza e outros, porém, é preciso colocar a questão na agenda e, sem preço, os serviços ambientais continuarão fora das decisões econômicas.</p>
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		<title>Aposta na sustentabilidade</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jun 2007 16:45:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Mario Monzoni 
Dois de dezembro de 2005.  Acordei cedo para checar o desempenho do primeiro dia do Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa, o ISE.  Ainda no berçário da maternidade, parecia gente grande: alta de 1,97%!  A alegria foi [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Por Mario Monzoni<span style="white-space: pre;"> </span></div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Dois de dezembro de 2005.  Acordei cedo para checar o desempenho do primeiro dia do Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa, o ISE.  Ainda no berçário da maternidade, parecia gente grande: alta de 1,97%!  A alegria foi em parte diminuída diante da variação do Ibovespa nas mesmas 24 horas: 2,19%.  Será que o conceito de sustentabilidade como elemento gerador de valor não estaria funcionando?  O erro residiria na fórmula?</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Independente da ansiedade de “pai”, é preciso encarar o fato de que a inclusão da sustentabilidade nos modelos de negócio é um processo e que, a partir dele, as empresas passam a cuidar de seus impactos no planeta e na comunidade, sem descuidar do bottom line econômico.  Não se trata de fórmula mágica.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Infelizmente, nem todos enxergam o processo dessa maneira.  Na edição de maio da revista Época Negócios, um artigo do jornalista José Fucs conclui que as práticas de responsabilidade empresarial subtraem desempenho econômico-financeiro das empresas e cita a performance do ISE como prova cabal.  De fato, de dezembro de 2005 a 23 de maio último, o Ibovespa suplantou o ISE em 3,95 pontos percentuais (62,34% versus 58,39%).  Se o objetivo era gerar confusão sobre o conceito de investimento socialmente responsável (SRI, na sigla em inglês), no qual o ISE se apóia, o artigo é excepcionalmente eficaz.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Embora tenham chegado ao Brasil recentemente, conceito e práticas de SRI estão presentes nos EUA desde a década de 60, quando fundos éticos passaram a excluir de seus portfólios ações de empresas que mantinham relacionamento com o regime de apartheid na África do Sul ou que participavam da cadeia de fornecedores de armamentos para a Guerra do Vietnã.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O conceito ganhou corpo e, no fim dos anos 1990, os fundos SRI movimentavam cerca de US$ 2 trilhões.  Em 1999 estimou-se que as decisões de investimento para 1 em cada 8 dólares de terceiros administrados por instituições financeiras americanas levavam em conta critérios sociais ou ambientais.  O volume de recursos e o número de fundos SRI demandaram a construção de índices de referência.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Assim surgiu, em 1999, a Dow Jones Sustainability Indexes (DJSI), família de índices cujas carteiras são constituídas a partir de uma abordagem triple bottom line.  Nos últimos sete anos, o Dow Jones Sustainability Global Index apresentou variação de 46,47% contra 43,82% do MSCI, índice benchmark tradicional do mercado financeiro (para comparação entre fundos tradicionais e o SRI, veja artigo de Gustavo Pimentel em http://ef.amazonia.org.br).</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Em 2001, o Financial Times e a London Stock Exchange lançaram o FTSE4Good, índice de sustentabilidade da Bolsa de Londres.  A tendência se espalhou para os mercados emergentes e influenciou a construção do índice SRI da Bolsa de Johannesburgo (JSE) e do ISE.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Assim como os irmãos, o ISE é uma manifestação da sociedade civil brasileira &#8211; um instrumento de auto-regulação &#8211; que procura avaliar, por meio de metodologia, critérios e indicadores, um conjunto de empresas listadas na Bovespa quanto à natureza do seu produto ou serviço, a qualidade da gestão ambiental da empresa, o seu relacionamento com as partes interessadas, o tratamento aos acionistas minoritários, a transparência e o grau de prestação de contas dessas práticas, além do desempenho econômico-financeiro tradicional.