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	<title>Página 22 &#187; 07</title>
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		<title>Face a Face</title>
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		<pubDate>Tue, 22 Sep 2009 20:50:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Flavia Pardini</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Houve um tempo em que se ia à &#8220;cidade&#8221; de bonde.  Era o centro do mundo.  O que antes era &#8220;cidade&#8221; agora é o que alguns chamam de Centro Velho.  Resquício dos áureos tempos, rodeado de periferias por todos os lados, o velho Centro de São Paulo ainda é lugar para se ir.  No horário comercial, ferve &#8211; engravatados, contínuos, secretárias e muitos, muitos camelôs.  À noite, esvazia-se, sombra da periferia.  É o centro da grande cidade da periferia do mundo.</p>
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		<title>O mercadinho contra-ataca</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Apr 2007 14:02:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Regina Scharf
Nos Estados Unidos, a comida costuma ser mais viajada do que os seus consumidores.  Diversos estudos indicam que os hortifrutigranjeiros percorrem, em média, 2.400 quilômetros até chegar ao prato do cidadão americano.  É como se os paulistanos só [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Regina Scharf</p>
<p>Nos Estados Unidos, a comida costuma ser mais viajada do que os seus consumidores.  Diversos estudos indicam que os hortifrutigranjeiros percorrem, em média, 2.400 quilômetros até chegar ao prato do cidadão americano.  É como se os paulistanos só comessem alimentos vindos de Maceió.</p>
<p>Com freqüência, o produto sai da fazenda ou da indústria e pega a estrada para ser embalado em uma central de distribuição do outro lado do país.  Daí é repatriado para o local de origem ou enviado para outro canto.  Isso, quando não é importado.</p>
<p>Esse périplo exige uma barbaridade de combustível, embalagens complexas, câmaras refrigeradas e conservantes — o que manda a sustentabilidade para a cucuia.  Os custos ambientais do transporte de alimentos e outras mercadorias a grandes distâncias são capazes de anular os benefícios obtidos por um cultivo orgânico, um manejo certifi cado ou uma operação de comércio justo.<br />
No combate a essa tendência, ganha força o movimento Buy Local — a valorização do comércio e dos produtos locais, em um engajamento socioambiental legítimo, temperado com uma pitada de chauvinismo.  É o tipo de militância que fl oresce nos países ricos mas demora a decolar no Brasil.</p>
<p>Seus partidários compram direto dos produtores rurais, preferem as lojas de bairro, evitam alimentos importados, promovem campanhas contra as multinacionais, as hiperlivrarias e os megamercados.  Trocam o Wal- Mart, maior varejista do planeta, com um faturamento de algumas centenas de bilhões de dólares anuais, por feiras livres onde os fazendeiros oferecem seus produtos sem passar por atravessadores.  Graças à demanda, nos EUA elas já são mais de 3.800, pelo menos o dobro do que uma década atrás.  Há cidades — com destaque para San Francisco, na Califórnia, onde o Buy Local tem boa aceitação — que viram seus cinturões verdes crescer expressivamente nos últimos anos.<br />
Alguns supermercados também resolveram apostar nesse nicho e reduziram o raio onde vão buscar fornecedores.  É o caso do New Seasons, rede que atua no Oregon, ao norte da Califórnia.  Um quarto de suas mercadorias traz uma etiqueta amarela indicando que se originou no próprio estado.  O leite vendido ali passa apenas por pasteurização rudimentar, ou nem isso, já que não precisa ter data de validade a perder de vista.<br />
A bíblia do movimento é o livro The Small-Mart Revolution (algo como A Revolução do Mercadinho), do economista Michael Shuman, que detalha estratégias que têm permitido que o pequeno comércio supere em resultados os líderes de seus ramos e as distorções do mercado.</p>
<p>Para ele, as “lojas de bairro” tornam a economia local mais vibrante e criam proporcionalmente mais empregos e riqueza, além de reduzir a necessidade de transporte (pois estão nos centros e bairros residenciais) e melhorar os padrões trabalhistas (afi nal, elas não pulam de um lugar para o outro em busca de mão-de-obra barata).</p>
<p>De fato, o principal argumento dos defensores do Buy Local é econômico, não ambiental.  Empresas nacionais ou transnacionais costumam enviar à matriz o grosso dos lucros, enquanto os empreendedores locais gastam seus proventos na comunidade onde operam.</p>
<p>Um estudo realizado pela Civic Economics, uma consultoria em planejamento estratégico, comparou o impacto econômico de uma loja fi liada à rede nacional de livrarias Borders, que mantém 1.300 unidades em diversos países, ao de duas pequenas livrarias sobre a vida econômica de Austin, no Texas.</p>
<p>Concluiu que, de cada US$ 100 gastos na Borders, apenas US$ 13 fi cam na cidade.  O resto é enviado para a matriz, em Ann Arbor, no estado de Michigan, do outro lado do país, e utilizado para pagar acionistas, dirigentes, depósitos, transportadoras, equipes de marketing — tudo isso bem longe de Austin.  Em contraste, US$ 45 dos US$ 100 gastos nas pequenas livrarias permanecem na economia local.</p>
<p>Esta foi uma das justificativas para a adoção, no início deste ano, de uma lei municipal que dá aos vereadores de Austin o poder de vetar a instalação de operações comerciais de grande porte, após a realização de uma audiência pública.<br />
Mas o Buy Local também tem argumentos ambientais.  Em abril do ano passado, a Amigos da Terra britânica lançou uma campanha em defesa do comércio de rua.  Para a entidade, as pequenas lojas, além de oferecer atendimento personalizado e calor humano, são mais efi cientes do ponto de vista energético — 60 mercearias emitiriam tanto gás carbônico quanto um supermercado médio.</p>
<p>Os mais apressados dirão que esse movimento é o princípio do fi m da globalização.  Calma.  Muitos preferem coçar a orelha esquerda com a mão direita.  Da mesma forma, o consumidor médio parece gostar de pegar o carro, atravessar a cidade e enfrentar um shopping lotado para comprar algo que encontraria facilmente no seu bairro.  Mas é reconfortante saber que alguém ainda se interessa pelo destino do mercadinho da esquina.</p>
