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Informação para o novo século

Edição 42

08.06.2010

Não aguento mais rúcula

0 por Daniela Gomes Pinto* # em 42

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A globalização trouxe à mesa a falsa sensação de diversidade. Mas nosso cardápio caminha para o tédio

colunaUma das coisas que credito à globalização – e sou grata a ela – é a combinação rúcula-tomate seco-muzzarela de búfala. O trio é banal hoje em dia. Você encontra os ingredientes em qualquer mercado e no cardápio de todo restaurante.  Mas quem tem mais de 30 anos deve lembrar: quando éramos crianças, esses ingredientes não existiam nos supermercados.  Tínhamos nossas alfaces, mas nada equiparado à rúcula.  Tínhamos nossos tomates, mas nada igual ao tomate seco.  O mundo globalizado colocou em nossa mesa a mesma comida dos pequenos vilarejos italianos.  Mas não necessariamente diversificou nosso cardápio.

A ideia de que só a agricultura industrial poderia dar conta de alimentar o planeta todo é um dos grandes mitos da globalização.  Seus defensores idolatram o avanço tecnológico da produção alimentícia em grande escala, que soube superar as limitações relacionadas às estações do ano, às localidades geográficas, aos riscos de pragas.  O resultado?  Você pode comprar sua rúcula em qualquer lugar, em qualquer época do ano.  O problema?  Ai de você se bater uma saudade das alfaces de antigamente.  Daqui a pouco, elas não existirão mais.

A variedade conhecida no Brasil como “alface americana”, famosa pela sua absoluta falta de sabor na minha humilde opinião, foi responsável na última década por mais de 70% de toda a produção de alface nos Estados Unidos.  No percurso, os americanos extinguiram uma centena de outras variedades, de amargas a doces, de roxaescuras a verde-claras.  O mesmo acontece com as maçãs.  Graças aos processos industriais, temos hoje acesso às maçãs vermelhas americanas o ano todo.  Mas o preço foi alto.  Não se encontram mais os milhares de variedades que existiam até o século passado.  Apenas duas variedades são responsáveis por mais de 50% do mercado americano.

Quem levanta esses dados é Andrew Kimbrell, organizador do livro Fatal Harvest, que acusa a monocultura da agricultura industrial de ter reduzido a diversidade natural de praticamente toda produção agrícola em termos de tamanho, cor e sabor.  De novo, resgatemos a memória dos trintões.  Nós chegamos a conhecer o sabor verdadeiro dos morangos, pequenos e feios nas prateleiras.  Hoje, o morango é igual em todo o lugar: tamanho acintoso, brilho ofuscante, sabor medíocre.

A limitação trazida pela agricultura industrial globalizada não é apenas ruim para nosso cardápio.  Ela reduz as escolhas das futuras gerações. Recentemente o jornal The New York Times relatou a expedição do cientista Andrey Sabitov à uma remota ilha na Rússia. Um lugar inóspito e frio.

Depois de três dias de caminhada, ele atingiu o vulcão Atsonupuri, para encontrar o que foi buscar: o morango silvestre Fragaria iturupensis, uma variedade não domesticada, parte de um esforço internacional de proteção de sementes ligado às preocupações com as mudanças climáticas.  O aquecimento global, as secas e o aumento da salinidade das águas devem extinguir muitas variedades agrícolas.

Uma operação importante, portanto, é salvar sementes de variedades com maior potencial de sobreviver às alterações climáticas. E adivinhe. Frequentemente, as variedades selvagens mostram muito mais adaptabilidade do que as domesticadas.

Colorido sem graça
O problema é que, no passo que estamos, as variedades simplesmente não existirão para contar a sua história. A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) estima que no último século perdemos 75% de toda a diversidade genética agrícola mundial. Segundo pesquisa da Rural Advancement Foundation International, em apenas 80 anos – entre 1903 e 1983 - os inventários de estoques de sementes diminuíram vertiginosamente. Perdemos 96% das variedades de milho, 95% das variedades de tomates e 98% da variedades de aspargos.

Por isso, a paisagem do supermercado é traiçoeira. Aquele colorido todo não representa, na prática, tanta diversidade. A indústria alimentícia aperfeiçoou-se em variações sobre os mesmos temas: milho, soja, trigo e arroz.  Dois terços de todas as calorias ingeridas pelo homem vêm deles. É uma simplificação radical das potencialidades da alimentação. Mas a matemática serve ao mundo moderno. Temos hoje variedade apenas dos alimentos que atingiram em escala mundial eficiência na plantação, colheita, distribuição e embalagem. E é possível contar nas mãos as empresas detentoras das marcas.

O ciclo é vicioso. Grandes empresas atingem um nível de distribuição em escala mundial que atende as grandes redes de supermercado, que, por sua vez, facilitam o trabalho das compras dos restaurantes.  Alimentos mais regionais, peculiares e menos eficientes, não chegam às prateleiras. Comprar de pequenos agricultores dá trabalho, custa mais caro e impõe riscos. Mas o consumidor agradece.  Acredite. Pode chegar o dia em que você, assim como eu, não vai mais aguentar rúcula.

* Pesquisadora do Gvces e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela London Schoolof Economics and Political Science

  • por Desde a origem « Página 22 # em 11.06.2010 às 1:33 pm | Responder

    [...] a poucas plantas, e pouquíssimas variedades de cada planta”, constata (mais em “Não aguento mais rúcula“, desta [...]

  • por Tweets that mention Coluna – Não aguento mais rúcula « Página 22 -- Topsy.com # em 14.06.2010 às 3:57 pm | Responder

    [...] This post was mentioned on Twitter by Fabricio Angelo, Revista Página 22. Revista Página 22 said: Biodiversidade da comida: variedade é só ilusão e o nosso cardápio caminha para o tédio http://bit.ly/bbFKj8 [...]

  • por Não aguento mais rúcula – Falsa sensação de diversidade. « Sementes de Paz # em 16.06.2010 às 10:21 am | Responder

    [...] [...]

  • por Maximus Gambiarra # em 21.06.2010 às 3:05 pm | Responder

    Acho que o diabo é menos feio do que se pinta: Basta guardar algumas sementes em uma coleção para conservarem-se os genes, e isso é feito regularmente pelas empresas públicas e privadas de melhoramento genético: são os bancos de germoplasma. Os bancos de germoplasma não são reações à agricultura tecnificada, são parte dela. E as “alfaces de antigamente” não são mais cultivadas simplesmente porque não há gente suficiente que queira pagar ao produtor para que as produzam. Os consumidores reclamam do pé de alface pequeno, caro e feio frente à rúcula mais bonitinha.

  • por Campos de Morango para sempre « Página 22 # em 01.07.2010 às 5:47 pm | Responder

    [...] 22 vem publicando informações surpreendentes sobre a derrocada da biodiversidade da comida. Em Não agüento mais rúcula, a colunista Daniela Gomes Pinto explica por que o nosso cardápio caminha para o tédio. Em [...]

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