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Esses índices induzem o lançamento de fundos éticos e, juntos, índices e fundos estimulam as melhores estratégias e práticas empresariais, revelando-se poderosos instrumentos de promoção do desenvolvimento sustentável.  São meios e não fins em si mesmos.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A história recente impede conclusões apressadas.  A aposta do SRI baseia-se na lógica que conecta as práticas empresariais, que respondem aos desafios da sustentabilidade, à criação de valor ao acionista a longo prazo.  Espera-se que as empresas que integram a carteira do ISE desfrutem de acesso mais rápido e barato ao crédito, de menores custos de seguro, cultivem clima organizacional elevado, atraiam e retenham os melhores talentos, recebam maior lealdade do consumidor e, com isso, valorizem a imagem institucional.  E, ainda, que reduzam riscos e passivos socioambientais, diminuam as chances de conflitos e garantam a licença social para operar.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Ao buscar reduzir sua pegada no planeta e deixar uma marca responsável na sociedade, essas organizações garantem a oferta de produtos, serviços e modelos de negócios inovadores a longo prazo.  Contribuem, portanto, para a própria perenidade.  Se ainda não há evidências robustas de que tais práticas geram valor financeiro ao acionista, é possível afirmar que não ferem o desempenho econômicofinanceiro das empresas.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A Interface, empresa americana detentora de 38% do mercado global de carpetes é um bom exemplo.  Seu presidente, Ray Anderson, percebeu o valor da sustentabilidade e, a partir de 1994, mudou o jeito de atuar da empresa.  De lá para cá, os esforços da Interface para se tornar mais sustentável levaram a uma economia de mais de US$ 336 milhões, segundo Anderson.  O ganho de imagem, em alguns casos, pode ser incalculável.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">O bom desempenho do ISE nos primeiros 12 meses de vida pode, em boa medida, ser explicado pela concentração em papéis de instituições financeiras, que representavam, no período, cerca de 60% da carteira, e tiveram performance muito elevada comparada com outros setores.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">A redução da taxa de valorização do ISE nos últimos seis meses se deve, em parte, à perda de valor de mercado das ações da Petrobras, que passou a fazer parte da carteira do ISE em dezembro de 2006 e a partir daí responde por 25% do desempenho do índice.  Nesse período, os papéis da Petrobras valorizaram em média 6%, contra 18,41% do ISE e 23,56% do Ibovespa.</div>
<div id="_mcePaste" style="position: absolute; left: -10000px; top: 0px; width: 1px; height: 1px; overflow-x: hidden; overflow-y: hidden;">Como vemos, no curto prazo o índice responde muito mais a fatores como concentração e volatilidade.  Quanto à sustentabilidade, é ainda cedo para dizer.  A aposta continua.</div>
<p>Por Mario Monzoni<span style="white-space: pre;"> </span></p>
<p>Dois de dezembro de 2005.  Acordei cedo para checar o desempenho do primeiro dia do Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa, o ISE.  Ainda no berçário da maternidade, parecia gente grande: alta de 1,97%!  A alegria foi em parte diminuída diante da variação do Ibovespa nas mesmas 24 horas: 2,19%.  Será que o conceito de sustentabilidade como elemento gerador de valor não estaria funcionando?  O erro residiria na fórmula?</p>
<p>Independente da ansiedade de “pai”, é preciso encarar o fato de que a inclusão da sustentabilidade nos modelos de negócio é um processo e que, a partir dele, as empresas passam a cuidar de seus impactos no planeta e na comunidade, sem descuidar do bottom line econômico.  Não se trata de fórmula mágica.</p>
<p>Infelizmente, nem todos enxergam o processo dessa maneira.  Na edição de maio da revista Época Negócios, um artigo do jornalista José Fucs conclui que as práticas de responsabilidade empresarial subtraem desempenho econômico-financeiro das empresas e cita a performance do ISE como prova cabal.  De fato, de dezembro de 2005 a 23 de maio último, o Ibovespa suplantou o ISE em 3,95 pontos percentuais (62,34% versus 58,39%).  Se o objetivo era gerar confusão sobre o conceito de investimento socialmente responsável (SRI, na sigla em inglês), no qual o ISE se apóia, o artigo é excepcionalmente eficaz.</p>