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		<title>Um mundo a experimentar</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Apr 2007 14:00:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O investimento intensivo em novas tecnologias da biomassa, dentro de um capitalismo com preocupações socioambientais, daria ao Brasil condições de abrir um novo caminho para a humanidade, diz Ignacy Sachs
Por Amália Safatle e Flavia Pardini
PÁGINA 22: O que a bioenergia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O investimento intensivo em novas tecnologias da biomassa, dentro de um capitalismo com preocupações socioambientais, daria ao Brasil condições de abrir um novo caminho para a humanidade, diz Ignacy Sachs<br />
Por Amália Safatle e Flavia Pardini</p>
<p>PÁGINA 22: O que a bioenergia significa para o Brasil?<br />
Ignacy Sachs: O Brasil está vivendo um mom ento d e ex cepci onal impor tânc ia.  O que parecia uma possibilidade, a expansão da bioenergia, praticamente pode ser considerada uma certeza.  O mundo acordou, talvez, tarde demais, mas acordou.  E está querendo resolver esses problemas.  Para o Brasil não é só a substituição das energias fósseis: é uma oportunidade ún ica d e avançar no debate sobre um projeto nacional, sobre o papel que poderia desempenhar neste projeto nacional: um ciclo de desenvolvimento rural baseado na revolução duplamente verde, não apenas a revolução produtiva, mas conseguindo os objetivos produtivos com o respeito à natureza, e voltados ao agricultor familiar.</p>
<p>22: O quanto o governo está aberto a esse tipo de sugestão?<br />
IS: Se a gente olha r as reun iõ es q u e h ouve sobre reforma a grária promovida pela FAO no ano p assado, em Porto Alegre, e pensa r nos d elineamentos do programa do biodiesel, existe neste governo uma co n sciência desse s problemas.  A questã o é até onde vai essa consciência na defi n ição d a est r atégia de desenvolvimento – a supor que haja uma estrat égi a de d ese nvolvimento a longo prazo do País .  Essa é a mensa gem central de Celso Furtado nos últimos anos de sua vida: temos que p ôr em execução um pr oj eto naci ona l. Não vejo sinais a pa rent es de q u e essa d iscus são esteja acontece n do.</p>
<p>22: Existe essa demanda por parte da sociedade?  Como o senhor vê os movimentos sociais?<br />
IS: Todo mundo fala em projeto nacional, mas entre o discurso, a retórica, e a prática vai uma di stâ n ci a mui t o grande .  A bioenergia pode mudar o futuro do Brasil rural num sentido muito positivo ou num sentido extremamente nega tivo, porque p odemos construir a me sm a ma tri z energética em m ode lo s so cia is diametralme n te opostos.  Um a agricultura sem ho me n s, altam ent e mecanizada, e os refugiados do campo nas favelas.  Este é um dos cenários que pintam.</p>
<p>22: O senhor propõe a criação de uma Agência Nacional de Bioenergia para que se estabeleça essa política no País?<br />
IS: Meu papel não é propor.  Apenas diria que precisamos ser claros.  Deveríamos definir uma estratégia de promoção da bioenergia que utilize critérios ambientais, sociais e econômicos, que tente substituir o mais rápido poss ível as energias fósseis por renováveis, que o faça de maneira a gerar o máximo de oportunidades de trabalho decentes e que seja econom icamente viá v el.  Os cri té r io s do custo mínimo não atendem por si sós aos critérios sociais e ambientais.  Devemos ter algum instrumento de política pública que corrija aquele custo-benefício.</p>
<p>22: Como essa política tem de ser construída?  Com a participação da sociedade, as várias áreas do governo?<br />
IS: Para mim, dentro do que eu chamaria de “capitalismo reformado”, é óbvio que essas políticas têm de ser negociadas entre todos os stakeholders, ou seja, todas as forças sociais interessadas em uma negociação, que, a meu ver, será cada vez mais quadripartite – empresário s, tr ab alhadore s, Estado e a sociedade civil organizada.</p>
<p>22: Esse debate já não é tardio?  Não deveria ter acontecido antes da febre atual em torno da bioenergia?<br />
IS: Nunca é tarde demais enquanto não morremos.  Não vamos discutir se perdemos anos preciosos, mas coloquemos a mão na massa!  Vamos discutir os instrumentos de política que podem ser fiscais, creditícios ou administrativos.  O capitalismo reformado reconhece a importância do mercado e, ao mesmo tempo, a necessidade de regulá-lo e de regulá-lo sob critérios sociais e ambientais.</p>
<p>22: O capitalismo reformado existe na prática em algum lugar?<br />
IS: Surgiu no fim da Segunda Guerra Mundial, quando o mundo funcionava com base em três idéias, reconhecidas dos dois lados da Cortina de Ferro: o pleno emprego deveria ser o objetivo social número 1, mas isso não bastava, era preciso o funcionamento de um estado protetor, um Welfare State.  E, para não desperdiçar recursos, era preciso planejar.  Assim tivemos 30 anos do que alguns chamaram de a idade de ouro do capitalismo, de 1945 a 1965.  Com crescimento econômico, i m p ac tos socia is raz o áveis e destruição. Maciça do meio ambiente.  A partir daí veio a revolução ambiental nos 60 e início dos 70.  No mesmo período, o socialismo real começou a entrar em colapso com a invasão da Tchecoslováquia e, 20 anos depois, terminou com a queda do Muro de Berlim.  O socialismo real perdeu encanto aos olhos de grande parte da opinião pública ocidental e entramos em fase de contra-reforma capitalista, que tentou voltar para o capitalismo puro e duro, levando ao Consenso de Washington e a outras aberrações.  Não temos de voltar para trás, mas repensar as tarefas para o futuro em uma visão de capitalismo reformado, que não se subordina ao mercado.</p>
<p>22: Hoje há um consenso mundial de que é preciso reduzir a dependência do petróleo.  Até nos EUA é perceptível essa consciência, mas na verdade isso vem vindo há muito tempo.  O que foi que fez mudar “a chavinha” ali?<br />
