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Informação para o novo século

Edição 03

01.11.2006

A guerra das fraldas

0 por Regina Scharf # em 03, Revista

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Você passa a sua vida limitando o consumo de água e dando preferência a produtos orgânicos ou certificados.  Até que tem o seu primeiro filho, e é batata: nem todo o engajamento do mundo faz com que você encare fraldas de pano.

A comodidade das descartáveis—associada à pesada propaganda da indústria—explica por que elas dominam pelo menos 90% do mercado nos EUA, onde são comercializados cerca de 20 bilhões de unidades por ano.  O resultado: elas geram 3,5 milhões de toneladas de lixo anuais.  As fraldas representam o terceiro resíduo sólido mais importante nos Estados Unidos, após jornais e embalagens de bebidas, mas estes últimos são freqüentemente recolhidos em separado e enviados para reciclagem.

Por enquanto, a única empresa que diz reciclar fraldas na América do Norte é a canadense Smallplanet, que primeiro higieniza o material descartado—coletado em domicílio—e depois separa a celulose da porção plástica.  A primeira pode ser convertida em papel de parede, solas de calçados e filtros para óleo.  O plástico pode ser enviado para a produção de madeira sintética e painéis decorativos.  O serviço custa cerca de US$ 13 a cada quinzena.

As pilhas de fraldas descartadas em aterros sanitários e lixões parecem não ter incomodado os coordenadores de uma pesquisa sobre o ciclo de vida do produto, divulgada no ano passado pela agência ambiental britânica.  O estudo criou polêmica ao concluir que o impacto das descartáveis não era muito diferente do das fraldas de pano porque, em geral, estas seriam lavadas a temperaturas bastante altas em máquinas que não utilizam plena carga.  Evidentemente, as fabricantes de descartáveis vibraram com o resultado do estudo.

A pesquisa despertou ira entre inúmeros grupos ambientalistas, que, entre outras críticas, argumentaram que as máquinas de lavar mais modernas gastam muito menos do que o padrão considerado na pesquisa e que muita gente não passa fraldas a ferro, o que mudaria bastante essa contabilidade.  Por essas contas, o impacto das fraldas de pano sobre o clima seria 24% menor que o indicado pela agência britânica.

Para quem não engole a conclusão dessa pesquisa e consegue resistir às descartáveis, sobra, é claro, a opção das fraldas de pano.  Nos Estados Unidos, é possível adquirir um sem-número de fraldas orgânicas, produzidas com algodão não branqueado ou Cannabis, ou ainda as G-diapers—versão biodegradável do absorvente feminino, que é encaixada numa calça especial.  Depois de usada, ela é disposta em composteiras de adubo ou jogada no vaso sanitário, para que siga para o esgoto.  Segundo os seus fabricantes “as G-diapers não envolvem cloro elemental, perfume, cheiro, lixo ou culpa”.  Só que são mais caras do que as já caras descartáveis.  Também é possível contar com serviços especializados na lavagem de fraldas.  A mãe deixa uma caixa com as fraldas de pano sujas do lado de fora de casa e a empresa a troca por outra com fraldas limpas.

Mas um grupo de pais americanos acredita que, melhor mesmo, é aboli-las de todo.  Eles tentam libertar seus filhos das fraldas, sejam elas de que natureza forem, já nas primeiras semanas de vida.  O tema foi até reportagem do New York Times, no fi m de 2005.

A maior promotora desse conceito, a canadense Ingrid Bauer, argumenta que milhões de crianças em países pobres jamais utilizaram esse tipo de proteção, e nem por isso sujam os saris ou batas de suas mães.  A prática também traria o fim das assaduras, reforçaria a intimidade entre pais e filhos e representaria uma economia significativa, já que cada criança consome algo entre 5 mil e 8 mil fraldas nos seus dois ou três primeiros anos.

Em tese, o conceito é simples.  A mãe deve prestar atenção em indícios de que o bebê está em vias de se aliviar, como uma agitação súbita ou uma careta.  Ela deve então suspendê-lo sobre o vaso sanitário ou um penico e dar um assobio ou emitir algum outro código, que a criança entenderá como um sinal verde para fazer suas necessidades ali.

Evidentemente, esse sistema tão pavloviano, batizado de Higiene Infantil Natural, depende de uma mãe permanentemente presente e atenta, já que a seqüência se repete ao menos dez vezes ao longo do dia.  Resta saber se sobrará tempo para que a mãe vigie o consumo de água da família e revire o mercado atrás de madeira certificada.  Ou faça qualquer outra coisa.

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