<p>Embora tenham chegado ao Brasil recentemente, conceito e práticas de SRI estão presentes nos EUA desde a década de 60, quando fundos éticos passaram a excluir de seus portfólios ações de empresas que mantinham relacionamento com o regime de apartheid na África do Sul ou que participavam da cadeia de fornecedores de armamentos para a Guerra do Vietnã.</p>
<p>O conceito ganhou corpo e, no fim dos anos 1990, os fundos SRI movimentavam cerca de US$ 2 trilhões.  Em 1999 estimou-se que as decisões de investimento para 1 em cada 8 dólares de terceiros administrados por instituições financeiras americanas levavam em conta critérios sociais ou ambientais.  O volume de recursos e o número de fundos SRI demandaram a construção de índices de referência.</p>
<p>Assim surgiu, em 1999, a Dow Jones Sustainability Indexes (DJSI), família de índices cujas carteiras são constituídas a partir de uma abordagem triple bottom line.  Nos últimos sete anos, o Dow Jones Sustainability Global Index apresentou variação de 46,47% contra 43,82% do MSCI, índice benchmark tradicional do mercado financeiro (para comparação entre fundos tradicionais e o SRI, veja artigo de Gustavo Pimentel em http://ef.amazonia.org.br).</p>
<p>Em 2001, o Financial Times e a London Stock Exchange lançaram o FTSE4Good, índice de sustentabilidade da Bolsa de Londres.  A tendência se espalhou para os mercados emergentes e influenciou a construção do índice SRI da Bolsa de Johannesburgo (JSE) e do ISE.</p>
<p>Assim como os irmãos, o ISE é uma manifestação da sociedade civil brasileira &#8211; um instrumento de auto-regulação &#8211; que procura avaliar, por meio de metodologia, critérios e indicadores, um conjunto de empresas listadas na Bovespa quanto à natureza do seu produto ou serviço, a qualidade da gestão ambiental da empresa, o seu relacionamento com as partes interessadas, o tratamento aos acionistas minoritários, a transparência e o grau de prestação de contas dessas práticas, além do desempenho econômico-financeiro tradicional.</p>
<p>Esses índices induzem o lançamento de fundos éticos e, juntos, índices e fundos estimulam as melhores estratégias e práticas empresariais, revelando-se poderosos instrumentos de promoção do desenvolvimento sustentável.  São meios e não fins em si mesmos.</p>
<p>A história recente impede conclusões apressadas.  A aposta do SRI baseia-se na lógica que conecta as práticas empresariais, que respondem aos desafios da sustentabilidade, à criação de valor ao acionista a longo prazo.  Espera-se que as empresas que integram a carteira do ISE desfrutem de acesso mais rápido e barato ao crédito, de menores custos de seguro, cultivem clima organizacional elevado, atraiam e retenham os melhores talentos, recebam maior lealdade do consumidor e, com isso, valorizem a imagem institucional.  E, ainda, que reduzam riscos e passivos socioambientais, diminuam as chances de conflitos e garantam a licença social para operar.</p>
<p>Ao buscar reduzir sua pegada no planeta e deixar uma marca responsável na sociedade, essas organizações garantem a oferta de produtos, serviços e modelos de negócios inovadores a longo prazo.  Contribuem, portanto, para a própria perenidade.  Se ainda não há evidências robustas de que tais práticas geram valor financeiro ao acionista, é possível afirmar que não ferem o desempenho econômicofinanceiro das empresas.</p>
<p>A Interface, empresa americana detentora de 38% do mercado global de carpetes é um bom exemplo.  Seu presidente, Ray Anderson, percebeu o valor da sustentabilidade e, a partir de 1994, mudou o jeito de atuar da empresa.  De lá para cá, os esforços da Interface para se tornar mais sustentável levaram a uma economia de mais de US$ 336 milhões, segundo Anderson.  O ganho de imagem, em alguns casos, pode ser incalculável.</p>
<p>O bom desempenho do ISE nos primeiros 12 meses de vida pode, em boa medida, ser explicado pela concentração em papéis de instituições financeiras, que representavam, no período, cerca de 60% da carteira, e tiveram performance muito elevada comparada com outros setores.</p>
<p>A redução da taxa de valorização do ISE nos últimos seis meses se deve, em parte, à perda de valor de mercado das ações da Petrobras, que passou a fazer parte da carteira do ISE em dezembro de 2006 e a partir daí responde por 25% do desempenho do índice.  Nesse período, os papéis da Petrobras valorizaram em média 6%, contra 18,41% do ISE e 23,56% do Ibovespa.</p>
<p>Como vemos, no curto prazo o índice responde muito mais a fatores como concentração e volatilidade.  Quanto à sustentabilidade, é ainda cedo para dizer.  A aposta continua.</p>
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