IS: Tem dois el ementos importantes.  Prim ei r o , o d is cur so do s c ie nt is ta s sobr e o aquecimento global, que começou a chegar à cabeça dos responsáveis.  Segundo, e mais importante: a enorm e vulnera bi lidade do m u ndo em funçã o d a dependênc ia do petróleo do Ori ente Médio e a catástrofe da guerra do Iraque.  Não por acaso, um dos mais influentes estudos americanos sobre a necessidade de substituir as importações de petróleo pelos biocombustíveis e pela conservação da energia foi co-financiado pelo Pentágono.  Os militares devem ter entendido que a hipótese da manutenção das linhas de abastecimento do Oriente Médio vai custar cada vez mais em dinheiro e recursos humanos e em perda de prestígio dos EUA.</p>
<p>22: É uma mudança de estratégia nacional dos EUA bastante radical?<br />
IS: Quando eles decidem mudar, têm essa capacidade de mobilização, o que foi sempre uma das características do dinamismo americano.  Lembrem-se do Manhattan Project para fazer a bomba atômica.  Os militares têm esse raciocínio: precisa de bomba atômica, vamos fazer a bomba atômica.</p>
<p>22: Precisa do etanol, vamos lá!<br />
IS: Vamos lá.  Hoje estão fazendo a partir do milho, o que é um absurdo, mas estão investindo em fábricas de etanol celulósico.  O Brasil bem faria em olhar a coisa de perto.  O Brasil tem tudo para acompanhar isso, mas as condições do mercado mundial vão mudar.  22: É possível que a solução do etanol celulósico venha dos EUA?  IS: É certo que ela vai partir, entre outros lugares, de lá.  As patentes existem inclusive no Brasil.  A Dedini tem uma patente para produzir etanol a partir do bagaço.  Só que é caro.  Portanto, a grande competição dos próximos anos será a seleção das enzimas que permitem baixar sensivelmente o custo da hidrólise enzimática.  Ouvi falar que as enzimas mais interessantes foram identificadas no estrume do elefante e nas entranhas da saúva.  Incrível, mas o elefante e a saúva têm uma coisa em comum: comem muita celulose.</p>
<p>22: O Brasil está estudando isso?<br />
IS: O Brasil entra nessa competição com uma vantagem comparativa forte na questão do etanol.  Agora, dormir sobre os louros não seria razoável.  Essa competição internacional vai depender muito da pesquisa.  Para quem tenta estudar o caso brasileiro de fora, como eu, há sempre um grande número de informações que não tem como aceitar ou descartar.  Li, por exemplo, no boletim da Fapesp, a informação de que no caso do óleo do que as estatísticas do IBGE mostram.</p>
<p>22: O senhor já disse que o futuro do Brasil é o reflorestamento&#8230;<br />
IS: Vocês têm 5 milhões e meio de hectares de florestas plantadas.  E 50 milhões a 100 milhões de hectares de áreas que foram desmatadas e deveriam ser replantadas.  A opção do plantio de florestas econômicas consorciadas com outras atividades – para que não seja novamente geração de monolatifúndio – é o grande futuro do Brasil, porque aqui as árvores crescem muito depressa.</p>
<p>22: Seriam florestas para quê, para madeira, para papel, para álcool?<br />
IS: Da mesma forma que petrolíferas devem virar empresas de energia, as fabricantes de celulose e papel deveriam virar empresas de biomassa.  Porque essa biomassa de origem florestal serve para fazer papel, todos os derivados de madeira, energia, carvão vegetal, construção, outras fibras – a Hugo Boss está vendendo camisas de bambu.  Portanto, vocês têm um enorme leque de coisas para fazer a partir da árvore.  Esse é o desafio do momento.  Biomassa é alimento, é ração animal, é bioenergia, é adubo verde, é material de construção, é matéria-prima para todas as indústrias, é a química verde, farmacologia e cosmética.  Tudo isso é biomassa.  Saberemos caminhar para essa civilização, dentro dos preceitos da revolução duplamente verde e orientada para a geração de um grande número de oportunidades de trabalho decentes?  Aí o século XXI será bem diferente dos dois anteriores, dominados pela industrialização à base de energia fóssil, barata.  É um novo caminho que se abre para a humanidade.  Ou saberemos fazer isso ou não teremos&#8230;</p>
<p>22: &#8230;Século XXII!</p>
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		<title>Recepção e resposta</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Apr 2007 13:58:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>P22</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Professor titular de Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Gilberto Velho é um dos principais investigadores e intérpretes da cultura brasileira contemporânea. Especialista em culturas urbanas e sociedades complexas, tem sido articulador e incentivador [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Professor titular de Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Gilberto Velho é um dos principais investigadores e intérpretes da cultura brasileira contemporânea. Especialista em culturas urbanas e sociedades complexas, tem sido articulador e incentivador de um diálogo mais estreito e permanente entre diferentes áreas das ciências humanas. Fazendo uma pausa na análise dos textos de uma nova coletânea de artigos sob sua coordenação, intitulada Rio de Janeiro: Cultura, Política e Conflito, cujo lançamento, pela Jorge Zahar Editor, está previsto pra outubro, Gilberto Velho fala sobre os impactos das novas tecnologias da comunicação e a respeito do que há de novo nas relações entre centro e periferia, mídia e sociedade no Brasil de hoje.<br />
Por Flavio Lobo</p>
<p>PÁGINA 22: Qual o potencial democratizante das novas tecnologias de comunicação?<br />
GILBERTO VELHO: Em uma sociedade complexa como a nossa, não há tradições isoladas.  Temos uma noção, em antropologia, que fala de correntes de tradição cultural.  Elas não só são dinâmicas, se deslocam, como estão se cruzando, se encontrando.  Podem se encontrar harmoniosamente ou o encontro pode ser conflitivo para a sociedade.  A sociedade não é só continuidade, estabilidade, ao contrário do que alguns pensadores conceberam.  É repleta de conflitos de todas as espécies, de opinião, pontos de vista.  Isso não é sinônimo de violência, mas o conflito pode até chegar à violência, algo que o Brasil vive intensamente.  As novas tecnologias, como o rádio, do início do século XX, mudam muito os padrões de comunicação.  O rádio teve uma evolução extraordinária, pessoas espalhadas por um território gigantesco passaram a ter acesso a informações, programas, a um tipo de cultura a que não tinham acesso.  A televisão, no final dos anos 40 e início dos 50, foi mais um grande movimento na direção de transformação e introdução de informações.  Agora, é importante não exagerar.  Acho que em um determinado momento se superestimou a idéia do impacto da comunicação da cultura de massa.  Porque ela, seja pela televisão, seja pelo rádio, não encontra &#8220;tábula rasa&#8221;, mas correntes dinâmicas de tradição cultural, que tanto não eram estáticas que foram capazes de lidar, de alguma maneira, com essas inovações, essas novidades.</p>
<p>22: Há exemplos, extraídos da pesquisa antropológica, desses encontros de correntes culturais propiciados pelas tecnologias da informação?</p>
<p>GV: Um colega, etnólogo, fazia pesquisas com um grupo indígena bastante isolado na Amazônia.  O grupo tinha estabelecido contato havia pouco tempo, a maioria não falava português, e uma das primeiras coisas que aconteceu foi a instalação de uma antena de televisão na aldeia.  E tinha um programa que todo mundo parava para assistir.  Todos os índios, homem, mulher, criança, velho, se reuniam para ver o seriado Dallas.  Mas por que Dallas?  Depois de uma discussão, especulações — os antropólogos podem ter forçado um pouco a barra, é verdade —, chegou-se à conclusão de que uma trama sobre relações de parentesco, vingança, incesto trazia temas familiares ao universo cultural daquele grupo.</p>
<p>22: Há quem veja a mídia de massa e a indústria cultural como agentes a destruir implacavelmente culturas tradicionais, como se fossem tratores a desmatar florestas.  Trata-se de uma visão simplista?<br />
GV: Eu acho.  As pessoas trazem consigo tradições, são portadoras de cultura, mas não portadoras passivas.  É importante a relação entre indivíduo e sociedade.  Os grupos e os indivíduos estão sempre interpretando o que vêem na televisão, o que ouvem no rádio, e também o que vêem pela internet.  E não vão interpretar de uma mesma maneira.  Mesmo que a internet tenha um papel universalizante, introduza uma tecnologia que chegará praticamente a todos e permitirá que se descubram coisas em comum, essa tecnologia, ao contrário de outras, dá a possibilidade de uma reinvenção.  Se na televisão e no rádio as pessoas não podiam ouvir do modo que queriam, essa tecnologia de agora permite uma certa liberdade, não absoluta, evidentemente, mas uma liberdade de fazer suas combinações, suas sínteses.  Juntando, não de uma maneira onipotente, porque ninguém está desprovido de fronteiras, todos estão situados em determinados mapas sociais e culturais.</p>
<p>22: Mapas e fronteiras sociais ficam realmente mais flexíveis com a internet?<br />
GV: Eles podem assumir novos desenhos, sem necessariamente se flexibilizar.  Uma coisa importante seria identificar esses mapas sociais e descobrir quem combina o que com quê.  Quem vai buscar música clássica, quem vai buscar senhoras despidas em situações de maior intimidade, quem vai ver show de rock, quem vai ver jogo de futebol, quem vai ler Cícero.  Outro dia eu estava lendo Cícero em latim na internet.  Quem é que vai buscar Cícero na internet?  Pesquisadores, acadêmicos, pessoas como eu.  Mas posso buscar outras coisas também, posso buscar as senhoras em situação de certa intimidade, nada impede.  É claro que diante de novas possibilidades também posso mudar os meus hábitos.  Assim como as pessoas, as culturas, as correntes de tradição cultural mudam.  Mas não a ponto de se anular, desaparecer.  Então, as mudanças podem ser mais aceleradas, ou podem corresponder a uma continuidade, com alterações de ritmo, onde coisas permanecem, há algo por baixo que se mantém.  A idéia de que a sociedade está sempre mudando deve ser de algum modo relacionada à idéia de que ela também tem elementos e mecanismos que a constituem, que a singularizam.  O que faz com que desde concepções mais amplas – cultura francesa, cultura eslava, cultura chinesa – até dimensões menores – cultura da juventude, cultura militar, cultura estudantil, cultura da igreja – possam fazer sentido.  São vários planos e dimensões, mas você pode fazer vários recortes.  22: O senhor fala em um potencial de mudança, mas não necessariamente de maior flexibilização.  O que isso quer dizer?  GV: É claro que existe democratização.  Mas é importante lembrar que essas possibilidades, de ter acesso, fazer combinações, têm limite socioeconômico.  No Brasil, a proporção de pessoas que têm acesso direto à internet, por exemplo, é pequena comparada a outros lugares do mundo.  Está em torno de 15%, 20%, não é?  Há uma vasta quantidade de pessoas que não têm esse tipo de possibilidade.  Por outro lado, por mais flexíveis que sejam as possibilidades da internet, também há limites que são construídos por pessoas, por terem determinadas tradições culturais.  O potencial de democratização não deve ser panfletado como uma homogeneização e um igualitarismo.  É mais interessante um tipo de democratização que abra espaço para diversos temas, para uma multiplicidade de interesses, e isso tem acontecido de fato.  Mas não vamos cair na onipotência de ignorar que existe um limite, que é dado pelas tradições, pelas correntes culturais, pela estrutura social, pela distribuição de poder – essas variáveis não são anuladas.  Se não corre-se o risco de achar que, uma vez tendo acesso a computadores e internet, as pessoas estão livres da opressão familiar, dos limites impostos pelo Estado, atravessam o planeta livremente o tempo todo.  É claro que a comunicação é muito melhor, muito mais rápida.  Hoje, desde 8 da manhã, troquei três ou quatro mensagens com um colega em Londres, outro em Los Angeles.  Somos acadêmicos, estamos discutindo um seminário – há por trás disso uma estrutura universitária, certos conhecimentos e premissas comuns.  Ou seja, existem grupos que podem se comunicar de maneira mais efetiva porque compartilham determinados pontos de vista, determinada socialização básica, e outros, não.  Continuarão existindo barreiras, impossibilidades de comunicação.</p>
<p>22: Isso pode levar ao fenômeno inverso, a formação de clubes fechados, por exemplo?<br />
GV: Em alguns casos, pode até aumentar as diferenças, produzindo novos tipos de elite, de vanguardas, de pessoas que são capazes de construir códigos novos, de reinventar e fechar para os outros.  Uma coisa até esotérica, o desenvolvimento de cultos esotéricos, em que só poderiam ter acesso àquele tipo de informação pessoas que preencham determinados requisitos.  Requisitos estéticos, políticos, culturais.  Taste culture, a cultura do gosto, é uma noção importante.  Existem milhares de culturas de gosto.  É interessante ver como as pessoas convivem com essas culturas, e o que combina com o quê.  No exemplo americano, alguém que gosta de Mozart e de heavy metal, ou alguém que gosta de pintura impressionista e baseball.  Ou, aqui, alguém que goste de samba e pagode e seja especialista em Graciliano Ramos.  É possível, são culturas do gosto.  A idéia de que as possibilidades são múltiplas é interessante, em termos de desfazer certas premissas sobre fronteiras cristalizadas.  E tem a coisa da transgressão, as pessoas lidam com culturas em que a transgressão está envolvida, onde você tem desde a pedofilia até coisas menos graves.</p>
<p>22: Segundo um psiquiatra paulistano, há 20 anos um pedófilo tratava-se, em geral, de alguém que se considerava um monstro ou que, pelo menos, achava aquele seu impulso algo ruim, que deveria ser tratado, reprimido.  Agora ele encontra um membro de uma comunidade internacional, que tem à disposição uma rede de afirmação daquela identidade.  Esse seria um exemplo radical dessa multiplicidade de estilos de vida?<br />
GV: Sem dúvida.  É claro que existe uma socialização através da construção de redes.  A noção de rede é fundamental.  As redes, em princípio, são dinâmicas, supõe-se que atravessam barreiras, espaços materiais e simbólicos bastante significativos, e aí vem também um pouco da idéia de democratização.  Mas eu insisto que ela deve ser relativizada, contextualizada.  Anos atrás, quando houve uma onda de encher as salas de aula pelo Brasil afora com computadores, sem que os professores tivessem um salário decente, com os colégios desmoronando, era um despropósito.  Essa idéia das novas tecnologias da informação e da comunicação como uma grande revolução progressista para humanidade, calma lá!  O potencial positivo é imenso, mas certamente tem um lado de exclusão, e estimativas exageradas dos seus efeitos, abandonando providências políticas que poderiam ter significado e efeito muito importantes, necessárias.  Um exemplo fundamental é o caso brasileiro, onde mais importante que tudo é preparar pessoas, termos melhores condições, salários, e dar condições de ensino aos alunos.  Senão é uma grande ilusão.  Uma vez criadas essas condições básicas, esplêndido, que venham os computadores.  Mas não é o computador que vai produzir a boa escola.</p>
<p>22: Ficou muito fácil produzir, distribuir e vender música.  No Pará, por exemplo, em qualquer esquina de Belém se encontra em um camelô Cds com 90, 100 músicas em MP3.<br />
GV: É impressionante.  E você mistura, pega o Frank Sinatra, junta com samba, e faz outra coisa.  É a reinvenção.  A Regina Casé tem mostrado um pouco isso, no Central da Periferia.  É um programa impressionante.  Uma aluna minha fez um trabalho sobre carreiras de músicos da Baixada Fluminense.  Existem escolas de música que têm lá suas correntes de tradição cultural, e eles têm acesso à internet, sintetizam, produzem.</p>
<p>22: Conseguem se manter economicamente, existe uma rede que independe da grande indústria cultural?<br />
GV: Digamos que eles se viram.  Tocam em determinados lugares, têm outro emprego, mas participam de uma atividade musical e cultural muito intensa, é de fato fascinante.  E isso leva a uma questão absolutamente interessante, que percorre essa conversa, que é a noção de autoria, quem é o autor.  Você entra em uma página em que todo mundo pode mexer, cada um entra, diz o que acha, mistura tudo.  E aí quem é o autor?  Esse movimento antiautoria também é uma coisa complicada.  A noção de autoria está ligada a uma determinada produção cultural, a valores ideológicos, à noção do indivíduo criador, até à noção do gênio, em certos casos.  Uma outra senhora que trabalhou comigo fez um estudo sobre Bezerra da Silva.  O Bezerra da Silva era um intérprete.  Os autores das músicas que ele interpretava eram anônimos.  Não que ele escondesse, mas quem eram aqueles autores?  Geralmente pessoas do morro, da favela, das comunidades.  Era ele o grande, o intérprete.  É outra coisa comparar a interpretação da Nona Sinfonia de Beethoven regida pelo Bernstein.  Mas é o Beethoven.  E a interpretação do maestro faz com que ele seja, de algum modo, co-autor.  Agora, no mundo da internet, em que há a possibilidade de combinar todos esses Cds e DVDs, realmente muda muito.</p>
<p>22: É possível imaginar aonde isso vai levar?<br />
GV: Não sei se é possível prever para onde vamos.  Acho que devemos ter mecanismos de defesa da autoria, de marcas originais, estabelecer certos limites.  Mas as possibilidades de controle são muito limitadas.  A parte dura dessa revolução do computador, da informática, é como se perdeu o controle dos limites que as pessoas imaginavam que tinham.  Todo mundo hoje em dia pode produzir fenômenos extraordinários, como a eleição, em 2004, do presidente espanhol José Luis Zapatero, depois da tentativa do seu antecessor, José Maria Aznar, de atribuir aos bascos o ataque terrorista que aconteceu em Madri.  O Zapatero venceu por causa de uma mobilização social pela internet, com as pessoas denunciando a manipulação eleitoreira do atentado.  Mas há outras dimensões, como a invasão de privacidade.  O garotão transa com a menina e depois coloca a transa na internet.  Pode ter a aceitação da jovem, mas às vezes não.  E como é que fica a lei neste processo?  Como estar na frente do seu computador fazendo alguma coisa e choverem mensagens sobre as quais você não tem controle – não é só o lixo, pode ser desde propaganda política até proposta indecente?  Quais são os limites da privacidade?  De novo a questão do indivíduo.  Por um lado parece esplêndido, faço minhas redes, vou pro Orkut, consulto o Google, e do outro lado tem isso.</p>
<p>22: Há pressão para que as pessoas mantenham os canais abertos, estejam sempre on-line, respondam o mais rápido possível.<br />
GV: Outra pergunta é o que as pessoas deixam de fazer quando estão on-line.  Não tenho a visão de que as pessoas vão ficar presas, não vão se interessar por outros assuntos.  Pode até ser que descubram, tenham acesso a esses outros assuntos.  É a questão da sociabilidade.  Tenho uma outra aluna que faz uma pesquisa sobre a lan house em Porto Alegre.  Os adolescentes passam o dia na lan house, a escola é perto e eles fogem para lá.  E o que estariam fazendo se não estivessem lá, em termos de julgamento de valor?  Será que estariam fazendo coisas melhores, mais interessantes para eles, para a comunidade, para a sociedade?  É um mundo altamente complexo, com &#8220;n&#8221; possibilidades, em que podem acontecer as mais diversas coisas, justamente porque as interpretações são muitas e as possibilidades de se desenvolverem taste cultures diferenciadas são grandes.  Mas com muitas direções.  Certamente não se pode dizer que seja uma coisa apenas progressista, civilizatória e democrática.</p>
<p>22: A Bossa Nova e o Tropicalismo faziam uma certa releitura, partindo do que vinha da cultura popular.  Atualmente, o hip-hop, o funk são produzidos na periferia e consumidos diretamente pela juventude de classe média.  Existe uma necessidade menor de intermediação?<br />
GV: No tempo da Bossa Nova havia figuras mediadoras mais claras.  Mas a mediação sempre existe.  No caso do funk, o (antropólogo e pesquisador musical) Hermano Vianna tornou-se amigo de um DJ famosíssimo.  Quando fez a dissertação de mestrado dele, 20 anos atrás, ninguém sabia o que era funk.  Veio falar comigo, pedi que me explicasse e ele me disse que todo fim de semana tinha 1 milhão de pessoas dentro do funk.  Um milhão me convenceu plenamente de que era um fenômeno importantíssimo.  Um dia, durante a pesquisa, o Hermano estava levando uma guitarra elétrica e eu disse que ele estava interferindo.  Mas eram eles que estavam pedindo.  Então é uma negociação com idas e vindas.  Você tem mediadores.  E tem uma maior intensidade, uma freqüên-cia maior.  Aqui no Rio é diferente de São Paulo, a ida ao morro não era uma coisa tão extraordinária assim.  Mas também mudou.  Tem baile funk, baile do morro em que se encontram brancos de classe média, e baile funk de branco na Zona Sul.  O funk entrou no circuito.  Continuam existindo o baile da Rocinha, o do Chapéu Mangueira, onde vão brancos de classe média, mas também tem o baile da classe média.  Assim como teve o forró, que fez sucesso em lugares de entretenimento da Zona Sul.  As fronteiras não desaparecem, elas são negociadas, mas se mantêm.  Existe uma troca cultural forte no Rio, desde muito tempo, encontros de Pixinguinha com Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.  Essa é uma relação antiga entre níveis de cultura, culturas populares, de elite, eruditas.  E se destacam em alguns momentos essas figuras-chave como mediadores.  O que estamos vivendo, mais do que nunca, é uma sociedade de massas, os fenômenos são todos em grande escala.  Não é como nos tempos da Bossa Nova.  Uma moça, em Copacabana, é apresentada em um show a um compositor, convida-o para ir à casa dela, os pais acham ótimo, e pessoas se juntam, ficam tocando&#8230; Zé Kéti, Nara, Danuza&#8230; Cresceu muito a sociedade, fisicamente.  É mais complexa sociologicamente, culturalmente e demograficamente.  Os bailes são enormes, multidões.  E que tipo de música é música de multidão?  É isso.</p>
<p>22: E o discurso sobre a violência que vem por meio do funk e do hip-hop?  No começo, em São Paulo, houve reação, as pessoas achavam aquilo apologia ao crime.  Depois viram que não era tão simples.<br />
GV: Aqui também houve.  No fenômeno dos arrastões na praia, havia acusações de que eram galeras &#8220;funkeiras&#8221;.  E existe o “proibidão”, que faria a apologia do crime.  Mas isso é um movimento, existem vários tipos de manifestação.  Outro raciocínio é pensar o que as pessoas estariam fazendo se não estivessem no baile funk.  É um movimento intenso de sociabilidade, de criatividade.  Não dá para dizer que não existem elementos e aspectos associados à violência, porque em muitos desses lugares são os bandidos que patrocinam.  Isso faz parte de um universo mais amplo, onde estão presentes os traficantes.  Vai desde atividades filantrópicas, que eventualmente eles fazem, até promover a organização de bailes funk.  É um lugar de sociabilidade, de intensa atividade erótico-sexual.  Não vou usar termos mais antigos, galanteios.  É lugar de &#8220;pegação&#8221; mesmo, pesada.  Há mais uma aluna que está fazendo um trabalho sobre meninas de classe média que subiram o morro, e namoraram por algum tempo jovens, afro-descendentes na maioria dos casos, alguns ligados ao tráfico.  Fascinadas pelo mundo do funk.  Mas isso não torna o funk uma explicação para violência.  O mundo das favelas, da periferia, é um mundo violento.  Não é resultado do funk.  Ele é uma manifestação musical, cultural, que fala de um cotidiano, de temas violentos.  22: É a manifestação de uma corrente de tradição cultural?  GV: No Brasil, o poder público não consegue controlar coisas elementares, não consegue entrar para coletar lixo.  Existe, inegavelmente, a violência, e está piorando cada vez mais.  A sociedade brasileira é violenta por natureza, existe uma cultura da violência disseminada, e que está se tornando uma dimensão de cultura da crueldade.  O exercício da crueldade pode ser uma exibição, uma afirmação, ligado a um grande ressentimento da situação social.  Mas isso não é justificável simplesmente pela ausência de recursos básicos para sobrevivência, porque, na maioria das vezes, são pessoas não tão pobres, que desenvolvem certas aspirações de consumo, que você vê envolvidas nessas histórias mais terríveis.  Vendo as fotos desses jovens envolvidos na morte do menino João Hélio, são jovens &#8220;sarados&#8221;, com tatuagens, têm família.  Há um trabalho que mostra que esses jovens freqüentam o shopping.  O objetivo deles, com esses papéis mais ou menos transgressores, é poder ir ao shopping comprar tênis, camisa.  E se vêem esses jovens, quando presos, vestidos desse jeito.  Não é a revolta dos famintos.  É uma sociedade complexa, que gera aspirações frustradas, em grande parte.  E é um mundo de consumo.  O funk, entre outras coisas, expressa isso.</p>
<p>22: Durante a campanha de reeleição do presidente Lula, em muitos momentos a mídia explicitou grande incompreensão quanto à popularidade dele.  Isso revela um fenômeno novo na relação mídia-sociedade, centro-periferia?<br />
GV: Acho que o governo Lula tomou medidas indiscutivelmente importantes.  Por mais crítica que se faça ao Lula, que seja ele paternalista etc., o fato é que melhorou, quebraram-se algumas barreiras.  Por outro lado, não se podem alimentar fantasias de que foi simplesmente um grande avanço democrático.  Foram feitas alianças com oligarquias.  Se, de um lado, atendeu camadas populares, mais pobres, como no Bolsa Família, por outro, deixou-se de lado uma certa ortodoxia de esquerda petista.  Lula foi politicamente pragmático e se aliou a oligarquias, a Sarneys e Barbalhos, por exemplo.  Esse é um jogo complicado.</p>
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		<title>Sem Blábláblá</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Apr 2007 13:54:51 +0000</pubDate>
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Criado para promover uma ponte entre a gestão empresarial e os temas ambientais, o Encontro Nacional sobre Gestão Empresarial e Meio Ambiente (Engema) prepara sua nona edição, a ser realizada entre 19 e 21 de novembro em Curitiba.  [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Amália Safatle</p>
<p>Criado para promover uma ponte entre a gestão empresarial e os temas ambientais, o Encontro Nacional sobre Gestão Empresarial e Meio Ambiente (Engema) prepara sua nona edição, a ser realizada entre 19 e 21 de novembro em Curitiba.  O prazo para a entrega de trabalhos que serão selecionados para o encontro encerra-se em 10 de abril.</p>
<p>Segundo José Carlos Barbieri, um de seus fundadores e atual coordenador científi co, o Engema é o único evento exclusivamente acadêmico strictu sensu de gestão ambiental no Brasil.  Os trabalhos passam por um crivo de cerca de 70 avaliadores, todos doutores.  “Não se trata de um evento feito com palestras, em que o expositor fala o que quer e faz propaganda das empresas.  É um encontro que promove visão crítica, acadêmica e bem fundamentada”, afi rma.</p>
<p>O Engema é realizado pelo Departamento de Administração da FEA/ USP e pelo Centro de Estudos de Administração e do Meio Ambiente da FGV/EAESP.  Maiores informações: http://engema.unicenp.edu.br/</p>
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		<title>Consciência à prova</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Apr 2007 13:53:35 +0000</pubDate>
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O número de consumidores conscientes em 2006 pouco mudou em relação a 2003, e o de “engajados” diminuiu, segundo a última pesquisa lançada pelo Instituto Akatu.  Mas, antes que se lamente a notícia, o diretorpresidente da entidade, Hélio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Amália Safatle</p>
<p>O número de consumidores conscientes em 2006 pouco mudou em relação a 2003, e o de “engajados” diminuiu, segundo a última pesquisa lançada pelo Instituto Akatu.  Mas, antes que se lamente a notícia, o diretorpresidente da entidade, Hélio Mattar, faz algumas considerações.</p>
<p>Em uma amostra de 1.275 entrevistados em 11 capitais , os conscientes passaram de 6% para 5%, e os “engajados” caíram de 37% para 28%.  Na classifi cação utilizada pelo Akatu, os conscientes adotam 11 de 13 comportamentos- chave, tais como apagar as luzes em ambientes vazios e comprar produtos orgânicos; e os engajados seguem de 8 a 10 comportamentos.</p>
<p>Mattar pondera que, apesar de a temática ambiental estar mais difundida, o consumo consciente ainda é um fenômeno recente e muito suscetível a fatores conjunturais, que mudaram sensivelmente de lá para cá.</p>
<p>Em 2003, a coleta de dados foi feita em meio ao apagão elétrico e campanhas restritivas ao consumo, o PIB foi negativo e as taxas de juro eram altas.  Depois, o racionamento foi esquecido, o PIB subiu e os juros caíram.“Os números da última pesquisa mostram que ser consciente hoje é ser consciente de fato, pois as circunstâncias jogam contra”, afirma.</p>
<p>Interessados em conhecer seu “grau de consciência” podem acessar www.akatu.net &gt;centro de referência&gt;indicadores</p>
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		<title>O quintal da humanidade</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Apr 2007 13:51:55 +0000</pubDate>
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Quando Emília se pôs a escrever a autobiografi a, disse que não escreveria, mas “mentiria” suas memórias.  Pois quem escreve sobre si mesmo tem um pé de enganação, escreveu Monteiro Lobato, em Memórias da Emília.  O próprio Lobato, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Amália Safatle</p>
<p>Quando Emília se pôs a escrever a autobiografi a, disse que não escreveria, mas “mentiria” suas memórias.  Pois quem escreve sobre si mesmo tem um pé de enganação, escreveu Monteiro Lobato, em Memórias da Emília.  O próprio Lobato, que agora completaria 125 anos, escaparia dessa armadilha.  Sua biógrafa, a jornalista e historiadora Marcia Camargos, prepara mais um lançamento sobre a vida do escritor, desta vez com base em depoimentos e “causos” contados pela neta Joyce, que o chamava carinhosamente de Juca.</p>
<p>Em Juca e Joyce, obra a ser lançada em 19 de abril, em São Paulo, pela Editora Moderna, a neta mostra o avô em sua intimidade: guardava pedaços de rapadura no bolso do paletó, lia um dicionário de A a Z e mantinha o pijama por debaixo do terno nos dias frios.  Condiz com o que Lobato afi rmava: “As memórias são a alcova, as anáguas, as chinelas, o penico, o quarto dos criados, a sala de jantar, a privada, o quintal da humanidade, a grande humanidade com h minúsculo”.</p>
<p>Trata-se da mesma humanidade que Lobato um dia sonhou transformar pelas mãos das gerações futuras, como a da “fi lha” Emília e da neta Joyce, acreditando que romper com velhos paradigmas só seria possível pela atitude corajosa e transgressora das crianças.</p>
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		<title>Agora é a vez do HCFC</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Apr 2007 13:50:49 +0000</pubDate>
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Apesar do sucesso do Protocolo de Montreal, os esforços para conter o buraco na camada de ozônio e o aquecimento global podem ser postos a perder — graças ao aumento da renda e um boom na demanda por [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Flavia Pardini</p>
<p>Apesar do sucesso do Protocolo de Montreal, os esforços para conter o buraco na camada de ozônio e o aquecimento global podem ser postos a perder — graças ao aumento da renda e um boom na demanda por ar condicionado em países em desenvolvimento.  Ali, os aparelhos usam substâncias refrigerantes banidas na Europa e que o serão em breve nos EUA.</p>
<p>A principal é o HCFC-22 (hidroclorofl uorcarbono), cujo uso em países desenvolvidos deve ser descontinuado, segundo o protocolo, até 2020.  Mas as nações em desenvolvimento podem usar até 2040.  Embora menos danoso à camada de ozônio do que os CFCs, o HCFC-22 é um potente gás de efeito estufa.  É preferido a outras substâncias que evitam dano à camada de ozônio por ser mais barato e fácil de usar.</p>
<p>Espaço para que o uso do HCFC-22 cresça não falta.  Na Índia, por exemplo, estima-se que somente 2% das residências disponham de ar condicionado, e um imposto sobre esses aparelhos foi recentemente reduzido à metade.</p>
<p>A China é a maior fabricante de aparelhos de ar condicionado do mundo e tem pouco incentivo para substituir o HCFC-22.  Pelo Protocolo de Kyoto, os países em desenvolvimento podem receber créditos de carbono ao reduzir as emissões decorrentes da produção de aparelhos que utilizam o HCFC-22. Mas não por substituírem essa substância por outras menos danosas.</p>
<p>No Brasil, o HCFC-22 também é utilizado.  O País, junto com a Argentina, apresentou proposta para antecipar sua erradição nas nações em desenvolvimento para 2030.  O tema será debatido na 19ª Conferência das Partes do Protocolo de Montreal, prevista para setembro.</p>
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		<title>Uma mãozinha do CFC</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Apr 2007 13:48:37 +0000</pubDate>
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Vinte anos depois de sua assinatura — e 18 após entrar em vigor — o Protocolo de Montreal tem o que comemorar.  Além de contribuir para a queda das emissões mundiais de clorofl uorcarbono (CFC), ajudou a conter
o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Flavia Pardini</p>
<p>Vinte anos depois de sua assinatura — e 18 após entrar em vigor — o Protocolo de Montreal tem o que comemorar.  Além de contribuir para a queda das emissões mundiais de clorofl uorcarbono (CFC), ajudou a conter<br />
o aquecimento global.  Bem mais do que seu “primo rico”, o Protocolo de Kyoto.</p>
<p>A redução das emissões de CFCs desde 1987 removeu da atmosfera o equivalente a 11 bilhões de toneladas métricas (1.000 quilos) de CO2, ou 0,55 bilhão de tonelada por ano, revela um estudo coordenado por Guus Velders, da Agência de Avaliação Ambiental da Holanda.</p>
<p>Para que tivesse o mesmo efeito, o Protocolo de Kyoto precisaria de metas de redução das emissões de gases de efeito estufa cinco vezes mais restritivas.  Com as metas atuais, mesmo com a participação de grandes emissores como os EUA, Kyoto removeria 0,25 bilhão de tonelada métrica de CO2 por ano da atmosfera, se fosse cumprido à risca.  Os CFCs podem armazenar de 5 mil a 14 mil vezes mais calor do que o CO2.</p>
<p>Antes do estudo dos holandeses, sabia-se que os CFCs atuam como gases de efeito estufa, mas não havia estimativas de quanto contribuiriam para o aquecimento global.  O estudo mostra também que “as coisas são possíveis em um tratado global”, disse Velders à imprensa.</p>
<p>O Protocolo de Montreal estabelece um cronograma para que os CFCs deixem de ser produzidos e utilizados.  Seu uso mais comum, e amplamente difundido até os anos 90, é como refrigerante em aparelhos de ar condicionado e sprays.  Os únicos países que não ratifi caram o protocolo são Andorra, Iraque, San Marino, Timor-Leste e o Vaticano.</p>
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		<title>Quem assina?</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Apr 2007 13:46:55 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Por Flavia Pardini</p>
<p>Na investigação sobre as águas subterrâneas da região metropolitana, o pesquisador Ricardo Hirata tentou responder uma pergunta que ronda a comunidade científica: quanto de água a Bacia do Alto Tietê pode dar?  No caso das águas subterrâneas, com a perfuração estimada de cerca de 500 poços por ano — e um total aproximado de 10 mil poços em operação atualmente —, a questão é: até quando haverá água suficiente no subsolo?</p>
<p>A pesquisa revelou que o nível da água se mantém, apesar da exploração via poços, dos quais se estima que 70% não tenham recebido outorga do Departamento de Águas e Energia Elétrica.  “O maior recarregador do aqüífero é a Sabesp”, diz Hirata.</p>
<p>O estudo mostrou que a assinatura isotópica (medida de acordo com a massa atômica das moléculas de oxigênio) da água da rede da Sabesp é diferente da água de recarga natural.  Em poços localizados no centro expandido de São Paulo, cerca de 60% da água tem a assinatura da rede da Sabesp.  Segundo Hirata, referem-se às perdas que a empresa sofre nos processos de distribuição de água tratada e de coleta de esgoto.</p>
<p>Apesar dessa recarga “artificial”, a perspectiva para a bacia não é boa.  “Há áreas com intenso bombeamento”, afirma Hirata.  “E outras que ainda podem ser exploradas.” Segundo ele, para evitar o desperdício decorrente da exploração desordenada, é fundamental a participação dos usuários.  “Se cada um pedir o registro de seu poço, fica mais fácil de gerir, de saber quanto a bacia pode dar para cada um.</p>
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